AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA (33ª POSTAGEM) [Rubens Jardim]

AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA (33ª POSTAGEM)

IEDA ESTERGILDA DE ABREU (1943) poeta cearense, advogada, jornalista e compositora. Residiu em Brasília nos anos 60 e vive em São Paulo desde 1974. Já publicou quatro livros de poemas, entre eles Grãos –poemas de lembrar a infância (1985) e A véspera do grito (2001). 

NADICES 
Brinco com a razão
não tenho idade nem sexo
o real é invenção
já foi e continua sendo
nada.
Não perco o senso

sou o que penso.


BIOGRAFIA 

Um trem passava perto do lugar onde nasci
o primeiro choro confundiu-se
com o apito da máquina chegando na estação.
Cresci na beira do mar
tive estrelas nas mãos, e as do céu
deixei que brilhassem sobre minha cabeça.
Meu pai era marinheiro, trazia doces do cais, lenços
para minha mãe e notícias da guerra
ouvidas da boca dos homens louros.
A guerra acabara e estávamos todos salvos
do lado de cá.
Hiroshima e Nagasaki agonizavam longe.
Vi a seca no sertão
o vento quente entra nos alpendres das fazendas
impede o sono, levanta poeira nas estradas
povoadas de fantasmas da fome e da sede.
A seca entrou em mim pela sola dos pés.
Vivi em casas de dormir
cidades de aprender
de estação em estação, prossigo
na rota do planeta ser. 

P DE PALAVRA E PEDRA 

Palavras às vezes pesam como pedras
ferem a boca como pedra que se mastiga.
Agudas, acertam rápidas como pedras
dirigidas
esfriam como pedras frias na boca
ressentida
pensam e pedram como pedras no caminho. 

Ideário (2) 

Me espanto, me perco, me acho, me refaço
em qualquer lugar
me largo, me deixo, me entrego, me
desvelo aqui ou lá
me bato, me estrago, me reparto e
despedaço
me sento, me enxergo e considero:
o que que há?
Me enraízo, me escravizo, me divido e
multiplico
em qualquer ar
me esqueço, me comovo, me morro e sou de
novo
em qualquer lugar.

ILMA FONTES (1947) poeta  e escritora sergipana, psiquiatra e legista, trocou a medicina pelo jornalismo, cinema e ativismo cultural. Não publicou nenhum livro de poesia, mas participa de um sem número de antologias como New Poetry of the World (China), Dimensão(revista íbero-americana de poesia), Nova Poesia Brasileira(1992), Catálogo da Produção Poética dos Anos 90(1995) 

Emoções Baratas 

Sabe meu bem, eu não tenho nada contra quem.
a questão é não negar. não medir. nunca.
hoje ou depois de ontem, o dia é o seguinte.
seqüências. conseqüências. hipotenusas ilusões.
você tanto pode dizer sim como não.
sim, mas não me peça que eu saiba.
sorvo o meu desespero a qualquer semelhança.
e não me diga que você também não dança.
convenhamos: conivências, conveniências.
são as essências de tais insatisfações.

Insight. ensaio uma forma de falar de amor.
a velha palavra gasta: amor.
eu te homo. e me dá um branco total.
não sei. leia na bula. se borbulhar engula.
uma loucura, sim, ainda há cura.
na procura, no fundo das profundezas.
“é na subida que se sente o ronco do motor”.
mas não pense que é vantagem chegar aonde estou.
estou por qualquer. pense e tenha.
se esfregue nessa lâmpada de Aladim.
caia em si. caia em mim.
mas por favor, não caia na minha.
se não enxergar essa espinha
que me atravessa o peito
como um defeito que não tem jeito.

o dever de rever sem revanche
avalanche de dizer: me jante
como a terra, sedenta de sangue,
me sugue, me sangre, me estanque
wellcome aos caminhos infinitos dos meus mangues. 

Confidência da Aracajuana 

Há anos morri em Aracaju,
principalmente no dia em que nasci.
Por isso sou gay, orgástica: de nuvem.
Dois por cento de cajuína na alma
dois por cento de fel nas calçadas
e esse alegramento do que na vida é
pluralidade e solidão.

A vontade de amar, que me impulsiona
o trabalho, vem de Aracaju, de suas noites
azuis onde sobram mulheres e horizontes.
O hábito de mexericar, que tanto dilacera,
é amarga herança aracajuína.

De Aracaju levei poucas prendas
que posso oferecer: um búzio sujo
de petróleo, que trago no peito
um pensar desembestado como um defeito
essa falta de jeito, nenhum sofá
nem sala de estar, nada em volta.

Tive mesas, tive cadeiras, tive divãs!
Hoje, não sou funcionária pública. Nem
médica psiquiatra. Jornalista por ofício
com vício de cineasta, viro
o videócio na videocidade. Saudade.

Aracaju é apenas um cu
- mas como dói! 

Ir Reverência 

Senhor do indigesto
do estarrecido
do insuportável

Senhor dos desgarrados
dos destemidos
dos desgraçados

Senhor do diferente
do errado
do incerto

Senhor dos desertos
Sois o mesmo da coisa certa
Que me acerta o peito
Quando me perco?

Senhor do esterco! 

Declaração dos Direitos Universais da Mulher 

Toda mulher tem o direito de pensar por si mesma
sem precisar concordar com tudo que já foi dito.
Toda mulher tem o direito de menstruar em paz
sem precisar dar explicações a ninguém.
Toda mulher tem o direito de ser alguém, com idéias próprias
e ser dona do seu destino e do seu silêncio.
Toda mulher tem o direito de dizer bobagens e cometer erros
sucessivos até acertar, na poesia ou na vida.
Toda mulher tem o direito a comer o pão que o diabo amassou
desde que seja por amor.
Toda mulher tem o direito de ser querida, ao menos uma vez na vida
e de ouvir “eu te amo”, mesmo que seja mentira.
Toda mulher tem o direito de tentar e realizar, querer e fazer,
casar e descasar, experimentar e ousar.
Toda mulher tem o direito de decidir se tem ou não um filho
Principalmente antes de fazê-lo.
Toda mulher tem o direito pleno e absoluto do seu corpo
podendo inclusive envelhecer com ou sem cirurgia plástica.
Toda mulher tem o direito aos seus cabelos brancos, mesmo que os pinte.
Toda mulher tem direito a ter medo de cobra, aranha, barata, rato e fotógrafos.
Toda mulher tem direito ao recato de não precisar expor seus segredos.
Toda mulher tem direito a ter segredos.
Toda mulher tem o direito de dizer Não, seja ao marido, à amiga ou ao patrão.
Toda mulher tem direito a ter um caso de amor, seja lá com quem for.
Toda mulher tem direito a gostar de seda e cetim,
de vinho, whisky, vodka ou gim.
Toda mulher tem direito a uns quilinhos a mais nos quadris.
Toda mulher tem direito a “fechar” o trânsito,
desde que seja funcionária do Detran.
Toda mulher tem direito a gastar mais do que pode, uma vez por ano.
Toda mulher tem direito a férias de si mesma, para o seu próprio bem
e dos outros também.
Toda mulher tem direito a uma cama macia, em boa companhia,
seja de noite ou de dia.
Toda mulher tem o direito de sonhar.
Toda mulher tem o direito de ser única.
Revogam-se as disposições em contrário.

TEREZA TENÓRIO (1949) poeta pernambucana, advogada, artista plástica e integrante da chamada geração de 65. Publicou oito livros de poesia, entre os quais Poemaceso, prêmios de 1985 da APCA e da UBE-RJ. Teve poemas traduzidos e publicados no México, Itália, Coréia.Participou de antologias poéticas na França, Itália e Portugal. 

7. ULISSES 

O meu amor inundará o tempo
e sobreviverá a Tróia, aos deuses
ao meu nome e ao teu nome.

O meu amor acenderá a ilha
e ocupará o trono vazio.
Será como um farol sobre o promontório
guiando as últimas naus ao porto de Ítaca
na esperança de te envolver para sempre na luz.

O meu amor será mais forte que o braço de Heitor
e o ódio de Poseidon
Seus raios cegarão eternamente o olho de Polifemo
e acenderão no teu sono a imagem de Ítaca:
- acompanharás embora longe do nosso país
o crescer silencioso de Telêmaco
e contarás o número de vezes que perscruto o horizonte
longa e ansiosamente.

O meu amor construirá uma muralha de ferro em torno
de teu peito
tornando-te insensível ao encantamento das outras mulheres
até mesmo das filhas dos deuses.

O meu amor nos unirá num círculo intemporal
além do ritmo das armas e do engodo de um cavalo
além dos mares estrangeiros e dos rios de Ítaca
além da morte dos nossos irmãos e da violência dos meus
pretendentes
além do infinito de uma teia e do teu desejo de voltar

O meu amor arderá com a perenidade de Apolo
tão certo como eu me chamo Penélope. 

SOMBRA 

Uma criança existe em mim. Sou ela
e nossos corações têm o mesmo ritmo.
Uma mulher de rosto solitário
aperta-a nos seus braços que são meus .

Sou riso e o mesmo riso de criança
mas a estranha mulher me amarga a alma.
Entre as duas meu corpo se transforma.
Eu nunca sei quem usa a minha voz

Essa mulher caminha pelos mortos
com o mesmo alumbramento da criança.
Nossas imagens fundem-se no espelho.

Uma certeza lúdica me oprime:
eu serei para sempre dividida
entre os seres da sombra. Eles me velam.

Eu sou alguém que busca um novo rosto. 

MEDIDA 

a medida do amor é ser deserto
e retomar a ausência inicial
de parte da memória devorada
do inconsciente profundo axial

porque o real do amor é fragmentar-se
no decorrer do ciclo indefinido
em espirais do tempo diluído
à lembrança inconsútil desvelar-se 

INVENTÁRIO DE TUDO 

Teu Amor me deixou nua
seu brilho de água clara
Vestida da luz da lua
penetrei na tua casa

Passeei pela mobília
repleta de peças caras
Mergulhei nos candelabros
envoltos em ouro e prata

Nas alamedas de vidro
repousei nas almofadas
dispostas sobre o assoalho
de brancas lajes tão raras

Através dos corredores
descerrei portas e salas
Nos jardins achei intactos
pedaços de nossas almas

Teu Amor me deixou muda
seu gosto de pura lágrima
Perdida na luz da lua
desapareci na praia.

RECA POLETTI (    ) poeta paranaense e publicitária, trabalha em projetos de pesquisa de mercado.Publicou o livro de poemas Numas( 1981 ),e participou de algumas antologias como Mulheres da Vida(1978) e Antologia da Nova Poesia Brasileira(1992). Vive em São Paulo. 

AVISO 

Nem sempre é bom
respeitar as placas
de aviso
há momentos
na vida da gente
em que é preciso
pular as grades

e enfrentar os cães. 

PROFECIA DE MÃE 

O mundo
estaria frito
se todos fizessem uso
do fogo que têm na bunda. 

CONFISSÃO 

Seu padre
sei que ainda
no mundo
muitas dádivas restam
mas tenho
uma tendência
medonha
pra gostar mais
das coisas que não prestam 

EU NÃO QUERO MAMAR 

Sou ave
de  rapina
Sou mulher
e sou menina
Sou a puta
da esquina
Sou vício
de maconha e cocaína
Já fui um medo
que quase me assassina
Mas não sou
o que você acha
nem o que me ensina.

Rubens Jardim, 67 anos, jornalista e poeta. Foi redator chefe Gazeta da Lapa e trabalhou no Diário Popular, Editora Abril e Gazeta Mercantil. Participou de várias antologias e é autor de três livros de poemas: ULTIMATUM (1966), ESPELHO RISCADO (1978)e CANTARES DA PAIXÃO (2008). Promoveu e organizou o ANO JORGE DE LIMA em 1973, em comemoração aos 80 anos do nascimento do poeta, evento que contou com o apoio de Carlos Drummond de Andrade, Menotti del Picchia, Cassiano Ricardo, Raduan Nassar e outras figuras importantes da literatura do Brasil. Organizou e publicou JORGE, 8O ANOS - uma espécie de iniciação à parte menos conhecida e divulgada da obra do poeta alagoano. Integrou o movimento CATEQUESE POÉTICA, iniciado por Lindolf Bell em 1964, cujo lema era: o lugar do poeta é onde possa inquietar. O lugar do poema são todos os lugares... Participou da I Bienal Internacional de Poesia de Brasília (2008) com poemas visuais no Museu Nacional e na Biblioteca Nacional. Fez também leituras no café Balaio, Rayuela Bistrô e Barca Brasília. E participou da Mini Feira do Livro, com o lançamento de Carta ao Homem do Sertão, livro-homenagem ao centenário de Guimarães Rosa. Teve poemas publicados na plaquete Fora da Estante, (2012), coleção Poesia Viva, do Centro Cultural São Paulo. Páginas na Internet: Site: Rubens Jardim e Facebook: Rubens Jardim

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