Alice no País das Maravilhas e o limiar entre loucura sã e sanidade patológica [Juliana Monteiro do Nascimento Araújo]

Alice no País das Maravilhas e o limiar entre loucura sã e sanidade patológica



A loucura só existe em uma sociedade, já afirmava Foucault (1961). A questão dos limites saudáveis entre loucura e sanidade, não é algo fácil de se encontrar, precisamos entender que essa é uma compreensão relativa, que leva em conta a cultura e a época. Considerando cada ser humano único, entendemos que não é possível identificar um único padrão, sendo muito tênue a separação entre normal e anormal, entre saudável e patológico.

Para ilustrar essa questão utilizaremos a trajetória da personagem Alice no filme Alice no país das maravilhas, de 2010, dirigido por Tim Burton. O filme mostra a Alice depois de 13 anos, como uma jovem tendo que tomar a decisão de viver conforme a sociedade afirma ser adequado para uma garota, aceitando um casamento arranjado, ou ouvir seu “eu interior” e seguir os passos do pai, saindo totalmente dos padrões pré-estabelecidos da época. Antes da resposta ao pedido de casamento, Alice retorna ao “país das maravilhas” e trilha uma jornada pelo seu mundo interior descobrindo-se, e assim fortalecendo o seu self tendo, portanto, condições de tomar a decisão mais adequada para si, mesmo correndo o risco de ser tachada de “louca”.
O psicólogo trabalha na promoção de saúde enfocando a subjetividade e com o objetivo de autoconhecimento e desenvolvimento pessoal, sendo assim podemos pensar que também trabalha para uma valorização de aspectos pessoais que podem ir de encontro aos padrões pré-estabelecidos por uma sociedade.

Ao consultarmos algumas teorias da personalidade encontramos um ponto que apesar de apresentado de maneira diferente em cada uma, nos leva a pensar na descoberta de si mesmo, de sua essência para uma vida psíquica saudável. Buscamos aqui refletir sobre a existência de um aspecto saudável na loucura, na medida em que essa for apreendida no sentido de sair de uma norma considerada padrão para atender ao seu eu, assim como a existência de um aspecto patológico na sanidade, ao considerarmos sãos aqueles que mesmo em detrimento do seu self seguem cegamente as normas, tornando-se alienados de si, assim como compreender que entre loucura e sanidade pode existir um equilíbrio saudável.

Alice certa e Alice errada – Loucura e sanidade a história e seus vários significados

A maneira de ver a doença mental está intimamente ligada à imagem do louco, a loucura como doença mental é bastante recente, hoje não é mais um fenômeno oposto entre razão e desrazão. Segundo Frayze-Pereira (1984 p.08) “a loucura é interior à razão”.

A loucura passou por três momentos históricos: 1- Como liberdade e verdade nos séculos XV e XVI; 2- O grande internamento nos hospitais gerais entre os séculos XVII e XVIII; 3- A época contemporânea após a revolução francesa, quando cabe à psiquiatria cuidar dos loucos dos asilos (COROCINE, 2005).

Acreditamos que a maneira como a loucura é vista e tratada, até os dias atuais, traz vestígios dessa história e de seus momentos. Todos esses séculos de segregação deixaram para a loucura o status de exclusão. Entre os séculos XV e XVIII a história mostra que a loucura foi vinculada a desrazão, a libertinagem, ao pecado, e ao inumano, o que contribuiu para uma imagem negativa da loucura. O louco ainda hoje é escorraçado e vive sem rumo, carregando esse estigma.

Na história em determinada época surge também um fascínio pelas imagens da loucura. Nessa época a loucura surge como um saber, difícil e estranho, mas que é inacessível ao homem são. A loucura abre-se a um mundo de significações, que faz surgir figuras com sentidos que só se deixa apreender sob o insano. É uma sabedoria simbólica que provem de uma sobrecarga de sentidos e de significações que só o sonho e o insensato podem alcançar.

No final da Renascença a loucura entra em uma relação reversa a razão. Elas se recusam, porém uma se fundamenta na outra.  O pensamento moderno apresentado por Descartes segrega a loucura. Ela é confiscada por uma razão dominadora, que a aprisiona desta vez filosoficamente. No século XVII a loucura não mais domina a verdade, é o pensamento que a detém. “O eu que conhece não pode estar louco, assim como o eu que não pensa não existe.” (FRAYZE-PEREIRA 1984 p. 61).

Em uma sociedade, onde não se aceita o diferente, a diversidade, a loucura é sempre uma ameaça. Como afirma Frayze-Pereira (1984) “se a loucura é nesse mundo patologia ou anormalidade é porque a coexistência de seres diferenciados se tornou uma impossibilidade.” (p.102)

A loucura tem muitas vestes, ou seja, ela se mostra de várias maneiras. E é assim que encontramos em Alice no país das maravilhas loucos e sãos em diferentes contextos: a sua tia Hermógenes é patologicamente louca, com sintomas claros como o delírio de estar à espera de seu noivo que é um príncipe, é o tipo de loucura que deve ser tratada; pois, prejudica o seu funcionamento, tanto no plano psíquico quanto nos planos social e/ou orgânico, assim com a falta de autonomia e liberdade, que acaba restringindo a sua vida.

O indivíduo só pode ser considerado louco em relação a algo ou alguém, pois é muito difícil definir a loucura por si só. As divergências a respeito da loucura são muitas, os antipsiquiatras sustentavam que não havia loucos e sãos, todo mundo era louco de certa maneira, já os psiquiatras eram aqueles capazes de distinguir os loucos dos sãos.

O pretendente de Alice, Hamsh, é um partido perfeito aceito por todos, um lorde, faz parte da alta sociedade, segue as normas, porém está totalmente alienado, não se permite pensar, segue cegamente o que lhe é imposto, mas é considerado são em relação aos costumes e a sociedade da época. Frayze-Pereira (1984 p.56) afirma que “há diferentes formas humanas de loucura. E cabe à crítica moral denunciá-las”.

Nesse sentido, sanidade está ligada a uma norma, uma regra, que se estabelece para eliminar as diferenças. Em uma cena, no início do filme, Alice é repreendida por não estar vestida apropriadamente, e rebate a mãe questionando quem decide o que é apropriado, a resposta para esse questionamento está nas normas sociais. A sanidade é para a mente o que a saúde é para o corpo, a mente funcionando de maneira apropriada, o que pressupõem que algumas pessoas saibam o que é adequado ou não.

Phillips (2008) considera a sanidade como uma integridade da mente, “um estado idealizado de hierarquias felizes e tradições infalíveis” (p.44) é usada para indicar pessoas disciplinadas, em uma sociedade de valores partilhados. Como Alice não sabe se quer se casar? Ela será feliz e terá uma vida perfeita, seria loucura não se aceitar.

A loucura por outro lado é descrita como desordem, excesso, desequilíbrio, é o que Alice era para a Aristocracia Vitoriana. Ou seja, sanidade é tudo aquilo que é comedido, dentro da lei, enquanto loucura é tudo o que foge do controle, que é proibido.

A sanidade pode ser uma estratégia para nos proteger do mundo louco, é como se reconhecer certas coisas a nossa volta pudesse destruir nosso equilíbrio. A sanidade se torna aquele lugar onde tudo é ótimo, ela é a fantasia que nos mantém sãos.

Em Salazen Grum a rainha vermelha, estava rodeada de pessoas estranhas, pois assim não reconheceria em si o defeito, o que lhe tiraria o equilíbrio. A sanidade em Salazen Grum é a fantasia, que os protege da insanidade da rainha vermelha.

Alice esteve no país das maravilhas quando criança, e ao retornar há uma discussão se ela é a Alice certa ou a Alice errada. De acordo com Phillips (2008, p. 64) “nascemos literalmente insanos”. Ele apresenta o período da infância como um período de loucura original, que por meio do desenvolvimento nos ensinara a governar essa loucura e sermos sãos. Alice cresceu, não é reconhecida no país das maravilhas porque, deixou seu estado de loucura sã (não que ela fosse louca quando criança), mas o que para ela, agora adulta, é loucura, quando criança era normal. Alice aprendeu a se proteger e se defender de seus sentimentos intensos e sensações agudas, agora poderia se dizer que ela é sã.

Porém, para os habitantes do mundo subterrâneo, a Alice “certa” é a que no mundo real seria considerada “louca”. Foucault (1975) afirma que “A doença só tem realidade e valor de doença no interior de uma cultura que a reconhece como tal” (p.49). Aqui verificamos outro aspecto da loucura, em uma visão mais antropológica que procura relativizar a loucura, mas que ao mesmo tempo traz o desvio como sua essência.

A mente sã vai controlar e adequar o que está descontrolado. O chapeleiro maluco diz a Alice que ela não é mais a mesma, que ela era muito mais “muitais”, que perdeu sua “muiteza”. A partir desse diálogo poderíamos considerar “muiteza” como um recurso interno, sendo assim, o Chapeleiro refere que Alice perdeu sua autenticidade, sua autoconfiança, sofremos um bombardeio desde o início da vida para nos “concertar” por meio da “boa educação”, o que por um lado nos faz cada vez acreditarmos menos em nós, e por outro ficarmos tanto mais reprimidos e defendidos quanto mais pressões externas sofremos.

Phillips (2008) esclarece que para os antipsiquiatras a sanidade ao extremo significava o que existe de mais embotador na cultura, a loucura neste sentido era uma resposta autêntica (muitais) ao que existia de mais desumanizador no mundo. A loucura do Chapeleiro, é também a loucura de Alice, e do pai de Alice, criativa, que busca a inovação, sem o medo das incertezas futuras. Assim, na sua forma mais extrema a sanidade torna-se um refúgio contra um novo perturbador.

A sanidade impõe limites a algo de excessivo nas pessoas, que é chamado de loucura. Esta é a sanidade que Alice encontra ao retornar do mundo subterrâneo.

O mundo subterrâneo – Teorias da personalidade e o crescimento psicológico


Partindo do pressuposto de que, a personagem Alice ao cair no buraco estaria desacordada, podemos pensar no “país das maravilhas” ou “mundo subterrâneo” como o seu mundo interno, portanto parte de sua estrutura psíquica. O caminho trilhado por Alice pode então ser comparado a um processo de crescimento psicológico.

A psicanálise nos esclarece que ao entrarmos em contato com conteúdos inconscientes, liberamos energia para ser utilizada com mais criatividade, ao desvendar os conteúdos inconscientes teremos mais autoconhecimento e podemos lidar com o sofrimento as dificuldades e conflitos com mais autonomia.

Na abordagem junguiana percebemos o processo de individuação como o caminho para a autenticidade, entrando em contato com as principais estruturas de nossa psique, integrando-as para nos tornarmos nós mesmos de maneira integra, distinta, única e singular.

A Gestalt-terapia busca aumentar a awareness, estar em contato com a nossa existência e saber quem se é, trocar o apoio ambiental para o auto apoio. Nestas teorias entendemos que o crescimento psicológico, busca o autoconhecimento, o que dá o suporte para o indivíduo ser mais autêntico e criativo.

Alice no inconsciente

A princípio gostaríamos de apontar algumas considerações levantadas por Tim Burton diretor do filme e alguns dos atores, apresentadas no bônus do DVD intitulado Encontrando Alice. Tim Burton fala da ideia de explorar a natureza dos sonhos no filme, é levantada a questão de que no país das maravilhas nada é totalmente bom ou mal, e todos são de alguma forma loucos. Alice no filme diferente do livro está tentando saber quem ela é, o diretor também aponta para a questão de que o que Alice está vivendo no país das maravilhas tem representação com o que ela vive. O início do filme mostra Alice como era antes, falam de como ela era próxima de seu pai que morre, e a deixa em um luto que revela sua falta de jeito e seu desconforto com a sociedade. Eles entendem a jornada emocional de Alice como a história de Alice reencontrando sua “muiteza”, e destacam que a maior questão de Alice é recuperar sua força e descobrir que pode ser confiante, e quando ela aceita sua força, a rainha branca pode recuperar o seu trono e as duas mudam, recuperam o seu poder.

Partindo dessas considerações, podemos fazer uma leitura da história de Alice baseada nas três teorias que acabamos de ver, e entender seu crescimento psicológico. Ao cair no buraco Alice entrar no mundo subterrâneo, ou no seu inconsciente. Vale ressaltar que apesar da Gestalt-terapia não trabalhar com o inconsciente ela não o nega, e em seu trabalho Perls (1977) considera o sonho como projeção de um self alienado do indivíduo, portanto também uma parte desconhecida do sujeito; nesse sentido, estando Alice sonhando, iremos considerar alguns aspectos do inconsciente. Pois de acordo com a afirmação de C. G. Jung (2004, p. 04) “É no inconsciente que mergulhamos todas as noites”.


Alice não reconhece nada no mundo subterrâneo, apesar de não lhe causar tanta estranheza. É como se fosse um lugar esquecido, mas não nunca visto; o que faz sentido: é seu mundo interno, porém com conteúdos recalcados ou que nunca tiveram acesso à sua consciência, reprimidos pelos padrões da vida na Aristocracia Vitoriana, e portanto irreconhecíveis. Para chegar ao mundo subterrâneo Alice tem uma longa queda em um buraco muito profundo: na teoria psicanalítica o inconsciente é considerado a instância psíquica inscrita mais profundamente, e a queda profunda sugere o quanto esses conteúdos são difíceis de serem alcançados.

O inconsciente é atemporal, os personagens não acreditam que aquela Alice é a mesma de antes, pois não consideram os anos que passou desde a última vez que Alice esteve ali. O mundo subterrâneo também é confuso, e repleto de imagens simbólicas, assim como nosso inconsciente. Quando Alice é desafiada a lutar pelo reino, ela está sendo chamada para salvar seu mundo interno, que aparecia simbolicamente devastado, por tudo o que Alice reprimiu de si mesma, para viver nos padrões sociais.


Alice está em um momento tenso de sua vida quando corre atrás do coelho e cai no buraco. Os sonhos em psicanálise são uma maneira de equilibrar parcialmente os anseios e limitações da vida real, Jung (2004, p. 103), afirma que “os sonhos são a reação natural do sistema de auto-regulação psíquica.” Já na Gestalt-terapia os sonhos são um alerta de necessidades que temos em aberto. O trabalho com o sonho tem um papel importante tanto na psicanálise, quanto na psicologia analítica e na Gestalt-terapia; embora seja trabalhado de maneira diferente em cada abordagem. Verificamos que há um consenso em relação ao conteúdo dos sonhos, como sendo manifestações de aspectos do sujeito. Assim, os personagens do “país das maravilhas” representam partes da Alice que foram reprimidas, ou que ela desconhece.

Nessa perspectiva, a rainha vermelha representa a necessidade de controle, de manipulação de ideias, a insegurança e instabilidade emocional. A rainha branca representa o feminino, a sutileza, a magia e o equilíbrio. É a poção da rainha branca que traz Alice de volta ao seu tamanho normal. Absolém, a lagarta azul, aparece como a busca de conhecimento, a sabedoria, e representa a transformação de Alice: a medida que Alice vivencia seus desafios, Absolém passa pelo processo de metamorfose de lagarta para borboleta. A lebre representa a ansiedade e agressividade de Alice, ao tremer e jogar as coisas para todos os lados. O coelho branco mostra a preocupação com os compromissos, o que se “deve” fazer. Os gêmeos são a representação do seu lado infantil que foi deixado de lado, por ser mal compreendido pelos adultos. O gato risonho traz o medo e a covardia que Alice precisa vencer, ele é quem desaparece nas horas difíceis.


Para Jung esses personagens representam a sombra de Alice. Além destes temos ainda o Chapeleiro, que seria a representação do animus de Alice, que tem muitos aspectos do pai dela: a loucura do chapeleiro, sua criatividade e espontaneidade, remetem ao que Alice teve de modelo masculino, o seu pai era visto como um visionário.

Na perspectiva freudiana, a Rainha Vermelha pode representar o superego de Alice. Ela é a lei no mundo subterrâneo, é quem impõe os dogmas e crenças. Ela também representa a sociedade rígida, assim como a figura da mãe que lhe impõe regras, postura e até um casamento arranjado. Ao entrar em contato com esses seus aspectos internos, Alice passa por um processo de crescimento psicológico; para a teoria junguiana, o processo de individuação, para a freudiana a liberação de conteúdos reprimidos e para a Gestalt a expansão da consciência através da awareness.





Em sua viagem Alice ora está grande demais, ora pequena demais, como se realmente não fosse a Alice certa, e é apenas quando chega ao castelo da rainha branca que Alice volta ao seu tamanho adequado, como se estivesse se reencontrando, e é nesse momento que Absolém diz que ela está bem perto de ser a Alice. Ao enfrentar o Jaguadarte Alice está enfrentando a sociedade que molda, julga, oprime e destrói a sua criatividade.

Alice passa a tomar consciência de aspectos dela que não reconhecia, entra em contato com seus medos, e à medida que os encara cresce e se torna mais consciente, na Gestalt-terapia esse processo é visto como uma expansão da consciência, uma busca de awarennes. Notamos uma mudança não só em Alice, mas nos personagens do seu sonho, que acompanham a sua mudança psíquica: o Gato risonho se arrisca para salvar o Chapeleiro, Absolém se transforma em borboleta, o Chapeleiro volta a dançar o “passo maluco”, a rainha branca assume novamente o comando do mundo subterrâneo. Ao cortar a cabeça do Jaguadarte, Alice devolve o equilíbrio ao seu mundo interno.

Alice se torna a Alice certa quando aceita o seu desafio. Enfrenta seus medos, se permite pensar e decidir por si só o que fazer, toma as rédeas do seu destino, luta e vence o Jaguadarte. E é assim que Alice volta do mundo subterrâneo, com os conteúdos do seu inconsciente integrados como aponta a individuação de Jung, as energias antes recalcadas, livre para serem usadas em processos mais criativos, como sustenta a psicanálise de Freud e mais aware de si como argumenta a Gestalt-terapia de Perls, integrada, com autonomia para fazer escolhas, e responder ao ambiente com criatividade e espontaneidade, sem estar presa aos “deverias” impostos pela sociedade, livre para dizer não aos papeis sociais impostos, livre para seguir de forma individualizada.

A aristocracia vitoriana e Salazem Grun – Sanidade patológica x loucura sã



Phillips (2008) identifica a verdadeira sanidade como “qualquer coisa em nós que se recuse a sacrificar nossos mundos interiores, nossas visões singulares, para ter sucesso no mundo externo, o mundo como ele é” (p. 27). O autor ressalta que, para os antipsiquiatras, coisas que reconhecíamos como indícios de normalidade, eram também as que nos alienava de nós mesmos e dos outros, portanto não seria normal ser normal. A falsa sanidade busca a uniformidade e qualquer grupo que exija as fusões da individualidade enlouquece o indivíduo.

Na sociedade aristocrática onde vivia Alice, assim como na nossa, existem muitas regras que procuram uniformizar os grupos, Alice não se vestia da maneira que consideravam adequada, não pensava adequadamente, por isso não estava dentro dos padrões dessa sanidade. Alice, assim como o pai, gostava de imaginar coisas impossíveis, era ousada, mas negou boa parte de si para corresponder as expectativas da mãe e da sociedade. Parte de nós acaba se adaptando e desenvolve a ideia de que estamos errados, e é essa parte alienada que se alia a sociedade para reprimir nossa outra parte.


A criança tem uma natureza apaixonada, mas para se tornar membro aceito na sociedade sacrifica essa natureza por algo que pensa ser melhor. São oprimidas com os medos que os adultos têm em relação a própria sanidade. Phillips (2008) aponta que o autoconhecimento pode ser perigoso, a sanidade seria a arte de não conhecer tudo aquilo que se soubéssemos poderia nos levar a loucura. Porém, segundo o autor, a pessoa verdadeiramente sã nunca se conforma com o mundo, pois a conformidade trai aquilo que realmente ela é.

Alice não se deixou alienar, era diferente das moças da sociedade, sua mãe e sua irmã tentavam convencê-la a se adaptar, a seguir os padrões, mas algo em Alice não se encaixava naqueles padrões. Alice por conta da personalidade diferenciada do pai, que possibilitava o suporte à sua imaginação, não aprendeu a ceder aos apelos da sociedade a ponto de se abandonar totalmente.

Perls (1977) afirma que o primeiro e último problema do homem é se integrar e, ainda ser aceito pela sociedade, pois ao compactuar com os desejos da sociedade, aprendemos a ignorar nossos sentimentos, desejos e emoções.  Essa perspectiva é vivenciada na sociedade aristocrática da era Vitoriana, e também no mundo interno de Alice, pois no reinado da Rainha vermelha, os habitantes do Mundo subterrâneo eram pressionados a se adaptarem aos seus caprichos; em Salazem Grun, onde ficava o castelo da rainha, só eram aceitas as pessoas que tinham qualquer parte do corpo de tamanho desproporcional. A rainha por ter a cabeça grande, impunha um padrão conforme o seu, como resultado as pessoas, passaram a usar narizes, orelhas e barrigas falsas, para enganar a rainha. Phillips (2008) a esse respeito menciona que temos grande gasto de energia nesse conflito entre a exigências externas e a nossa natureza interna. Seguindo o que “deveria” ser, a pessoa se torna falsa, constrói um ideal de como deveria ser e não como é.




Phillips (2008) argumenta:

A loucura em sua melhor forma, é uma jornada rumo à verdadeira sanidade, rumo a autenticidade de nossa verdadeira natureza, através da loucura estamos em contato com o que há de melhor em nós. A cultura corrompe nossa verdadeira sanidade. (p.25)

A sanidade nos mantém no domínio do já conhecido, ela pode ser tranquilizadora, mas também vazia. Em uma cultura comprometida com a criatividade, individualidade e talento, a sanidade parece inglória.

A sanidade modera onde a loucura excede, assim a loucura pode alcançar uma felicidade que a razão e a sanidade podem reduzir.

O sangue do Jaguadarte – Os limites entre normal e patológico



Sãos e loucos têm muito em comum, as diferenças entre um e outro ficam pouco claras, e por isso a distinção do que é loucura e do que é sanidade vem sempre acompanhada de uma interrogação. Sãos e Loucos são cúmplices, o indivíduo são vê um pouco de si na loucura, um está ligado ao outro muito mais do que queiram reconhecer. Loucura e sanidade são extensões uma da outra.

Se o saudável é ser são e louco, como saber a medida? Como não ultrapassar o limiar saudável entre loucura e sanidade? Esse é sem dúvida um ponto bastante controverso, cada um tem seu limite próprio, o de Alice estava no momento em que o Chapeleiro pede para que ela fique no país das maravilhas: se Alice deixasse de beber o sangue do Jaguadarte que a levou de volta a realidade externa, estaria fazendo um corte com essa realidade e entrando no campo da psicopatologia.

Winnicott (2011) afirma que um homem ou uma mulher é saudável quando são “capazes de alcançar uma certa identificação com a sociedade sem perder muito de seus impulsos individuais ou pessoais” (p. 09). Algumas perdas devem existir, para controle dos impulsos, mas em uma identificação extrema perdemos o self, o que não está no campo do normal. Para o autor o saudável não é fácil, já que não se limita à simples ausência de doenças psiconeuróticas. E mesmo o indivíduo saudável tem medos, sentimentos conflitivos, dúvidas e frustrações. O importante para a pessoa estar saudável é que sinta que está vivendo sua própria vida, assumindo suas escolhas, sendo independente e autônoma.

Para Zinker (2007) o conhecimento, a existência e a felicidade só são encontrados com a reconciliação das diferenças. Um comportamento integrado possibilita uma gama de respostas entre os extremos polarizados, e a pessoa é capaz de responder com flexibilidade, criatividade e espontaneidade a uma variedade de situações.



Mas, colocar os loucos sobre um pedestal, deixando-se fascinar por seus poderes e acreditar no lucro de um saber inatingível aos não loucos, pode desviar nossa escuta da vivência trágica dos loucos. Por isso a sanidade pode ser considerada como o realismo necessário para a sobrevivência psíquica, é a sanidade que dá moderação a loucura e a fantasia.

Mas também crer numa loucura localizada no indivíduo e transfigurar o louco em monstro nos leva a recusar sua humanidade, e também nos faz esquecer que algo se diz através da loucura. Assim, entendemos que como afirma Winnicott apud Phillips (2008), “podemos ser realmente pobres se formos apenas sãos”, tanto quanto “somos ainda mais pobres se formos apenas loucos”, como complementa Phillips. (p.29)

Considerações



Falar de sanidade e loucura é fascinante e ao mesmo tempo difícil, assim como o saudável e o patológico, pois ao mesmo tempo que esses termos têm sentidos antitéticos, também têm os limites entre um e outro muito próximos. Buscando identificar os limites saudáveis da loucura e da sanidade a partir dos seus significados, levando em consideração a questão cultural, mas principalmente o sentido atribuído ao indivíduo louco ou são, logo, percebemos que não se pode dar um valor apenas negativo ou apenas positivo para a loucura e nem para a sanidade. Além de encontrarmos na  loucura alguns aspectos saudáveis, e verificarmos que uma sanidade baseada apenas nas normas impostas pode ser considerada patológica à medida que aliena o sujeito de si mesmo.

Nesta perspectiva o filme de Tim Burton ilustra perfeitamente a partir da jornada da personagem Alice, estes aspectos da sanidade e da loucura patológica, assim como da sanidade e da loucura sã, além de identificar na personagem o processo de crescimento psicológico, baseado no seu autoconhecimento.

Esperamos desmistificar a loucura, e talvez incitar a busca interior da loucura sã de cada um.

Referências:

ALICE no país das maravilhas.Direção: Tim Burton, Estados Unidos, Disney, 2010. 1 DVD vídeo (109min).

COROCINE, Sidnei Celso. A fabricação da periculosidade: um retrato sobre a violência nas instituições. Ed. Quártica, Rio de Janeiro, 2005.

FRAYSE-PEREIRA, J.A. O que é loucura. Brasiliense. São Paulo, 1984.

FOUCAULT, M.”A loucura só existe em uma sociedade” (entrevista com J.-P. Weber), Le monde, n 5.135, 22 de julho de 1961.

FOUCAULT, M. História da loucura na idade clássica. Perspectiva. São Paulo, 1978.

FOUCAULT, M. Doença mental e psicologia. Tempo Brasileiro. Rio de Janeiro, 1975.

JUNG, C. G. Fundamentos da psicologia analítica. Editora Vozes. 12ª edição. Petrópolis, 2004.

PERLS, Frederick S. Gestalt-terapia e potencialidades humanas. In: STEVENS, John O. Org.) –Isto é Gestalt. Summus Editorial, São Paulo 1977. p. 19-28.

PHILLIPS, Adam. Louco para ser normal. Jorge Zahar Ed., Rio de Janeiro, 2008.

WINNICOTT, Donald W. Tudo começa em casa. Editora WMF Martins Fontes, 5ª edição. São Paulo, 2011.

ZINKER, Joseph.Processo criativo em Gestalt-terapia. Editora Summus, São Paulo, 2007.

FICHA TÉCNICA DO FILME

ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS

Gênero: Fantasia
Direção: Tim Burton
Roteiro: Linda Woolverton
Elenco: Mia Wasikowska, Johnny Depp, Helena Bonham Carter, Anne Hathaway, Alan Rickman, Barbara Windsor, Bonnie Parker, Carl Walker, Caroline Royce, Chris Grabher, Chris Grierson, Christopher Lee, Crispin Glover, Dale Mercer, David “Elsewhere” Bernal, David Lale, Eleanor Gecks, Eleanor Tomlinson, Ethan Cohn, Frances de la Tour, Frank Welker,  Harry Taylor, Hilary Morris, Holly Hawkins, Jacqueline Tribble, Jemma Powell, Jessica Oyelowo, Jim Carter, Joel Swetow, John Bass, John Hopkins, John Surman
Ano: 2010

Fonte: (En)Cena

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