AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA (41ª postagem) [Rubens Jardim]

AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA (41ª postagem)


MARCIA BARROCA(1951) poeta  mineira, formada em letras, vive no Rio de Janeiro. Seu primeiro livro, Marés e Semeaduras, saiu em 2006. O segundo, Desclausura-o verniz da unha na boca, em 2009. No ano seguinte, publicou 50 Poemas Escolhidos pelo Autor, livro que ganhou o prêmio Henriqueta Lisboa, da UBE-RJ. Há poucos dias publicou Poemas Nus.

Sentido do poema

Teria a poesia

violetas e vírgulas

áridas palavras


essencial sentido? 


Não sei…

Quando sinto o poema

Exponho o grito 


Enigma consagrado 

A liberdade do poema

sopra no papel

fecundos enigmas


Casulo rompido

verso explodindo

o que sente


Não existe remendos

em  pele danificada


Desvirginada a palavra

cicatriz consagrada

no poeta 


Livre voo 

Meu deserto

desarmado dos ventos

castiga palavras soltas

estribilhos


canções contidas

na armadilha dos versos

redondilhas

Silêncios ecoam


Não mais escondo

minhas asas negras

Livre voo

em outras companhias


Multiplico fogos de artifício

em festa constante

O céu enche-se de estrelas 


REFLEXO 

O apartamento inteiro

respira você.

Nunca pensei

que moléculas de poeira

gritassem seu nome.


Pedro Almodóvar

Desço a ladeira

dos meus sonhos

de salto alto.

Requebro bamboleante

nos paralelepípedos

de um filme real

em preto e branco.

Um dia ainda

sairei dos nervos.

Virarei Almodóvar.



ROSA RAMOS (1955) poeta carioca, publicou poemas em jornais e na revista Poesia Sempre, editada pela Biblioteca Nacional. Participou de algumas antologias, Sete Vozes(2004) e Poema de Mil Faces(2012). Não tem livro publicado. Recentemente, 12 poemas de sua autoria foram publicados na revista mallarmargens. 

ESCATOLÓGICA EM DECLIVE MÉTRICO 

Há ratos sobre os estoques de mercadorias

e algumas baratas rondam a despensa

eletrônicos, tecidos, sapatos

bananas nanicas e tulipas

de Holanda. Tudo cheira a morte

e fome e temor e vida.

Há um morto sem estômago

sob a porta aberta,

um visgo seco

e um incômodo.

Se há vida,

mata! 

ANDANÇAS 

Olho os dois pés que descansam de suas viagens.

Os dedos, são dez,

imóveis conversam entre si.

Aconselho-me com eles, afinal

são pés sábios, correram terras,

pularam abismos,

subiram montanhas.

Aconselho-me com eles

mas não sei a que corpo pertencem.

Membros desconhecidos

magros, ossudos,

lembram os pés de meu pai.

Verde-azuis as veias saltam,

num grito, ao mergulharem,

na confortante bacia.

Quisera tivessem asas, pensei.

Mas sobram cores nas unhas

e uma certa impaciência

de caminhos

tão reconhecíveis agora


depois do banho.

Dentro das meias,

sob as cobertas,

meus pés sou eu. 


FAZERES 

o poeta chega sem alarde

ao branco da página;

invisível quase,

pensa a melodia

que há em cada frase

e conjuga verbo e imagem,

tudo em pensamento,

que não se atreve

a acelerar o tempo

do poema imberbe.

cheira a folha,

rege o vento que a sopra

espanta a mariposa-

palavra que vem surgindo

como a lua clara.

talvez um tango,

talvez espanto, ele pensa,

as rimas passarinhando seu cérebro,

uns grunhidos de fonemas

avançam sobre ele

até que exausto rende-se

ao eterno ex´lio

da palavra extrema. 


CONVERSAS 

não quero ser uma sombra contra esta janela que dá para o mar

nem uma foto na parede nem uma memória partilhada.

meu desejo é ser nossa senhora dos cordões de Oswald,

deixar de lado, com Manuel, o lirismo comedido

sambar e escrever loucamente

e colocar a poesia na rua, essa doceamarga.

“ó tristeza, me desculpe”

mas já não ando à míngua em busca de amor

e sorte. “minha pátria é minha língua”

e o mais são cortes na pele das palavras.


LELIA MARIA ROMERO (19   ), poeta paulistana, é geógrafa formada pela PUC, pós-graduanda em jornalismo literário. Autora de Poemas pra navegar (1993) e Andaluza (2000). Foi premiada no Concurso de Poesia Falada em 2000. (Dpto. de Bibliotecas Públicas/SP).  Seu poema “Teia” fez parte do vídeo da Campanha da Fraternidade/2005. Colaborou com revistas eletrônicas e pesquisa a Espanha medieval. 

TEIA 

No tapete de sisal

mil dedos de crianças gemem

nas fibras do tapete de sisal

mil lágrimas de crianças úmidas na contramão

nas tiras do tapete de sisal

mil unhas de crianças quebradas

dentes de leite caídos

mil brinquedos mortos apodrecem

nas tranças do tapete de sisal

mil vozes de crianças calam a cartilha branca

nos nós do tapete de sisal

mil corações gotejam na memória da terra

mil dedos me arranham as veias

lutas intestinas se deitam no tapete de sisal

sonhos tecidos pelo avesso

mil bocas

mil esperanças

mil destinos diluídos

me deixam o útero

vazio. 

ASTROLABIO

                     para Amir Klink 

No fim do mundo

há um lugar para mim.


Meus olhos lá estão

fusão de céu e mar

paisagem linha

desancora meu coração,

horizonte em mim

aponta o zênite do sonho,

comunhão.


Ali,

no fim do mundo

o mar mergulha em mim. 


MEDITERRÂNEA 

Vem da aldeia

vento que insemina, céu

luz paraíso de dor antiga.

Ontem.

Pulsam sete lamparinas, tangerinas

incandescem pupilas

drama solar, ilhas

que se foram. 


ECO 

             Para F.G.Lorca 

O Cristo Cigano meditou

diante do mar, antes da morte

a amplidão abraçada a si

perdido e lançado ali

ante extremos

sem faróis, sem palavra nem canto.


Morte ao Cristo Cigano,

que sem dança,

se recolhe ao todo

silêncio e sons submersos, lhe afogam

antes da morte, o verso.


Não mais um poema

nem o giro cantar,

cravos de sangue e sal

lançados no maior

guitarra

conchas

e vento.



MONICA MONTONE (19   ) , poeta de  Campinas, interior de São Paulo, é formada em psicologia e vive no Rio de Janeiro. Antes de publicar seu primeiro livro, Mulher de Minutos(2003) circulou pela internet onde fez muito sucesso. Participou de várias antologias e tem atuado em inúmeros recitais.  Estreou este ano sua peça Sexo, Champanhe e Tchau( que virou livro) e acabou de lançar novo livro: A Louca do Castelo. Link  www.monicamontonehome.blogspot.com.br 


Mulher de minutos 

Não sou mulher de minutos

Daquelas que os segundos varrem para debaixo do tapete sujo

Não pinto os cabelos de fogo

Nem faço tatuagem no umbigo

Me recuso a usar corpetes e cinta-liga


São poemas que ainda não reguei

Prefiro guardá-los em silêncio

Até que o tempo amadureça meus minutos

E a vida me contemple com seus frutos


Não borro meus cílios com a solidão da noite

Nem pinto meu rosto com a palidez das manhãs

Meu corpo é feito de marés

Onde navegam mil anseios

Veleiros sem direção

Estou sempre na contramão


Te  amo de amor

Te amo de amor

A qualquer hora

O dia inteiro

Do jeito que for


Te amo simplesmente

Sem mistério, vícios ou pudor

Amo o amarelo dos seus olhos

Sol poente em plena madrugada

Suas melodias

Suas trilhas


Amo sem precisar ser amada em retribuição

Sem hora marcada

Sem demora


Amo na cama e no chão

No meio da rua e na calçada

Debaixo de chuva

Sóbria ou embriagada


Te amo de amor

E não há nada que você possa fazer

Nem contra ou a favor


Tenho pena das mulheres que não gozam

Tenho pena das mulheres que não gozam

Elas não sabem

Que sob o colchão

A pele derrete

E que suas grutas ficam quentes

Como lava de vulcão


Desconhecem a meninice dos dedos

Que pulam de um mamilo ao outro

E brincam de esconde-esconde

Sob a chuva de estrelas mil


Não imaginam para que servem as mãos

Nem para que suas bocas foram feitas -

Talvez seja por isso que falem demais


Tenho pena das mulheres que invejam aquelas que gozam

Elas não sabem

Que seus seios são frutas maduras

Morangos, pêssegos, pêras, uvas

Pequenas cerejas mergulhadas em doces trufas


Por suas pernas e ancas

Jamais escorreu o néctar dos deuses

A bebida sagrada

O mel branco que é alimento

Feito leite de cabra


Tenho pena dessas mulheres

Por que elas serão eternamente amargas


As coisas que amo

Eu não sei dizer te amo!

Porque as coisas que amo, parecem não caber no amor


Amo o aconchego das casas

E a maneira como os pés se procuram debaixo das cobertas


Amo a ciranda dos dedos sobre a pele

E o aroma dos poemas do Jorge de Lima


Amo o som de água

O cheiro de chuva

O motivo do riso, não a risada


Amo a beleza que põe mesa

A beleza do erro

do engano

e da imperfeição


Amo o desejo de amar


O tédio de não querer nada

O desejo de tudo querer


Amo o cheiro dos ouvidos

O jeito de falar

A maneira como se olha


Eu não sei dizer te amo!

Porque as coisas que amo, parecem não caber no amor

Eu sei sentir te amo


Rubens Jardim, 67 anos, jornalista e poeta. Foi redator chefe Gazeta da Lapa e trabalhou no Diário Popular, Editora Abril e Gazeta Mercantil. Participou de várias antologias e é autor de três livros de poemas: ULTIMATUM (1966), ESPELHO RISCADO (1978)e CANTARES DA PAIXÃO (2008). Promoveu e organizou o ANO JORGE DE LIMA em 1973, em comemoração aos 80 anos do nascimento do poeta, evento que contou com o apoio de Carlos Drummond de Andrade, Menotti del Picchia, Cassiano Ricardo, Raduan Nassar e outras figuras importantes da literatura do Brasil. Organizou e publicou JORGE, 8O ANOS - uma espécie de iniciação à parte menos conhecida e divulgada da obra do poeta alagoano. Integrou o movimento CATEQUESE POÉTICA, iniciado por Lindolf Bell em 1964, cujo lema era: o lugar do poeta é onde possa inquietar. O lugar do poema são todos os lugares... Participou da I Bienal Internacional de Poesia de Brasília (2008) com poemas visuais no Museu Nacional e na Biblioteca Nacional. Fez também leituras no café Balaio, Rayuela Bistrô e Barca Brasília. E participou da Mini Feira do Livro, com o lançamento de Carta ao Homem do Sertão, livro-homenagem ao centenário de Guimarães Rosa. Teve poemas publicados na plaquete Fora da Estante, (2012), coleção Poesia Viva, do Centro Cultural São Paulo. Páginas na Internet: Site: Rubens Jardim e Facebook: Rubens Jardim

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