O livro que surgiu de um encontro entre Guimarães Rosa e Manoel de Barros [Paulo Ribeiro]

O livro que surgiu de um encontro entre Guimarães Rosa e Manoel de Barros



Em 1952, João Guimarães Rosa, em pleno trabalho de “elaboração” de Grande Sertão: Veredas, visitou o Pantanal do Mato Grosso em busca de subsídios e para observar o comportamento dos bois. Na ocasião, Manoel de Barros foi uma espécie de guia pantaneiro de Rosa. Embora o fluxo da linguagem do sertão fosse diferente do refluxo da linguagem do pantanal, embora ambos, sertão e pantanal, pertençam à mesma categoria de terra-de-sem-fim, Manoel, então com dois livros publicados — Poemas concebidos sem pecados (1937) e Faca Imóvel (1942) — acabou subvertendo Rosa. Note-se que Rosa já era autor consagrado pela excelente repercussão de Sagarana. Mas essa subversão se deu a tal ponto, que Manoel acabaria se transformando no personagem de um livro raríssimo, tão raro que nem consta mesmo na Bibliografia oficial de Guimarães Rosa: Um certo vaqueiro Mariano. A edição foi de apenas 116 exemplares, numerados, e todos eles assinalados pelo próprio punho do autor.1

Escreveu ele na abertura do livro:

“Em julho, na Nhecolândia, Pantanal do Mato Grosso, encontrei um vaqueiro que reunia em si, em qualidade e cor, quase tudo o que a literatura empresta esparso aos vaqueiros principais. Típico e não um herói, nenhum. Era tão de carne e osso, que nele não poderia empessoar-se o cediço e fácil da pequena lenda. Apenas um profissional esportista: um técnico, amoroso de sua oficina. Mas denso, presente, almado, bom condutor de sentimentos, crepitante de calor humano, governador de si mesmo; e inteligente. Essa pessoa, este homem, é o vaqueiro José Mariano da Silva, meu amigo.”

Bom condutor de sentimentos, Manoel de Barros seria um bom guia para a subversão da ordem natural das coisas, a subversão que João Guimarães Rosa empreenderia dali em diante. Consta mesmo que Rosa teria ficado deslumbrado diante daquela figura de espantosa sensibilidade que viera cruzar o seu caminho. Em entrevista concedida a revista Bric-à-Brac, Manoel de Barros confirma e fala efetivamente do encontro dos dois:

“… vi poucas notas da viagem de Rosa ao Pantanal. Quis saber, ele, ainda, de meus receios sobre as confusões com o exótico. Falei, falei demais espichei. Dei a entender que se estava olhando o Pantanal só como uma coisa exótica. Um superficial para só se ver e bater chapa. Mesmo os que cantavam em prosa e verso ficavam enumerando bichos, carandás, aves, jacarés, seriemas; e que essa enumeração não transmite a essência do pantanal, porém só sua aparência. Havia o perigo de se afundar no puro natural etc. Precisamos de um escritor como você, Rosa, para frear com a sua estética, com a sua linguagem calibrada, os excessos de natural. Temos que enlouquecer o nosso verbo, adoecê-lo de nós, a ponto que esse verbo possa transfigurar a natureza. Humanizá-la. Rosa fez tudo isso. Alguns anos depois deu a público o seu Com o vaqueiro Mariano, um livro intenso de poesia e transfiguração.”2

Na época do encontro, Manoel já se ocupava com o que vem a ser a essência de toda a sua trajetória poética: a superação do ‘puro natural’. Negar a ‘lenda-pantanal’ dos poetas e cantadores. Dos lugares-comuns da “encantação” com o jacaré e os infactíveis pôr-dos-sóis nas águas enlameadas. Manoel já buscava a espiritualização das coisas.

Dos dias de convívio, Manoel nos fala de uma escrita ideal, uma escrita estratégica passada para João. Essa escrita vinha sendo mentalizada no interior de Manoel há um bom tempo. E ele falou a Rosa. E vemos como este tão bem soube assimilar a lição já na feitura do Vaqueiro Mariano. Aquele pequeno relato da sua viagem ao pantanal seria a pré-escrita do Grande Sertão: Veredas.

Manoel é um poeta atilado. Tinha já nessa época a consciência da necessidade da transfiguração da realidade através da literatura. Ora, era exatamente a consciência dessa prática, com a chamada “Terceira Geração Modernista”, que traria como consequência uma intensa revisão da linguagem ficcional brasileira, como bem demarcou em um ensaio Eduardo Coutinho.3 É nesse momento, a partir dos anos 40, que surge a preocupação com o caráter de literariedade da narrativa, e a perspectiva mimética cede lugar a um tipo de ficção que Coutinho denomina de ‘auto-reflexiva’.

Baseada num discurso intertextual, contrário ao da geração de 30, esta narrativa é “um discurso da busca, da experimentação, que indaga mais do que afirma qualquer coisa, e transforma o leitor passivo em coopartícipe do processo criador, exigindo dele uma resposta ativa, inquiridora de sua própria noção de realidade.” 4

Para este tipo de narrativa, impossível sustentarem-se verdades indiscutíveis, logo não há mais lugar para o discurso de certezas que tanto caracterizou o romance de 30. Agora, o que importa é buscar, indagar, abrir caminhos e, com este propósito, rompe-se com a aura da obra literária, pondo a nu seu próprio processo de produção.

Embora a maneira de expor as próprias entranhas varie substancialmente de uma obra para outra na narrativa desse período, observa-se em todos os ‘autores de reflexão’ a presença de um denominador comum: o questionamento da linguagem dogmática da ficção anterior — puro veículo a serviço de uma verdade exterior à obra mesma — e a exploração de novas formas, de novas possibilidades de expressão que, por não se acharem cristalizadas, prestam-se à construção do poético.

É uma narrativa que dispensa a imagem coesa, generalizada e superficial, forjada na estética naturalista, e cede lugar à fragmentação e ao caos, emergindo a pluralidade e as contradições abafadas no período anterior. Do mesmo modo, a obrigatoriedade de se registrar o elemento local passa a ser questionada, e a narrativa se projeta em âmbito mais universal.

Agora a ficção brasileira será conduzida por um homem que  “quase nada sabe mas desconfia de tudo”. É a matriz exata para o aparecimento de um personagem como Riobaldo.

Com efeito, daquele encontro, Manoel de Barros assinala que pedira a Rosa que, ao narrar o pantanal, evitasse o exotismo, a folclorização e, supremo pedido, que soubesse dar o exato desregramento do natural. Desregramento esse que é a essência da teoria manoelina em seu fazer poético, apreendido de Eliot: saber conter a emoção.

Lembremos que Manoel já pedia um escritor como Rosa, que freasse com a sua estética, com a sua linguagem calibrada, os excessos de natural. Lembremos que Manoel queria “enlouquecer o verbo, adoecê-lo de nós”, a ponto que esse pudesse transfigurar a realidade. “Humanizá-la”, como disse.

Na verdade, a preocupação de Manoel de Barros, conclamando a intervenção pessoal do criador na natureza, era bastante oportuna, à medida que a escrita que se fazia em torno das coisas regionais de então constituía-se efetivamente em simples enumeração. Retratava-se com “pertinente” distância o homem e o seu meio. Contudo, esse puro recontar, herança do velho Naturalismo agora agonizante, não transmitia a essência do pantanal, mas contraditoriamente, somente a sua aparência generalizada. Manoel alertava para este perigo estético. Mostrava que, seguindo por este caminho, poderia também ele, Rosa, afundar-se no puro-natural.

Não caindo nesta generalização, Guimarães Rosa evitaria aquilo que Eduardo Coutinho diagnosticou como sendo “a sede de captação do típico”, que faz com que se dê condição de univocidade a algo que não é unívoco, mas, ao contrário, múltiplo, contraditório, e acaba-se incidindo em uma série de clichês que compõem um quadro fixo e obviamente limitado. Além disso, “o que se radiografa é apenas a fachada, a faca epidérmica do real, ou pelo menos aqueles aspectos sensíveis à observação e apreensão empírica, deixando-se de lado tudo o mais que transcenda este âmbito”.5

Todavia, o alerta de Barros logo tomou o seu efeito. Em Um certo vaqueiro Mariano, a preocupação com a narrativa, com a descrição contadora já se manifesta através de uma intervenção que particularizaria o estilo de Guimarães Rosa: o tom confessional, as evocações bastante pessoais em meio ao relato. Num trecho desse livro “sobre a alma dos bois”, súbito, Rosa pára a narrativa e escreve:

“Te aprendo ao fácil, Zé Mariano, maior vaqueiro, sob de vez contador. A verdadeira parte, por quantas tenhas, das tuas passagens, por nenhum modo poderás transmitir-me. O que a laranjeira não ensina ao limoeiro e que um boi não consegue dizer a outro boi. Isso o que acende melhor teus olhos, que dá trunfo à tua voz e tento às tuas mãos. Também as histórias não se desprendem, apenas do narrador, sim o performam: narrar é resistir.”

Essa capacidade de resistir ao puro-natural é que marcará de forma profunda a imensidão poética do Grande Sertão: Veredas. Como guiador de Rosa no livro dos bois pantaneiros, Barros lhe dera uma empresa nova e dura, cumprida à risca e com universal amplidão no livro posterior do mineiro.

Mesmo que já professasse o poético em Sagarana, vislumbrando uma narrativa adequada para o trato da literatura regional após a exaustão da década de 30, foi depois do encontro com Manoel — com sua “vagarosa mansidão aprendida”— que João Guimarães Rosa obteve a certeza do caminho: que não poderia “empessoar-se do cediço”, calibrando o foco para esmaecer o fácil da pequena lenda do regionalismo. Bom condutor de sentimentos, crepitante de calor humano, governador de si mesmo, Rosa esboçara no pantaneiro a feitura do sertaneiro Riobaldo.

Era este o caminho. Temos no Vaqueiro Mariano um primeiro exercício do texto que corromperia toda a prosa até então feita sobre o puro natural. Deste texto do vaqueiro, com as lições apreendidas com o vaqueiro que tinha a boiada na mão, Rosa partiria para a escrita do seu clássico. Mariano é o mentalizador dos falares, dos narrares de Riobaldo. Assim que, João Guimarães Rosa construiria sua epopeia a seco, poética, sem afundar-se no charco do puro natural.

Manoel pediu e Rosa fez. Encimando a epígrafe de Conrad em um dos poucos exemplares de Um certo vaqueiro Mariano está lá a dedicatória: “Olha aí Manoel, sem folclore, nem exotismo, como você queria”.

NOTAS 

1 ROSA, João Guimarães. Um  certo Vaqueiro  Mariano.  Rio  de  Janeiro.

Edições Hipocampo. 1952. 

2 Revista  Bric-à-Brac.  Nº 03, Brasília DF. Editores, Luis Turiba, João dos
Reis Borges, Lúcia Miranda Leão e Luis Eduardo Resende. 1989. 

3 COUTINHO, Eduardo F. O Discurso auto-questionador de uma narrativa em busca de seu próprio perfil.  Porto  Alegre. In: Anais do 1º Congresso da Associação Brasileira de Literatura Comparada. Vol. III. Ps. 61-66. 1988.

4 Idem ensaio citado. Pág.63; 

5 Ibidem. Pág. 63.

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Paulo Ribeiro é escritor, autor, entre outros, de Vitrola dos Ausentes e Iberê. Lançará em breve uma coletânea de contos Bagorra

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