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Hipoteticamente era para
chover pelo menos uma chuva por mês.
Hoje, marca o quadragésimo oitavo dia sem
chuva.
Estava sentado na cama, abaixado, amarrando o cadarço do tênis e
tentando evitar que o sangue escorrendo do nariz o sujasse. Uma gota foi
inevitável.
Deveria ser umas quatro da tarde. Perdeu o relógio outra vez.
Fechou a casa sem cerimônia, sentou na calçada suja e esperou.
A rua quase
deserta estava movimentada aquele dia.
Carros da polícia seguiam em direção a
uma grande construção abandonada no final do bairro. Não demoraria.
André Gorayeb /
Cinthia Andressa de Lima /
Entrevistas /
Wuldson Marcelo
Entrevista com o ilustrador André Gorayeb [Cinthia Andressa de Lima e Wuldson Marcelo]
Entrevista com o ilustrador André Gorayeb - um beatnik, maldito e marginal entre nós
A arte de desconstruir Cuiabá com Gorayeb
O ilustrador e músico André Gorayeb é o autor da capa da coletânea de contos e poemas “Beatniks, Malditos e Marginais em Cuiabá: Literatura na ‘Cidade Verde’”.
Quando os organizadores da coletânea, Cinthia Andressa de Lima e Wuldson Marcelo, conversavam sobre qual ilustrador convidar, o nome de André foi o primeiro a surgir, e quando conferiram a sua produção, uma certeza apareceu como absoluta e se desenhou como uma decisão irrevogável: André era o cara certo para o trabalho.
Cinthia Andressa de Lima /
Colunas /
Jana Lauxen /
Wuldson Marcelo.
"Beatniks, malditos e marginais em Cuiabá" [Cinthia Andressa de Lima, Jana Lauxen e Wuldson Marcelo]
Literatura na Cidade Verde: etílica e intensa, mas
sem perder a ternura jamais!
"Beatniks, malditos e marginais em Cuiabá" no site da Editora Multifoco. O resultado da seletiva - autores, contos e poemas.
"Beatniks, malditos e marginais em Cuiabá" no site da Editora Multifoco. O resultado da seletiva - autores, contos e poemas.
Uma
grande Antologia! Organizada por Cinthia Andressa de Lima, Jana Lauxen e
Wuldson Marcelo.
Olá
beatniks, malditos, marginais, viajante deste mundo sem fronteiras e aqueles
que curtem beber umas cervejas na Maria Taquara, no centro pulsante e caótico
de Cuiabá, depois de um pequeno atraso, enfim, são divulgados os nomes dos
autores e dos contos e poemas que formarão com suas aventuras, desventuras,
delicadeza ou violência a coletânea mais contestadora e embriagante da nação
verde e amarela, a dos Beatniks, malditos e marginais em Cuiabá: literatura na
Cidade Verde.
Após
a disputa acirrada, selecionamos 22 textos, sendo 13 contos e 9 poemas, e mais
um poema em homenagem a Antônio Sodré, El Poeta de la Transmutación,
falecido há dois anos.
Assim,
agradeço a todos os participantes, que com sensibilidade e ousadia, tornaram a
seleção um processo árduo, mas prazeroso.
Agora
é tomar um porre, ouvir um jazz, amar e festejar/respirar intensamente a
literatura.
Sejam
bem-vindos!
E
aguardem novidades.
Cinthia Andressa de Lima /
Colunas
A cidade que sobreviveu ao fim do mundo [Cinthia Andressa de Lima]
A cidade que sobreviveu ao fim do mundo
As moscas pousavam delicadamente no morto. Parecia até que estavam a respeitar o seu estado. Eram as únicas a demonstrar tal sentimento. Jazia o morto numa mesa velha de madeira num bar insolente e vazio. Morrera de véspera, esperando os fins do tempo.
Dois dias antes as ruas da cidade estavam cobertas por uma densa camada de lama, pois a chuva durou sete dias e reduziu a terra vermelha a barro mole.
(Começou a chover às dez e meia na manhã da quinta-feira da penúltima semana do mundo. E só parou às quatros da tarde da quarta-feira da semana seguinte. O mundo acabaria na sexta-feira. )
Cinthia Andressa de Lima /
Colunas
Nota sobre um amor que durou uma noite só.[Cinthia Andressa de Lima]
Nota sobre um amor que durou uma noite só.
Virei para o lado e contemplei a parede branca. Na cabeça, alguns pensamentos impróprios. Escutava o barulho do chuveiro, sabia que a porta estava semi aberta, mas não quis virar e ver a silhueta do seu corpo pelo box do banheiro. Puxei a coberta e cobri metade do meu corpo nu, abracei um pouco o travesseiro e na cabeça ainda os mesmos pensamentos impróprios. Logo amanheceria eu ainda não havia decidido se dormia ali ou se me arrumava e voltava para casa. Lembrei-me de alguns detalhas da noite: do barulho insistente de um telefone no quarto ao lado que nos incomodou por algumas horas a você esfregar um pé no outro quando ficou deitado de lado depois de tudo. Tudo tão calmo, sem pressa e sem escândalos. Assustei-me um pouco e acho que isso também justifica os pensamentos. Coloquei a mão na parede, estava gelada. Minhas roupas estavam espalhadas pelo chão, as suas num montinho na mesa do lado do frigobar. Talvez, se eu ligasse a TV, nos pouparia a conversa habitual desses encontros. Não quero, de fato, saber quem você é além do seu nome e do poder de alcance da sua mão, ou do sorriso fora de hora que me fez terminar a noite aqui. A sua demora no chuveiro me faz pensar que talvez espere que eu vá tomar esse banho com você. Não posso. Qualquer coisa compartilhada além da cama de um quarto já é intimidade demais para mim. Mas espero que volte. Imagino que vai me beijar cobrir o resto do meu corpo, ligar a TV e perguntar se eu quero alguma coisa. Vou sorrir, dizer que não, que só quero ficar assim um pouco antes de dormir. Talvez retribua o abraço ou o beijo e alguns carinhos e dormíssemos assim. Ou não. Pode ser que você volte mais animado e queira recomeçar os jogos. O que me assustaria, pois se acontecesse, agora seria mais calmo que antes, já ia saber onde colocar as minhas mãos, onde provocar em você mais arrepios e isso seria um perigo tamanho, faria você imaginar: “talvez essa seja a mulher certa”. E não é que eu não possa ser, mas não podemos pagar um preço tão caro por causa da metade de uma noite. Saberia te provocar além disso. Sei que minhas costas nuas são mais bonitas nessa quase luz de um quarto escuro, poderia levantar e andar nua por aí enquanto você refazia a cama para nós dois. Sei que qualquer corpo nu nessa quase luz é tentador. Poderia fazer você sorrir e isso seria minha perdição. Assim como você começar a conversar ou colocar uma música e essa música ser qualquer coisa sediciosa do Jimi Hendrix. Sei exatamente o que provoca paixão. E sua esquisitice já me é o suficiente. Essa sua roupa arrumadinha num canto, esse seu banho demorado, sua calmaria para tirar a minha roupa. E logicamente sua voz sussurrada me dizendo “temos tempo...”. Deus, que parede mais branca. Já sinto frio e não me cubro, permaneço quieta e finalmente escuto você sair do banheiro. O cheiro de sabonete invade o quarto antes de qualquer outra coisa, seus passos em direção a todos os lugares me fazem imaginar que queira ir embora, e, nesse segundo, percebo que não quero. Vou fingir que estou dormindo para você ficar. Vou tomar a iniciativa, dizer que quero beber, que podemos conversar sobre qualquer coisa. Mas, por fim, sei que minha coragem não chega a nada. E esse pequeno querer não é para tanto. Sua movimentação não acaba, me incomoda você não voltar para cama, me incomoda seu silêncio e não ligar a TV de uma vez por todas. Por fim você apaga as luzes, é minha deixa: viro-me, espero um pouco, imagino que vai deitar vestido, falar que posso dormir, se cobrir e me dar um beijo no pescoço. Mas sinto suas mãos em meus pés, o pânico me tira todas as probabilidades da mente, não consigo pensar em nada. Não vejo nada, o quarto agora é um breu total. Deus, como eu desejo agora que ele vá embora ou que ele me tome em seus braços. Não, não sente na cama e me fale para relaxar. Então, controlo esse pequeno desespero, puxo os pés, o convido para deitar do meu lado, você ainda nu me abraça por cima do lençol, arruma meus cabelos e me dá um beijo de boa noite. Logo adormeci no seu abraço apertado. Quando acordei senti o calor invadir o quarto e você dormindo profundamente. Levanto, vejo que arrumou minhas roupas do lado da sua, mas isso não me comove. Arrumo-me, abro a porta, saio sem que ninguém me veja. Na rua, ninguém em lugar nenhum, caminho silenciosamente, procuro no celular qualquer música que me faça esquecer essa noite. Talvez eu nunca mais te veja e essa seja a solução pra nossa vida. E esse papel amassado na mesinha do lado da sua cama, nesse hotel suspeito, é meu telefone que deixei antes de sair. Espero que nunca me ligue, seria legal, pois talvez não nos falte nada além de amor.
Virei para o lado e contemplei a parede branca. Na cabeça, alguns pensamentos impróprios. Escutava o barulho do chuveiro, sabia que a porta estava semi aberta, mas não quis virar e ver a silhueta do seu corpo pelo box do banheiro. Puxei a coberta e cobri metade do meu corpo nu, abracei um pouco o travesseiro e na cabeça ainda os mesmos pensamentos impróprios. Logo amanheceria eu ainda não havia decidido se dormia ali ou se me arrumava e voltava para casa. Lembrei-me de alguns detalhas da noite: do barulho insistente de um telefone no quarto ao lado que nos incomodou por algumas horas a você esfregar um pé no outro quando ficou deitado de lado depois de tudo. Tudo tão calmo, sem pressa e sem escândalos. Assustei-me um pouco e acho que isso também justifica os pensamentos. Coloquei a mão na parede, estava gelada. Minhas roupas estavam espalhadas pelo chão, as suas num montinho na mesa do lado do frigobar. Talvez, se eu ligasse a TV, nos pouparia a conversa habitual desses encontros. Não quero, de fato, saber quem você é além do seu nome e do poder de alcance da sua mão, ou do sorriso fora de hora que me fez terminar a noite aqui. A sua demora no chuveiro me faz pensar que talvez espere que eu vá tomar esse banho com você. Não posso. Qualquer coisa compartilhada além da cama de um quarto já é intimidade demais para mim. Mas espero que volte. Imagino que vai me beijar cobrir o resto do meu corpo, ligar a TV e perguntar se eu quero alguma coisa. Vou sorrir, dizer que não, que só quero ficar assim um pouco antes de dormir. Talvez retribua o abraço ou o beijo e alguns carinhos e dormíssemos assim. Ou não. Pode ser que você volte mais animado e queira recomeçar os jogos. O que me assustaria, pois se acontecesse, agora seria mais calmo que antes, já ia saber onde colocar as minhas mãos, onde provocar em você mais arrepios e isso seria um perigo tamanho, faria você imaginar: “talvez essa seja a mulher certa”. E não é que eu não possa ser, mas não podemos pagar um preço tão caro por causa da metade de uma noite. Saberia te provocar além disso. Sei que minhas costas nuas são mais bonitas nessa quase luz de um quarto escuro, poderia levantar e andar nua por aí enquanto você refazia a cama para nós dois. Sei que qualquer corpo nu nessa quase luz é tentador. Poderia fazer você sorrir e isso seria minha perdição. Assim como você começar a conversar ou colocar uma música e essa música ser qualquer coisa sediciosa do Jimi Hendrix. Sei exatamente o que provoca paixão. E sua esquisitice já me é o suficiente. Essa sua roupa arrumadinha num canto, esse seu banho demorado, sua calmaria para tirar a minha roupa. E logicamente sua voz sussurrada me dizendo “temos tempo...”. Deus, que parede mais branca. Já sinto frio e não me cubro, permaneço quieta e finalmente escuto você sair do banheiro. O cheiro de sabonete invade o quarto antes de qualquer outra coisa, seus passos em direção a todos os lugares me fazem imaginar que queira ir embora, e, nesse segundo, percebo que não quero. Vou fingir que estou dormindo para você ficar. Vou tomar a iniciativa, dizer que quero beber, que podemos conversar sobre qualquer coisa. Mas, por fim, sei que minha coragem não chega a nada. E esse pequeno querer não é para tanto. Sua movimentação não acaba, me incomoda você não voltar para cama, me incomoda seu silêncio e não ligar a TV de uma vez por todas. Por fim você apaga as luzes, é minha deixa: viro-me, espero um pouco, imagino que vai deitar vestido, falar que posso dormir, se cobrir e me dar um beijo no pescoço. Mas sinto suas mãos em meus pés, o pânico me tira todas as probabilidades da mente, não consigo pensar em nada. Não vejo nada, o quarto agora é um breu total. Deus, como eu desejo agora que ele vá embora ou que ele me tome em seus braços. Não, não sente na cama e me fale para relaxar. Então, controlo esse pequeno desespero, puxo os pés, o convido para deitar do meu lado, você ainda nu me abraça por cima do lençol, arruma meus cabelos e me dá um beijo de boa noite. Logo adormeci no seu abraço apertado. Quando acordei senti o calor invadir o quarto e você dormindo profundamente. Levanto, vejo que arrumou minhas roupas do lado da sua, mas isso não me comove. Arrumo-me, abro a porta, saio sem que ninguém me veja. Na rua, ninguém em lugar nenhum, caminho silenciosamente, procuro no celular qualquer música que me faça esquecer essa noite. Talvez eu nunca mais te veja e essa seja a solução pra nossa vida. E esse papel amassado na mesinha do lado da sua cama, nesse hotel suspeito, é meu telefone que deixei antes de sair. Espero que nunca me ligue, seria legal, pois talvez não nos falte nada além de amor.
Cinthia Andressa de Lima /
Colunas /
Jana Lauxen /
Wuldson Marcelo
Regulamento da Coletânea :Coletânea Beatniks, Malditos e Marginais em Cuiabá: Literatura na "Cidade Verde"
REGULAMENTO
Coletânea Beatniks, Malditos e Marginais em Cuiabá: Literatura na "Cidade Verde"
01. A Editora MULTIFOCO, através do Selo ANTHOLOGY, receberá, do dia 08 do mês de outubro até o dia 25 do mês de novembro de 2012, contos e poesias, inéditos ou não, de autores brasileiros ou estrangeiros, residentes em qualquer parte do sistema solar, que versem sobre o tema: Cuiabá vista pela influência da Cultura Beatnik e da literatura de autores considerados malditos e marginais.
01.1. É obrigatório que em qualquer modalidade de texto literário o nome Cuiabá seja mencionado pelo menos uma vez.
02. O autor assinará um contrato declarando que a referida obra é criação sua e responsabilizando-se por qualquer questão relativa a direitos autorais e plágio.
03. Os textos serão recebidos, analisados e os selecionados farão parte da coletânea Beatniks, Malditos e Marginais em Cuiabá: Literatura na ‘Cidade Verde’, a ser publicada pela referida editora em Março de 2012.
04. A coletânea terá, aproximadamente, 150 páginas, no formato padrão 14x21, e custará entre R$30 e R$35.
05. Não há nenhum custo ou investimento por parte do autor para participar da coletânea. Em contrapartida, a Editora Multifoco também não oferece exemplares a título de cortesia aos autores participantes. Caso o autor deseje adquirir algum exemplar da obra, terá, enquanto autor, um desconto de 20% no caso de pagamento em 25 dias, e de 30% no caso de pagamento à vista. Caso o autor solicite cinco exemplares ou mais, receberá, a título de cortesia, um exemplar do livro gratuitamente.
06. Aqueles que receberem os livros via Correios deverão arcar com as despesas do porte.
07. Os textos, com no máximo de dez mil caracteres, incluindo espaços, devem ser enviados completos e revisados, dentro das novas regras gramaticais, em arquivo Word, fonte Times, tamanho 12, tendo o TEXTO: Beatniks, Malditos e Marginais em Cuiabá: Literatura na ‘Cidade Verde’ no campo ASSUNTO, para o email beatnikscuiaba@gmail.com. No corpo da mensagem o autor deverá enviar uma mini-biografia de, no máximo cinco linhas, em terceira pessoa.
08. Independente de serem selecionados ou não, TODOS que enviarem textos serão informados via e-mail do resultado da análise.
09. Qualquer assunto não abordado neste regulamento será resolvido pelos organizadores da antologia, através do email da coletânea.
Organizadores:
Cinthia Andressa de Lima
Jana Lauxen
Wuldson Marcelo
Cinthia Andressa de Lima /
Colunas /
Jana Lauxen /
Wuldson Marcelo
Coletânea Beatniks, Malditos e Marginais em Cuiabá: Literatura na "Cidade Verde"
Apresentação da Coletânea Beatniks, Malditos e Marginais em Cuiabá: Literatura na "Cidade Verde"
Há escritores que sejam pelos temas, pelo estilo ou pela ousadia deixam uma marca indelével na literatura. Abrem caminhos, estabelecem rupturas e são incorporados a cânones ou lista de melhores de todos os tempos. Oscar Wilde, certa vez, escreveu que toda influência é imoral, na medida em que determina como o outro deve ser. Portanto, a influência na literatura é um caso de amor e ódio. Uma faca de dois gumes. Às vezes, somos atingidos por um texto que abala o nosso mundo, e nos revela as trilhas para uma jornada rumo à nossa própria voz, que vez ou outra se confunde com a do autor admirado. Passamos a conhecer a poética do escritor, que nos retira da nossa zona de conforto. Apaixonados, o seguimos, nos contaminamos, produzimos, até não suportar mais esse liame que nos dá prazer, mas encarcera. No fim, atalhos e labirintos se confundem. O processo se estabelece em influência e criação.
A primeira vez
Você acendeu as luzes e apresentou-me a cozinha. Fez-me sentar no canto de uma mesa grande com mais de dez lugares. Pediu-me para esperar e enquanto abria as portas de um armário, retirando uma infinidade de coisas que ia colocando em cima de outra mesa, ofereceu-me uma refeição.
Você acendeu as luzes e apresentou-me a cozinha. Fez-me sentar no canto de uma mesa grande com mais de dez lugares. Pediu-me para esperar e enquanto abria as portas de um armário, retirando uma infinidade de coisas que ia colocando em cima de outra mesa, ofereceu-me uma refeição.
Sem cerimônia, quando todos dormiam e o relógio badalava às duas horas da madrugada.
Você ofereceu-me um lugar na mesa da sua casa e fez uma refeição para mim. Pediu para que eu comesse com você. Para que eu o acompanhasse.
Sorriu sinceramente como se fôssemos calejados nesses pequenos acontecimentos do cotidiano. Era a nossa primeira vez. Mais uma delas.
Num ritual infinito de pequenas coisas que são grandes marcos. Você sorriu sinceramente e eu senti que era a minha chance de abrir o peito e dizer tudo.
Falar que aceitaria qualquer plano de fuga ou de permanência; que dormiria a noite toda aqui se acaso você me pedisse; que tiraria o calçado para pisar como você com os pés no chão.
Mas eu fiquei quieta. E não era covardia. Eu estava leve. Esperando você sentar do meu lado e respondendo vez ou outra alguma pergunta banal que você ia fazendo enquanto preparava nosso prato.
Eu corria os olhos na parede e via os porta-retratos da família e sem que eu perguntasse você me apresentou cada um deles.
Em um outro ritual. Ver você criança, ver você nos traços da sua mãe, nos negros olhos da sua irmã. Eu poderia abrir o peito ali e sabia que a recíproca seria verdadeira. Mas eu senti uma tranquilidade tamanha em estar onde eu estava e não havia possibilidade de estar em nenhum outro lugar naquele momento.
Eu sorri e nesse sorriso você segurou minha mão em cima da mesa enquanto dividia comigo, num único prato um pedaço de pão e num único copo um refrigerante amanhecido.
E quando terminamos, no silêncio de perguntas monossilábicas e gestos de reconhecimento, você pediu para que apagasse as luzes. Eu apaguei as luzes, você segurou minhas mãos no escuro e no viés da porta deu-me um beijo.
E nesse beijo não havia nada além de sinceridade. Na cozinha ficaram nossos restos, umas dores que já havia passado da hora de se desfazerem.
Diário dos 10 dias.
14 de setembro.
Todo diário começa com a hora de acordar. Ou com a hora de dormir? Desse dia só lembro o meio. Não o meio literal. Só de alguma coisa às quatro horas da tarde que eu engoli de pé na cozinha. Uma cozinha estranha. Com uns ladrilhos azul piscina. Essa cozinha não era a minha.
15 de setembro.
Foi um dia cinza. Mas não choveu. Só vi o sol no final do dia, num canto do céu. Entre as cinzas, entre a fumaça, uma grande bola laranjada a espiar a vida de lá.
16 de setembro.
Eu dormi. Praticamente o dia todo. O calor insuportável. Um bebê chorou o dia inteiro na casa ao lado. Um cachorro ficou latindo também.
17 de setembro.
Arrumei minha mala. Joguei o resto das coisas numa mochila. Peguei tudo que era meu e algumas coisas que não eram, mas julguei por direito que poderia levar.
18 de setembro.
Esperei.
19 de setembro.
Tentei ligar várias vezes. Para vários lugares diferentes. Para todas as cidades imagináveis onde poderia estar. Ninguém tinha visto. Eu desisti na décima sexta, décima sétima ligação. Esperei.
20 de setembro.
Achei um CD perdido do Led Zeppelin. Escutei Ramble On umas 20 vezes seguidas. Eu queria sair logo, ir embora. Era inevitável. Então, esperei.
21 de setembro.
22 de setembro.
Eu passei três dias escutando aquele CD. Três dias imaginando se aquele pássaro azul era o mesmo do Bukowski. Um dia eu saberia. Eu tentei ligar, mas cortaram o telefone. Acho que logo cortarão a energia. Eu decidi esperar só mais uma semana. No final disso, se nada acontecesse, se ninguém chegasse, talvez, eu deixaria uma carta, eu falaria do pássaro azul, eu deixaria rastros.
23 de setembro.
Eu acordei cedo nesse dia. Lembro que a fumaça tinha dado uma trégua. Resolvi arrumar a casa. Era domingo. Abri as janelas de par em par. Era uma casa consideravelmente grande para uma pessoa que morava sozinha. Eu gostava daquela cortina amarela. Quem tinha uma cortina amarela? Eu deixei de lado aquele CD. Na verdade, eu o coloquei dentro da mala. Lavei a louça e até molhei as plantas. Eu colocava o telefone no ouvido e tentava ligar para escutar a moça da Cia telefônica dizer que não era possível realizar aquela chamada. Não escutei mais o bebê. Talvez tivessem viajado. Para fugir do calor infernal. Pois acabou a fumaça, mas o céu estava ímpeto e claro. O sol decidido e forte. O calor desumano. Completamente desumano. Na minha mente, impregnado feito mancha em roupa velha, estava essas três palavras: “só esse dia”. Já era insensatez minha esperar tanto tempo. A mala no canto da sala há tanto tempo. Eu decorando tudo daquela casa. Já sabia, por exemplo, que no banheiro, num cantinho da parede oposta à privada, tinha um buraquinho e que às quatro horas da manhã saia dali uma fileira de formiguinhas que iam até a cozinha a procura de comida. Eu estava observando as formigas. Mais preocupante ainda. Quase na hora do almoço, fiz uma pequena refeição com o que tinha sobrado na geladeira: dois ovos, um tomate, um pedaço de pão velho. Certifiquei-me de que não tinha nada meu em lugar nenhum. Dei uma olhada nos livros da estante, peguei um pedaço de papel e tentei me despedir. Eu desisti. Nem sei o motivo. Acho que era culpa. Mea culpa. Passou o tempo. Fechei as janelas às cinco da tarde. Estava mais silencioso do que o habitual. O mundo estava mais silencioso do que o habitual. Escutei alguém abrindo o portão. Meu estômago revirou-se. Naquele momento eu senti que talvez fosse melhor que eu não tivesse esperado. Ele entrou. Eu o olhei rapidamente antes de abaixar a cabeça e sentar no canto do sofá. Estava ainda mais magro. Os cabelos grandes e a barba por fazer. Estava entrando impetuosamente pela casa e quando me viu parou no meio da sala e respirou profundamente. Silêncio. Olhou a minha mala no chão. Abriu e pegou o CD. “Isso é meu!”. Colocou em cima de uma mesa, voltou perto da mala e gritou: “Tem mais alguma coisa minha aqui? Hein? Tem mais alguma porra minha aqui?”. Não respondi. Não levantei a cabeça. Ele seguiu pelo corredor, fazendo barulho, abrindo as portas. Eu levantei depressa, peguei as minhas coisas e caminhei até a porta. Ele voltou gritando, que não era para eu ir, que a gente tinha que conversar. Que eu não deveria estar ali. Tentou segurar meu braço. Eu o impedi e disse, calmamente, que eu tinha ficado para cuidar das plantas, que eu não sabia que ele ia demorar tanto. Que eu pensava que o pior já tinha passado. E na coragem adquirida no ato daquela conversa insensata eu lastimei tudo o que tinha feito. Cada erro, cada fuga. Mas disse que foi ele quem fugiu na hora mais importante, então, que não poderia julgar a minha permanência. Ele correu pro quarto. Eu, preocupada, fui atrás. Quando da porta vi que ele estava com o abajur na mão. Segurando ele acima da cabeça como se fosse jogá-lo em mim. Eu desisti ali. E eu tentaria mil vezes. Mas eu desisti ali. Olhei bem aquele corpo magro em roupas velhas na certeza que era a última vez. Virei, caminhei pelo corredor, abri a porta da frente, desci um lance de escada com dificuldade e quando estava passando pelo portão escutei o barulho do abajur atingindo o chão. Eu não poderia, naquele calor infernal, nem olhar para trás.
24 de setembro.
Choveu no outro canto da cidade.
[1] Verso da música Ramble On do Led Zeppelin.
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