SOARES DOS REIS - O MAIOR ESCULTOR PORTUGUÊS SUICIDOU-SE HÁ 128 [Humberto Pinho da Silva]



SOARES DOS REIS - O MAIOR ESCULTOR PORTUGUÊS SUICIDOU-SE HÁ 128 

Por Humberto Pinho da Silva

Em vésperas de Santo António, o atelier de Soares dos Reis, sito na rua de Camões, em Gaia, engalanava-se para receber visitas. Arrimavam-se as esculturas, cobriam-se de panos brancos, os esboços, penduravam-se vistosos balões, acendiam-se as velas e, para concluir, o artista suspendia enfeites, de papel crepe, de várias cores. 

Sobretarde, ao declinar do dia, chegavam os convidados, entre eles, apareciam: Henrique Pousão, Souza Pinto, Tomás Costa, Teixeira Lopes, Marques Guimarães, Diogo José de Macedo.

Serviam-se, em bonitas bandejas de porcelana, doce de chã da “ Palaia” - estabelecimento que ficava na rua do Bonjardim, no Porto, - e biscoitos de Valongo; abriam-se garrafas de “Porto”, da Companhia Geral de Agricultura dos Vinhos do Alto Douro; e quando a festa atingia o auge, o anfitrião dedilhava, nas cordas de velho violão, trechos da “ Marcha de Luís XIV”. 

Conversava-se sobre Arte, e de conhecidos artistas plásticos que residiam na Cidade da Luz; os que pretendiam estar à la page, liam e comentavam o folhetim de “ A Palavra”, onde experimentado jornalista, desassombradamente, desancava na política e nos políticos da capital.

Eram festas modestas, mas de intelectuais, onde imperava respeito e dignidade.
Tinha o escultor índole amarga, frontalidade que se confundia de grosseria e agressividade. Os íntimos - e pouco mais, - conheciam-lhe o coração terno e a apurada sensibilidade hipersensível. 

Insignificante falta de atenção, frase não concluída, era bastante para o deixar em atroz ansiedade.

Tinha Soares dos Reis numerosos detratores. Contribuiu para isso, o jeito agreste e rude como se exprimia. 

Frequentemente citava Boileau: “ Un sot, trouve toujours un plus sot qui l’admire”.

Ao analisar trabalho alheio, não se inibia de declarar, se não fosse de seu agrado: “ É uma borracheira! …” 

Detestava os políticos, mormente os hipócritas, que para ele eram quase todos; considerava-se democrata e católico, mas poucas vezes ia à missa. Escrevia muito pouco e carteava-se ainda menos.

Em dias santos realizava longos passeios a pé- Ia a Paço de Rei, Quebrantões, Gervide e Lavandeira. Levava casaco comprido, bota-de-elástico, nada cuidadas, e cabelo desamanhado. 

Fascinava-se com a beleza campestre, o sossego das bouças, o trinar dos passarinhos, o sussurrar embalador dos córregos e a beleza das flores silvestres que atapetavam os verdes campos de Oliveira do Douro.


Quando se apaixonou pela delicada esposa, mudou por completo. Mandou fazer, na Alfaiataria Rocha, bonito fraque e substituiu a bota-de-elástico, por modernas de cordão. Passou a cuidar o cabelo e amiúde frequentava o barbeiro. 

Se o tempo não permitia andar pelo campo, recolhia-se no Clube Recreativo de Mafamude, jogando bilhar e dominó.

Numa hora de extremo desespero, que o levou ao suicídio, escreveu no papel de parede do quarto: “ Sou cristão, porém nestas condições, a vida, para mim, é insuportável. Peço perdão a quem ofendi injustamente, mas não perdoo a quem me fez mal.” 

Soares dos Reis - o maior escultor português nasceu em Santo Ovídio (Gaia), numa terça-feira, a 14 de Outubro de 1847. Foram seus pais, Manuel Soares Júnior - proprietário de mercearia, onde o filho era marçano, - e D. Rita do Nascimento.

Foi batizado na Igreja de Mafamude pelo Padre Francisco Ribeiro de Moura, e teve como padrinhos: Santo António e D. Ana Maria de Jesus.
Desde cedo mostrou tendência pelo desenho. Na escola (a do Cabeçudo) retratou, às escondidas, o professor, o Sr. Matos. Descoberta a falta de atenção, o mestre não lhe bateu, e terminada a aula andou a mostrar, admirado, o talento do aluno. 

Pouco depois, os pintores Francisco José Resende e Diogo de Macedo, este último, avô da esposa de Soares dos Reis, ao conhecerem o extraordinário valor do rapaz, convenceram o pai a matriculá-lo na Academia de Belas Artes.

Entrou na Escola a 1 de Outubro de 1861; seis anos depois partia para Paris, como bolseiro do Estado. Devido à guerra franco - prussiana, deslocou-se, depois para Roma, onde na rua de S. Nicolau, 4, esculpiu o fabuloso “ Desterrado”. 

Regressa à Pátria, em 1872, torna-se em 1881, professor da Academia Portuense de Belas Artes.

A 16 de Fevereiro de 1889, suicida-se na sua casa da rua de Camões, em Gaia. 

Casou a 15 de Julho de 1885, com D. Amélia Aguiar de Macedo. Do matrimónio nasceram: Fernando de Macedo Soares dos Reis, que faleceu com 27 anos (Estudou no Colégio dos Órfãos. Foi empregado da Foto - Bazar e do Banco Comercial do Porto. Era um entusiástico pelo Esperanto) e Raquel Soares dos Reis, que morreu solteira.

Quarenta e dois anos após a sua morte - em Portugal é assim que se tratam os artistas de nomeada, porque os outros morrem à fome, se não se tornam políticos à força, - concederam à viúva e filha, a pensão de mil e quinhentos escudos mensais, por despacho de 2 de Março de 1931, do Presidente Óscar Fragoso Carmona, como gratidão da Pátria à família do genial escultor.



Humberto Pinho da Silva nasceu em Vila Nova de Gaia, Portugal, a 13 de Novembro de 1944. Frequentou o liceu Alexandre Herculano e o ICP (actual, Instituto Superior de Contabilidade e Administração). Em 1964 publicou, no semanário diocesano de Bragança, o primeiro conto, apadrinhado pelo Prof. Doutor Videira Pires. Tem colaboração espalhada pela imprensa portuguesa, brasileira, alemã, argentina, canadiana e USA. Foi redactor do jornal: “NG”. e é o coordenador do Blogue luso-brasileiro "PAZ 
Página na Internet:http://solpaz.blogs.sapo.pt/
 E-mail: humbertopinhosilva@sapo.pt

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