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A MOIRA

Aos sete anos de idade, descobriu que um dos  grandes segredos da vida era os temperos. Ainda menina, observava sua mãe com a barriga encostada no fogão, avental de algodão amarelado e puído preparando o almoço, o jantar. Várias panelas de alumínio, vários tamanhos, idades e histórias. Uma sempre com água esquentando. A forma e o bailado que as velhas colheres de pau se movimentavam, incorporando o sabor dos temperos aos alimentos e a agilidade com a faca, cortando e cruzando ervas e segredos de família que caiam para dentro das panelas.

Um dia puxou uma cadeira e encostou próxima ao fogão. Ajeitou seu miúdo corpo, em pé, e iniciou suas anotações mentais e visuais do que sua mãe fazia. Ouviu dela “o segredo é cozinhar com paixão”. Adorava sentir os aromas bem de perto e o calor feito uma nuvem transparente sair de dentro das panelas e invadir todo o interior de seu corpo pelas narinas. Magia. Ali sentia uma profunda e real felicidade em descobrir que os alimentos tinham vida e forma, que quando consumidos faziam uma grande mágica dentro do corpo - por vezes aquecendo, por vezes esfriando. Um prazer que ela ainda não sabia nomear.

E em pouco tempo, tomou aquela paixão para si. Com quase oito anos, preparava alguns pratos e inventava outros. Harmonizava o paladar das pessoas com um toque especial. Segredos que acreditava serem somente seus.

A menina cresceu, virou moça vistosa, depois mulher desejada e formosa. Mas a paixão, o prazer que tinha em segurar firme as colheres de pau e rodopiar dentro das panelas de alumínio, de barro, de ferro, de pedra sabão... Eram tantos utensílios que um visitante perdia de vista tamanha quantidade e diversidade. Poucos, muito poucos entendiam aquela paixão por cozinhar, por dominar as cores dos alimentos e misturar a acidez, o amargo e a doçura com maestria, mas sua casa estava sempre com visitas interessadas em provar de seus quitutes e de seu tempero irresistível e inigualável. Uma divindade na cozinha e o pecado da gula solto no ar.

Foi na contramão do dito popular “agarrar o marido pelo estômago”. Nunca quis se casar. Dizia que tinha descoberto o amor muito cedo e que o tinha amarrado pra si desde a primeira vez que vira sua mãe cozinhando. A fama de seus temperos ressoava longe e vinham amigos dos amigos, parentes dos parentes, desconhecidos, parente dos vizinhos enfim. Uma enorme teia de pessoas que vinham conhecer e se apaixonar pelo seu sabor e pela beleza de seu sorriso.

Com a idade, foi arcando sua coluna pra frente e já não conseguia mais lidar com as panelas como antes. Começou a dizer que sua morte viria quando não pudesse mais cozinhar, temperar a vida daqueles que se aproximavam dela, os desconhecidos, aflitos, angustiados, amargurados, solitários e desesperados que buscavam a cura através do que ela oferecia à mesa.

Quando partiu, ninguém ousou retirar uma panela sequer de sua cozinha, mas os amigos se revessavam para cuidar e manter sua enorme horta de temperos no quintal, lugar onde ela passava a outra metade de sua vida.

Alice não estava no País das Maravilhas

Pela janela, uma brisa serena invadia, por fim, o espaço daquele quarto naquela manhã chuvosa e fazia bailar as cortinas de voil rosa claro. Lentamente, Dora foi despertando e pode sentir novamente o pulsar da vida através da luz a iluminar e despertar suavemente aquele seu mundo, antes quase sem cor alguma.
Ainda dormente, instintivamente deslizou a mão sobre o lençol da cama, a buscar algo. Foi então que abriu de súbito os olhos e foi conferir o que tocara. Espalhadas pela cama, lá estavam elas: as pétalas de rosas vermelhas.

Um sorriso de prazer esboçou seu rosto. Ela espreguiçou como de costume, sentou-se dobrando e abraçando os joelhos feito uma menina, observando minuciosamente o cenário que encontrara. Pelo chão, a visão de outras rosas espalhadas, ainda intactas com seus galhos e folhas quase murchas, rastros de roupas espalhadas sem pudor por sobre móveis e objetos e um cheiro que agora era respirado por ela num êxtase mais que absoluto tecendo em sua mente e trazendo de volta as imagens da noite anterior. Uma noite de total prazer.

Por minutos Dora ficou naquela posição, buscando em cada detalhe de seu quarto preencher, por mais uma vez, o espaço de sua alma e as frestas de seu corpo com os resquícios dos aromas, tentando ainda ouvir os gemidos, gritos e palavras trocadas há poucas horas.
Observando as pétalas jogadas e debulhadas pelas dobras do lençol, descobriu outro tom de vermelho tatuado. Naquele momento se deu conta de que ingressara numa outra fase de sua vida. A menina há poucas horas, agora, mulher. As gotas de sangue seco e já incorporado à malha do tecido, agora revelavam o verdadeiro significado das rosas vermelhas.

Imediatamente veio em sua mente o conto de fadas de Alice no País das Maravilhas, de L. Carrol, e ela mergulhou em cada cena da trama que tantas e tantas vezes ouviu sua mãe contar e por tantas outras foi embalada para dormir.
O caminho das rosas vermelhas mostrou-se como uma fase na vida de uma mulher, simbolizando a passagem da menina-flor de inocência em rosas brancas para a mulher liberta pela menarca e consciente de que jamais sua vida seria como antes. Bonecas começavam a ser encaixotadas e as brincadeiras ingênuas do pêra-uva-maçâ se apresentavam com um hálito mais apimentado de prazer.
Dora levantou-se e foi até a estante de livros. Ainda nua e já descalça de seus dogmas e pudores, começou a jogar pelo chão a sua inocência. A literatura infantil deixou espaços vagos no mogno escuro. As revistas e jogos de brincadeiras se mostraram fora de sua faixa etária e ela começou a lançá-los ao ar, Abriam-se as páginas em flaps e sons e uma baderna hasteou uma nova bandeira naquele mundo não mais de fantasia.

Uma mulher aflorou, feito todas as rosas que espalhadas estavam no chão. Ela não queria mais a ingenuidade daquele mundo. Por sobre a escrivaninha, sua agenda. Mais que depressa ela abriu na data do dia e escreveu em letras garrafais: O dia em que Dora, a mulher, nasceu!

Dos sentimentos e dos medos

Impotência. Sinto-me impotente com o que me chega, invadindo, rasgando, tomando conta. Mostrando-se real, enfim.

Eram outros tempos em que desejei sentir essa fúria, essa erupção acelerada de sentimentos. Eram outras as vozes que vinham e pediam, bem baixinho, quase imperceptível, uma mudança, um encontro, um saber daquele momento, daquela pessoa. Era ele, tinha que ser ele. Foi por muito tempo o desejo. Foram fórmulas e bulas a seguir ao pé da letra, direitinho pra não errar, Errar de novo.

Eram outros tempos. Tantos que nem mais consigo conjugar. Acabei por esquecer de como deveria ser.

Mas eu fui, uma, duas, três vezes. Alternadamente com o próprio tempo que me vinha a mostrar que eu precisava dele pra me manter e me encontrar. Encontrar o outro e manter=me viva, de novo. Ou ele, aquele que já estava à mercê, à disposição tão imperceptível do meu consciente. Mas inconsciente já havia se mudado de mala e cuia, "peito aberto ao encontro" e ali se escondeu. De mim. Em mim.

E eu brincava de faz-de-conta, arremessava poemas e escritos vomitados no dia seguinte pra não perder a essência das sensações gravadas, marcadas pelo último encontro. Eram só poemas, palavras, confissões e, declarações. Tamanha inocência a minha. E de tamanho maior eram os desejos de mais uma vez, outra e outra vez, na semana seguinte, no mês seguinte. Feito uma droga que causava um prazer físico e mental por dias e dias seguintes. Até que acontecesse a próxima ingestão, o próximo encontro. Quanto tempo? Alguns anos nesse vício, nesse delirium tremens já tomando conta da consciência. Eu queria, desejava escandalosamente que pudesse haver a próxima vez.

Menti demais. Fiz de conta por tempo demais até que o que achava que era uma inocente droga prazerosa se mostrou no proximo encontro como verdade absoluta. E o que estava inconsciente escorreu pelo suor, pelos poros, pelo poema que escrevera pra mim, sobre meu corpo nu. E o medo chegou.

Medo da próxima palavra, do que viria depois daquele olhar hipnotizado e recheado de declarações, de verdades. A única verdade que procurava em outros tempos, que desejava decorando fórmulas de encontrar, de sentir, de viver intensamente estava ali, num longo poema revelado sobre a minha pele. Senti-me enganada por mim mesma, por acreditar que a minha verdade era muito maior do que os sentimentos que já estavam instaurados dentro de mim.

Agora o medo: do sentir e ser tão verdade absoluta o que eu mesma vendava. Medo do depois, do dia de partir, do momento de ligar e não ouvir mais a voz, de um dia não ser mais a inspiração, de restar somente o rascunho do poema, jamais ser publicado, jamais ser a mesma. Medo de não ter mais que procurar. Medo de desejar que seja engano, pira, ilusão de ótica e jogo de palavras e descobrir que desejava bem o contrário. Medo de não ler mais o seu olhar, o seu desejo, a sua verdade.

Medo maior de não tirar nunca mais você de dentro de mim.

MEI0 FIO

Olhei as unhas e pensei: que cor de esmalte mais ridícula! Nada a ver comigo. Um homem passou em direção à barraca de produtos naturais e eu o seguiu com os olhos. Ele pegou um punhado de feijão verde nas mãos, conferiu se estavam bons, cheirou, chamou a vendedora e falou qualquer coisa. Acho que ia comprar... Comprou e foi-se rapidamente, passando novamente à minha frente. De repente, um menino veio correndo, agarrou as pernas da moça da barraca ao lado, a de calcinhas, e gritou bem alto sem educação: Mãe! Quero um algodão doce agora! A mãe, sem questionar, enfiou uma das mãos no bojo dos seios e tirou um bolo de notas. Deu dois reais ao menino e voltou-se pra atender a cliente que não sabia se levava o modelito de oncinha ou a de enfermeira, com uma fenda na frente.

O calor estava tão intenso, devia passar dos 38 graus, que até as flores dos jardins da praça não agüentavam ficar em pé. No veio central, uma armação enorme mostrava que algum artista ia se apresentar. – Sorvete! Olha o sorvete refrescante! O som vinha da lateral direita, percebia-se que estava bem próximo e repetindo: Sorvete! Olha o sorvete refrescante! 

Dois tiros, corre-corre, gritaria, barracas se desmontando, alvoroço. A mulher das calcinhas deu uma carreira, eu me levantei e vi, do outro lado da praça uma roda de gente se formando, em seguida um grito e o choro explosivo. Nãaaaaaaao!  Fui caminhando em sentido ao ocorrido e vi o perfil do homem que comprara feijão verde há pouco. Ele olhava pra mulher das calcinhas e sem parar repetia: ele veio correndo na minha frente, estava descalço, pensei que fosse me roubar. No chão, o algodão doce impregnou-se do vermelho do sangue e alguns feijões verdes se espalharam pelo meio fio.        
                                              
Chamaram a polícia, a ambulância e alguém se preocupou com a apresentação artística avisando a todos que o Grupo do Boi não ia mais se apresentar. 

SEM DESPEDIDA


As borras do café mal passado bailavam no interior da xícara sem demora, sem pensar. Ela olhou as horas, fechou os olhos e o choro não veio. O som  do trombone desafinado em poropopós invadiu sua mente em lembranças. Parábolas de sua pobre infância.

A garrafa de cachaça envelhecida com raízes e sementes desconhecidas, pousada no chão, ao lado da geladeira; o vestido de missa, único, com o babado sujo de lama do último passeio ao parque; a barraca na quermesse anual com suas prendas e guloseimas sem igual; as discussões entre os pais sobre orçamento doméstico e as mágoas jogadas na cara, tudo arrebatou ainda mais sua dor de perda. Não. Não tinha perdido um indício de identidade, de sobrenome, de vida beirando à miséria e ao pecado de desejar um futuro que não poderia lhe pertencer. Respirou muito fundo, mesmo assim o choro não veio.

Buscou mais um café na simbiose do corpo com o tempo sem sentido. Pensou em renegar a aritmética dos anos em comunhão com uma alma que respingava os odores, brigas vespertinas e invernos calados com uma única sopa. Dias seguintes incógnitas. Conformou-se em seu presente.

Distância. Eram mais de mil quilômetros que a separavam do despedir e de vê-lo pela última vez (última vez?) inerte, prostrado sob as flores imaginárias que costumava trazer-lhe aos 7 anos. A última vez que o vira foi em um natal (não se lembrava há quantos anos). Ceia, frutas, parentes e um parênteses na fartura invertida da metáfora familiar. Dos três dias, reservou 15 minutos para uma visita. Com as mãos trêmulas, presenteou-o com um livro. Ele nem sabia que ela escrevia.

Olhou as horas, o borrão de café na xícara e respirou bem fundo. Tanto quanto desejaria estar e ter que viver aquele momento. Não se arrependeu do vazio, da ausência ao velório, do adeus que acreditava não existir. O relógio marcava 16 horas. O caixão estava sendo fechado.

(Oficina de Contos, com Nelson de Oliveira, em Jaraguá do Sul/ SC aos 20/08/11) 

RELÍQUIAS


A pergunta era: Qual a imagem mais remota que você tem lembrança em sua infância?

A primeira vez que ouvi de alguém essa pergunta, imediatamente exercitei minha mente a buscar bem no fundo de minhas lembranças uma imagem que eu pudesse classificar como a mais remota e por si mais preciosa. Incrível como não precisei de muito tempo, muito exercício ou muitos mecanismos de ajuda para encontrar. E por mim foi classificada como preciosidade:

De Ensaios sobre Os segredos do espelho

O CELULAR

Ela fingia que era inverno, que estava muito frio, menstruada, cansada ou ainda a tradicional dor de cabeça. Ele insistia, pois a desejava sempre. Por fim, sempre acabava aceitando as desculpas dela. Ela, respirava aliviada.

Certa noite, enquanto ela estava no banho, seu celular tocou. Ele não tinha o hábito de atender, mas desta vez a chamada era insistente então, resolveu. Aguardou a voz do outro lado. Um homem falou: Cristina? Já estou aqui. Não demore, ok? E desligou.  

Quem seria?        

Abriu a porta do banheiro bem devagar e reconheceu o contorno daquele corpo no Blindex esverdeado e embaçado do box. Excitou-se rapidamente e  desejou  brincar de marido e mulher com ela, sob o chuveiro. Cris, você vai sair? -Perguntou disfarçadamente. Eu marquei com a Valdirene no  shopping. Ela  trouxe uns livros de arte pra mim, da viagem dela... Sabe, né?
ALÉM DA VERDADE E DOS MEDOS


Ela ainda sentia o gosto da pêra na boca. Há quase uma hora deitada na rede, macerava sua saudade e suas lembranças. Vez por outra, a língua transitava sobre os dentes procurando resquícios da fruta saboreada sem pressa. Exatamente como ela fazia há mais de oito anos com sua saudade. O olhar perdia-se entre as minúsculas folhas de hortênsia, replantadas no jardim formando uma letra do alfabeto. Somente ela sabia qual e para quem tinha plantado.
Brigava consigo mesma cada vez que tentava puxar pela memória se ele alguma vez tinha lhe trazido flores. Não conseguia ter certeza e isso a corroia mais, pois o medo do esquecimento, de perder suas memórias, seus sinais, sua legião de momentos especiais que a acompanhavam sem pedir licença ou terem vergonha de quem ela era, esse sim era assustador e a perseguia rindo pelas costas.
Lágrima

O sino da igreja badalou chamando para a missa das dez, como e todo sempre, sistematicamente fazia.

 Foi no início do séc. XVII que os últimos jesuítas resolveram cravar sua passagem pela região do Vale do Encantado. O suor de muitos índios tingiu os pilares daquela rendição confessa e sob pressão à religiosidade branca. Enquanto o padre iniciava o sermão sugerido para aquela manhã, Santa Rita lacrimejou. 

Lentamente, os olhos vidrados de um azul celestial foram se envolvendo de uma claridade e transparência nunca vista antes. O pó do tempo e da História eram assim eliminados. O tempo registrado em relógios parou enquanto ia surgindo, do canto interno do olho direito, um vitral líquido que delicadamente descia vagaroso pela sua face, passando pela narina esquerda e esbarrando na sutil feição de seus lábios, pintados de um vermelho doce e angelical. A lentidão do surgimento daquele líquido era quase imperceptível ao olhar humano. A Santa percorreu, com um único olhar, todos os fiéis e, conhecendo-os um a um, fez sua escolha. 


Na Mitologia Grega, Atropos ou Átropos (do grego Άτροπος, "Sem Retorno") era uma das três Moiras, deusas que regiam os destinos, sendo sua contraparte romana conhecida como Morta. Era considerada a mais velhas das Moiras, conhecida como a "Inevitável" ou "Inflexível" sendo ela que cortava o fio da vida. Seus atributos eram o quadrante solar, as balança e a tesoura ou ainda uma esfera e um livro onde ela lia os destinos.

À espera de Átropos
O sangue queimava as paredes das veias corroendo feito um ácido e ele sentia prazer nisso. Olhou pro relógio no visor de seu celular: eram duas e vinte da madrugada. Sentado à beira da cama de seu quarto, observava, paralisado, o sangue que escorria. À sua direita, uma lâmina nova e um copo de conhaque quase vazio. Uma confusão de ideias em sua mente; pensava em sua mãe, na irmã mais velha, no balconista da farmácia, Otávio (iria se lembrar dele?), na primeira professora do jardim, no seu chefe (maldito fosse ele), Sr. José, o zelador, Márcia, Augusto, Zé Pereira, o Alemão. Desejou saber se alguém iria ao seu enterro. Quem escolheria o traje para que seu corpo permanecesse a sete palmos da terra? Pousariam moedas em seus olhos? Devia ter deixado uma carta com instruções...
O lençol incorporava o vermelho, fio por fio lentamente. Observava os desenhos assimétricos compostos pela borra, cada vez maior, mais úmida e quente. O colchão, provavelmente iriam jogar fora (quem não se importaria em dormir nele, transar sobre as manchas?). A consciência começou a falhar, as imagens iam ficando embaralhadas e teve a sensação de ouvir vozes, sussurrando em todo o quarto, num eco estridente. O braço esquerdo começou a arder, sentia as artérias e vasos inchados conversando com ele, implorando pra explodirem de uma única vez. Ainda sentado, olhou atentamente, como se fosse pela última vez, cada objeto que compunha o quarto. Cada qual o fazia viajar pelas lembranças e por um tempo que ele não queria ter vivido. Lembrou que não tinha escrito nenhuma carta, afinal, iria dar explicações a quem? Quantas vezes, em estágios depressivos e angustiantes piores do que aquele? Quantas vezes, mentalmente, arquitetou planos de fuga, mudanças de identidade, de profissão, tudo para fugir daquela nuvem espessa e obtusa de depressão que constantemente o acompanhava. Quantas vezes? A coragem era seu fraco, sabia que jamais prosseguiria o que arquitetava em sua mente. Inspirou o ar profundamente e imaginou Átropos cortando o fio daquela sua vida medíocre, inútil e vazia. Divagou por um instante imaginando-a esvoaçante pelo quarto vestindo um longo de musselina azul clara, cabelos longos, olhos brilhantes e saltados, segurando os últimos centímetros do fio de sua vida antes de cortá-lo com uma enorme tesoura dourada.
O corpo fraquejava, sentia-se já sem vida, sem conseguir manter fixo o pensamento em alguma ideia, lembrança ou mesmo despedida daquele mundo enfermo. Esfaleceu, de costas sobre o leito. Sentiu uma grande dor em toda a extensão esquerda de seu corpo. Fervia por dentro e por fora: corpo, mente e espírito. Aquele silêncio o irritava, sentiu vontade de gritar, urrar, xingar tudo o que lhe viesse à mente, mas sabia que o melhor era permanecer mudo. Observou o teto, o quarto, os móveis delineados somente à meia luz do abajur, pois odiava a plena escuridão, desde criança, e por um instante refletiu que teria que se acostumar com ela de agora em diante. Não acreditava em reencarnação, ressurreição, volta como ser inferior e toda essa conversa fiada que os homens inventaram sobre o que existiria do outro lado em um tal deus que tudo observava, pois se assim fosse, não o teria trazido a esse mundo pra ter aquela vida de merda.  Cria:  não havia nada do outro lado. A morte era o fim de tudo, escuridão plena e ponto final. E como a sua vida chegara a um ponto final, não haveria porque não adiantar o ciclo. Há tempos pensava em dar um fim em sua angústia, sua tristeza repentina por tantas vezes sacudida por uma força que vinha sabe-se lá de onde. Sua revolta com a condição humana de muitas sociedades, a antítese da democracia social inexistente nas atitudes. Todas aquelas dores que sentia há anos e jamais encontrara respostas para elas. Há anos aquele momento permeava sua mente. Não admitia a depressão, não tinha tempo pra sermões e conselhos médicos e livros de como se reerguer em dez lições. Sabia-as de cor e salteado, do avesso e de traz pra frente. Queria seguir as suas regras, o seu modo de viver sem se arrepender. Tentou levantar-se, apoiando-se no cotovelo direito, mas percebeu que sua pressão arterial já começava a dar os primeiros sinais de queda brusca, bungee jumping sem volta.  Implorou por Átropos, mais uma vez e ouviu o som de vários trovões brigando lá fora.
A janela estava com meia cortina, os vidros fechados, Percebia o clarão dos faróis dos automóveis que passavam na rua, àquela hora da madrugada. Os sábados eram sempre tumultuados. Baladas, festas, bêbados invadindo casas em seus possantes; vidas sem limite, sem noção de espaço; gritos, tiros e risadas desordenadas. E quais eram os seus limites? Suas noções de espaço real, concreto e polidamente social? A vida era uma única regra: siga as regras. Passou muitos anos à margem delas, pois tinha um acordo selado com sangue com seu amigo Alfredo, amigo de infância esfaqueado no pescoço, dentro do carro, numa sinaleira, ano passado. O acordo era seguir a ideia de “viver sem se arrepender do que fez”. Agora o braço e seu corpo começavam a formigar. Estava muito frio no quarto.
O frio aumentava, tentou virar seu seu corpo em posição fetal; puxou o lençol e cobriu o pouco de seu corpo. O lençol, ensopado de sangue, era fúnebre. Muito fraco e tremendo, esticou o braço direito sobre o criado mudo e pegou a garrafa de conhaque. Ainda havia alguns goles. Seu estômago deu um estampido oco quando a bebida desceu goela abaixo. Quando abriu os olhos, a imagem que vira o deixou mais perturbado e, por consequência de sua fraqueza, não conseguiu se mover, se afastar do que via. Ele imóvel e ela estava lá, esvoaçando sobre seu corpo, sorrindo sarcasticamente e seus enormes fios de cabelos bailando no ar. Átropos enfim viera buscá-lo, exatamente como ele sonhava desde a mais remota infância. Ele sorriu. Sorriu uma felicidade que talvez nunca tivesse sentido, mas ela estava lá e finalmente viera buscá-lo. 
O vidro da janela começou a receber os fortes pingos de uma tempestade anunciada por toda a madrugada, mas a meteorologia previa sol no final do dia.
Maria de Fátima Venutti ou simplesmente Fátima Venutti .  
Paulistana de Osasco (1965). Reside em Blumenau desde dezembro de 2002. Formada em Letras, escreve desde os 11 anos.

Participou do grupo Constelação de Poetas, em Osasco/ SP e em 2004 associou-se à Sociedade Escritores de Blumenau- SEB. Possui textos premiados em concursos literários, destacando entre eles “Mulheres em Prosa e Verso” (2005) Ed. Hoje, Casca/RS e 2º Prêmio Ebrhaim Ramadan, Ed. THS Arantes – S. José Rio Preto/SP.

É membro da Academia Catarinense de Letras e Artes (ACLASC), ocupando a cadeira nº 11, cujo patrono é o poeta Lindolf Bell.

Faz parte da Câmara Catarinense de Livro – CCL com link individual:
Em 2007, presidiu a Sociedade Escritores de Blumenau- SEB - gestão anual (www.seblumenau.org) ;
Membro fundadora do Instituto Ame Suas Rugas:

TRABALHOS LITERÁRIOS QUE PARTICIPOU:

- Antologias e Concursos Literários

Antologia de Poesias “Frei Constâncio Nogara”, organizada pela ASES (Associação de Escritores de Bragança Paulista/SP)- 2005
Concurso Internacional Mulheres em Prosa e Verso – Ed. Hoje, Casca/RS (2005), participando com 4 textos selecionados
Revista Palavras Azuis (coord. escritora Terezinha Manczack. Participou do Vl. 3, nov/2005, cuja temática era o Surrealismo na Cultura.
Coleção Prosa&Verso, Vol. 4 Projeto Palavras Azuis), Ed. Nova Letra, Blumenau/SC -2005
Antologia Um Rio de Letras, Vol. III- Organizadora, em parceria de Neida Wobeto e Rosane Magaly Martins, e co-autora nesta obra que destaca o trabalho dos literatos da Sociedade Escritores de Blumenau- SEB, com apresentação de Celestino Sachet. Ed. Nova Letra, Blumenau/SC, 2006.
2º Prêmio Ebraim Ramadan, Ed. THS Arantes- S.José Rio Preto/SP (2006) - Poesia Último Beijo. Premiação que resultou na publicação da obra individual (bilíngüe) Último beijo/ Último Beso (poemas)
- I Concurso Nacional de Poesias da Academia Catarinense de Letras e Artes
ACLASC (2006) www.aclasc.com.br – 5 º Lugar: Poesia “Sombras da Memória”
- Projeto Jóias Literárias – (2007) Estúdio Criação- Blumenau/SC, com ilustrações de Eugênio Colonesse; Participam 10 poetas selecionados da Sociedade Escritores de Blumenau. A obra integra o projeto Troque Lixo por Livro, de Cristina Marques (Prêmio Nacional SEBRAE de Empreendedorismo- 2006).
- Projeto “Pão e Poesia” – Vol. 3 (2007) Ed. Cultura em Movimento/ FCB; Projeto da Editora Cultura em Movimento, da Fundação Cultural de Blumenau que há 10 anos divulga a literatura impressa em saquinhos de pão, distribuídos nas padarias de Blumenau/ SC ,Vale do Itajaí e oeste catarinense.
- “Blumenauaçu na ponta dos dedos- Vol. 2”, em Braile (2007)(Ed. Cultura em
Movimento/FCB, Blumenau/ SC). Obra em comemoração a 5 anos do Centro Braille de Blumenau. Poesias selecionadas impressas em Braille.
- Histórias de Natal Contos & Crônicas ( (Ed. Nova Letra, 2006, Blumenau/SC - Sociedade Escritores de Blumenau SEB; Organizadora, em parceria de Neida Wobeto e Rosane Magaly Martins, e co-autora nesta obra que destaca o trabalho dos literatos da Sociedade Escritores de Blumenau- SEB sobre o tema do Natal.
- Gente Que É! – contos e crônicas (Ed. Nova Letra – Blumenau/ SC- 2007) Organizadora, partícipe do Conselho Editorial e co-autora nesta que é a 1ª obra bilingüe (português- alemão) da Sociedade Escritores de Blumenau- SEB, destaca o trabalho dos literatos da entidade que em prosa trazem personalidades relevantes da cidade. Lançado no Encontro Brasil-Alemanha, nov./2007 em Blumenau/SC
- II Concurso Literário SEB – contos, crônicas e poemas – (News Print Graf. Editora, Xanxerê/ SC, 2007). Organizadora, apresenta o trabalho de escritores de várias cidades do Brasil, participantes do Concurso.

I Concurso de Literatura ART-MANHAS – 2007. “Prêmio Luis Antônio Pimentel” – 3º lugar (medalha de bronze) para o conto “Azeitonas Pretas”, site: http://www.artimanhas.com/literatura.html
E-BOOK: I Concurso Nacional De Literatura Arti-Manhas – 2007 (são 25 contos selecionados dentre 214 inscritos em todas as regiões do país) I http://www.artimanhas.com/obras_escolhidas.html
Prêmio Literário Valdeck Almeida de Jesus, edição 2007. Participante da
Antologia com o poema “Meu cais, minha morada”. - Edição 2008: Participante da Antologia com o poema “Três Tempos e Uma Manhã””.
ReCitando Blumenau (AW Vídeo Produtora, Blumenau/ SC). Projeto de vídeo arte provado pelo Fundo Municipal de Apoio à Cultura de Blumenau/SC em 2007. Participa com o poema “O Vento”.
O conto “Menina de Trem” que faz parte da obra Terceiro Apito, recebeu Menção Honrosa no XIII Concurso de Prosa (2008) - Prêmio Jornalista José Carlos Chiarion – organizado pela Associação de Escritores de Bragança Paulista/ SP. O concurso prevê a publicação em uma Antologia.
Concurso de Contos, Crônicas e Poemas – Antonio Roberto – Academia Campista de Letras/ RJ. Edição 2009. 7º Lugar para o Poema “Tempestade”
SITE VARAL DO BRASIL:
http://www.varaldobrasil.ch/156521/170748.html



TRABALHO LITERÁRIO E DE DIVULGAÇÃO DIVERSA:

Rádio Bandeirantes – São Paulo. Especial Crônica do Ouvinte (MAIO/2007) –
Ele era verde mesmo!! www.radiobandeirantes.com.br
- Colabora com textos poéticos no Jornal Santa Catarina – coluna Almanaque
http://www.clicrbs.com.br/jornais/
-Colabora com textos no site OVERMUNDO:
http://www.overmundo.com.br/perfis/fatima-venutti
- Colabora com artigos sobre literatura no Jornal de Santa Catarina
- Painel Literário da Sociedade Escritores de Blumenau espalhados em vários
pontos da cidade e Painel da Poesia da Biblioteca Pública Dr. Fritz Muller- em Blumenau/ SC.
- Participação constante no Projeto Pão&Poesia, Ed. Cultura em Movimento
(Fundação Cultural de Blumenau) com a publicação de seus poemas em saquinhos de pão das padarias conveniadas do projeto, inicialmente em Blumenau e atualmente em várias cidades de SC e RS (média de 45.000 saquinhos/ mês)

- Projeto Poesia em Movimento (2007) – Edit. Cultura em Movimento em parceria com a Sociedade Escritores de Blumenau e SETERB – Poemas impressos e divulgados nos seis terminais urbanos de Blumenau/SC.
- Projeto Poesia no Túnel (2010) – Shopping Neumarkt – Blumenau/ SC mostra de poesias no túnel, para pedestres, que atravessa a Rua 7 de Setembro e liga o centro ao shopping. Participam da mostra escritores da Academia de Letras Blumenauense e da Sociedade de Escritores de Blumenau. Poema selecionado “O Tempo”, de Fátima Venutti.

- Cronista Interina Jornal de Santa Catarina – substitui o Cronista Mailcon Tenfen, às terças-feiras do mês de maio/2011.

- Participações e lançamentos em Feiras de Livros : Pomerode/ SC- 2006,
Blumenau/SC- 2007, São José/SC- 2007, Porto Alegre/RS- 2007, Alfândega
(Florianópolis) 2008 – estande da Câmara Catarinense do Livro- CCL
http://www.cclivro.org.br, 8ª Feira do livro de Joinville (2011), Feira de Rua do Livro de Timbó/SC – 2009/2010/2011.

- Jurada no Concurso de discursos sob o tema “Brasil, Pátria Amada” promovido pela OAB (Ordem DEMOLAY) (Fazendo História) para todos os colégios municipais e estaduais de Blumenau, 2009.

- Jurada no II Concurso de Redação Fazendo História  promovido pela OAB (Ordem Demolay, Capitulo Vale do Itajaí) para todos os colégios municipais e estaduais de Blumenau, 2011.

- Jurada no Concurso de poemas sob o tema “A Morada da Poesia” promovido pela Fundação Cultural de Timbó/ SC, para a 5ª. Feira de Rua do Livro de Timbó, 2009.

- Jurada no Concurso de poemas  promovido pela Fundação Cultural de Timbó/ SC, para a 6ª. Feira de Rua do Livro de Timbó, 2010.

 CURSOS DE ATUALIZAÇÃO:

- Oficina de Formação de Escritores – SESC Blumenau:
- Caderno de Autorias ministrada por  Carlos Schroeder – 21 e 22/02/2009
- Oficina de Poesia, ministrada por Rubens da Cunha -  20 e 27 de junho  e  04 de julho
- Caderno de Autorias, ministrada por Tabajara Ruas e Roziliane Oesterreich Freitas – 05, 06, 12, 13, 26 e 27/03/2009
- Festival Nacional de Contos de Jaraguá do Sul – Oficina de Contos com o escritor Nelson de Oliveira- dias 20 e 21/08/2011
 Obra individual:
ÚLTIMO BEIJO/ ÚLTIMO BESO”, Ed. THS Arantes, S. José Rio Preto/ SP, 96 págs, 2007. Obra bilíngüe (português/ espanhol), com poemas que elucidam a paixão.
Terceiro Apito“, Ed. Nova Letra, Blumenau/SC, 96 págs, 2007– Contos e Crônicas,
ESTAÇÃO CATARINA: o trem passou por aqui”, Ed. Nova Letra, 128 págs, 2009. Organizadora e coautora.
TEMPESTADE”, Ed. Nova Letra, Blumenau/SC, 96 págs, 2010– Poemas
 Site: http: / fatimavenutti/blogspot.com/

Contatos com a autora:


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Textos de Fátima Venutti


SEM DESPEDIDA

          As borras do café mal passado bailavam no interior da xícara sem demora, sem pensar. Ela olhou as horas, fechou os olhos e o choro não veio. O som  do trombone desafinado em poropopós invadiu sua mente em lembranças. Parábolas de sua pobre infância.

          A garrafa de cachaça envelhecida com raízes e sementes desconhecidas, pousada no chão, ao lado da geladeira; o vestido de missa, único, com o babado sujo de lama do último passeio ao parque; a barraca na quermesse anual com suas prendas e guloseimas sem igual; as discussões entre os pais sobre orçamento doméstico e as mágoas jogadas na cara, tudo arrebatou ainda mais sua dor de perda. Não. Não tinha perdido um indício de identidade, de sobrenome, de vida beirando à miséria e ao pecado de desejar um futuro que não poderia lhe pertencer. Respirou muito fundo, mesmo assim o choro não veio.

            Buscou mais um café na simbiose do corpo com o tempo sem sentido. Pensou em renegar a aritmética dos anos em comunhão com uma alma que respingava os odores, brigas vespertinas e invernos calados com uma única sopa. Dias seguintes incógnitas. Conformou-se em seu presente.

          Distância. Eram mais de mil quilômetros que a separavam do despedir e de vê-lo pela última vez (última vez?) inerte, prostrado sob as flores imaginárias que costumava trazer-lhe aos 7 anos. A última vez que o vira foi em um natal (não se lembrava há quantos anos). Ceia, frutas, parentes e um parênteses na fartura invertida da metáfora familiar. Dos três dias, reservou 15 minutos para uma visita. Com as mãos trêmulas, presenteou-o com um livro. Ele nem sabia que ela escrevia.

          Olhou as horas, o borrão de café na xícara e respirou bem fundo. Tanto quanto desejaria estar e ter que viver aquele momento. Não se arrependeu do vazio, da ausência ao velório, do adeus que acreditava não existir. O relógio marcava 16 horas. O caixão estava sendo fechado.





O FAMOSO CAUSO DA BORDADEIRA

          As tardes sempre eram vazias quando Madalena não bordava. Já fazia parte do cenário da pacata Vila de Coronel Feliciano do Araçá a presença religiosa de Madalena, bordadeira das mais requisitadas, emoldurada pelos roliços pilares de Jequitibá da varanda de sua casa, vespertinamente de segunda a segunda, chovesse ou fizesse sol.

          Aprendera a domar as linhas, esticar o tecido nos bastidores e a compor belíssimos e perfeitos desenhos desde menina moça. No início, era a mais pura obrigação, imposta pela mãe, para montar seu enxoval de núpcias. Com o passar dos anos, precisaram construir um “puxadinho” nos fundos do quintal pra guardar tantas e tantas peças bordadas, pois Madalena e o enxoval não conseguiam mais ocupar o mesmo espaço no quarto. Bordar acabou se tornando um vício em sua vida. Vez por outra um vizinho, saindo pra roçar logo cedo, a avistava já na varanda de agulhas e tecidos em punho, em plena 5 da manhã.

          Enquanto Madalena bordava, o tempo passava à sua volta com uma rapidez cruel. Uma noite, durante o jantar, enquanto molhava o pão numa água com três batatas cozidas, seu pai levantou os olhos pra ela e declarou:

          - Hoje vais conhecer teu noivo. Teje aprumada e não me faça passar vergonha.

          Espantada, virou seu lindo par de olhos azuis pra mãe, pedindo socorro. De nada valeu. Noite dos infernos seria aquela. Já moça passada (como cochichavam na vila), Madalena teve um desarranjo nervoso que não conseguia se levantar da patente do banheiro. As batidas na porta e o ranger dos dentes de seu pai podiam ser ouvidos quase que no quarteirão inteiro. O desarranjo custou-lhe um marido, além da oportunidade de finalmente inaugurar as peças do enxoval, ao invés de somente aumentar as dúzias dos bordados. E como em qualquer vila pequena, o causo do desarranjo ganhou fronteiras além do território de sua casa. Pior. O pai ficou tão desgostoso da situação que não conseguia mais pretendente pra Madalena. Ter uma filha encalhada numa família era pior que praguejar por mais de sete gerações. A vergonha só aumentava seu desejo de morrer. Até que um dia, o sino da igreja badalou fora de hora. Era a notícia que o pai de Madalena tinha ido desta pra melhor por puro desgosto.

          Mesmo durante o velório, Madalena não largava o bastidor, as linhas e agulhas. Rezou o Terço inteirinho (sabia todos os Mistérios de cor) terminando um “caminho de mesa” de linho vermelho. Em um dos beirais, escreveu com perfeição: Só Jesus salva. Quando fecharam o caixão, deu um jeito de colocar a peça bordada dentro. Cumpriu o luto somente nos trajes. Continuou seus afazeres e alimentava seu vício com mais alegria de viver que antes. Era até de se estranhar. O tempo passou mais rápido ainda depois da morte do pai. Jamais se ouviu falar na redondeza de algum novo pretendente. Mas ela continuava a bordar um enxoval que nunca terminava (e nunca iria usar). O espaço no “puxadinho” já não era mais suficiente. A mãe, já pensava em abrir uma lojinha, um bazar pra vender as peças e ajudar nas despesas da casa e de gastos com mais linhas, mais tecidos e agulhas. E assim o fez.

          A fama da riqueza, qualidade e perfeição dos bordados de Madalena correu mundo. Recebia encomendas de várias cidades da região, alguns estados e até do exterior. Bordava cada dia mais rápido, mais perfeito e tinha uma variedade de desenhos que impressionava qualquer um que chegasse à sua lojinha. Aumentou o puxadinho, tornando-o um galpão. A mãe teve que aprender a dirigir e Madalena presenteou-a com uma Caravan 1980 muito conservada. Assim, ficava mais prático e rápido de fazer as entregas.

          Um dia, acordou com um mal estar e febre muito alta e depois da visita do médico, ganhou o diagnóstico de Dengue. Pronto. A cidade não falava em outra coisa senão na ausência de Madalena na varanda, bordando. Foram quase 15 dias de furdunço de gente frente ao portão da casa. A mãe acabou acostumando a servir um café com bolo de laranja todas as tardes pra aquele povaréu. Acreditava que estavam orando pelo restabelecimento de Madalena. Que nada! Sem Madalena na varanda da casa, bordando, a cidade ficava sem graça, perdia seu prestígio de Capital do Bordado (e olha que era só Madalena que bordava ali).

          Por fim, ficou encalhada mesmo. Na vida, um único pretendente e ainda posto à prova pelo desarranjo nervoso da futura noiva. Quando fez 40 anos, perdeu a mãe (que já passava dos 80) por conta de uma pneumonia mal curada. Continuou bordando, mas como não dirigia, não entregava mais as encomendas. O galpão ia se enchendo a cada semana, a cada mês, a cada ano com mais e mais peças bordadas. Mas Madalena começou a se recusar a vender sequer uma toalhinha de mão.

          Um dia, a cidade acordou mais cedo. Um clarão enorme cobria o céu naquele início de manhã. Fogo! Fogo! Gritavam os vizinhos assustados. O galpão da bordadeira queimava e labaredas vermelhas gritavam com o estouro de algumas pedras dos bordados. Precisaram chamar caminhão pipa de duas cidades vizinhas pra conter o fogo e não deixar que tomasse uma proporção maior e um estrago mais incalculável ainda. Foi então que se lembraram da bordadeira: Onde está Madalena? Procuraram-na pela casa inteira meio a fumaça e fuligem que trafegava com o vento. Encontraram-na sentada em sua cadeira na varanda, olhos esbugalhados e o corpo balançando pra frente e pra trás sem cessar. As mãos tinham o movimento do bordar, só que sem bastidor, sem linhas e agulhas.

          Nunca mais Madalena segurou com firmeza uma de suas agulhas. Nunca mais bordou seu vício num caminho de linho. Encalhada e solitária, terminou seus dias arqueada na cadeira da varanda de sua casa, emoldurada pelos roliços pilares de Jequitibá.  A cidade nunca mais teve o título de Capital do Bordado.

 



A IDENTIDADE DA FÉ

                Ele era um homem sem fé. Na verdade, nem sabia o que era isso. A vida o tinha moldado com migalhas e constantemente mergulhava no álcool para fugir deste mundo.

               Na infância, a primeira e única notícia de seu pai veio com os palavrões da mãe, praguejando-o por infinitas gerações. Nunca teve Certidão de Nascimento, pois sua mãe dizia que dava muito trabalho e “pra quê? Não sei o nome do seu pai mesmo...”

               Até completar oito anos dormia durante o dia com a mãe numa cama de casal que rangia toda vez que virava para o outro lado. Ela trabalhava a noite, madrugada dentro e chegava pela manhã, trazendo a primeira fornada de pães da padaria da esquina. As noites, enquanto D. Jurema, uma senhora cega de um olho e que era paga pra cuidar do menino, esparramava sua gordura pelo velho e remendado sofá da sala, ele se perdia nas horas debruçando seu queixo no peitoril da janela, controlando o céu, as estrelas e o movimento barulhento dos carros e pessoas na vida noturna. Era o terceiro andar de um velho prédio de paredes sem reboco na Rua Mauá. Mal sabia que já aprendia a ser só.

               Aos nove, mesmo não sabendo ler e escrever, já conhecia as notas de dinheiro e todas as moedas, seu valor e se orgulhava de brincar de “dar troco” com D. Jurema, essa a única forma que ela sabia de ensiná-lo a viver por aí. Foi então que numa manhã chuvosa de janeiro sua mãe chegou do trabalho com uma caixa de drops Garoto e outra de chocolate Chokito. O menino arregalou os olhos, começou a esboçar um largo sorriso de surpresa e felicidade quando, imediatamente, sua mãe mandou-o tirar a alegria da face, pois a partir do dia seguinte ia vender as guloseimas na sinaleira. Enfim, não eram pra ele degustar e se lambuzar.

               Começou no dia seguinte, num cruzamento próximo do prédio onde morava. Levou muito xingamento, desaforo e foi aprendendo a se defender dos garotos mais velhos e maiores que vez por outra vinham roubar seu objeto de trabalho. Já não cruzava a madrugada avistando estrelas de sua janela. Trocou o sono do dia pelo da noite e D. Jurema sentia falta de “ensiná o minino a contá”.

              Um dia, sua mãe não voltou do trabalho pela manhã, como de costume. Ele saiu com as últimas unidades de chocolate pra vender, voltou pra casa mais cedo, cochilou no velho sofá e foi acordado por D. Jurema com a notícia de que sua mãe tinha sido levada pelo Menino Jesus. Nem sabia quem era esse tal e de onde ele tinha aparecido pra levar a mãe embora dele. Esbravejava perguntando o endereço do tal Menino pra D. Jurema, que calmamente, mas com os olhos marejados de lágrimas, tentava explicar-lhe um mundo, um universo que ele desconhecia.

               - Mas tia Ju, se esse tal de Deus não aparece, ele não existe. Como é que a senhora quer que eu acredite numa coisa assim?

               Uma semana após o enterro, a velha Jurema juntou os poucos trapos que o menino vestia, embolou tudo numa trouxa de lençol sujo e levou, junto com menino, pro seu quarto e cozinha na zona leste da cidade.

               Não vendia mais guloseima na sinaleira. Ano seguinte, começou a freqüentar a escola. Era o último da fila, pois os demais colegas só tinham sete anos. Mas aprendia com rapidez as letras, e se orgulhava de já conhecer os números e de fazer conta de somar e dividir. Gabava-se em dizer que era por causa da experiência com as balas.

               Aos quatorze, tia Ju colocou-o pra trabalhar de embalador num mercadinho do bairro. Teve que aprender a andar de bicicleta, pois algumas madames queriam a entrega em casa. No começo, ganhou arranhões e batizou-se com uma cicatriz de 6 pontos no joelho esquerdo, tombo feio num bueiro aberto.

               Tia Jurema passou a ser a “véia Ju”. Ensinou o menino a rezar antes de dormir e das refeições, mas não o levava à igreja. Dizia “os padres são todos tarados por crianças”.

Um dia o menino acordou, olhou pro despertador e viu que estava atrasado pra escola. Olhou pro outro lado da cama e viu a “veia Ju” ainda dormindo. Chamou, chamou e chamou. Não se mexia, não respirava mais. Percebeu então que aquele tal Menino Jesus tinha de novo levado alguém que ele gostava. E sentiu um ódio imenso. Chorou pela primeira vez uma perda e engoliu em seco o golpe certeiro da vida de que estava definitivamente sozinho.

               Não concluiu a quarta série. Certa manhã foi chamado no escritório do dono do mercadinho. Nunca tinha entrado lá. Disseram que ele não podia mais trabalhar ali, pois não tinha documentos e nem “responsável”. Caso ele conseguisse os tais RG e Carteira de Trabalho, poderia voltar sem problema.

               Ficou mais de um mês sem sair de casa. Abria as janelas do quarto só pra sair aquele cheiro de mofo. Não tinha vontade de acordar, de tomar banho, de ver pessoas do lado de fora de seu mundo sem identidade. A comida acabou e numa tarde a Senhoria veio cobrar o aluguel. Sem documento, sem trabalho e sem dinheiro, teve que juntar poucas peças de roupa, um par de tênis e um retrato de tia Ju, quando era moça, dentro de uma mochila velha e sair do quarto e cozinha, sem olhar pra trás e sem destino. Na rua, passou fome, frio e foi agredido. Virou andarilho sem rumo por meses, anos até. Vez por outra fazia um serviço, um “bico” pra comprar uma cachaça e esquentar a noite em seu colchão de cimento. Fazia um esforço na mente pra lembrar seu próprio nome e idade. Sabia que mês era pelas vitrines das lojas quando anunciavam Dia das Mães, Namorados, Dias dos Pais, Das Crianças e Natal.

               Devia ser dezembro, pois havia muita iluminação nas ruas à noite, o que atrapalhava até pra dormir, e os postes estavam decorados com aquele velho gordo de barbas e vestindo um terno vermelho em pleno verão (isso ele nunca entendeu). Numa dessas noites, perambulando pela calçada da estação de trem Julio Prestes ouviu uma cantoria diferente vindo de dentro da estação. Ele nunca tinha ouvido algo parecido, pois o que conhecia vinha do que escutava na rua e quando ficava próximo de alguma loja de CDs. Umas diziam que era sertanejo e outras pagode. E tinha aquelas estrangeiras também que ele nunca entendia nada do que cantavam.

               Caminhou até a entrada principal da estação, de onde poderia ouvir aquela música e viu, bem ao fundo, algumas pessoas em pé, grudadas umas nas outras vestindo uma capa branca e segurando uma pasta. Era a primeira vez que ele via e ouvia um coral. Ficou ali, recostado num dos pilares centenários da entrada. O local estava cheio de gente sentada, ouvindo atentamente aquelas vozes cuja melodia entrava em seu ouvido com uma calma, uma paz, sentia como se fosse remédio, um bálsamo mesmo pra suas dores no corpo. Quando a música acabava, um homem que estava à frente e de costas para a platéia se virava e todos aplaudiam. Observando isso, ele os acompanhou.  Num desses intervalos foi que o avistei. Havia naquele olhar de vislumbramento algo de muito triste e solitário. Eu via uma criança num corpo de homem descobrindo a beleza da música sacra numa noite de dezembro, comemorando o Natal. Havia um lugar vago na minha frente. Tive que chamá-lo por três vezes para se sentar ali, antes de começar a próxima música. Duvidoso, aceitou o convite e timidamente pousou seus trapos sujos sobre a cadeira colonial estofada de vermelho. Do meu acento, eu observava e imaginava o que se passava em sua mente ao ouvir aquelas vozes tão angelicais ressonando melodias que tinham mais de cinco séculos de existência. Cabelos escuros, despenteados e empoeirados sem corte definido, vestia uma camisa pólo azul escuro com um rasgo do lado esquerdo da barra; bermuda de sarja marrom e tênis sem cor definida, mas devia ser branco ao sair de fábrica. Ele não se movia, por um momento inclinei minha cabeça para observar sua expressão facial. Estava completamente embriagado pela música e esboçava um sorriso inconsciente de prazer e satisfação.  A audição durou mais trinta minutos e a cada intervalo, aquele homem aplaudia efusivamente, vez por outra virava a cabeça pra trás e me encontrava sorrindo com ele.

               Quando finalmente terminou e ele viu que todas as pessoas se levantaram pra aplaudir, imitou-as, olhando novamente para mim como se a pedir minha permissão. Na seqüência, as pessoas foram saindo calmamente e eu não pude deixar de desejar conhecer mais sobre aquele homem tão pobre fisicamente, mas com uma riqueza de pureza humana impressionantes. Puxei assunto, perguntando se gostara do que vira.

               - Moça, nunca ouvi uma música tão linda e que me deixasse tão feliz.

               - É. Realmente a música sacra nos aproxima muito mais de Deus – respondi.

               Foi então que ele arregalou os olhos com uma aparência tão raivosa que imediatamente senti-me em perigo. Mas a feição no rosto foi acalmando, abaixou o queixo e me pediu com uma voz de criança para falasse pra ele sobre esse tal Deus. Sentamo-nos num dos bancos da praça em frente à estação, emoldurados pela claridade da iluminação daquele monumento. Iniciei meu contato perguntado sobre a vida dele, da qual em meia dúzia de frases resumiu sem prazer algum. Mas ouviu-me falar sobre o que desconhecia com o mesmo vislumbramento com que ouvira há pouco o coral natalino. Estava realmente interessado em saber sobre o lado espiritual que movia as pessoas em dezembro, os porquês, como e quando. As horas se passaram e eu me sentia numa profunda paz por ter conhecido aquele ser humano tão sofrido e chagueado pela vida e, mesmo que singelamente, ter levado algo de bom ao seu coração. Ao despedir-me, perguntei se iria ficar bem aquela noite, já que morava na rua, debaixo de uma marquise próxima à Rua Mauá. Respondeu balançando a cabeça positivamente e sorriu deixando escapar uma luz especial em seu olhar. Estava feliz e nem sabia.

               A noite de Natal chegou e com minha família brindei o aniversário de nascimento do Menino Jesus. Pensei naquele homem, o andarilho, e em certos instantes sentia-me aflita pela incerteza de onde e como estaria, se ainda o veria uma vez mais.

               Dia seguinte uma notícia inusitada ilustrava os jornais da cidade. Um homem havia sido encontrado morto deitado na manjedoura de uma praça pública, agarrado ao Menino Jesus estilizado.  O detalhe ficava por conta de um bilhete que ele carregava nas mãos com os dizeres: “O  minino Jesus num leva mas ninguém que eu gostar. Leva eu ouvindo aquelas músicas”.





DIA SEGUINTE

          A madrugada chegara ao fim e ela não tinha conseguido dormir. Seu estômago estava embrulhado. Impulsivamente abriu as cortinas da janela da sala e de seu mundo e seu rosto rastreou a luz do sol. Foi quando tomou a decisão: hoje vou matar uma parte  do passado.

          A solidão veio com o uma foice abrindo valas em sua mente, com uma fome voraz de procurar todos os momentos e sentidos que a levavam até ele. A morte seria premeditada. Sem advogados de defesa, sem pautas discutidas olhou pro computador, ligou-o e começou a procurar aqueles arquivos que somente ela decifrava suas nomeações. Códigos secretos de uma vida em segredo. Um amargo breve desceu pela garganta. Selecionou o primeiro arquivo, pensou, relutou. Por fim, apertou DEL. Entrou num transe de fúria incontida e foi apagando um a um sarcasticamente. Havia um riso estranho permeando o canto dos lábios. Quando terminou puxou diretamente o fio da tomada, recostou-se na cadeira e concluiu: não tem mais volta.

          A lingerie vermelha veio à sua mente, comprada especialmente para aquela noite. Ainda pingava água de sabão no varal da lavação quando a arrancou num único golpe e foi para o quarto juntando às demais que se escondiam no fundo da gaveta. No trajeto, o chão tatuou-se de gotas de tinta vermelha. Buscou a tesoura na lata de costura, sentou no chão em posição de meditação e foi, uma a uma, picotando as calcinhas, soutiens e tudo que remetesse àquele passado. Queria poder rasgar sua vida em dois tempos e permitir a existência somente de um. Mais amargo desceu pela garganta. Engoliu em seco todas as suas dores. Sua mente fervia em ódio, enganos, desprezo e mentiras.

          Foi quando avistou, dentro do guarda-roupa, sua caixa de segredos, ao fundo, sob a sombra das roupas penduradas nos cabides. Esticou-se para frente para alcançá-la e levou-a até a cama. Os lençóis, ainda revirados daquele pesadelo. Ajoelhou ali mesmo os seus pecados e como que em câmera lenta foi abrindo, sorvendo suas lembranças, seus segredinhos, presentes, cheiros, fotos, bilhetes, tudo que queria transformar em nada. Um a um foi retirando os objetos da caixa e pousando sobre a  cama. Sabia que era a última vez que veria essa cena. Travou os dentes. Não permitiu que seus olhos marejassem. Veio mais uma respiração pesada, sôfrega, profunda. Olhou tudo como a um sacrifício e rapidamente devolveu, um a um, para o interior da caixa. Aproveitou o espaço interno, recolheu as lingeries picadas e soltou-as, encobrindo becos, trincheiras, caminhos e tudo o que conseguia remeter àquela imagem. Fechou.

          Agarrou a caixa junto ao peito e quase, por um segundo, pensou em se arrepender do que ia fazer. E veio outro amargo, desta vez, rasgando com mais vontade a garganta. Sentiu o odor fétido de sua vergonha corroer as paredes da laringe e desaparecer no vácuo de seu estômago vazio. Ânsia. Sentia-se o próprio nada. Não pensou. Percorreu a casa até a porta da lavação. Passou pela cozinha, esbarrou no fogão, roubou a caixa de fósforos. Abriu a porta do armário onde sabia o que pegar. Perdeu-se ali no tempo do desespero e acordou às voltas com o laranja das chamas. Coisas começaram a crepitar, as faíscas aumentavam e ela foi refazendo uma pauta inexistente de sua vida em sua mente. Sua cabeça cozinhava lembranças e lançava jatos de vergonha alimentando mais as chamas.

          Correu de volta ao quarto e num saco de lixo jogou perfumes, jóias, livros, algumas peças de roupa, mais fotografias e poemas inacabados. Por onde seus olhos percorriam e ela encontrasse algo que a fizesse lembrar, jogava dentro do saco. Quase exausta, num choro seco, voltou à fogueira no quintal e despejou os objetos recolhidos. O saco de lixo debruçou devagar sobre a chama, por último, e viu-o enrugar-se antes de derreter. Era exatamente como a imagem daquele saco que ela se sentia. O tempo das chamas foi diminuindo e ela permaneceu de plantão, estática observando, confirmando que não haveria mais volta e nada mais restaria. Cansada, foi se despindo, jogando cada peça de roupa no chão pelo caminho até o banheiro. Nua, ligou o chuveiro no frio e mergulhou primeiro a cabeça, depois ombros, membros, enfim. Desligou sua mente no gélido da água e  desejou lavar sua alma de algum resquício de passado. Agachou-se no box e ali permaneceu, sem pressa. Quando terminou, passados quase 25 minutos, ela se secou, vestiu o roupão e foi conferir as horas: 10h40min. Sábado de janeiro amargo. Registrou isso num Post it e colou na porta da geladeira.

          Nunca mais amou. Negou sua história. Entregou sua alma aos livros, tornou-se escritora.



 Poesias de Fátima Venutti



A PASSAGEM

Bastou um segundo.
Rasguei minha morte
na horizontal.

Não vi os estragos
que minha ausência causou.
Metonímia.

 Mas descobri
que a eternidade
era só um ponto final.

Nem vi passar...


 
SPECTRUM

A morte
é um belo dia
pra se viver

Fantasmas não choram
nem brindam à morte.

E se for súbita, melhor,
pois não haverá tempo
pra escorrer o incógnito.

Melhor é deixar pra trás
o que não se pode levar
pro outro lado
dessa solidão.

A morte
não tem o azul
em seu prisma.
Brindam e desfilam
outros sons, cores e nódoas.

O eterno
é um engano que
construímos do lado de cá.



LANGUIDEZ

Tenho fome da tua pele
dos teus pelos
tenho fome

Tenho sede do teu suor
gotejando lascivo o céu
de minhas bocas
tenho sede

Tenho fome do teu corpo
escopo do meu desejo
 ascendente, insano
tenho fome

Tenho sede do teu sal,
raiz de teus beijos,
conjunção pronominal
de meu sexo, eterna sede.

Tenho fome do teu cheiro,
no ciclo do nosso cio,
enviesados corpos em nós.

Tenho sede da tua fome
por mim.



DIA DE PARTIR

Dia de finados.
A cama vazia, silêncio virado em saudade.
Pela janela, o vento empurrava o voil
enquanto a vida passava em Super 8 pela TV.
Um pigarro a mais, puxou a bacia
sob a cama e cuspiu: mais um sonho, menos um dia.

Margaridas no campo santo.
O vazio do corpo, saudade alimentando a lápide.
Um Pai Nosso, três Ave Marias e um Glória a Deus.
Mais um ano na imensidão do vazio:
da cama, da carne açoitada, da vida desnecessária.
 A chuva calou as velas acesas. Mais um pigarro...

A casa vazia, o ruído da placa: vende-se
O silêncio em nortes, histórias escritas nas paredes,
Chinelos esquecidos na varanda, a rede, o sofá,
O nó, a escada, a corda, o vento: saudade.
Sob a cama, a bacia transborda excrementos.
A morte é um girassol a se levantar todas as manhãs.



CANÇÃO DE NINAR

Encosta tua alma na minha...
E respira,
o aroma que este amor transpira.

Recolhe o teu espírito ao meu
e adormece,
litúrgico, todos os nossos medos.

Respira neste amor o meu aroma...
E transpira,
tua alma recolhida em mim.

Enamore meu amor, o meu espírito
E contempla,
todos os sorrisos que nesse sonho
sou capaz de te ofertar.




PRAZER EM QUATRO ATOS
  
Cena I:
Revoada de pássaros
O sangue riscando o céu
Entardecer claustro.

Do outro lado do sol
Pingavam cores
Desbotando luzes

A menina debruçada
Sob o lenço do céu
Adormeceu em azul
Aguardando a última
Cena do espetáculo
Vespertino

E vieram todos
Os cometas
Enquanto ela voava
 Com seu Peter Pan


Cena II:
Ela implorou tanto
Que rasguei o invólucro
Do seu gozo

Por fim
Suplicou às lágrimas:
Habita-me por inteira
Eis que agora  sou o nada.


Cena III:
Fez-se a noite
Enquanto contava os homens
Que tinha exumado.

Fez-se o dia
E descansou
No caixão do amante


Ato final:
Transou com seu sangue menstrual
Amargo de sua solidão
O lençol bordou-se do orgasmo
Da última virgindade.

Ainda restavam
Quatro dias de prazer.




“Às vezes escrevo fazendo ruídos.
Outras, os ruídos me empurram pra escrever.
Escrever e falar tanto, pra pessoas e lugares que eu nem sei se costumam ler.
Por vezes, a internet faz o papel do vazio que se acumula dentro de mim e nunca consegue sair por inteiro.
A cada dia acredito mais que escrever é a mentira que inventaram quando nasci.”


Fátima Venutti
Todos os direitos autorais reservados a autora.