Luzes acesas [Maria J Fortuna]

Luzes acesas 


São tantos acontecimentos tristes nos últimos tempos... O que constitui na verdade a cultura de um povo? Por que as pessoas estão por demais submissas a credos e dogmas? Por que a falta de questionamento interno e obediência tão cega ao que vem de fora? E a capacidade de ouvir a voz interior, o coração, onde está? Será fruto do medo o que estamos presenciando em relação aos atentados que acontecem com tanta frequência pelos Estados Unidos e Europa?

Aos horrores do Oriente Médio? Medo de perder a identidade cultural, respondendo com ódio de morte ao que é considerado blasfêmia? Por que tanta provocação? Interesse da indústria de armamento?

Lembro-me que em minha formação católica de berço, algum tipo de dúvida e  descrença era considerada sacrílega. Isso incluía questionar a respeito dos valores religiosos ou dogmas da Igreja, o que nos levava à punição de ficarmos excluídos de receber a Comunhão, isto é, Jesus em corpo e alma na Hóstia Consagrada! Tínhamos pesadelos horríveis se comungássemos sem antes termos passado pelo confessionário.  Pagaríamos o “pecado” indo direto para as labaredas do inferno. As freiras contavam histórias horrorosas dos que cometeram tal sacrilégio! Espírito das pessoas que voltavam e deixavam marcas de mãos queimadas nas paredes da Igreja, frade que submergia da terra ao ser enterrado, para que lhe tirassem da boca a hóstia que não havia merecido comungar. Espíritos  que não permitiam que a Missa fosse rezada por eles porque “já estavam perdidos...” Um horror! Ao mesmo tempo, quando crianças, tínhamos medo dos judeus que mataram Cristo e olhávamos com reprovação, os evangélicos que celebravam seu culto em frente a minha casa e  ainda dos espíritas que recebiam a alma dos mortos. Tudo isso nos foi ensinado. 

Quando saí de casa aos 22 anos, sacudi um pouco a poeira da religião que me fora imposta, mas o medo do inferno continuava... Então, passei uma grande fase da minha vida ouvindo as pessoas, aproximando-me das outras crenças, entrando em outros templos e me tornei irmã de alguns budistas, evangélicos, messiânicos, judeus, espíritas, etc...  Dentre todas, a mais perturbadora presença para mim era a do ateu.  Era algo desconcertante não crer em Deus!

Mas me refiro ao ateu legítimo! Não o que considera “a religião o ópio do povo”, por modismo, nem do que faz do ateísmo outra religião, depreciando a fé dos outros, mas aquele pacífico, tranquilo, como foi Betinho em sua jornada contra a fome, como Dráuzio Varella, médico muito lúcido que publicou um livro surpreendente sobre os prisioneiros aos quais dava assistência. Causavam-me estranheza.  Hoje em dia os compreendo e aceito com tranquilidade.

Por causa dessas convivências, os preconceitos começaram a caducar dentro de mim  porque tornei-me autocrítica e  capaz de perceber esse mundo muito louco com os olhos da compaixão.  Não digo a grande Compaixão de Cristo, Buda, Maomé e outros iluminados, mas aquela que procura compreender o outro em seu código. Contanto que a linguagem seja amorosa.   Este foi o grande ganho que obtive ao sair do meu lar católico, onde exceto a presença da minha mãe, sempre doce, havia sérios conflitos  entre pai e filhos. Motivo pelo qual migrei para outro Estado. 

Mas a mudança que se operou dentro de mim foi bem maior que tudo isso. Passei a sentir e valorizar o que têm em comum as diversas religiões,  como a sentir que só no núcleo do meu ser, no centro da grande mandala, ocupada por todas elas,  posso encontrar-me plenamente com Ele, o Cristo.  De tal forma internalizado que  só nesse colóquio único e verdadeiro,  chego à  caverna do coração onde, como diziam os sufis, a alma, nobre dama, toma o vinho do amor com seu Amado.

Gosto sim de participar de rituais das várias religiões por causa da oração em conjunto, da energia que vem da comunhão entre elas, do significado de cada gesto. Aprecio o Papa Francisco, Dalai Lama e outros seres a caminho da iluminação. No entanto, sinto que minha fé é solitária. Mais solitária ainda que a de Charles de Foucauld no deserto, em frente ao Santíssimo Sacramento. 

É muito bom destituir-se de todo e qualquer preconceito, vestir uma túnica branca, ficar descalço e penetrar no templo que fica no interior de si mesmo e sentir a Luz que dele emana para todos.  Sentido uma vela acendendo outra vela no que têm em comum e comungar da mesma Luz que ilumina a todos  os corações, sem distinção de raça, gênero ou religião.


Maria J. Fortuna - Nasceu em São Luís, Capital do Estado do Maranhão. Escolhi Serviço Social como profissão. Com toda esta incursão no mundo das artes, descobri que não podia viver longe desse cenário. A literatura havia brotado cedo. Desde menina, sou fascinada pela palavra.  Ingressei na REBRA, onde recebi incentivo e divulgação do meu trabalho e resgatei alguns textos que foram escritos no desenrolar da minha existência, aos quais não dei muito valor na época em que foram produzidos. Recomecei a escrever poesias, crônicas e livros infanto-juvenis. Publiquei cinco obras infanto-juvenis, ao longo dos últimos anos: O menino do velocípede, A incrível estória de amor de Mimo e Dedé , ilustrados pela autora, ambos esgotados. O anjinho que queria ser gente, que está na 2ª edição e O pardalzinho desconfiado, com ilustrações de Josias Marinho. Os dois últimos pela Mazza Edições de Belo Horizonte. Em 2008, foi lançada em Portugal outra obra de minha autoria por essa Editora:A sementinha que não queria brotar, com ilustrações de Regina Miranda. Este livro foi adotado pela Prefeitura de Belo Horizonte para as crianças da rede escolar. Participei de duas Antologias a convite da Editora Rosane Zanini: "A cidade em nós" - em três línguas (2010)," Um dia em minha cidade"(2012). Ambas com crônica. Neste último ano, participei da Antologia: "L´indiscutable talento des Écrivaines Brésiliennes" pela REBRA, com poesia.

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