Juliana Areias: Bossa Nova Baby na Austrália. [Cleo Oshiro]

Juliana Areias: Bossa Nova Baby na Austrália.


Juliana Areias (40) nasceu  em São Paulo, onde morou até os 17 anos, mudou-se para  Brasilia / DF e depois para Salvador / Bahia.  Em 1996,  ela decidi deixar o Brasil e viver em Genebra / Suiça; depois em Auckland / Nova Zelândia e atualmente mora em Perth / Austrália. Juliana Areias lançou seu primeiro álbum, onde ela define esse trabalho da seguinte maneira: " Locais, pessoas, sons, histórias e a Bossa Nova bebê nasce. Bossa Nova, minha essência como cantora e escritora. Bossa Nova Baby, meu apelido musical- bem como o nome de uma canção de rock cantada por Elvis Presley. Este álbum é um diálogo entre o contemporâneo bossa nova e outros gêneros musicais. O álbum é um sonho que se tornou realidade. Um bebê bem-amado e profundamente esperado, uma gravidez extraordinária até seu nascimento. Bem vindos a bordo desta viagem musical de descobertas."

Juliana, você é casada...tem filhos?

Legalmente sou solteira . Emocionalmente, muito bem acompanhada. Sou mãe do Jobim e da Lilás, nomes obviamente em homenagem aos meus dois compositores favoritos: Tom Jobim e Djavan.

Seus filhos nasceram em que país?

Ambos nasceram na Nova Zelândia

Há quanto tempo vive na Austrália?

Moro em Perth desde o final de 2007.

Perth tem fama de ser um dos lugares mais isolados do planeta.  O que te atraiu para viver ai?

Na época, viemos para realizar o sonho do meu ex- companheiro, pai dos meus filhotes, e além disso ela é a cidade mais ensolarada da Austrália e tem menos  de 2 milhões de habitantes. Adoro a qualidade de vida, as praias praticamente desertas e a arte super contemporânea do meu amor, o artista australiano Geoffrey Drake-Brockman, espalhada em forma de esculturas robóticas pela cidade.

É verdade que é uma cidade que tem grande influência musical?

Sim. Amo Perth e a qualidade da cena musical daqui e principalmente sua tradição de Jazz. Considerando que Perth é a metrópole mais isolada do mundo então, essa qualidade é ainda mais surpreendente. 
Ela tem uma das melhores faculdades de Jazz?

Sim, em Perth está a WAAPA, a melhor faculdade de Jazz da Austrália, e uma das mais bem conceituadas do mundo. Perth atrai e exporta talentos num fluxo continuo.

Você trabalhou como  assistente de pesquisa em música e cultura. Tem alguma formação em artes?

Fiz Belas Artes a UFBA, antes de sair do Brasil, curso que literalmente abandonei, para ir cantar na Suiça aos 21 anos de idade. La, fiz canto- Jazz no Conservatoire de Geneve e na Maison de la Musique. Em Auckland foi assistente de pesquisa especializada em musica e cultura brasileira de 2000 a 2007, trabalhando no project chamado "Free Samba" da University of Auckland. Projeto fundado e dirigido pelo acadêmico Dr. Christopher Naughton, Phd em Educação Musical. O resultado desse projeto é descrito no livro publicado por ele chamado  – “The Thrill of Making a Racket : Nietzsche, Heidegger and Community Samba in Schools” –

Já viveu em vários países. Gosta de mudanças?

Sim, até agora morei no Brasil, Suiça, Nova Zelândia e Austrália. Devo ter espírito cigano, de diplomata ou no mínimo de "cidadã do mundo", pois poderia tranquilamente mudar para um novo pais a cada dois anos.

A Bossa Nova, assim como o Jazz é mais apreciada no exterior do que no Brasil?

Acredito que existe publico pra tudo em qualquer lugar. O que acontece é que Bossa Nova e o Jazz não são gêneros de  musica comercial e há controvérsias na afirmação de que já foram um dia. Isso significa, que o publico de bossa nova e jazz nunca foi a maioria, mas sempre um nicho particular. Se isso é uma desvantagem em termos de não haver "grandes mutidões", a grande vantagem é que são gêneros que independem de moda e da midia. Quem gosta de bossa nova e jazz , gosta pra sempre e ponto final. Existe também um fator maturidade. Conversando uma vez sobre isso com alguns músicos amigos do Circo du Soleil que moram em Nova York e estavam em turnê pela Austrália, eles me relataram que a maioria da moçada em Nova York - a capital do jazz - não costumam ouvir jazz, até atingir uma certa idade. Eu já ouvia e gostava de bossa nova desde criança, mas sou uma exceção, dai o apelido "Bossa Nova Baby". Gosto musical em geral tende a evoluir com a idade. O mesmo acredito que vale por exemplo pra Chico Buarque. Pra poder ouvir e apreciar toda a beleza e profundidade das letras do Chico, na minha opinião, o nosso melhor letrista - é preciso passar por um bocado de experiências na vida.

Porque o Brasil tem tanta dificuldade em valorizar música de qualidade? Afinal o que vemos na mídia deixa muito a desejar.

A Cultura Brasileira é uma das mais fascinantes do mundo, por causa justamente da sua mistura, pela capacidade que temos de manter nossas raízes e ao mesmo tempo assimilar todo tipo de influencia devolvendo ao mundo uma manifestação artística nova, criativa , num auto se recriar infinito. Nesse processo , muito do que é criado é passageiro e de qualidade discutível , mas desse terreno fértil e livre  da criatividade popular também são plantadas algumas sementes que tem força pra vingar.  Em geral, pra maquina comercial da midia interessa mais a quantidade que pode gerar lucro do que a qualidade de conteúdo e valor artístico. Dai o resultado  que temos. No entanto, repito, o Brasil é sempre muito mais do que o que está representado na midia e sempre há espaço pra tudo, basta apenas saber procurar e sintonizar aquilo que lhe interessa. Acredito que pra todo movimento, existe um contra movimento. Vale a pena sempre estar atento. Melhor que reclamar da midia comercial é criar e apoiar alternativas, como essa aqui, para o publico que seja interessado.
Quando e porque, decidiu deixar o Brasil para viver no exterior?

Morar no exterior, precisamente na Suiça, era meu sonho desde os meus 4 anos de idade. Sonho motivado pelo amor e saudades que tinha de uma ex- namorada do meu pai, a Marcia Viana, (minha amiga até hoje), que mudou pra la ( na verdade pra Suécia, mas eu achava que era Suiça) e sempre me enviava cartões e presentes de la. Então nessa idade decidi: quando eu crescer, vou morar na Suiça. Dito e feito, com 21 anos, la eu estava. A violência,  injustiças sociais e instabilidade financeira do Brasil, claro , também fortificaram a decisão adulta. Eis um poema, ainda não musicado,  que escrevi em 1996, em Salvador, ano em que sai do Brasil:

Sonho Brasil
(Salvador-BA, Brasil, abril de 1996 – 21 anos)

Eu, que não sou Chico, nem Francisco
Não sou Tom, nem Antônio
Apenas brasileira
Querendo partir
Pra Buarque de Holanda
Ou qualquer outro lugar
Dizer adeus Copacabana, pricesinha do mar
Onde meu barco naufragou, exausto de lutar,
de tanto remar e nunca chegou
Se navegar é preciso, viver também
Num lugar de fala estranha,
Fora do meu país,
Deserto de mim
Minha língua é meu cantar!
Onde, por ironia, no fim
Longe do Brasil, mais perto de vivê -lo
E pensando ter perdido o meu mar anil
É que vou reconhecê -lo
Nos olhos de outros brasileiros
Que nas ruas do mundo eu cruzar
Brasileiros como eu
Que não são Chico, nem Francisco
Não são Tom, nem Antônio
Mas abriram mão do Brasil
Pra não abrir mão dos seus sonhos
Sonho Brasil

E a relação com a música...quando surgiu?

A relação com a musica sempre existiu. Tem uma foto linda de meus pais ouvindo disco na vitrola, mamãe sentada no colo de papai,  antes de eu nascer. Devo muito aos dois por desde bebê me levarem a shows ao vivo. Papai -  musico de alma, não de profissão - canta e toca vários instrumentos e no meu nascimento em 7 de fevereiro de 1975, sábado de carnaval, compôs uma marchinha pra minha chegada.  

Quem você teve como influência musical?

Alem de meus pais, minhas maiores influencias são  Rita Lee, Tom Jobim,  Djavan, Lenine, Leny Andrade, Leila Pinheiro e Rosa Passos.
Quando se apresentou num palco pela primeira vez?

Como cantora profissional, considero o meu primeiro palco musical, as areias da praia do Farol de Itapuã, em Salvador. Agora meu primeiro “palco amador” como cantora foi aos 5 anos, quando gostava de cantar "Lança Perfume" ficando de pé ao lados dos motoristas de ónibus, em cima daquela caixa preta onde costumava ficar o motor. Esse era meu palco. rs

É verdade que conheceu grandes nomes da Bossa Nova na adolescência  e através de um jornalista tinha até credencial para circular pelos bastidores dos shows

Sim, graças ao meu querido Ruy Castro, autor do livro " Chega de Saudade - A historia e  as historia da Bossa Nova", pude conhecer e conviver nos bastidores do show Chega de Saudade, baseado no livro, quando tinha entre 15 e 16 anos (1990-1991). La estavam figurinhas como Ronaldo Bôscoli, Luizinho Eca, Johnny Alf. Esse período foi essencial na minha formação e desejo de me tornar cantora e compositora.

E sobre o desejo de escrever um livro contando a historia da Bossa Nova?

Ouço bossa nova desde antes de nascer, quando criança gostava de cantar "O Pato" e "Jou Jou Balanganda" acompanhando João Gilberto na vitrola de meu pai. Quando meus pais se separaram, essa conexão ficou adormecida, até que um dia ouvi na abertura de um programa da teve, tocando “Chega de Saudade”. Fiquei hipnotizada, tentando buscar na memoria de onde eu já conhecia aquela musica. A partir daquele dia passei a pesquisar sobre a bossa nova passando minhas tardes na biblioteca e discoteca do Centro Cultura de São Paulo, após sair da aula. Período pré goggle e internet obviamente. Fiz isso dos 13 aos 15 anos até que, como disse ao Ruy Castro, quando fui apresentada pra ele em um evento comemorativo dos 30 anos da Bossa Nova no Shopping Morumbi, - ele roubou minha ideia, publicando o seu livro Chega de Saudade antes de mim(rs). Obviamente que ele fez um trabalho muito melhor do que eu poderia ter feito. Sou fanzona e nos tornamos amigos desde então.

Participou de vários festivais, inclusive o de Sydney (Austrália) com mais de 30.000 mil pessoas. Qual a emoção de poder representar a música para um público tão grande ?

Todo palco é sagrado e cada plateia tem uma vibração única. Shows para grandes plateia tem a característica de serem vibrantes, intensos, onde a emoção maior é de alegria. Esse ano estarei em Sydney novamente, dessa vez apresentando o show Bossa Nova Baby no Sydney Opera House no dia 8 de setembro, em evento comemorativo dos 70 anos de relações diplomáticas entre a Austrália e o Brasil. Será uma noite inesquecível. 
Você se apresentou com vários grupos, trios, duo durante sua trajetória musical. Quando decidiu pela carreira solo?

Sim , foram vários grupos sendo os principais Jazz Brasil, Sambrasil, Amazônia, Bel Bossa, Aquarela e Só Brazil. Quando o Só Brazil teve que se separar com a ida da Roberta e do Zé Henrique pra Washington em 2010, percebi que era hora de investir na carreira solo, que teve a sua estreia numa serie de shows chamado Ginga Brasil aqui em Perth. 

Teve participações nos discos do poeta, compositor e diplomata Marcio Catunda?

Sim, gravei integralmente os dois primeiros discos do Marcio Catunda “Anima Lírica” ( em Genebra - 1997) e Crescente na Bulgária – 2000). Depois disso fiz participação especiais em quatro novos discos dele: “ Mística Beleza” ( no Brasil em 2003), Itinerário Sentimental ( em Portugal 2008), Agua de Flores (na Espanha em 2009) e o Jardineiro da Vida ( em Portugal em 2010). Marcio é apaixonado por Vinicius de Moraes, nome do seu filho e não é a toa que seja também poeta e diplomata. Costumo brincar que a diferença fundamental está no teor álcoolico dos dois. Marcinho não bebe álcool, ao contrario do nosso amado poetinha Vinicius de Moraes.
 
Além de cantar, você compõe. Aliás você tem uma das suas composições que é dedicada a seus filhos?

Sim, componho e escrevo poesias e diários desde os 13 anos de idade. Tenho algumas composições dedicadas e inspiradas nos meus filhotes. A canção que gravei dedicada a eles nesse meu primeiro álbum autoral chamado “Bossa Nova Baby” lancado agora, se chama “Estrela Acalanto”, uma canção de ninar inspirada no folclore nordestino e tradição de Luiz Gonzaga, que conta o ritual de cantar para fazê-los dormir e a trajetória do sonho da criança, que as vezes tem um pesadelo e você tem que voltar pra acalma-la , conforta-la cantando novamente até que ela torne a dormir.

Suas composições são somente em português?

A maioria é em português, mas também tenho algumas composições em francês e inglês. Nesse primeiro álbum autoral, apresento 11 faixas em português e apenas uma em inglês “Night in Takapuna”, dedicada a minha praia predileta na Nova Zelândia 


O que te inspira na hora de compor?

Pessoas, lugares, historias e sons são minhas maiores fontes de inspiração. As vezes as palavras vem primeiro, as vezes a melodia ou uma cadencia harmónica. Amo compor. Compor é um ato de amor e de reverenciar o que ou quem se ama.


Nos shows interpreta apenas Bossa Nova?

Nos meus shows procuro apresentar as multíplas facetas da musica brasileiras – bossa, choro, samba, baião, maracatu, rock brasil... com suas varias influencias passando pelo jazz, rock, pop, blues, tango e etc... As vezes também faço shows de tributo aos meus compositores prediletos como Tom Jobim, Djavan, Chico Buarque, João Donato e Lenine.

Você chegou a trabalhar como atriz?

Sim, com 13 anos. Em 1988 comecei a trabalhar como atriz profissional pelos palcos de São Paulo, em peças dirigidas por Luiz Gustavo Alves e Walcyr Carrasco.

Bossa Nova Baby é seu primeiro album autoral. Fale sobre esse sonho realizado...

O Bossa Nova Baby é o meu primeiro trabalho autoral, lançado esse ano. O nome Bossa Nova Baby se refere ao meu apelido musical e maneira de cantar, embora o disco seja bastante eclético apresentando desde bossas e sambas até chorinho, baião, jazz, tango , o funk “Mare Cheia” e o Pop “ Como vai”. As doze faixas foram gravadas com alguns dos melhores músicos de jazz da Australia e compostas com parceiros do Brasil, Suiça, Nova Zelândia e Austrália, celebrando a minha trajetória musical desses quase vinte anos de carreira internacional. A canção mais nova do album, “Belas Artes” composta durante o período de gravação, é um belíssimo choro em parceria com Doug de Vries, virtuoso violonista parceiro também de Yamandu Costa. Belas Artes é dedicada ao meu amor Geoffrey Drake-Brockman e suas obras de arte. No albúm também tenho canções dedicadas a São Paulo ( Dia a dia), Rio de Janeiro ( Flecha) e Salvador (Meu Lugar). “Inocência” é dedicada a alma feminina. Dedico ainda os sambas “ Ultima canção de um amor” a Genebra e “ Missão” a Perth e minha “família” por aqui, meus queridos amigos que fazem aula de samba de gafieira comigo, uma das minhas grandes paixões.

Gravar um CD tem altos custos. Quais as dificuldades e parcerias para que ele fosse concluído?

Para poder realizar o Bossa Nova Baby, com a qualidade que foi produzido, foram dois anos de projeto, contando com o patrocínio do Departamento de Cultura e Artes do Governo Australiano e também apoio de fãs e empresas pelo mundo todo, com destaque a Metax no Brasil, que participaram na minha campanha de financiamento coletivo no ano passado.

Quando e onde foi foi lançado?

O lançamento foi no dia 7 de fevereiro de 2015, data do meu aniversario de 40 anos em Perth, com show lotado no palco do Ellington Jazz Club, a melhor casa de jazz da Austrália.

Você vai estar participando de um festival agora em maio?

Sim estarei esse domingo 31/5 apresentando o CD Bossa Nova Baby ao vivo no Perth International Jazz Festival e em 8 de setembro no Sydney Opera House.

Quais suas expectativas em relação ao seu trabalho com a realização desse CD?

Espero poder apresentar o albúm fazendo shows ao vivo por diversos países, incluindo, é claro, uma turnê pelo Brasil, prevista para 2016.






Terminamos por aqui. Obrigada. 

Beijos na alma e coração! Ju

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Cleo Oshiro,mineira mas viveu a maior parte da sua vida em São Paulo até se mudar para o Japão em 2002. Colunista Social no Japão, EUA e Suíça.Seu trabalho é divulgado em vários países no exterior onde existem comunidades brasileira.

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