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AVE, MARIAS!
Nome-símbolo, Maria. Assim como o segundo
domingo de maio. Clichês que criaram raízes e se consolidaram na tradição. Para
alguns, puro apelo comercial, estratégia da esperteza de empresário; para
tantos, não mais que simples simbologia; para outros, simbologia que pode se
converter em reflexão, em descobertas e redescobertas, em encontros e
reencontros, em manifestações de carinho. Sim, e por que não?
Clichês, apelo comercial... certo, mas e
daí? Mãe é mãe, não importa se domingo, segunda, de janeiro a dezembro, oitenta
e seis mil e quatrocentos segundos por dia. Portanto, para ela, tudo é válido.
Até um presente em forma de carinho ou um carinho com cara de presente.
Lembrança e presente são fundamentais, uma dupla imbatível. Naturalmente, se
revestidos de carinho.
Também, escolho Maria, nome-símbolo para
mãe. E para todas as marias, santas ou não. Maria parideira, Maria das dores,
Maria descalça, Maria da vida, Maria das ruas, Maria das drogas, Maria do
mundo, Maria da noite, Maria dos tanques e dos fogões, Maria da mendicância,
Maria da fila do SUS, Maria das cadeias, Maria das enfermarias. Maria sem rumo,
sedenta, repleta de fomes. Maria de filhos sem sonhos, feitos em série, de pais
sem nomes. Maria cheia de raça, mas nem sempre cheia de graça. Maria da
maternidade violentada pela perda de um filho e, irreversivelmente, sentenciada
à dor eterna. Maria das noites insones, dos pedregulhos na alma e de tantas
vias-crúcis. Maria de sonhos espoliados, mas de fé inabalável. Maria das lutas,
dos lutos, dos tombos, das buscas intermináveis. Maria rainha, sem coroa e
cetro, Maria menina, Maria marias...
A você, mãe, que teve o infortúnio de ver
um filho preso; a você que gerou um filho deficiente; a você que acolheu com
amor o filho alcoólico ou drogado; a você esquecida pelo filho distante ou
magoada pela ausência do filho tão próximo (quem disse que “Ser mãe é padecer
no paraíso...?!); a você que escolheu ser mãe do filho abandonado, da cria
alheia... A você, curvo-me, pois é em seu peito que reside a dimensão maior da
maternidade.
A você, mãe, mais uma Maria estigmatizada
pelo destino ou pela vida; a você que divide com seu filho esperanças débeis e
sonhos murchos; a você que é espancada pelo marido e pelas carências do dia a
dia; a você que faz da coragem trincheira na luta contra a discriminação física
e moral, contra a violência e a impunidade, minha homenagem.
A você que foi escolhida para colocar a
dignidade, o amor e o desvelo acima de qualquer fraqueza, de qualquer medo, de
qualquer recuo, eu me penitencio. E o faço com a humildade da mãe que não
conseguiu superar suas fragilidades e, por isso mesmo, ainda se encasula na
própria dor, como se a sua fosse a maior de todas.
Maria, marias, autênticas mulheres,
genuínas mães, legítimas santas. Heroínas sem medalhas. Invólucros da própria
vida. A elas empresto um poema dedicado à minha mãe, nordestina de fibra
baiana, mulher aguerrida, que, aos 89
anos, foi convocada pelo Pai para auxiliá-Lo na Instância Maior.
Mães são manhãs
a colher lembranças
pousadas nas frestas
de tantos silêncios.
São fios de noites
a cerzir saudades
nos beirais do vento.
No rosto, travessuras do tempo
que esconderam dores
e acolheram folias.
Na fundura do peito,
apesar do cansaço,
pulsa e reluz,
feito sonho indomado,
um enorme sol
de infinitas pétalas.
E POR QUE SIM?
É, mal principia março e, a toda a brida, chega, de batom e esmalte, botox e silicone, o cantado e recantado 8 de março, “Dia da Mulher”, dia de se outorgarem comendas, títulos e mimos àquelas que, desde o finado segundo milênio, caminham decididas, e quase imbatíveis, por trilhas nunca dantes imaginadas, em busca de espaços e conquistas. E, depois da queima dos sutiãs (bem antes do silicone), lembraram-se da lei da gravidade, imposta pelo tempo, e retornaram os indesejados para o guarda-roupa e, em consequência, à disposição dos interessados. Melhor prevenir que os ver despencar.
Um só dia é pouco. Todos. No mínimo, incontáveis. Se for para questionar a função da mulher nas várias vertentes da vida, 365 dias é absurdamente pouco. Nesse caso, melhor inventar um tempo maior. Todavia, se for só para homenageá-la... hum... os 365 já quebram o galho! Nada de dispensá-los.
Sou contra o “Dia da mulher”. Acho-o apenas alegórico, discriminatório e inócuo. Dia de luta? O que se resolve ou se decide nesse dia: a roupa para essa ou aquela solenidade? Com qual sorriso se receberá a flor? Todos os dias são de luta. E os resultados consistentes, reais e significativos vêm daí. Não somos mais minoria, sombras, espectros, marionetes... Não estamos mais “atrás de um grande homem” (e se o tal fosse pequeno, qual seria nossa posição?). Não monopolizamos mais o “trono” de “rainha do lar”, há “rei” também nele. A abolição daquela velha doutrina que relegava a mulher à categoria de “sexo frágil”, outra conquista feminina.
Um dia não nos basta mais. É bom que se lembrem de que o avental cedeu lugar ao terninho; o fogão, à mesa de trabalho; a vassoura, ao teclado (éramos rainhas ou bruxas?!), e estamos por aí, ativas, eficientes, “chefes” de família, comandando, encabeçando listas de concursos, de vestibulares, de frentes de trabalho. Presidentas, ministras já não são novidade (nem no Brasil). Mudamos valores machistas e constitucionais, rompemos as barreiras das profissões “masculinas”, tornamo-nos donas do nosso corpo, do nosso destino, do nosso prazer. Abdicamos da condição de objeto sexual (só se é, hoje, por opção ou por gosto). Conquistamos muito, mas, claro!, não ainda o bastante, bem o sabemos. Apesar disso, não há motivo para que nos discriminem com o “Dia da Mulher”. Existe o “Dia do Homem”?
No passado, a instituição de um dia, com a chancela de “protesto”, para lembrar e repudiar o massacre contra as mulheres americanas, primeira fresta de acesso feminino à contextura real, foi válida. Mais que isso: um marco que abriu os olhos do mundo para o verdadeiro “padecer no paraíso”, alcunha de ostracismo, de não-direito à genuína cidadania, de confinamento a um mundo do tamanho de uma casa, de uma mulher-mãe (abnegada, despojada, delicada...) e de mulher-esposa (virtuosa, carinhosa, prendada...). Era só o que nos permitiam ser. Abrimos as portas de inimagináveis amanhãs, escancaramos as janelas do futuro, descobrimos a vida e reivindicamos nossos legítimos direitos. No decorrer dos tempos. Não em apenas um dia: simbólico e anual.
Um senhor disse-me: “Vou exigir que a mulher abra a porta do carro e puxe a cadeira para mim. Ah! e depois, pague a conta do restaurante e do motel. Direitos iguais, deveres também”. Aviso a quem interessar possa: não conte comigo nesse item. Cavalheirismo sempre!
Independente do dia 8 de março, minha homenagem às mulheres e, em especial, à minha mãe, de grandezas tantas:
Carrego em mim
tantas mariase em meu ventre,
sangue, estrelas e fomes.
Se me querem santa,
maçã ou serpente,
se me querem seda,
seios ou lua,
me mostro Maria
de todas as dores,
me torno Maria
de todas as cores,
me faço esfinge,
ou mulher simplesmente.
Mesmice pouca é luxo
Estava decidido:
daria um giro no dia para que tudo saísse do trivial. Rotina muita asfixia, e causa até indolência.
Há coisas que não mudam, sai dia, entra noite. Que canseira! Porém, antes de
qualquer iniciativa minha, o telefone estrilou, e uma voz falseada abordou-me:
– Bom-dia, senhora! Posso estar falando com a senhora um instante? –. “Estar
falando”? Não, não pode! Proíbo-a de fazê-lo! Desliguei a chamada.
Liguei a televisão.
Quem sabe, um bom filme, na TV fechada, para defuntear o tempo, pois encontrava-me
em repouso, sob ordens médicas. Oba!, um do gênero policial, com muita ação,
perseguições, investigação, enfim. Ah! nem...! De novo, a rotulada briga pelo
poder na área, entre um investigador e outro, e o tal carro da polícia, em
perseguição ao do bandido, explodindo após deparar-se com uma jamanta que lhe
interceptou a passagem?! Que falta de criatividade, cruzes! O perseguido?
Safou-se, claro! mais uma vez. Esses filmes americanos... Francamente!
Melhor, decidi,
buscar um bom programa esportivo. Ih!... Não dei sorte! O canal reprisava
entrevista de um jogador de futebol, e aí, só Deus para moucar meus ouvidos e
poupá-los do tal “Com certeza!” e de seus complementos.
– Você chutou sem
direção, parecia desligado da partida, aliás, todo o time estava displicente, o
que houve? – quis saber o entrevistador.
– Com certeza!
Chutei bem, a trave é que tava de implicância comigo, mas fiz um bom jogo, com
certeza! Todos tão de parabéns, até o azar, com certeza! Não, o azar não, com
certeza! Agora, é levantar a cabeça, com certeza!”
Eu, sim, levantei a
minha, e, novamente, mudei de emissora. Ah! que bom, aquele casal simpático e
seu gostoso “Boa-tarde!”! Iniciava-se o jornal televisivo. Primeira reportagem
e... “É preciso encarar de frente a realidade...” (como seria encarar de
costas?). Não aguentei!
Passei para a
novela. Uma, outra e... o mocinho apaixonado pela moça rica ou vice-versa. No
auge do romance, fulano descobre-se irmão da beltrana, ou então, mais um filho
esconde a mãe por sentir vergonha da pobre! Topadas que resultam em objetos
caídos e toques de mãos, ufa! Um implicou com a outra, os dois não se suportam,
brigam sem parar, final feliz à vista. Eita autores originais, benza Deus!
Como última
tentativa, dirigi-me ao computador para vistoriar os e-mails. Nossa, quantos!?
Um deles, de uma aluna de certa escola municipal, atarantou-me. Analfabeta que
sou no léxico internético, fiquei mais baratinada que eleitor atrás do eleito
para cobrar-lhe aqueeeeelas promessas de campanha. Abro parêntesis: por falar
nisso, olá, prezado vereador amigo, cadê o projeto que dará a um logradouro
municipal o nome de minha mãe, Profª Lousinha Carvalho, uma das pioneiras na
Educação em Goiânia, e que, durante quarenta e dois anos, atuou na área como
professora, diretora, presidente do Mobral, com dinamismo, competência e senso
inovador, o que lhe valeu destaque nacional... E então?! A promessa está
prestes a completar dois anos e até agora... Olhe, aquela outra... ah! esqueça,
vou dar-lhe pouso em meu arquivo morto,
certo? Fecho os parêntesis. Bem, ao e-mail: “Oi, Ld, bd! Gt de s plt. Vc é bcn
d+ e mt dvt. Tb adr s lv q é btt egçd. Vt sp. Obg. Bj”. Que língua é essa,
santo protetor dos desentendidos?! O jeito, procurar um tradutor. Alguma coisa,
ele traduziu, mas outras... Em última instância, recorri à e-mailizadora que, a
princípio, mostrou-se desentendida de meu desentendimento. Aí, o pequeno texto
saiu das sombras: “Oi, Lêda, bom-dia! Gostei de sua palestra. Você é bacana
demais e muito divertida. Também adorei seu livro que é bastante engraçado.
Volte sempre. Obrigada. Beijo”. Ufa!!!
Mais uma tentativa
frustrada: não consegui tirar meu dia do lugar-comum. Hum... à tarde, eu
visitaria uma escola. Uma chance ainda viva, viva! Fui. O recreio estava quase
no fim. Aproximei-me de um grupo de alunos, e a conversa sassaricava
livremente: ”Formou, mano!”. “Tipo assim, irado”. “Fala aí, ele ficou bolado?”.
“Sinistro, pô!”. “Tipo assim, na moral”. “Demorô, malandro!”. “Tá zoando,
Mané?”. “Tipo assim, porradão!”. “Rasga, vaza, cara!”. “Manero pra caramba batê
um lero com a mina!”. “Ele tá ferrado!”.
“Tipo assim, sarado!”. “Se liga pra num pagar sapo!”. Meu Deus, será que
eles entendem o português que falo?! – perguntei-me.
Bem, as novidades
não surgiram. Como quem não arrisca não conquista, continuarei em busca de algo
novo. O que me conforta é que Luís Fernando Veríssimo também já caiu na cilada
do “Tipo assim...”.
Descomunicação
Tudo começou ainda
na infância. O menino não tinha sossego. A tosse chegava num rompante,
troteava peito adentro, escapulia boca afora, um suplício que o sacolejava
impiedosamente. Zelosa, a mãe não se descuidava: simpatias, benzeções, preces,
promessas, tudo o que a fé e as crendices lhe apontavam como solução.
Já dizia sua
trisavó: “Mais vale uma má esperança que um bom desengano”. Apoiada nisso,
capturou um peixe, cuspiu em sua boca e o devolveu ao rio, vivo, como mandava o
ritual; outra vez, escreveu a Ave-Maria num papel, introduziu-o no patuá
e o pendeu no pescoço do cachorro; ali ficaria até que o coitado se libertasse
dele naturalmente. Todavia, a mais estapafúrdia das doidices, com o fito de
acabar com aquela tosse ladrante, foi colocar o menino para tossir no ouvido da
imagem de São Braz: desassossegando o santo, ele haveria de milagrear em favor
do filho, acreditava. Por analogia, deduziu: se o santo era especialista em
engasgo, entenderia de tosse convulsa, a tal tosse comprida, afinal, eram áreas
afins, meio aparentadas.
A palavra de
ordem, portanto, para aquela desesperada mãe, “tentar”. Sem medidas. Sem
economia de sacrifícios. Tudo valia a pena se a tosse não fosse pequena (desculpe-me
o trocadilho, Fernando Pessoa). O filho precisava se livrar daquele “regougo
infernento”. Se necessário fosse, flagelaria São Braz ou qualquer santo, sem
misericórdia, até que agissem de forma competente.
Alguns meses
corridos, e a tosse, já nem tão comprida, se espaçava e, aos poucos,
enfraquecia-se. O menino, apenas, vez ou outra, tossicava, “tossinha de
cemitério”, afirmava a vizinha. E a mãe comemorava seus feitos com preces de
gratidão. A coqueluche, finalmente, estava derrotada em tempo recorde.
Passaram-se os
tempos, o menino cresceu, virou homem, um homem atarracado e franzino, de pele
bacenta e cabelos esporádicos (modelo nem ficam nem desocupam a telha). De
repente, ei-la, a tosse, ressurgida com novo status: bronquite asmática. “Culpa
da tosse comprida mal-curada”, retumbava, incansável, a avó. “Nem tudo foi
feito. Faltou cortar um pedacinho da parte branca da pena do urubu,
introduzi-la num amuleto e pendurá-lo no pescoço do coqueluchento”, resmungava
insistentemente. O certo é que a tosse, de volta, não dava trégua àquele homem
de olhar vermelho, olhar de meu Deus, cadê meu fôlego?! E era justo aí que
estava o problema: no fôlego. Um fôlego cambaleante, raquítico, feito bêbado à
mercê da intuição para encontrar o caminho de casa. Um fôlego de deixar
qualquer um sem fôlego.
Ano após ano,
Troncoso continuava com crises de asmas, cansaço e falta de ar. Aos arrancos, a
tosse não o deixava dormir. Uma consumição dividida com a mulher que,
conforme prometeu ao marido, instigada pelo padre, no dia do casamento, lhe
seria “fiel na saúde e na doença”. Casada, pois, em comunhão também de tosse,
fazer o quê, senão uma simpatia? Colheu, então, um punhado de alecrim, deixou-o
secar e, depois, amassou-o. Em seguida, colocou-o em um cachimbo virgem. Cada
vez que a asma se manifestasse, o marido tossegoso fumaria o alecrim.
Não tardou muito, o
médico foi chamado; e intrigou-se com o cachimbo sobre a mesinha de cabeceira.
– Olhe, é preciso
driblar o fumo. Aos poucos, o senhor se adaptará, fique tranquilo. Que tal
fumar só dois por dia?
– Dois...?! Vou
tentar, vai ser difícil, mas se é o doutor quem diz.
Dez dias depois,
Troncoso estava pior.
– Foi complicado,
doutor, mas consegui fumar os dois.
O médico, ao
ascultar-lhe os pulmões, confirmou a piora.
– Doutor, acho que
a culpa é do cigarro.
– Sem dúvida. Por
que lhe pedi que diminuísse as fumadas?
– Diminuísse?! Fiz
foi aumentar, doutor! Afinal, eu não fumava, e só fumei agora por prescrição
médica, ora!
De mal em mal, mal-entendidos...
Novamente, ela, a
moça do norte – “Nortista, não, nortense, é mais chique!”, diz, com um sorriso
nacarado, sorriso de lua cheia, espalhado no rosto –. Morena-tamarindo, de boca
suculenta, lábios vermelhamente embatonzados, olhos falantes e sempre crispados
em olhos quase sempre perplexos. É a moça do norte, de franqueza escrachada e
nocauteante, com a palavra afiada sempre em riste, que não melhorou o
português, mas é com ele que diz o que quer, sem censura ou subterfúgios, mesmo
a quem não deseja ouvi-la; a moça que desejava “tê um fio”, mas que o apelo da
maternidade não foi capaz de liberar o desejo da carne, exigente que era.
Assim, o filho nunca veio. Tampouco, a desilusão.
Um dia, a moça do
norte, já quarentona, resolveu ir à escola. E foi aplaudida por todos. Lá,
aprendeu um pouco do que devia, muito do que não queria e bastante do que não
precisava. Apesar disso, seu mundo, até então, do tamanho de um minúsculo quarto
de empregada, ganhou novas dimensões, cresceu, cresceu, virou às avessas, e
sugou seu mundinho fechado, sem varandas ou quintais, um mundinho cheio de
sombras e muralhas, cheirando a mofo.
Nele, não mais cabia. E, pelas janelas escancaradas à sua frente,
vaticinou novas trilhas e um sol que não conhecia. E caminhou, voando. Daí para
o curso técnico em enfermagem, um pulo, aliás, um salto e tanto.
O estágio pelos
hospitais da vida mostrou-lhe dificuldades não imaginadas. Ai, meu Deus, e o
pobre do português, já por ela tão maltratado? Nossa, ficou pior que jogador de
futebol contundido severamente: manco e troncho. Porém, a moça do norte, cheia
de propriedade, sentia-se, dia a dia, mais letrada e, mais ainda, doutorizada.
Para orgulho da família que, aqui e acolá, reverenciava tal ascensão,
respaldando-lhe os conhecimentos paramédicos, a competência e encantando-se com
suas façanhas cantadas e requentadas a toda plateia atenta:
– Hoje, lá no
Inspital Genial de Goiânia, um véi diabrético chilicou depois de ter um troço.
Ah! vi logo que devia ser enemia, claro! Oceis diabréticos não têm o sangue
raleado? Então...
Nesse “oceis”,
estava eu incluída, naturalmente. Bem, de pronto, corrigi o nome do nosocômio,
trocando “Inspital Genial” por Hospital Geral. A “enemia” e o “diabrético”,
tentei remendar, acho, em vão. E que o padroeiro dos idiomas mutilados não se
distraísse tanto, supliquei. Se possível, até um plantão extra, amém! E que
viesse o próximo estágio...
– Sabe o véi
diabrético? Pois é, vazou!
– Fugiu do
hospital, ou recebeu alta!
– Que o quê, morreu
mesmo! Alta eterna.
Aparvalhei-me com
tamanha singeleza ao falar de algo sério e triste. Ela nem se abalou. E
filosofou convicta:
– Se tamo aqui por
um favor, um empréstimo de Deus, já sabemo que não é pra sempre...
Preferi
silenciar-me ante tão imperativa e lógica postura que, óbvio!, não se conecta à
minha, sempre revestida de muita emoção. Contudo, como as diferenças alimentam
as relações, que assim seja, conformei-me.
Não tardou muito, a
moça do norte, autoconsiderada letrada e doutorizada, admirada pela família,
pelos amigos, vizinhos e adjacentes, após mais um estágio...
– Ih! hoje a
doenceira foi lá no Sanitário... que nome mais esquisito, desconjuro!
– Não seria
Sanatório, criatura? – interferi.
– Parece que é isso
mesmo. Pois é, tinha um doente na UTI, muito grave, e, logo que estatelei os
olhos nele, percebi a morte lá, sentada bem do seu lado. A gente sente quando a
fatídica ronda o doente e, por isso, falei bem claro pro doutor:
– Acho que esse morrebundo
tá precisando é de um médico otorr... um
médico de ouvido.
– De ouvido? O
problema dele é no pulmão.
– Pode até ser, mas
que ele tá surdo, tá: Deus chama, chama, chama e ele não escuta, ora!
Danou-se!
Outra noite de
alegria na fazenda Enluarada. Noite de farto calor, sem abano de vento, sem
lenha ou fogueira, mas com assuntos afogueados, muita lenha na malícia e a lua
magrinha, feito colar de madrepérola. O cafezinho? De sempre: “fresco e mais
pra amargo”.
A conversa, como de
hábito, sem cós nem barra: ora desleixada, descontraída, ora variada e com a
costumeira marca: o sujeito indeterminado, um jeito de camuflar a identidade do
fofoqueiro. Assim, de “dizem” em “dizem”, ninguém escapava dos afiados
faladores. Menos ainda, a mulher do prefeito. Tampouco, alguém se aventurava a,
sequer, uma saidinha rápida, mesmo só para acalmar as súplicas das tais
necessidades íntimas, naturais e intransferíveis. Por medo de ser o próximo
candidato a frangalho naquelas bocas debochadas.
– Não arredo as
búndegas daqui. Prefiro, mesmo à força, recolher minhas precisões aos seus
respectivos aposentos, pedindo-lhes um pouco de paciência, a ausentar-me;
melhor passar sufoco a virar bobó de diz-que-me-diz ou isca de fuxico – avisava o compadre Delfino, entremeando
muxoxos desengonçados e estalos desagradáveis de dedos, enquanto olhava de
esgueira para um certo vizinho, homem mexeriqueiro e gozador.
E, entre um assunto
e outro, ela, Madalena das Graças, a mulher do prefeito (e tema preferido das
conversas), à revelia de seu conhecimento, incorporava-se à noite, na ponta da
língua do tal zombeteiro:
– Vocês souberam da
última?
– De quem, de
quem...?
– Ora, de dona
Madalena, naturalmente!
– Dizem que
aquele garoto encapetado, o tal que engarrafou o sapo, pois é, o moleque roubou
o vinho do padre e embebedou a mulher do prefeito quando ela esperava o vigário
pra se confessar e se livrar de alguma culpa enooooooooorme, claro!
– Quer dizer que o
moleque, com o vinho, ludibriou a madama, entrou no confessionário e se fez
passar pelo confessor? Um legítimo dois-em-um, o moleque...
– E, assim, ouviu
todos os pecados capitais, municipais, cabeludos, emperucados... da
mulher-dama, isto é, da primeira dama!
– Dizem, redizem e
tredizem, bem endiabrados os pecados da dona Madalena... Alguns até desdizem,
mas o fato já criou raiz e virou verdade, pronto! Mas os pecados, acho, foram
também engarrafados pelo moleque, pois ninguém conheceu os bandidos.
– Ninguém? O amigo
está desatualizado e eu, calvo de tanto saber. Garanto-lhe: é um pecadão! E me
foi contado em segredo; porém, se o próprio dono não foi capaz de engavetá-lo,
por que não o revelar? Bem, dizem que a mulher, pensando tratar-se do padre –
sim, o padre alvo de seu exacerbado desejo –, confessou-lhe toda a sua paixão,
alguns pensamentos traquinas, ao tempo em que lhe fazia propostas serelepes e
exuberantes. Chegou a prometer intercessão, junto ao marido-prefeito, a favor
de uma geral e irrestrita reforma na igreja. Tudo em troca de certas benesses
do amor...
– Virgem Maria,
danou-se! Então, era o endemoniado moleque e não, o vigário...?!
– E, mal o moleque
bateu um cílio no outro, as querenças da leviana já estavam materializadas em
dois volumosos e empinados “argumentos”. Hum... e que dupla, dizem...!
–“Argumentos”
saltando belo abastado decote e vistos pelos buraquinhos do confessionário. E
será que o moleque aceitou os volumosos, não, os empinados, digo, os
“argumentos”?
– Que nada! O susto
foi tão grande que o garoto, em pânico, saiu em disparada, gritando: “Socorro!
Eu vi, ao vivo, juro, uma mula-sem-cabeça bêbada, com duas desinibições roliças
apontadas pra mim, não, não, pro padre, ai, meu Deus, pra nós dois, ah! sei lá!
Socorro!”.
É, pelo visto, o
vinho saiu pela culatra...
Bonito é lindo!
Mais uma viagem
ecológica. O roteiro, sempre lugares bucólicos, em que o meio ambiente funciona
como nossos pulmões, em que a beleza nos estonteia a sensibilidade, a
imaginação, e nossas almas voejam comboiadas pelo sol e pelo alvoroço dos
pássaros e das cascatas.
Bonito, no Mato
Grosso do Sul, é lindo! Terra abençoada pelos fluidos das lindezas naturais.
Terra em que Deus deve descansar quando se cansa do Paraíso. Lá, Sua criação
mostra-se exuberante, quase intocada, não fosse a ação do tempo, da chuva, dos
ventos, que lhe dá um toque especial. Nada que comprometa, aliás, até burila a
arte divina.
Sou mais
contemplativa nesses passeios. Não me atrevo a mergulhos, flutuações, focagens
noturnas... Minha filha, sim, adora aventuras, o inusitado. O marido, nem
tanto. Mas descer os duzentos e vinte degraus irregulares, de pedras tortas e
toscas, para ver a Gruta do Lago Azul, ah! não resisti à tentação e
aventurei-me; apesar da relutância do meu preparo físico e da minha
claustrofobia. Desci, ufa! E todos os santos me ajudaram. Um espetáculo
inexprimível, aquele azul silencioso, enigmático e profundo, no aconchego de
águas plácidas e transparentes, sob imensos punhais de estalactites esculpidos
pela água na rocha, pendurados e magicamente ameaçadores. A subida, Santo
Deus!, uma briga insana com o coração, para evitar que ele me escapasse pela
boca, narinas e pela própria respiração (cadê os santos...?! Folgados!). Enfim,
venci. Inteira, inteira, não digo; com chances de reabilitação.
A “trilha dos
animais”, uma caminhada instigante, topei, mesmo com a coragem capenga e o
fôlego protestando. A aventura começou com uma sucuri enorme e o vaivém de sua
língua irrequieta, e, literalmente, viperina, à mostra. Jiboia, tamanduá, anta,
capivara, cervo do pantanal, veado, jaguatirica, araras, tucanos, joão de
barro em pleno ofício, todos ali, de sentinela, quem sabe, injuriados com tanta
intromissão humana. Bonito, com seus rios, cachoeiras, lagos... Um
monumento natural, patrimônio da mais rara beleza, tombado pela sensibilidade
de Deus.
Miranda, onde se
inicia o Pantanal, recebeu-nos com um calor esturricante. O jeito, correr para
o rio, seu xará. Belos dourados, pensei, me espreitam, prontos para a fuga,
claro! Explico: eles conhecem minha fama de peixecida. Melhor: “pescadora
tarimbada”. Pudera: em Porto Cercado/MT, um pedacinho do Pantanal norte,
pesquei três magníficos dourados, magníficos na lindeza e na estatura (o leitor
nem ouse insultar-me com sua dúvida! Não se trata de história de pescador!).
Até ganhei fama por lá, só vendo! Naturalmente, os homens, que nada pescaram,
olhavam-me de través, com aquela clássica inveja tão comum à espécie.
Bem, em Miranda,
frustração das maiores: fisgada? Só uma arraia. Furibundei-me. Afinal, meu
status de pescadora ficou à mercê da joça e do deboche dos peixes e dos
despeitados (também, literalmente). Sobrou-me ver jacarés, macacos, ninhos de
tuiuiús (a família se exibia na copa das árvores), garças brancas e cinzas,
biguás... Os peixes...?! Que me aguardem os do Araguaia.
–
Olhe, amigo, ontem me refestelei como há muito não
fazia.
– E foi? E a refestelança se deu de que
modo, homem?
– Do modo que todo homem merece, ora!
– Virgem, e foi?! Mas que mal pergunte
ao amigo, como foi?
– Vou principiar pelo início. Bote
tento e aguce os ouvidos, hem!?
–
Tento boto, e redobrado, e os ouvidos já afiei. O amigo principie.
– Primeiro, escolhi a pretendida. Então, montei
o cerco, fiquei
na vigília e encantoei a
danada.
– Hum!... a danada, é? E aí, danou-se!
– Nem tanto. Já na primeira investida, ela se esquivou e fugiu...
– Quer dizer que a danada pôs a fuga no trote e desfeiteou o amigo!?
– Mas insisti. E de novo. Corre aqui, escapa ali e ela esperneando...
– E entre um esperneio e outro...
– Segurei com força a bendita que,
desassossegada, arrepiou e
rebundeou...
– E entre um arrepio e um rebundeio...
– Ela se rendeu.
– Rendida, rendida, em seus braços, siô?!
– Também, pudera: eu ali, resolvido, com
o fôlego alterado, o
desejo pidão...
– Um felizardo, o amigo! Aí num quieto, num calado, sonso que só...
– Ah! e que coxas, criatura! De aguar
a boca, os olhos, a vontade...
– Principalmente, a vontade...
– Bem, vou desativar o princípio e ativar a continuação...
– Virgem, e é aí que a coisa vai esquentar...
– Ainda não, se aquiete! Antes da esquentação, tem o ajeitamento, ora!
– Bem lembrado... O ajeitamento...
– Dominei a fulana e, no maior capricho,
apalpei tudo e deixei
a tal peladinha.
– Que suadeira, amigo! Pe-la-di-nha? Desnudadinha? Em pelo?
– Em pele. Pele e carne. E quanta abundância...! A peitaria, então, que
fartura!
– Valei-me, protetor dos
invejosos! Farta, sim, é a inveja que
me desarvora...
– Compostura, homem...!
– Sim. Mas deixe de lado a continuação e chegue logo na consumação,
– Se acalme! A pressa é inimiga da detalhação. Como lhe dizia...
– Peladinha, com as coxas, peito e abundâncias
a seu dispor...
– Eita gastura a sua, homem! Ajeite o desajeitado e me escute, criatura!
– Bem sugerido! Então, pe-la-di-nha... Ai, o que abunda sempre agrada!
– E no ponto pra
virar quenga! Uma quenga deliciosa...
– Quen...ga?! Assim, quenga, quenga?!
– Quenga, homem, quenga! E quenga
de primeira.
– Modelo quengão? Quenga gostosa, cheirosa, carnuda...
– Quenga de primeira, das melhores. Encorpada, aloirada, cheia de
suculências e quenturas...
– Minha Virgem, por piedade, uma sobrinha que seja! Ih! não é de bom tom
abordar tal assunto com uma virgem, ainda por cima, santa! A senhora me
desculpe o mau jeito...!
– Sobrinha? Que mal há? Afinal, somos amigos. Por que não...?
– “Por que não...?” O amigo quis dizer o quê?
– Que vou lhe ceder a quenga!
– O amigo descerebrou!
– Ela está ali, ó, no descanso... E quenga dormida é boa por demais...
– Minha Virgem, acuda o
homem! Me ceder sua quenga...?
– Sim. Ou o que restou
dela. Depois de ontem à noite...
– E que noite, posso até
imaginar...!
– De revirar os olhos!
Ela sobre a mesa, remexendo-se, hum,
ao mais simples
contato...
– O quê...?! Em cima da
mesa? O amigo, pelo visto, abusou...
– Até me fartar, ufa! E,
como lhe disse, a quenga é sua agora.
Dê um trato na
dita!
– O amigo perdeu de vez a compostura...?! O que é isso?! Me ceder a
quenga depois de uma noitada...! Se atipe, siô!
– Ande, a gostosa está à sua espera! É só afogueá-la e...
– Pare de troçar comigo, moço! Vê se pode: eu e a quenga do amigo, em
sua própria casa...!
– Eu mesmo vou reanimar a cheirosa e deixá-la no jeito pra você,
sossegue!
– Espere aí! O amigo extrapolou e até me ofendeu...
– Tome tenência, homem, e venha logo, venha,
se adonar da saborosa...
– Me adonar da... por
favor, amigo, judiação tem limite!
– Se adonar, sim, da
galinha que virou quenga ou, se preferir,
engrossado de fubá!
Não rias de mim, Argentina!
Uma semana em
Buenos Aires – buenos y fríos aires! – apreciando as belezas e o clima
portenhos. O dia da chegada, a princípio, pareceu-me inoportuno, pois Cristina
Kirchner pleiteava reeleição à presidência da Argentina. No entanto, tudo
transcorreu no ritmo rotineiro, e, do processo eleitoral, nem indício. A não
ser pela “Lei Seca”. Nada de bebida durante o dia, só após às 20h, apregoavam.
Porém, à moda ‘jeitinho brasileiro’, ao final da tarde, alguns barzinhos e
‘empanaderías’ liberaram, de forma velada, assim, debaixo da lei, a bebida
alcoólica. E quem estava sedento por ela, saciou a vontade, bem à vontade.
Parênteses: de
mamando a caducando, do inculto ao intelectual, por lá, não se usa presidente,
é presidenta mesmo, e para qualquer mulher que ocupe a função de presidir, não
importa o quê. Tampouco, ouvi sandices modelo “eleganta”, “doenta”, “pacienta”
e outras aberrações tão usadas por aqui, como forma de comparação, com o fito
único de ridicularizarem o uso legítimo do vocábulo feminino (e não é que já
infestaram de novo minha caixa com textos com tal conteúdo?!). Pois é, los
hermanos não praticam essa modalidade de asneira, essa bobajada sem eira nem
beira, ao contrário, mostram-se civilizados, bem informados e, sem dúvida,
respeitam e acreditam nos dicionários. Bem como os franceses, é bom que se diga.
Bela, elegante e
pomposa, como sempre, Buenos Aires! Avenidas de pernas esguias e coxas largas,
assediadas por uma arquitetura exótica, eclética, que abarca variados estilos
(colonial, neoclássico, art nouveau, art déco, moderno), cuja história esculpe
personagens, e cuja memória desperta patriotismo. Um rosto de sol, incrustado
no azul e branco da bandeira, tremula altivo, e doura a dignidade e o orgulho
argentinos, sempre expostos. Exacerbada, a índole nacionalista desse povo.
O tango, seu
genuíno patrimônio cultural. Emocionante cada espetáculo, pela beleza plástica,
pela presença cênica, pelas coreografias, pela leveza dos pares. Momentos
plenificados na sensualidade. Os toques, o olho no olho, os corpos colados a
roçarem intimidades, pernas entrelaçando-se em malabarismos instigantes,
contorções voluptuosas, embevecidas pela música, enfim, uma conjunção de arte e
de paixão. O tango tem alma rubescente que incandesce ao primeiro contato. Ah!
e aquela dançarina linda, porte de rainha, vestido vermelho com fenda enorme a
lhe devassar a perna e o caminho das
flores, ao som de La Cumparsita, enroscando-se, lascivamente, em seu
parceiro... As fantasias da plateia também rodopiam entre os passos do casal.
A carne saborosa e
suculenta, de estirpe nobre, assim como o Dulce de leche, tombados pelo gosto
dos que se curvam às suas delícias. O sorvete artesanal da Fredo (de doce de
leite, claro!, em suas muitas variantes), um desafio, já não fosse um acinte, à
disciplina dos diabéticos e à dieta dos gordalhufos. Por falar em gordalhufos,
Maradona, outro patrimônio nacional.
O peso do peso
argentino, nem tão pesado assim, um detalhe interessante, embora alguns
comerciantes tentem engambelar o turista com o intuito de um ganho a mais.
Todavia, fato desconcertante e injurioso, o derrame de notas falsas. Centenas
habitam os bolsos dos taxistas. Inacreditável. E o pior: todos estão cientes
disso, já se tornou fato corriqueiro. Os próprios hotéis alertam os turistas
para os cuidados necessários. Quase ninguém fica imune a tal agressão. A
estratégia é afrontosa: o taxista recebe a nota, troca-a sem ser percebido,
devolve-a ao passageiro, sob o argumento de que é falsa, e exige-lhe outra.
Desse modo, cobra a corrida duas vezes e, de sobra, o lesado fica com a nota
falsa.
Algo
incompreensível: por que a polícia e o governo fazem vista grossa a esse tipo
de crime? É sabido aqui, lá, acolá, que pesos falsos, em fartura, fazem parte
da rotina dos condutores de táxis e, mesmo assim, a impunidade grassa majestosa
nas ruas de Buenos Aires, incentivando-os a uma prática criminosa que enodoa a
honra argentina. Por que tal conivência? A cumplicidade, explícita na falta de
ação das autoridades competentes, é intrigante. O turista não merece tamanho
desrespeito. Portanto, não rias de mim, Argentina!
A notícia chegou arrasadora
A mulher, em transe, descabelou-se, aos gritos. A vida acabava de lhe enredar num tremendo espinhel... Havia saído de casa no início da semana, para um compromisso familiar, com previsão de volta para o domingo e, antes mesmo de abraçar todos os parentes, a notícia a alcançou, puxando-a para casa com a maior urgência.
O marido, Zé Pio, sem dar um pio, pifou. De vez. Culpado, o coração, por causa da voltagem, há muito, oscilante.
Retorno dramático, o da recém-viuvada. Ih! lembrou-se de repente: a palavra viúva sempre lhe pareceu ter cheiro de mofo e gosto de ferrugem!
A chegada a casa, traumática e encharcada de lágrimas. A vista do quarto do casal, dolorosa. Mas o jeito, preparar-se para as novas funções impostas pela viuvez. E rumar para o cemitério. E foi o que fez, com amargura.
Acompanhada de lamúrias – “Ai, meu Deus!”, “O que fiz para merecer isso?”, “O que será de mim?”, “Como viverei sem meu marido?” –entrou na sala do velório e se precipitou, aos prantos, transtornada, com a dor também vestida de preto, sobre aquela inércia em forma de corpo. E, dele, a saudade já sentia falta.
– Oh! Zé Pio, sou pura consumição, meu velho!
– Comadre... – intercede sua acompanhante, em vão.
– Você não cria modos, hem, seu incorrigível!? Sempre aproveitando de minha ausência para aprontar alguma, né?! Não podia, ao menos, esperar minha volta? Mal virei as costas, punhalada! Por que fez isso?!
– Comadre, levante-se...
– Espere aí... O que aconteceu com você, marido? Está tão diferente, esquisito...! – e apalpava o rosto branco do defunto, com mãos desentendidas, atarantadas e trôpegas.
– Escute, comadre...
– Tem algo estranho em você, algo que não é seu... O bigode! Onde arranjou isso, homem de Deus?! Você nunca teve bigode! Algum disfarce?
– Sossegue e venha, comadre...
– Sossegar, sossegar, como?! O Pio resolveu partir disfarçado. Minha
Nossa Senhora! Sinto que tem sirigaita na jogada. Cadê a infernenta, cadê, cadê?! Ah! se eu pego essa bisca...!?
– Vai dar confusão, comadre, levante-se...
– Esse disfarce é, sim, pra enganar alguém! Mas quem? Confesse, homem, vamos, confesse! Sou eu a enganada? Se for, mato você sem piedade!
– Saia daí, comadre, chega!
– Só depois que ele me disser onde arranjou esse bigode e por quê?!
– Comadre, comadre – sacoleja-a, com força, a acompanhante –, acalme-se, e olhe o vexame! Todos estão espantados... Venha, você errou de velório, criatura! Compadre Pio está é na sala ao lado. E sem bigode!
Sem Serventia
Inacreditável! Uma leitora brasileira, que se diz ‘rabiscadora de poesia nas horas vagas’, no fulgor de seus 93 anos, residente no Texas, e-mailizou-me: “...Sou sua leitora assídua, e, quando morava em Ribeirão Preto, li, já faz um bom tempo, no DM, um texto seu bem engraçado que falava de uma esposa desejosa de botar para escanteio o marido descumpridor das tarefas conjugais. Integro um grupo de senhoras e queria que elas lessem o texto, pois sei que se divertirão, mas não o encontrei na internet. Como encontrá-lo?”. – Aqui, dona Mariana. Republico-o em sua homenagem:
Por causa de duas letras
DECIDIDO, O TURCO NÃO CEDEU
Um vexame dos maiores, sem dúvida. E, até hoje, contado e requenntado pelos moradores de Riacho Raso, município tacanho, mas hospitaleiro, adotado, há vários anos, pelo libanês Assad Abom Rachid, conhecido como “cunhado turco”, ou, mais comumente, “gunhado” e também pela fama de bisbilhoteiro. Dono de boa parte do comércio local, o mais famoso, a quiberia, tinha o hábito de chamar os amigos de “gunhado” (“turco” que se preze troca o c pelo g e o p pelo b), um jeito de se tornar um pouco parente deles, e afastar, assim, a saudade da pátria e da família tão distantes.
ASSOMBRAÇÃO...!?
Como de costume, em noites de frio, na fazenda Se achegue mais, todos rodeavam a fogueira, o melhor e mais econômico calefator da região. E, quase em ritual, dividiam calor humano e, principalmente, o outro, o da lenha em combustão, enquanto, sorrateira, a lua, enrolada em sua gordice nacarada, escorregava céu afora, feito mulher-dama airosa e feiticeira.
Nessas ocasiões, a conversa era farturenta e gingava de boca em boca; a vida dos vizinhos e dos amigos, então, era virada ao avesso. Ninguém escapava.
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