Leitor de mim, como assim? [Cláudia de Villar]

Leitor de mim, como assim?


Decididamente há aquele momento crucial ao qual todo leitor atravessa: o ato de terminar a sua leitura (pois já não há mais nada a ser lido) e prepara-se para uma nova viagem ou experiência literária. Até aí tudo bem, nada de tão aterrorizante, salvo aqueles leitores mais dramáticos que não conseguem dizer adeus à sua leitura apaixonante. Entretanto, temos que chamar a atenção aqui para um fato que, muitas vezes, passa despercebido ao público leitor em geral: os escritores também leem. Todavia, o destaque que aqui desejamos dar não é para aquele escritor que vai até uma livraria e compra um livro para ler ou aquele que é presenteado com uma obra, mas aquele escritor que, para que seu livro chegue às prateleiras das livrarias, precisa ler o livro que escreveu. Aqui sim, mora o desespero.

Alguma vez algum leitor já se perguntou quando o escritor do livro ao qual ele está lendo decide parar de escrevê-lo, de contar aquela história ou de “poemar” seus versos e, enfim, enviar seu texto à editora? Nada é tão simples. Uma obra até chegar ao comércio passa por várias etapas e a leitura realizada pelo próprio escritor talvez seja a pior delas. Acreditem!

A pior crítica vem do próprio autor. Sempre há vírgulas a serem subtraídas, pontos finais a serem colocados, frases que, numa segunda leitura, já não fazem mais sentido. Ler ou não ler: eis a questão. A leitura se faz necessário, porém as (re)leituras são torturantes. Quando o escritor estabelece um distanciamento entre o ponto final e a sua primeira leitura o quadro piora, pois surgem novas ideias, novas verdades ou mentiras mais legais, outras saídas, outras possibilidades de escrever ou (re)escrever o que já foi escrito, o que já teve um ponto final.

As noites são intermináveis, a imagem das letras e páginas “pipocam” em pensamentos e reaparecem em pesadelos. Acordamos com um novo final para a trama, uma nova frase de efeito, uma nova rima para o verso e procuramos um papel na mesinha de cabeceira para anotar. E voltamos a dormir. Acordamos inquietos. Temos que reler, mudar, acrescentar, retirar e, principalmente, temos que dar um real ponto final.

Eu, leitor de mim, como assim? Dificílima tarefa. Principalmente porque o produto final tem que ser bem aceito pelas editoras, críticos, “pitaqueiros de plantão” e consumidores, pois um livro é artigo de consumo a ser adquirido através da compra do leitor. O escritor compraria o seu próprio livro? Nesse momento, muitos papéis são colocados nas lixeiras, outros são deletados e alguns sofrem com “repaginações” do que já foi escrito.

Por fim, o escritor, num desgaste emocional imensurável, num estado físico preocupante, com os nervos à flor da pele, despacha de vez a sua obra para a editora, não porque enfim encontrou um ponto de equilíbrio para o seu texto, mas porque a insanidade está batendo à sua porta, a autocrítica dilacera seus neurônios e a sua paciência já está por um fio. Se não fizer esse despache agora, não o fará mais. Portanto, ele envia a obra. E, para fechar com chave de ouro, ele recebe, em alguns dias, semanas e até meses depois um telefonema do editor com a afirmação: “Temos que conversar sobre o seu livro!” Opa! Será que o escritor terá que reescrever tudo?

Esse texto foi originalmente publicado no site: http://www.artistasgauchos.com.br/


Cláudia de Villar é professora, escritora e colunista. Formada em Letras pela FAPA/RS, especialista em Pedagogia Gestora e em Supervisão Escolar pelo IERGS/RS, também atua como colunista de site literário Homo Literatus e Jornal de Viamão do RS, além de ser pós-graduanda em Docência do Ensino Superior (IERGS/RS). Escreve para diversos públicos. Desde infantil até o público adulto. Passeia pela poesia e narrativas. Afinal, escrever faz parte de seu DNA. 

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