O amor não é uma mágica – texto inédito de Flávio Gikovate [Natthalia Paccola]
O amor não é uma mágica – texto inédito de Flávio Gikovate
Por Natthalia Paccola
Texto publicado no site Fãs da Psicanalise
Para encontrar um bom
parceiro ou parceira, o melhor é começar usando a razão. Nesse sentido, os
sites e aplicativos de relacionamento podem ser um caminho interessante.
Os brasileiros estão entre
os que mais usam o mundo virtual para se relacionar.
Nos orgulhamos disso e,
paradoxalmente, quando se fala em sites e aplicativos de relacionamento amoroso
(não estou falando de sites eróticos), a maioria ainda reage de forma
extremamente preconceituosa.
Encontrar parceiros pela via
tecnológica é visto como vergonhoso e indício de incompetência para os
encontros que deveriam acontecer na vida real.
A explicação para essa
rejeição específica deriva, creio, da visão que a maioria tem do amor. Acham
que o amor, para ser verdadeiro, tem que acontecer por acaso, como se fosse uma
mágica, fruto da “flechada do Cupido”.
Até hoje as pessoas o veem
como uma emoção que tem que ser livre de qualquer fundamento lógico e
consideram humilhante a interferência da razão; ela rebaixa a qualidade do
encontro que passa a ser considerado como um evento de segunda categoria.
O problema dos encontros que
começam na rua, nos bares, baladas ou por indicação de amigos é que muitas
vezes o encantamento se dá em função de traços um tanto superficiais e que não
têm nada a ver com o caráter ou com a essência do outro. Isso sem falar que
muitas vezes o encontro ocorre de madrugada, regado a enormes doses de álcool.
Se num primeiro momento as
moças parecem mais interessadas em envolvimentos sérios, a experiência mostra
que, uma vez havendo a continuidade da relação, os homens são, ao contrário da
crença geral, os mais românticos e se apaixonam mais facilmente, sem levar
muito em conta os elementos racionais que permeiam a mente feminina (elas
avaliam melhor as características da pessoa antes de se enamorarem).
Não por acaso, são os
homens, e não as mulheres, que foram os responsáveis por quase toda a
literatura romântica disponível.
Com o tempo, quando conhecem
melhor a parceira, muitos acabam se decepcionando. Percebem que se envolveram
sem levar em conta os aspectos essenciais, como o caráter e a personalidade do
outro. Quando a idealização inicial se desfaz e vem o choque com a realidade, muitos
relacionamentos terminam.
Os sites e aplicativos de
encontros podem ser muito convenientes para evitar esse tipo de frustração uma
vez que percorrem o caminho inverso: começam pela definição das afinidades,
pelas conversas em que se conhece melhor a personalidade um do outro.
Quando essas propriedades
estão bem afinadas é que se darão os encontros reais, onde serão avaliados os
aspectos mais emocionais e eróticos de um eventual relacionamento.
Todos os sites de
relacionamento se baseiam na ideia de que o essencial são as afinidades. As
principais são, é claro, as de caráter. Porém, são importantes as que envolvem
interesses de lazer, gostos esportivos ou turísticos etc. Quando os planos
avançam na direção da coabitação, é claro que as afinidades têm que ser maiores
ainda: mesmos projetos financeiros, mesmos pontos de vista acerca de ter ou não
filhos, onde se vai morar etc.
É bom que tudo seja bem
conversado; isso evitará discussões futuras e contribuirá de uma forma decisiva
para um relacionamento duradouro e de qualidade. Os bons relacionamentos são
aqueles em que ambos crescem, têm sua autoestima aumentada, que se tratam de
forma carinhosa; e, acima de tudo, que respeitem as inevitáveis diferenças.
Os que se cruzam pelos sites
começam a conversar teclando. Depois vêm as conversas telefônicas, isso quando
já estão mais confiantes e interessados. Durante as conversas, como acontece no
plano real com a maior parte das mulheres, ambos aprendem mais sobre o outro, o
que fazem, quais suas condições sociais e familiares.
Tudo isso é racional! O
curioso é observar que quanto maiores as afinidades, maior a tendência para que
o encantamento cresça. É nesse ponto que marcam os encontros no mundo real,
condição em que entram em jogo os outros fatores, especialmente os de natureza
erótica. Isso irá acontecer depois que a razão já avalizou a aproximação deles.
Falar em racionalidade no
amor continua sendo uma blasfêmia.
Discordo. Estudo o tema
desde que me formei, há 50 anos. Freud refletiu sobre as escolhas sentimentais
na sua Introdução ao Narcisismo (1914). Para ele as escolhas amorosas podiam
acontecer de duas formas: “por oposição (defendida por ele) ou segundo o
critério narcisista” (que corresponde ao que chamo de encantamento entre
semelhantes).
No passado, a preocupação
com as afinidades não era tão importante, uma vez que os homens mandavam e as
mulheres obedeciam; e as chances de conflito eram menores.
A ideia, fundada no bom
senso para a época, era a de complemento—um tem o que falta no outro. Ainda nos
anos 1970 percebi que a maioria dos casais continuava a se formar da mesma
forma. Eles não só eram diferentes, mas opostas quanto ao caráter.
O que acontecia? Viviam às
turras. Sim, porque com o mundo mais unissex e rico em variedades de lazer, as
afinidades foram ganhando importância; e hoje se tornaram indispensáveis.
Numa relação respeitosa não
há lugar para as “brigas normais dos casais”. Amor é paz, aconchego e
companheirismo. Do contrário, é melhor ficar sozinho. A qualidade de vida dos
solteiros está cada vez melhor, de modo que se transforma automaticamente numa
“nota de corte” para os relacionamentos: tudo o que for pior do que viver só
irá desaparecer. No futuro só existirão solteiros e bem casados!
Os sites de relacionamento
invertem as prioridades nas escolhas sentimentais. Se elas eram, principalmente
para os homens, de baixo para cima (erotismo, aspectos sentimentais
inespecíficos do tipo: timbre de voz, jeito de andar, sorriso…) para depois
pensarem na questão do caráter e das afinidades, hoje eles contribuem para que
os critérios sejam de cima para baixo: aval da razão, depois o sentimental e
finalmente o erótico. Os três são indispensáveis, mas a margem de erro quando
se começa a avaliação pela razão é bem menor. É claro que tudo isso também pode
acontecer nos encontros no mundo real e que deveriam seguir o exemplo do
virtual. Aliás, acho que falta muito pouco para que deixemos de pensar nas diferenças
entre esses dois mundos.
(Autor: * Flávio Gikovate –
faleceu no dia 13/10/2016, após uma breve batalha contra um câncer de pâncreas,
aos 73 anos. Psiquiatra e escritor, ele escreveu este artigo semanas antes)
(Fonte: veja.abril.com.br)
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