Pode a literatura ser a ciência mais pura? [Raquel Ribeiro e Mariana Soares]

Pode a literatura ser a ciência mais pura? 

Raquel Ribeiro (Texto) e Mariana Soares (Ilustração)

A Revista 2 falou com cientistas e escritores para compreender a relação de uns e outros com a literatura e o conhecimento científico. No fundo, ambos estão à procura de uma tradução para o mundo. 

O escritor Nuno Camarneiro também é físico. Para si, a literatura e a ciência partem ambas “de uma vontade de perceber” o mundo. “Nenhum campo do saber consegue conter toda a realidade”, diz. Tanto a física como a literatura trabalham com modelos: “A realidade não está numa lei física. A física trabalha com abstracções da realidade. O romance também é um modelo que ajuda a conceptualizar o real.” Na física estudamos a natureza das coisas — a literatura “é a ciência da natureza humana”.

Pode parecer demasiado abstracto, mas o autor de Debaixo de Algum Céu (prémio Leya 2012) diz apenas que é o mistério que o move: estudou Física porque desde miúdo tinha “aquele sonho do cientista de ter um objectivo, de querer descobrir, desvendar um enigma, fazer quebra-cabeças, compreender mistérios”. Isto é, procurar uma resposta. Mas via-se insatisfeito: “Dava-me gozo descobrir as soluções dos problemas — em Matemática, em Física, até em Português —, mas quando descobria a resposta perdia o interesse pelas coisas. Nesse aspecto, era um pouco rebelde. Distraía-me.” O retrato de Camarneiro enquanto jovem vai ao encontro de uma das questões colocadas por outro escritor, Gonçalo M. Tavares, no seu livro Breves Notas sobre Ciência (2006): 

Mas não investigas: divertes-te. Crias dificuldades e conceitos para atrasar a tua chegada. Amanhã chegarás ao esconderijo onde ainda ontem escondeste a resposta. 

Foi a partir desta ideia que surgiu Física Divertida nos anos 1990 (e Nova Física Divertida em 2007), ensaios de divulgação científica da editora Gradiva da autoria do físico, professor e ensaísta Carlos Fiolhais. Camarneiro revela que a leitura dos livros de Fiolhais espevitou a sua curiosidade: “Fui muito marcado por Fiolhais, que pertence a uma geração que tinha lido todas essas obras de divulgação científica que acabaram por chegar tarde a Portugal”, diz o escritor. Carl Sagan, Richard Feynman, Stephen Jay Gould, Hubert Reeves, Richard Dawkins, Ilya Prigogine: “Por vezes nas páginas de divulgação científica encontra-se não só literatura, mas também grande literatura – e que bem escrevem, por exemplo, Carl Sagan ou Stephen Jay Gould”, diz à Revista 2 Carlos Fiolhais.

Estes foram os autores que Fiolhais leu na colecção que agora dirige – Ciência Aberta – e que herdou do cientista Rómulo de Carvalho, isto é, o poeta António Gedeão. “Fui para a ciência talvez devido aos livros de divulgação científica de Rómulo de Carvalho. Ainda me cruzei com ele. Lia tudo o que podia sobre a grande aventura que me parecia ser a ciência”, explica. Tantos anos depois de prática científica, de ensino e divulgação da ciência, Fiolhais pergunta: “E não serve a literatura, entre outros propósitos, para contar aventuras?”

Fiolhais começou por ler jornais, voraz: “Os meus pais dizem-me que comecei a ler pelos quatro anos juntando as letras dos títulos dos jornais. Desde então fiquei viciado em jornais”, conta o físico. Aos dez anos recebeu a antologia Catorze Novelas Históricas Portuguesas (1965): impressionou-o Bispo Negro, de Alexandre Herculano, e chegou até a escrever sobre ele. E, claro, na Biblioteca Municipal de Coimbra, cidade onde cresceu, descobriu Júlio Verne.



A História das Ciências encontra-se sempre ligeiramente atrasada em relação à História dos Desejos. Há metáforas famosas, peguemos nelas. É como se os cavalos fossem o Desejo e a carroça puxada por eles a ciência. 

Júlio Verne sonhou com a volta ao mundo, com a viagem à Lua, com a profundeza dos mares. Décadas depois, o avião levantou voo, o homem pisou o solo lunar, inventou-se o submarino. Talvez seja caso para dizer: o escritor sonhou; o cientista foi lá e fez, concretizou o sonho do poeta e a ciência avançou sempre por causa desse desejo (parafraseando M. Tavares).

António Câmara, engenheiro de formação, especialista em sistemas geográficos, fundador da YDreams, reconhece o legado de Verne e da literatura na ciência, mas revela sobretudo o fascínio por aquela figura do Liceu Pedro Nunes, que se sentava “lá atrás, na última fila do anfiteatro”, enquanto as aulas “eram dadas pelos seus assistentes”. “Sabíamos vagamente que era poeta e pensávamos que usava as aulas de ciências para escrever poesia”, conta Câmara, que foi aluno do poeta e cientista Rómulo de Carvalho/António Gedeão.

Gedeão e Verne parecem ter marcado uma geração de cientistas em Portugal. Ainda hoje a ficção científica “tem uma importância extraordinária”, porque são autores como Verne ou Isaac Asimov que “desenham o caminho do futuro”, diz Câmara. O autor norte-americano de ficção científica, Bruce Sterling, anunciou numa conferência nos anos 90 que “o futuro do computador é o lenço.” Na altura, diz Câmara, “pensámos: este homem está louco! Mas não: hoje sabemos o que esse lenço representa em termos de flexibilidade do ecrã, de portabilidade, de poder ser usado em qualquer lugar, que conjuga o lado útil e leve e é, ao mesmo tempo, uma janela para o mundo”, explica. Por isso, a ficção científica enquanto visão do futuro “continua a ter uma importância enorme para nós, cientistas”.

Câmara dá o exemplo da empresa Azorean, dos Açores, que está a desenvolver um drone aquático apoiado pela YDreams: “Isso vem dos sonhos do Verne — ele sonhou os submarinos e nós vamos criar os submarinos do futuro.” E hão-de ser pequenos, do tamanho de um telemóvel ou de uma câmara, sem tripulação, de preferência de baixo custo. Diz-se que Verne sonhou com o fundo do mar no edifício onde hoje está o Instituto de Espanhol, no Dafundo. “Ele tinha um barco e fez várias viagens a Lisboa. Crê-se que parte de Vinte Mil Léguas Submarinas tenha sido escrita aí. E isso é relevante para mim, porque eu ainda hoje vivo no Dafundo”, conta Câmara. 

Uma ciência que não investiga os sentimentos serve para quê? 

Gonçalo M. Tavares continua a indagar o método, os procedimentos, as grandes questões científicas. Mas parecem cada vez mais desligadas do que hoje a ciência comunica aos cidadãos. Talvez por isso, António Câmara explique que muitas das suas leituras passavam também por George Orwell, que não era cientista, mas que “nos apresentava uma visão distópica do futuro”, ou por Aldous Huxley e o seu Admirável Mundo Novo: “Aliás, toda a família Huxley vem de uma tradição fortíssima ligada à literatura e à ciência. O biólogo Julian Huxley, irmão de Aldous, era um cientista que escrevia maravilhosamente.” Foi quando fez o doutoramento nos EUA que António Câmara leu “artigos clássicos dos anos 1940, da matemática e do ambiente”, que eram “autênticas peças de literatura”, que demonstravam que os cientistas “tinham uma formação científica e humanística”. Isso perdeu-se: “Foi-se reduzindo a capacidade literária da escrita científica. Hoje, um artigo da Nature ou da Science é um artigo despido de adjectivos. Isso retira-lhe a emoção que tem de estar associada à ciência.”

Os cientistas mais bem sucedidos, hoje, são aqueles que “têm essa formação humanística e não são só os que têm uma formação técnica”. Essa diferença “abissal” demonstra-se em conferências e seminários, “na forma de expor o conhecimento”, e Câmara, que é professor na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, admite que isso se nota, por exemplo, nos alunos Erasmus que recebe de universidades como Cambridge, Oxford ou do Imperial College. “Os nossos alunos de engenharia não têm cultura literária, por isso a sua expressão narrativa é muito pobre. ” 

O físico João Magueijo também é escritor. Professor no Imperial College, em Londres, queixa-se do mesmo: “Os meus alunos não sabem escrever.” Para Magueijo, escrever artigos científicos “também é fazer literatura” e confessa que seria talvez interessante que alunos de Física “fizessem cursos de escrita criativa”. Lê muito, sobretudo romance contemporâneo: Paul Auster, Hanif Kureishi, Salman Rushdie, Ismail Kadare. Lê em português, em italiano, em inglês, “por puro prazer”. E também escreve: “Dou-me muito melhor com a não-ficção. O mais próximo que estive da ficção foi quando traduzi para inglês um livro do Rui Cardoso Martins”, graceja. Publicou, sempre na Gradiva, Mais Rápido Que a Luz (2003), que resulta da sua tese de doutoramento sobre a velocidade da luz e em que desafia a Teoria da Relatividade de Einstein; O Grande Inquisidor (2011), sobre o físico nuclear Ettore Majorana, e, recentemente, Bifes Mal Passados, livro de viagens pelo Reino Unido (o qual a Revista 2 apresentou em pré-publicação na edição de 22 de Junho). Até certo ponto, reconhece, “todos estes livros são biográficos”. 

Magueijo diz que “chegou à escrita por convite” e que, se “no início foi um desafio”, com o tempo impôs-se “um estilo pessoal que tem ressonâncias” com o seu lado científico: “Não era capaz de fazer ciência a tempo inteiro, tal como não creio que pudesse escrever a tempo inteiro.” Chega então a uma espécie de consenso que, conta, tem que ver com a sua “tendência humanística” e a forma como usa “tácticas de choque para comunicar ciência” aos seus pares: “Tenho tendência para arranjar metáforas para explicar as coisas. Se fizer algo que choque as pessoas e que não seja mainstream, crio um ruído de fundo.” Numa conferência que juntava “duas realidades que não se compreendem”, Gravidade Quântica e Cosmologia, Magueijo abriu a sua palestra com uma imagem que, diz, só um autor como Luiz Pacheco usaria: “Comecei por evocar a imagem de uma girafa a ter relações sexuais com um elefante. As pessoas ficaram chocadas e pensaram: este gajo é louco! Mas é uma maneira de passar a mensagem científica e eu vou à literatura buscar essas técnicas.” 

A comunidade científica olha pelo centro do olho. Os grandes investigadores olham pelo canto do olho. 

Ter visão nem sempre é suficiente para se ser um grande investigador. Às vezes, é preciso saber traduzir essa visão, a ideia em texto. Uma pessoa comum usa cerca de dois mil vocábulos, diz António Câmara – “uma pessoa culta usa oito mil”. Quanto mais o cientista “dominar a língua, os seus níveis, as regras e a expressão, maior será a sua capacidade de argumentação e retórica” que lhe permitirá criar, por exemplo, um modelo. Um problema matemático começa simplesmente pela descrição verbal, “o mais rica possível”, desse problema, explica Câmara: “Nos modelos matemáticos, as ligações entre peças de informação são feitas através de vocábulos. Os substantivos vão ser as variáveis, depois os verbos e as preposições que ligam esses substantivos. No fundo, vou mapear o texto num diagrama e criar ligações. Se eu estiver limitado a dois mil vocábulos, o meu modelo vai ser muito mais pobre e eu não vou conseguir traduzi-lo.” 

Magueijo corrobora: “O trabalho científico pode ser muito teórico e é preciso dar espaço à criatividade para as ideias aparecerem.” Uma coisa é a ideia, outra, a teoria. Isto é: a ideia é um sonho mas depois é preciso prová-la, testá-la, analisá-la, “matemática, lógica e objectivamente”. “Há muita gente na comunidade científica que se fica apenas pelas ideias e não as converte em teorias. São, por vezes, pessoas com grande capacidade matemática que não sabem expor ideias”, explica o físico. Magueijo é conhecido pela sua “metodologia” (em aspas, porque não estamos a falar do método científico) pouco ortodoxa. Citando Gonçalo M. Tavares: 

Tu não usas uma metodologia. Tu és a metodologia que usas. 

“Por vezes, as pessoas acham que não estou a fazer nada, que só ando a passear, mas eu estou a pensar”, explica Magueijo. Contrariando a pressão da academia, que obriga constantemente a publicar papers científicos, a obter resultados, Magueijo revela que a “sua musa” – inspiração, para os escritores; ideia que levará à teoria, para os cientistas – é o acaso. Vaguear, caminhar, perder-se pela cidade é uma maneira de “não ficar agarrado à obsessão de publicar”. A ideia para a sua tese surgiu enquanto deambulava pelas ruas de Londres. Mas a teoria consolidou-se numas férias em Goa: “Quando cheguei a Goa, já a teoria estava estabelecida matematicamente, mas estava a crescer demasiado e a perder o foco, corria o risco de se tornar grande de mais. A melhor coisa que fiz foi sair, pensar, ir de férias.” Quem diz férias, diz: ir ao cinema, fazer karaté, ler um livro.

O escritor Gonçalo M. Tavares diz que tanto na formulação de uma teoria como na narração de uma história há processos mentais muito semelhantes. “Era uma vez um homem que conheceu uma mulher e foram numa viagem. Uma narrativa tem que ver com uma sequência de elementos que sofrem uma alteração. Uma experiência química é também um processo narrativo sequencial”, diz. Tavares admite já ter “lido” papers de amigos da matemática pura: “São essencialmente números, fórmulas e, no meio, palavras como ‘se’, ‘então’, ‘por isso’, ‘daí’, ‘porque’. Claramente, aquilo é um processo narrativo. Se: um homem conhecer uma mulher em Veneza às quatro da tarde, Então pode ser que… Ou: Se numa noite de Inverno um viajante...”

Nem sempre ciência e literatura andaram de costas voltadas, houve até tempos em que os dois campos do saber se complementavam. “Até ao princípio do século XIX, os cientistas eram vistos como filósofos naturais. A pesquisa, a investigação tinham que ver com criar saber – filosofia – sobre a natureza”, explica a investigadora Ângela Fernandes, da Faculdade de Letras de Lisboa, que publicou A Ideia de Humanidade na Literatura do Século XX, ensaio sobre Aldous Huxley, André Malraux e Ramón Gómez de la Serna, em que discute o período entre as duas guerras mundiais em que se “ensaiavam as mais radicais cisões entre a arte e a vida”, visões do futuro, repensar o humano à luz dos avanços científicos. Fernandes lembra ainda que, no século XIX, “as primeiras notícias sobre vacinas, por exemplo, vinham nos jornais ao lado de poemas, na página da cultura”. Havia uma “coexistência de discursos científico, literário e artístico, que pareciam estar no mesmo campo e tinham o mesmo prestígio social”.

Contudo, a educação humanista começa a perder terreno a seguir à Segunda Guerra Mundial. O discurso da cultura e das artes ainda é de prestígio sobre o “saber científico dos médicos ou dos farmacêuticos”, já virado para a eficácia e o bem-estar das populações. O “saber enciclopédico”, a “harmonia entre as ciências, as artes e as letras”, herdeira da educação alemã da escola de Humboldt, no século XIX, é, contudo, a “mesma que educa os governantes alemães do Holocausto”, explica Ângela Fernandes. Afinal, a educação humanística não tinha sido suficiente para “acautelar a sanidade moral, a ideia de bem comum, de limites, de tolerância e de ética”, continua.

“Temos escassas provas de que uma tradição de estudos literários torne o homem mais humano. […] Quando a barbárie chegou à Europa do século XX, as faculdades de Letras de diversas universidades ofereceram muito pouca resistência moral. […] Numa quantidade perturbadora de casos, a imaginação literária acolheu de forma servil e extática a bestialidade política. E essa bestialidade foi por vezes executada e refinada por indivíduos educados na cultura do humanismo tradicional”, escreveu em 1965 o filósofo George Steiner. A ciência deixou, assim, de estar ao serviço do homem e passou a estar ao serviço da guerra e dos interesses económicos.


Claro que o Perigo é a origem dos métodos científicos mais eficazes. Se o Homem fosse imortal, ainda não teria inventado a roda. 

Esse é o perigo da superespecialização do cientista que parece estarmos a observar neste momento, lembra Gonçalo M. Tavares. “Qualquer cientista tem de parar a certa altura e perguntar: para que é que estou a fazer isto? Quais são as consequências? São perguntas de sistema, muito filosóficas”, diz o escritor. O problema é quando a ciência “se centra no como, no modo de fazer as coisas, e não no porquê”. Às vezes, esse “como” é tão complexo que o cientista “entra num sistema profundamente alienado — aliás, muita da história trágica do século XX é uma história em que, de certa maneira, a ciência foi utilizada, instrumentalizada, manipulada pela política”. Os cientistas estavam “obcecados pelo como” e “nunca perguntaram para quê e porquê”.

É aqui que a literatura é importante: “A literatura e as artes não sabem o como, mas a boa literatura tenta perceber o para quê e o porquê.” Se por um lado se pode pensar a ciência “enquanto progresso humano”, por outro, diz Patrícia Portela, escritora e encenadora, a ciência “também pode ser entendida enquanto história, narrativa, decisão” e, a par da literatura, ser “um espaço de reflexão sobre as coisas que ainda não sabemos: é essa relação de apetite pelo desconhecido que junta as duas áreas”.

Portela diz-se leiga mas fascinada pela ciência. Fala com à-vontade das últimas revelações sobre a Partícula de Deus ou sobre a Lei da Gravidade, temática no seu livro Wasteband (2014). Colecciona notícias bizarras, científicas e pseudocientíficas, como em O Banquete (2012). “Há um lado muito poético nalgumas descobertas científicas. As notícias d’O Banquete são resultado de anos e anos sempre a coleccionar. Não é tanto pelas descobertas científicas em si, mas pela forma como nos fascinamos e escrevemos sobre elas”, explica.

Num processo narrativo singular, Portela conta que há uns anos, “antes de se lançarem as primeiras sondas em Marte”, tinha-se descoberto que Marte tinha uma determinada qualidade que “permitiria, quiçá, a existência de vida”. Numa conversa de café em Lovaina (a encenadora vive na Bélgica), perguntou a um senhor qual era a sua profissão. Ele respondeu, apontando para o espaço: “Olho para ali para aquele planeta todos os dias. Trabalho no centro de pesquisa sobre Marte.” Portela confessa que “não resistiu” em perguntar-lhe se ele achava que haveria vida em Marte: “Se eu achasse que não havia, não olhava para ele todos os dias.” O homem disse-o com “uma simplicidade, como se me estivesse a dizer o óbvio: tens de decidir primeiro se faz sentido dedicares uma vida inteira” a uma partícula, a um micróbio, à descoberta da cura de uma doença: “Porque se achas que ela não existe, a tua vida não faz sentido.” Com o escritor também é assim: há um certo fascínio, um espanto. “O que me entusiasma é a ciência do espanto, a curiosidade humana, e não a visão utilitária da ciência, da quantificação, cada vez mais eficaz.” 


O cientista perfeito é também jardineiro: acredita que a beleza é conhecimento. 

Patrícia Portela tem uma visão “muito romântica da literatura”. Ainda diz: “A literatura pode salvar o mundo? Não: não pode, acho que o vai salvar.” O perigo está, então, na possibilidade de “a literatura passar a funcionar nos mesmos moldes políticos, económicos, estéticos e éticos que têm regido [a ciência e a tecnologia], e que deixe de ser um espaço onde se possa reagir. Isso aconteceu com a ciência: instrumentalizou-se.” Como espaço de grande liberdade, “a literatura continua a experimentar e a fazer o trabalho da ciência: pesquisar, encontrar novas hipóteses, novas soluções, novos mundos para o homem. A literatura é, por isso, a ciência mais pura.”

O cientista que fascina Portela é também esse romântico do saber enciclopédico, qual Leonardo da Vinci, “filósofo-escritor-cientista-pintor, inventor-do-guardanapo, inventor-do-helicóptero”, com a capacidade de ser múltiplo, na “procura pelo prazer de procurar como o escritor escreve pelo prazer de escrever e compreender o mundo”. O método científico não poderia ficar completo sem a classificação. Classificar é, diz Portela, patentear, “editar, escolher, validar, procurar a origem, legitimar”. Editar também é poesia, e a poesia é feita desse processo de rasura, de corte, incisão, como se fosse o espaço por excelência em que a ciência dura (matemática, física, biologia) se encontra com o lado mole da ciência. Essa moleza, para os poetas-cirurgiões, como João Luís Barreto Guimarães, pode ser a pele. 

A poesia não é ciência? A poesia é ciência individual. Poema colectivo e útil: eis a teoria científica. 

Até certo ponto, diz o poeta e médico de cirurgia estética João Luís Barreto Guimarães, autor de Você Está aqui (2013), há semelhanças no corte cirúrgico e no “burilar de um poema”, na contagem das sílabas, no verso, nas linhas, no ritmo, nos silêncios, na escolha das palavras, está um rigor que só tem paralelo no traçar da cicatriz, no remover dos tecidos, na costura, no que fica ou não fica marcado na pele do paciente. “Há uma busca de equilíbrio e uma noção de harmonia” nos dois métodos, diz Guimarães, “e gosto sobretudo de deixar a minha marca, gosto de deixar de fora arestas e espinhos que me mostram o alicerce desconstrutivo — mais no poema do que na pele dos doentes, claro”. No entanto, acrescenta, apesar de serem “as mesmas mãos que escrevem o poema ou cortam a pele”, o poeta não vê “uma relação directa entre a medicina e a sua poesia”, como sente noutros médicos-escritores, Fernando Namora ou Miguel Torga, diz. Talvez seja o tempo e a surpresa que distinguem do papel a pele, na hora de deixar o verso escrito (e o corte inscrito). “Dificilmente sou surpreendido numa cirurgia. Gasto tempo a marcar sobre a pele, a medir, com actos precisos e segundo princípios anatómicos claros. Mas opero com muita rapidez. Na construção de um poema é o contrário: sou surpreendido pelo poema, para onde me leva, o que fazer com ele, tenho uma ideia incompleta, e não sei quantas palavras serão necessárias ou quantas terei de substituir.” No final, o poema, como o corpo, “fica a parecer uma escultura”. E o leitor do poema será sempre como o doente, ou o paciente, que “vai buscar as palavras para alimentar a alma”. 

Os excertos em itálico são retirados de Breves Notas sobre Ciência (Relógio d’Água, 2006). 

Fonte: 

0 comentários: