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Além da Curva
O que me espera atrás
daquela curva? Quisera eu saber!
Por enquanto basta-me saber
que tenho pernas e pés para construir o caminho.
Por ora tenho olhos atentos
para a paisagem e ouvidos abertos para toda canção que o vento me sussurra.
E, depois de ter caminhado
tantos desertos – os que me atravessam, os que invento e os que me foram
destinados – tenho desejos de que ali, em algum lugar, haja um poço de água
fresca. Ou um poço de sonhos: os que já realizei, meus alentos, e os que ainda
acalento, minhas esperanças.
Bloco de Notas
Tomo a vida como um grande bloco de papel. Tenho folhas em branco, um lápis e uma borracha.
Algumas vezes posso apagar os erros. Outras, prefiro só dar um traço por cima e seguir adiante. Não raras são as vezes em que percebo que a falha está lá atrás, de modo que não a posso apagar e sigo.
O fato é que, todas as manhãs tenho novas oportunidades para me reescrever, me reinventar e, disso tudo, sobra-me o direito do uso e do abuso do que tenho em mãos: meus lápis e borracha.
É muito mais simples que eu me permita a fixidez das rotinas e do cotidiano acinzentado do grafite: seguir o fluxo é sempre menos cansativo, menos exigente, menos arriscado e até mais confortável. Lamentável essa comodidade, mas é uma possibilidade.
Ao contrário, posso ser mais. Posso ousar. Posso escrever as minhas linhas e ilustra-las. Posso valer-me de outros tantos lápis, outras tantas cores e formas e deixar tudo muito diferente. Há riscos. Há erros. Há contornos que não são fáceis de se fazer. Há nuances muito sutis que nem sempre percebo, mas são essas possibilidades que mais me encantam diante da vida: o inesperado.
Uso o dia como meu laboratório de criação: escrevo, pinto, bordo, rimo e canto. Falho e apago. Falho e me afago, lambendo feridas, mas orgulhosamente, assumindo os erros em vez de apagá-los. Tudo isso depende muito: da fase da lua, da enchente das marés, das batidas de meu coração.
E faço do coração meu tinteiro preferido: dessa tinta não há voltas. Não há como apagar. Tudo o que se traça marca a pele e a alma. Tudo finda, nada se esquece. É do coração que sai a tinta-inspiração mais forte. É dele que saem meus croquis mais apaixonados, os versos mais encarnados.
Mas ainda reservo-me à tinta-razão, à tinta-planejamento, aquela que queima horas a fio em hipóteses e ensaios vãos. Vãos... justamente aqueles espaços entre o tempo e a ação que não ouso atravessar e perco tudo o que foi pensado. Aqueles traços que esboço e volto apagando por um motivo ou outro. E uso minha ferramenta mais desprezada: a borracha.
Valho-me da borracha só para reparos essenciais. Cabe a ela o alívio dos perdões, o novo suspiro de quem se sufocava com a mágoa. A devolução da tranquilidade, da noite de sono, da paz de espírito. Borracha-alívio, borracha-salvação.
Permito-me erros porque sou humana. Permito-me os erros porque tenho limites que não são intransponíveis e, sendo responsável pela criação do meu roteiro de vida, não posso enganar-me que tocarei a perfeição.
Munida de meus lápis e borracha e tendo a vida como bloco de notas, como bloco de papel à minha disposição, assumo a responsabilidade pela história que escrevo (dessa vida), mas reconheço que se a borracha ameaça a acabar antes do lápis é um sinal de que estou passando dos limites. Que me venham as reflexões!
Dy Eiterer - Juiz de Fora, Minas Gerais, Brasil. Edylane é Edylane desde 20 de novembro de 1984. Não ia ter esse nome, mas sua mãe, na última hora, escreveu desse jeito, com "y", e disse que assim seria. Foi feito. Essa mocinha que ama História, música e poesia hoje tem um príncipe só seu, seu filho Heitor. Ela canta o dia todo, gosta de dançar - dança do ventre - e escreve pra aliviar a alma. Ama a vida e não gosta de nada morno, porque a vida deve ser intensa. Site:Dy Vagando
Tomo a vida como um grande bloco de papel. Tenho folhas em branco, um lápis e uma borracha.
Algumas vezes posso apagar os erros. Outras, prefiro só dar um traço por cima e seguir adiante. Não raras são as vezes em que percebo que a falha está lá atrás, de modo que não a posso apagar e sigo.
O fato é que, todas as manhãs tenho novas oportunidades para me reescrever, me reinventar e, disso tudo, sobra-me o direito do uso e do abuso do que tenho em mãos: meus lápis e borracha.
É muito mais simples que eu me permita a fixidez das rotinas e do cotidiano acinzentado do grafite: seguir o fluxo é sempre menos cansativo, menos exigente, menos arriscado e até mais confortável. Lamentável essa comodidade, mas é uma possibilidade.
Ao contrário, posso ser mais. Posso ousar. Posso escrever as minhas linhas e ilustra-las. Posso valer-me de outros tantos lápis, outras tantas cores e formas e deixar tudo muito diferente. Há riscos. Há erros. Há contornos que não são fáceis de se fazer. Há nuances muito sutis que nem sempre percebo, mas são essas possibilidades que mais me encantam diante da vida: o inesperado.
Uso o dia como meu laboratório de criação: escrevo, pinto, bordo, rimo e canto. Falho e apago. Falho e me afago, lambendo feridas, mas orgulhosamente, assumindo os erros em vez de apagá-los. Tudo isso depende muito: da fase da lua, da enchente das marés, das batidas de meu coração.
E faço do coração meu tinteiro preferido: dessa tinta não há voltas. Não há como apagar. Tudo o que se traça marca a pele e a alma. Tudo finda, nada se esquece. É do coração que sai a tinta-inspiração mais forte. É dele que saem meus croquis mais apaixonados, os versos mais encarnados.
Mas ainda reservo-me à tinta-razão, à tinta-planejamento, aquela que queima horas a fio em hipóteses e ensaios vãos. Vãos... justamente aqueles espaços entre o tempo e a ação que não ouso atravessar e perco tudo o que foi pensado. Aqueles traços que esboço e volto apagando por um motivo ou outro. E uso minha ferramenta mais desprezada: a borracha.
Valho-me da borracha só para reparos essenciais. Cabe a ela o alívio dos perdões, o novo suspiro de quem se sufocava com a mágoa. A devolução da tranquilidade, da noite de sono, da paz de espírito. Borracha-alívio, borracha-salvação.
Permito-me erros porque sou humana. Permito-me os erros porque tenho limites que não são intransponíveis e, sendo responsável pela criação do meu roteiro de vida, não posso enganar-me que tocarei a perfeição.
Munida de meus lápis e borracha e tendo a vida como bloco de notas, como bloco de papel à minha disposição, assumo a responsabilidade pela história que escrevo (dessa vida), mas reconheço que se a borracha ameaça a acabar antes do lápis é um sinal de que estou passando dos limites. Que me venham as reflexões!
Dy Eiterer - Juiz de Fora, Minas Gerais, Brasil. Edylane é Edylane desde 20 de novembro de 1984. Não ia ter esse nome, mas sua mãe, na última hora, escreveu desse jeito, com "y", e disse que assim seria. Foi feito. Essa mocinha que ama História, música e poesia hoje tem um príncipe só seu, seu filho Heitor. Ela canta o dia todo, gosta de dançar - dança do ventre - e escreve pra aliviar a alma. Ama a vida e não gosta de nada morno, porque a vida deve ser intensa. Site:Dy Vagando
Quando o Tempo Parou
Tenho a sensação de estar imersa no nada. Como se o tempo tivesse parado. Es-tan-que. Como se eu não pudesse me mexer. Só os olhos reviram nas órbitas. E fazem o traçado mágico do infinito. Ou do que escolhemos para representar o infinito.
O tempo sentou-se no ponteiro do relógio. Descansou. Todos os infinitos, nesse momento, foram tangíveis e destrutíveis. Extremamente sensíveis ao toque ou ao sopro.
Assombro!
Faria, se pudesse, cacos de muitas histórias. Conseguiria me poupar? (Ou lhe poupar? Se tivesse menos cicatrizes, menos dores, eu teria outras cores aos seus olhos?)
Tenho a sensação de estar imersa no nada. Como se o tempo tivesse parado. Es-tan-que. Como se eu não pudesse me mexer. Só os olhos reviram nas órbitas. E fazem o traçado mágico do infinito. Ou do que escolhemos para representar o infinito.
O tempo sentou-se no ponteiro do relógio. Descansou. Todos os infinitos, nesse momento, foram tangíveis e destrutíveis. Extremamente sensíveis ao toque ou ao sopro.
Assombro!
Faria, se pudesse, cacos de muitas histórias. Conseguiria me poupar? (Ou lhe poupar? Se tivesse menos cicatrizes, menos dores, eu teria outras cores aos seus olhos?)
Protocolos
Chega de meras formalidades sociais. Basta de tantos protocolos. A mim, interessam as espontaneidades. Ou oferece-me o que se tem de melhor, os sorrisos e as conversas sem rumo, ou não interrompa meus silêncios.
Quanto aos seus silêncios, colecione-os como quiser ou como puder: cada um que se aguente, que tolere as próprias manias, mas não queira estender a mim as práticas típicas de repartições monótonas. Não tenho vocação para nada do que é repetitivo.
Chega de meras formalidades sociais. Basta de tantos protocolos. A mim, interessam as espontaneidades. Ou oferece-me o que se tem de melhor, os sorrisos e as conversas sem rumo, ou não interrompa meus silêncios.
Quanto aos seus silêncios, colecione-os como quiser ou como puder: cada um que se aguente, que tolere as próprias manias, mas não queira estender a mim as práticas típicas de repartições monótonas. Não tenho vocação para nada do que é repetitivo.
Se as palavras que foram
pensadas e levadas à ponta da língua não se adaptam aos olhos nos olhos, e são
engolidas à seco, que nem se atrevam ao toque da ponta dos dedos. Meus ouvidos
não interpretam o som sem ritmo das teclas que pautam as conversas de hoje. E
meus olhos não distinguem muito bem as nuances que poderiam ser ouvidas.
Tenho problemas de adequação a essa preguiça que assola seus dias e impede cafés e cheiros. Ainda prefiro as correrias de abraços furtivos e beijos roubados, displicentes, mas presentes. Perpétuos lampejos na memória de quem sabe o que quer ou descobriu-se no meio do caminho.
Tenho problemas de adequação a essa preguiça que assola seus dias e impede cafés e cheiros. Ainda prefiro as correrias de abraços furtivos e beijos roubados, displicentes, mas presentes. Perpétuos lampejos na memória de quem sabe o que quer ou descobriu-se no meio do caminho.
Não
morava em Pasárgada. Não era amiga do rei. Nem sonhava noites longas e quentes,
muito menos em ir para lá de Bagdá.
Era comum. Como todas as outras milhares de pessoas com as quais cruzamos os olhares nas infindáveis esquinas que atravessamos.
Só havia uma diferença. Uma certa filosofia que brotara em sua cabeça naquela manhã, como essas ervas daninhas que sufocam a planta boa, essa ideia recém-chegada à cuca ia sufocando os outros pensamentos.
Era uma ideia de liberdade. Na verdade de deixar ir. Trânsito livre, porta aberta, sinal aberto, corda sem nó, portão sem trinco, cadeado escangalhado.
Coisa de quem ouve música nova no meio da madrugada. Coisa de quem pensa diferente do resto do mundo e que fica matutando sobre os seus próprios botões.
Era comum. Como todas as outras milhares de pessoas com as quais cruzamos os olhares nas infindáveis esquinas que atravessamos.
Só havia uma diferença. Uma certa filosofia que brotara em sua cabeça naquela manhã, como essas ervas daninhas que sufocam a planta boa, essa ideia recém-chegada à cuca ia sufocando os outros pensamentos.
Era uma ideia de liberdade. Na verdade de deixar ir. Trânsito livre, porta aberta, sinal aberto, corda sem nó, portão sem trinco, cadeado escangalhado.
Coisa de quem ouve música nova no meio da madrugada. Coisa de quem pensa diferente do resto do mundo e que fica matutando sobre os seus próprios botões.
Tardes
Não tarde a chegar nesse fim de tarde em que a lua já desponta, em que o último cacho dourado do sol descansa à beira da janela onde coloquei meu vaso de flores.
Não tarde a ser o motivo do sorriso em minha boca, em colher o beijo que lhe reservei e que contenho mordendo os lábios encarnados com a cor viva de jardins inteiros, quente como o fim desse dia de verão.
Não tarde a chegar nesse fim de tarde em que a lua já desponta, em que o último cacho dourado do sol descansa à beira da janela onde coloquei meu vaso de flores.
Não tarde a ser o motivo do sorriso em minha boca, em colher o beijo que lhe reservei e que contenho mordendo os lábios encarnados com a cor viva de jardins inteiros, quente como o fim desse dia de verão.
Chegue e não tarde o instante dos olhares. Já está muito adiantado o andar das horas, dos dias, dos anos que contamos e das tantas experiências que ainda não partilhamos, mas estão à espera de nós, cintilando nos resquícios da luz que ainda suspira nesse fim de dia.
Estanque à minha frente e deixe-me dedilha-lo como se fosse um alaúde, como se não me restasse escolha a não ser fazer ressoar a canção que representa a minha vida, meus sonhos e meus prazeres. Cantarei a você meus versos iluminados pela chama das velas, companheiras dos ecos que minha boca chama: seu nome desconhecido.
Linha a Linha
Eu era sua poesia, assim
como você era a minha inspiração. Respiração cadenciada, calma, cheirosa como a
terra molhada, onde sua semente de beleza era espalhada a cada passo seu, flor
de lis que desabrocha o ano todo.
Contemplava seus passos de
bailarina do vento, leve, solta, livre como asas sobre o mar tão azul que se
confundia com o céu dos sonhos de Ícaro, tão desesperador quanto as agonias de
Dédalo, tão necessários quanto o toque suave da seda sobre a pele nua, se é que
a nudez necessita ser coberta.
Ouvia atento suas histórias,
sabidas de cor por nós dois, mas incrivelmente inéditas aos meus ouvidos a cada
nova contação. Seus lamentos não caberiam em nenhum muro, não porque fossem
muitos, mas porque eram mudos, breves, quase indignos de serem chamados de
sofrimento. Seu choro era quase como o canto da avezinha noturna: piado tímido
e baixo, calado com beijos que eu trazia nas conchas das mãos.
(Des)Confiança
Não foi feita para se quebrar. Era um cristal, desses que se deve ter cuidado, como herança de família.
Não foi feita para se rasgar. Muito mais valiosa que essas notas às quais atribuem valores e que perdemos a vida correndo atrás. Era para ser como carta última do grande amor, intocável.
Não foi feita para se quebrar. Era um cristal, desses que se deve ter cuidado, como herança de família.
Não foi feita para se rasgar. Muito mais valiosa que essas notas às quais atribuem valores e que perdemos a vida correndo atrás. Era para ser como carta última do grande amor, intocável.
Não foi feita para secar. A fonte deveria jorrar, ininterrupta. Deveria saciar a quem a buscasse. Devia ser descanso, pausa, dia de domingo.
A angústia toma conta de nós como as águas de uma represa, que parecem tranquilas, mas que romperão, em breve, com muito mais violência do que podemos imaginar.
Não é de todo uma culpa, mas não há como nos desvencilharmos da tal mea culpa: não sabemos lidar conosco, com os nossos sentimentos e por puro egoísmo, vaidade ou necessidade de autoafirmação nos lançamos para cima dos outros.
Amores Bons
Para o casal que extrapola essência de um amor bom!
Para o casal que extrapola essência de um amor bom!
Amores bons são os desordenados, os que enxergam belos horizontes até longe de Minas, os que deliram nos mares de morros, os que atravessam fronteiras.
Amores bons são aqueles ritmados, que tamborilam, que embalam, que levam todo o corpo em suas toadas, que roubam o pensamento e induzem às leves divagações, que chegam rápido e custam a passar.
Amores bons são aqueles emaranhados, de histórias enoveladas, de mil contos sem fins, de ricas rimas, sem métricas pobres, de versos, de prosas, de entrelinhas e sem pontos que coloquem um fim.
Eternidades
Fim de tarde. Início de noite. Esses limiares nunca foram muito bem entendidos ou definidos por ela. Também nunca foram respeitados, como as horas. Ah, e quantas horas ela já não tinha perdido! Não conseguia fazer as pazes com o relógio.
Fim de tarde. Início de noite. Esses limiares nunca foram muito bem entendidos ou definidos por ela. Também nunca foram respeitados, como as horas. Ah, e quantas horas ela já não tinha perdido! Não conseguia fazer as pazes com o relógio.
Nos últimos dias já não conseguia fazer as pazes com o tempo, que gritava meio rouco em seu ouvido, dizendo que passa acelerado e sem pedir permissão. Esse tempo que mastiga planos, que não espera um novo amanhecer, que é implacável e quase cruel.
Ela não aceitava o tempo-medida, sem medida certa para as pessoas. E talvez até para ela mesma. Era uma não-aceitação fundamentada especialmente no que não entendia: o tempo, às vezes, era generoso às avessas. Deixava-se levar por quem parecia não o merecer e se extinguia daquelas pessoas que deveriam merecer a eternidade.
Culpabilidade
As probabilidades não
falham. A maior chance que você tem é a de tudo dar errado. E valemo-nos da
famosa Lei de Murphy!
Que tudo dê certo, que as
coisas se ajeitem é que é o anormal, o fora do padrão, a zebra.
Nesse jogo de loteria que é
a vida, o que temos para o café, todos os dias é apostar. Que sejam todas as
fichas ou que deixemos pelo menos uma guardada, se tudo der errado, ousaremos
apostar de novo. E, para o caso de ter esgotados todas as moedas, buscaremos
novos meios de encontrar outras fichas e outro número que mereça a nossa
confiança.
Canção
Silenciosa
Conheço o silêncio. Já o
toquei a ponta dos dedos. Já vesti-me com seus sons mudos. Fiz dele meu lençol
para envolver os soluços que bebi em noites que foram mais escuras do que
deveriam ser.
Entendo o seu silêncio. Cada
palavra não dita. Cada coisa que seus olhos deixaram escapar em uma lágrima
teimosa ou que fugiram pelas molduras dos óculos.
Às Cegas
É como descobrir-se sem que
se conheça. É domingo de sol sem nada para fazer. Ou com tantos afazeres que
vira segunda-feira. É sentir-se às avessas e nada poder fazer.
É uma sensação de cansaço
que beira a desilusão, que beira solidão, que beira o desconhecido e que
entontece qualquer um. Que se entranha nos pensamentos e esvazia as ideias, que
tira o ar, que deixa o último fôlego se esvair, assistindo a tudo com frieza de
concreto.
É como um feriado em dia de
domingo com aquela sensação de que não valeu. Parece pênalti roubado, folga
desperdiçada, chuva que cai depois que se lava todas as janelas mais altas. É
um desânimo interminável que precisa ser vencido
É um abismo com fundo. Mas
com tantos riscos quanto o passo em falso pode assegurar quando o sem fundo é a
garantia. É a certeza do baque forte que quebra tudo, desmonta sonhos, desloca
pensamentos.
Fado Doido
Enquanto contava as horas
que se estendiam e arrastavam em descompasso com o escuro da noite que se
dissolvia em madruga, guardava beijos nas conchas das mãos, esperando quem os
recolhesse.
Construindo castelos de
poeira nas bordas das páginas dos livros lidos e daqueles que foram comprados e
esquecidos, parte da velha mania de colecionar retângulos coloridos na estante
pesada do canto da sala.
Mesmo nas madrugadas longas,
enchia as mãos de sol. Esfarelava o brilho em pequenas fagulhas que soprava
pela janela, estrelando os céus solitários que entravam por outras janelas
insones.
Desencontrava-se de si mesma
em pensamentos soltos e os escrevia em blocos de papel que se perderiam na
próxima estação, que nunca ganhariam espaço, nunca seriam conhecedores da
primavera.
Universo Onírico
Dentre as tantas coisas que
sempre quis colecionar e as tantas que colecionei reservei espaços para os
sonhos, minha especialidade. Por eles dei o sentido necessário à minha vida.
Como se fossem o ar que eu respirava.
Muitas vezes encerrei-me em
meu mundo interior, ocupada de sonhar por longas horas, acordada, avoada,
distraída, sendo tantas outras, construindo outros mundos, outras cores, outros
sopros de ventos, outras moradas de paredes que desafiavam qualquer engenharia.
Doía-me só o despedaçar dos
sonhos caídos ao chão. Pulsava mais forte o sangue que pingava dos dedos que
tentavam ajuntar os seus cacos. Sobressaiam-me os desesperos alados daqueles
Ícaros que saiam pelas janelas que eu me esquecia de fechar e nunca mais
voltavam... restavam só as suas lembranças que dividiam entre si as sensações
ao mesmo tempo doces e amargas, de um querer revivê-los e uma repulsa em saber
como acabariam.
Fome
Sentia fome. Uma fome de
vida. Ou seria de viver?... Queria todas as experiências que não caberiam em
suas mãos e nem em nenhuma mala e tampouco seriam alcançadas ali da janela do
oitavo andar.
Era faminta pelas pessoas.
Queria devorar cada uma delas. Conhecer cada vírgula de todas as histórias. E
entender onde doíam as feridas. Desejava, sobretudo, curar todas as dores.
Tinha fome do que era, do
que pensava. Queria ir sempre além, enxergar atrás da curva da luz, além de
onde o vento pousava. E inquietava-se por não conseguir.
Sentia no peito a fome que
só os silêncios prolongados podem proporcionar. E desejava engolir todas as
notas, de toda dó ao sol mais fascinante, para que pudesse, em dias mudos,
abrir a boca e fazer ressoar pela casa sustenidos e bemóis que a saciariam.
A Insônia do Dia
Engana-se quem acredita que
eu, insone, só habito a madrugada. Na verdade pouco deles faço das horas
andurriais a minha morada. Desfio-me mesmo é à luz do sol, vagando pelos dias,
procurando por meus melhores momentos.
Por mais que eu faça das
madrugadas o meu refúgio, o meu aconchego e que me digam insone, é à noite,
enquanto todos dormem que encontro o equilíbrio, que toco o limite tênue de
minhas loucuras com a sanidade que tanto necessito e que pouco busco, confesso.
Talvez seja a madruga a
minha hora mais desperta.
Fases
Segurava seus desejos na mão
como se fosse a própria lua. Ela tentava controlar as suas fases. E oscilava
tanto quanto as marés.
Dona de muitas vozes
entregava-se nos silêncios que fazia. Não sabia dar-se às indiferenças e condenava-se
sempre ao mais profundo dos calabouços todas as vezes que tentava dominar as
suas palavras. Ré confessa, agora deixava os pensamentos saírem pela boca,
fosse o resultado qual fosse.
Se precisasse tecer uma defesa trabalharia em cima da única coisa pela qual tinha certeza: nunca causara o mal de propósito. Nunca derramara a última gota consciente. Nunca desviava um caminho sabendo que o atalho era falso. Isso não.
Se precisasse tecer uma defesa trabalharia em cima da única coisa pela qual tinha certeza: nunca causara o mal de propósito. Nunca derramara a última gota consciente. Nunca desviava um caminho sabendo que o atalho era falso. Isso não.
De uma leveza que lhe era
peculiar, preferia arcar com as dores dos outros – causando muitas em si mesma
– do que correr o risco de ferir quem quer que fosse.
Aspirações
Em dias como hoje encheria
as minhas mãos de um azul-céu ou mar ou vento e jogaria no rosto, pra lavar a
alma, para despertar o sossego que esqueceu meu endereço.
De tudo eu faria para parar de uma vez com meus esquecimentos e minhas pirraças, minhas brigas com as sombras nos finais de tarde, minhas inquietações das madrugadas, minhas agonias quase multicoloridas de tão vivas e um tanto sufocantes.
Eu mesma pararia com as tentativas de me convencer que a calmaria passou e que as tempestades extrapolam os copos d’água. Aceitaria de uma vez por toda beber as transparências de minhas teimosias para sorrir flores com cheiro de algodão-doce.
Os problemas são os dias. São todos os amanheceres pelos quais escorrego os olhos cansados de não dormir, exaustos de procurar um não-sei-o-quê intraduzível, inexplicável.
Os problemas são os meus porquês colecionados pelos anos, as interrogações enfileiradas à espera de respostas que não tenho e nem sei mais se quero ter. Talvez eu prefira mesmo só anoitecer e sentir a brisa que vem do lado de onde o vento faz uma curva tão leve que nem balança folha. Talvez eu goste mesmo é da sensação de se cantar de olhos fechados, fazendo noite em pleno meio-dia, envolvendo-me com uma nova música, desvendando uma nova melodia.
Pode ser falta de música, falta de verso, de rima, de nexo. Pode ser só um frio com pouca coberta, desses que passa logo que adormecer, logo que o corpo esquecer que existe, entregue na semimorte que é o sono.
Pode ser só o gosto do tempo que deseja parar, mas segue adiante, que custa caro. Custa vida, dor e alegrias. E cobra a conta no final, em balança dourada e fio de espada em salão nobre, feito feriado cívico. É espetáculo público a cobrança e a sentença é sabida antes por todos. É fim conhecido antes do começo. É fim.
Quisera eu entender o que eu não sei. E são tantas as coisas. E são tantas as buscas. E são tantos vazios que não se preenchem. E que sempre se renovam... quisera eu, num impulso, parar o ponteiro que gira incansável e descansar sem ter pressa. Quisera eu saber onde vou passar, já que sei bem onde é que vou chegar.
Isso de se buscar sem parar, deve ser a tal vontade de viver. A tal da vida que não te deixa em paz, porque ensinou a questionar e não a aceitar. Deve ser isso que chamam de caminho. Porque o resto, daqui onde estou, só parece paisagem. E segue.
Quisera eu que não soubesse
só os nomes de tantas cores que saltam das pontas dos lápis e colorem as
flores.
De tudo eu faria para parar de uma vez com meus esquecimentos e minhas pirraças, minhas brigas com as sombras nos finais de tarde, minhas inquietações das madrugadas, minhas agonias quase multicoloridas de tão vivas e um tanto sufocantes.
Eu mesma pararia com as tentativas de me convencer que a calmaria passou e que as tempestades extrapolam os copos d’água. Aceitaria de uma vez por toda beber as transparências de minhas teimosias para sorrir flores com cheiro de algodão-doce.
Os problemas são os dias. São todos os amanheceres pelos quais escorrego os olhos cansados de não dormir, exaustos de procurar um não-sei-o-quê intraduzível, inexplicável.
Os problemas são os meus porquês colecionados pelos anos, as interrogações enfileiradas à espera de respostas que não tenho e nem sei mais se quero ter. Talvez eu prefira mesmo só anoitecer e sentir a brisa que vem do lado de onde o vento faz uma curva tão leve que nem balança folha. Talvez eu goste mesmo é da sensação de se cantar de olhos fechados, fazendo noite em pleno meio-dia, envolvendo-me com uma nova música, desvendando uma nova melodia.
Pode ser falta de música, falta de verso, de rima, de nexo. Pode ser só um frio com pouca coberta, desses que passa logo que adormecer, logo que o corpo esquecer que existe, entregue na semimorte que é o sono.
Pode ser só o gosto do tempo que deseja parar, mas segue adiante, que custa caro. Custa vida, dor e alegrias. E cobra a conta no final, em balança dourada e fio de espada em salão nobre, feito feriado cívico. É espetáculo público a cobrança e a sentença é sabida antes por todos. É fim conhecido antes do começo. É fim.
Quisera eu entender o que eu não sei. E são tantas as coisas. E são tantas as buscas. E são tantos vazios que não se preenchem. E que sempre se renovam... quisera eu, num impulso, parar o ponteiro que gira incansável e descansar sem ter pressa. Quisera eu saber onde vou passar, já que sei bem onde é que vou chegar.
Isso de se buscar sem parar, deve ser a tal vontade de viver. A tal da vida que não te deixa em paz, porque ensinou a questionar e não a aceitar. Deve ser isso que chamam de caminho. Porque o resto, daqui onde estou, só parece paisagem. E segue.
Dy Eiterer -
Juiz de Fora, Minas Gerais, Brasil. Edylane é Edylane desde 20 de
novembro de 1984. Não ia ter esse nome, mas sua mãe, na última hora,
escreveu desse jeito, com "y", e disse que assim seria. Foi feito. Essa
mocinha que ama História, música e poesia hoje tem um príncipe só seu,
seu filho Heitor. Ela canta o dia todo, gosta de dançar - dança do
ventre - e escreve pra aliviar a alma. Ama a vida e não gosta de nada
morno, porque a vida deve ser intensa. Site:Dy Vagando
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