A caçada (vida de separado) [Jean Marcel]

A caçada (vida de separado)

Afonso. 1h da manhã. Um ser no seu estado selvagem. Uma criatura na noite sendo movida unicamente pelos seus instintos mais primitivos. Nesses momentos, prefere agir sozinho, “só os fracos atacam em bando”. Embora tenha acabado de chegar, seu olhar já vasculha impiedosamente o local à procura da sua vítima. Visão de lince. Decotes, fendas, transparências, saltos altos... Nada escapa à sua avaliação. Permanece atento. Como algoz, é exigente. Não admite nada menos que perfeito! Seu olfato apurado é capaz de distinguir com precisão uma fragrância sofisticada de um perfume barato a metros de distância. No bar, pede o melhor uísque da casa. Otimista, infla o peito e parte para a primeira incursão a fim de explorar o terreno e demarcar seu espaço.

Afonso, 2h da manhã. O terreno já está reconhecido. Na verdade, praticamente memorizou o ambiente. Só ao banheiro foi quatro vezes. O calor está intenso, fazendo exalar de suas axilas um cheiro de macho. As vítimas parecem pressentir suas intenções de caçador. Resoluto, nada o desanima. No bar, pede mais uma dose de uísque. É a quinta!

3h30min da manhã. Afonso lança olhares e gracejos como flechas soltas ao vento. Um animal indócil acuado pelos seus próprios desejos. Ao longe, avista uma presa. Ela está na pista, luzes multicoloridas piscam à sua volta. Como expert, identifica nos gestos sincronizados o ritual da dança do acasalamento.

Seu coração dispara observando a cena. Ele sabe que precisa aguardar o sinal da fêmea, pois deve ser dela a iniciativa. Porém, o chamado da natureza fala mais alto. Não está disposto a esperar. Sem qualquer plano, como um bravo guerreiro, inicia unilateralmente a aproximação. O local está cheio. Todos com a mesma intenção. Não pode perdê-la de vista. Precisa esgueirar-se entre a multidão movimentando-se com agilidade para alcançá-la antes que um rival o faça. No mundo animal, além da força, a velocidade pode garantir a sobrevivência da espécie. E é isso que parece estar em jogo. Contra todos os prognósticos... Ele consegue. Está diante dela. Precisa estabelecer contato.

Aproxima-se tanto que pode sentir os seios dela tocando seu peito. Contém silicone, 340ml, arrisca mentalmente como profundo conhecedor, na expectativa de mais tarde poder conferir a aposta. Ela dá um passo para trás. Ele acha que é para vê-lo melhor. É sua chance de impressionar. Afonso inicia uma dança agitando seus braços e pernas. São movimentos desconexos e discordantes. Desconexos entre si e discordando do ritmo da música. Não está funcionando. Precisa agir. Ousado, desfere no ouvido da vítima uma infinidade de adjetivos, palavras, frases e estrofes de música numa tentativa desesperada de envolver a presa. Ela resiste. Ele sorri. Ela reclama do seu hálito. Ele faz gargarejo com o uísque que ainda resta no copo. Ela se afasta enojada. Ele suspira. Não pode abater-se. De perto ela não parecia mesmo tão interessante! Pra que lado mesmo fica o bar?

Afonso. 5h da manhã. O ambiente já não está mais tão cheio. Na verdade, restam poucos. Calor, camisa grudada no corpo, cabelo escorrido e uma poça dágua no fundo do copo. Mesmo assim, apesar do andar cambaleante, permanece disposto. Alguns oponentes já desistiram; outros, aparentemente com mais sorte, retiraram-se vitoriosos arrastando suas presas, migrando para a fase II do jogo. Afonso, perseverante, nem cogita ir embora. Não sozinho. Precisa de mais uma dose. No bar, sentado, equilibrando-se com dificuldade sobre a banqueta e divisando duas imagens turvas do mesmo barman, exige mais um uísque. Que marca? – o homem quer saber – Ele responde com “delicadeza”: “Qualquer uma, porra, é tudo falsificado mesmo!” Na outra ponta do balcão uma garota mexe no cabelo. Não é necessário interpretar seu significado, era o sinal que esperava. O chamado da fêmea. Fora convocado.

Num impulso, sem hesitar, se aproxima. Apesar dos passos trôpegos, tenta uma postura confiante. É a força da natureza o impulsionando. Seus hormônios, além dos onze copos de uísque, embotando seu cérebro. O animal prevalecendo sobre o racional. Afonso opta por uma abordagem mais agressiva. Não tem tempo a perder! Senta-se ao lado dela e, sem aviso prévio, coloca sua mão sobre uma de suas coxas. Depois das 4h o código de conduta da noite permite esse tipo de interação um pouco mais direta, sem rodeios. Ela aceita. Mais que isso, mergulha o dedo indicador no seu copo de uísque para, depois, sugá-lo lentamente, mostrando toda a sua classe e refinamento. Nem ele esperava tanto. Estaria sonhando? Imediatamente emergem sensações primitivas no seu baixo-ventre. O que é isso? Esse pulsar... É a energia vital? O despertar de desejos adormecidos? Não, definitivamente não parece ser seu “melhor amigo” acordando para o trabalho! “Meu Deus, essa vontade eu conheço... acho que vou... vomitar!”

UAAaaaaaaaaaaaaaaaaaa!!!

...

Afonso. 6h30min da manhã. O despertador toca anunciando mais um dia de trabalho. Não fosse a ressaca, acharia que tudo não passou de um pesadelo. Falta de sorte, avaliou. Hoje à noite haverá de ser mais bem sucedido... “Yessss, o velho guerreiro está de volta!” – deu um soquinho no ar demonstrando sua confiança – “Aííí minha cabeça! Meu Deus, onde encontro uma aspirina?”

Jean Marcel- Escritor, professor universitário, palestrante. É pai de dois adolescentes. Um leitor voraz. Eclético, escreve contos, crônicas, romances e infanto-juvenil. Possui o blog brisaliteraria.com

1 comentários:

Manu disse...

Parabéns!!!