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Stella Florence: A tortura
pela esperança
Talvez nenhum sentimento
seja tão necessário à sobrevivência quanto a esperança. Mais do que o amor, é
ela que faz com que sigamos em frente todas as manhãs. No entanto, a esperança
também pode ser uma tortura – e uma tortura muito comum no amor romântico. Para
explicar isso melhor, preciso antes contar uma história.
O escritor francês
Villiers de L’Isle Adam (1838-1889) criou um conto estupendo sobre o tema
usando sua refinada e cruel ironia. O título não poderia ser mais claro: “A
tortura pela esperança”. Nele, um Inquisidor espanhol visita, na masmorra, o
rabino Aser Abarbanel, que, há mais de um ano, vinha sendo torturado pela Santa
Madre Igreja. O objetivo da visita é avisar que, no dia seguinte, o prisioneiro
será queimado vivo.
Sua ex que vá para o inferno!
por Stella Florence
Ela é especial. Ela é sua ex. Ela te fez conhecer os
píncaros do êxtase. Ela foi sua amiga. Ela foi sua confidente. Ele te amou. Ela
foi tudo que você sempre quis. Ela é a melhor, a maior, a única! Pois é. Mas se
ela é tão perfeita assim, por que te deixou? Você está aí, largado na sarjeta
emocional, justamente porque esse anjo de candura te deu um pé nos fundilhos
com chute extensivo às bolas. Que raio de amor é esse que ela nutria por você
que não se manteve de pé?
Ah, mas ela ainda te ama, do jeito dela, da maneira que
ela pode agora, ela continua te amando, é o que você diz. Então tá,
cara-pálida. Ela te ama. Eu estou até emocionada com o tanto que ela te ama.
Vamos recapitular: ela te abandonou, ela te trocou por outro (e por outras
coisas), ela não voltou atrás, mesmo você se debulhando de dor, e agora ela
está transando com outro, dividindo colheradas de sorvete com outro, tomando
banho com outro, dando risada com outro, fazendo comida pra outro, indo ao
cinema com outro, gozando com outro, e isso, é claro, só pode ser sinal do que,
Lombardi? De que ela te ama, Sílvio!
Virgens
tardias (livro “Os Indecentes” de Stella Florence)
De uma época doida em que a virgindade era exigida
entramos numa outra época, tão doida quanto, em que a não-virgindade é exigida.
Outro dia ouvi uma menina de catorze anos fazer a seguinte pergunta num
programa de rádio:
– Minhas amigas me zoam porque ainda sou virgem. O que
eu faço?
Não vou reproduzir a resposta dada, mesmo porque não
concordo com ela, mas dou a minha, enxerida que sou:
Livro “O diabo que te
carregue!” de Stella Florence, capítulo 25, Sábado à noite
Em matéria de desespero, nada, rigorosamente nada se compara ao que você pode experimentar numa noite quente de sábado.
Dez da noite, trinta graus, um luar estupendo lá fora, seus filhos foram dormir com o seu ex e você... bem, você não tem nem um gato para puxar pelo rabo.
As noites quentes de verão parecem que foram feitas sob encomenda para os amantes frescos, amantes há poucas luas, aqueles que ainda não foram apresentados ao mau-humor, ao descaso, à impaciência e à falta de desejo. Bem, hoje é sábado. Calor absurdo. Estrelas aos montes insistem em marcar presença no céu, mesmo com todas as luzes da cidade grande a lhes ofuscar o brilho. E o programa mais atraente ao seu alcance é limpar a geladeira.
Em matéria de desespero, nada, rigorosamente nada se compara ao que você pode experimentar numa noite quente de sábado.
Dez da noite, trinta graus, um luar estupendo lá fora, seus filhos foram dormir com o seu ex e você... bem, você não tem nem um gato para puxar pelo rabo.
As noites quentes de verão parecem que foram feitas sob encomenda para os amantes frescos, amantes há poucas luas, aqueles que ainda não foram apresentados ao mau-humor, ao descaso, à impaciência e à falta de desejo. Bem, hoje é sábado. Calor absurdo. Estrelas aos montes insistem em marcar presença no céu, mesmo com todas as luzes da cidade grande a lhes ofuscar o brilho. E o programa mais atraente ao seu alcance é limpar a geladeira.
Nessa hora você pensa no
homem assaz interessante que te encarou no metrô ontem. Você pensa no vendedor
do mercadinho que sempre fica te seguindo com uns olhos gulosos. Você pensa até
naquele ex-namorado do qual você demorou tanto para se ver livre. Aquele
grudento e criançola. Será que ele estaria disponível esta noite?
Vítima (crônica do livro “Os Indecentes” de Stella Florence)
Sting, no final da década de 80, circulou pelo mundo com o cacique Raoni, chamando atenção para a causa indígena. Ao ser acusado de usar o líder Txukahamãe para se promover, Sting deu uma resposta brilhante: “Se eu me envolvi nessa questão para me promover, não deixo de, em alguma medida, acreditar no que divulgo; já se eu me envolvi por idealismo, não deixo de, em alguma medida, me autopromover.” Falou e disse.
É possível – e nada maniqueísta – compreender que todas as relações, mesmo as mais profundas e sinceras, possuem, em sua constituição, um tanto de interesse. Sintetizando numa frase: todo mundo usa todo mundo o tempo todo.
Mas por que eu estou perdendo o meu tempo – e gastando o seu – com essa teoria de botequim? Uma teoria altamente questionável – tanto quanto qualquer outra, aliás?
A tortura pela esperança
por Stella Florence
Talvez nenhum sentimento seja tão necessário à sobrevivência quanto a esperança. Mais do que o amor, é a esperança que faz com que sigamos em frente diante de um diagnóstico desfavorável, é a esperança que faz com que tentemos mais uma e outra e outra vez concretizar um sonho antigo, é ainda a esperança que faz com que corações alquebrados continuem se levantando da cama todas as manhãs.
Mas a esperança também pode ser uma tortura. O escritor francês Villiers de L’Isle Adam (1838-1889) criou um conto estupendo sobre o tema usando sua refinada e cruel ironia. O título não poderia ser mais claro: “A tortura pela esperança”. Nele, um Inquisidor espanhol visita, na masmorra, o rabino Aser Abarbanel que, há mais de um ano, vinha sendo torturado pela Santa Madre Igreja. O objetivo da visita é avisar que, no dia seguinte, o prisioneiro será queimado vivo.
Talvez nenhum sentimento seja tão necessário à sobrevivência quanto a esperança. Mais do que o amor, é a esperança que faz com que sigamos em frente diante de um diagnóstico desfavorável, é a esperança que faz com que tentemos mais uma e outra e outra vez concretizar um sonho antigo, é ainda a esperança que faz com que corações alquebrados continuem se levantando da cama todas as manhãs.
Mas a esperança também pode ser uma tortura. O escritor francês Villiers de L’Isle Adam (1838-1889) criou um conto estupendo sobre o tema usando sua refinada e cruel ironia. O título não poderia ser mais claro: “A tortura pela esperança”. Nele, um Inquisidor espanhol visita, na masmorra, o rabino Aser Abarbanel que, há mais de um ano, vinha sendo torturado pela Santa Madre Igreja. O objetivo da visita é avisar que, no dia seguinte, o prisioneiro será queimado vivo.
Palavras desnecessárias
por Stella Florence
Uma dessas apresentadoras imbecis que abundam na TV pergunta a uma criança: “De quem você gosta mais: do papai ou da mamãe?”. A criança na TV revira os olhinhos constrangida e não responde. Subitamente iluminada por uma centelha de bom senso, a apresentadora emenda: “Ah, você gosta dos dois, não é?”. Naquela hora, minha filha, então com sete anos, sentada ao meu lado, roubou a cena:
- Eu gosto mais do papai. Se pudesse moraria com o papai.
Respiro fundo. Claro que Olívia prefere o pai (meu querido colega Eduardo Haak): sou eu quem impõe limites, que a ensina arrumar o quarto, que supervisiona as lições de casa, que a obriga a tomar banho, que não deixa que ela almoce pipoca e chocolate. Me lembro de quando minha filha contou que ficou brincando de vampiro numa igreja com o pai. Por dentro, eu ri. Por fora, eu fui mãe: “A igreja é uma casa de oração que precisa ser respeitada como qualquer outra. E não é respeitoso brincar de vampiro lá dentro”. Naquele caso, mais uma vez, por dentro eu compreendi a preferência de Olívia. Por fora, eu fui mãe:
– Querida, há certas coisas que nós não devemos dizer: são desnecessárias e só machucam os outros. Se eu tivesse duas filhas e dissesse que gosto mais da sua irmã do que de você, você gostaria?
– Não – ela respondeu, subitamente séria.
– Então, é a mesma coisa. Tudo bem você sentir mais amor pelo papai, mas não é legal você me dizer isso. A gente só deve dizer algo desagradável, duro, difícil, quando é necessário. Se não for necessário, pra que dizer?
Uma dessas apresentadoras imbecis que abundam na TV pergunta a uma criança: “De quem você gosta mais: do papai ou da mamãe?”. A criança na TV revira os olhinhos constrangida e não responde. Subitamente iluminada por uma centelha de bom senso, a apresentadora emenda: “Ah, você gosta dos dois, não é?”. Naquela hora, minha filha, então com sete anos, sentada ao meu lado, roubou a cena:
- Eu gosto mais do papai. Se pudesse moraria com o papai.
Respiro fundo. Claro que Olívia prefere o pai (meu querido colega Eduardo Haak): sou eu quem impõe limites, que a ensina arrumar o quarto, que supervisiona as lições de casa, que a obriga a tomar banho, que não deixa que ela almoce pipoca e chocolate. Me lembro de quando minha filha contou que ficou brincando de vampiro numa igreja com o pai. Por dentro, eu ri. Por fora, eu fui mãe: “A igreja é uma casa de oração que precisa ser respeitada como qualquer outra. E não é respeitoso brincar de vampiro lá dentro”. Naquele caso, mais uma vez, por dentro eu compreendi a preferência de Olívia. Por fora, eu fui mãe:
– Querida, há certas coisas que nós não devemos dizer: são desnecessárias e só machucam os outros. Se eu tivesse duas filhas e dissesse que gosto mais da sua irmã do que de você, você gostaria?
– Não – ela respondeu, subitamente séria.
– Então, é a mesma coisa. Tudo bem você sentir mais amor pelo papai, mas não é legal você me dizer isso. A gente só deve dizer algo desagradável, duro, difícil, quando é necessário. Se não for necessário, pra que dizer?
por Stella Florence
Trabalhar com a mente requer alguns cuidados: é preciso parar de vez em quando para movimentar o corpo (isso é fácil, afinal, há sempre louça a ser lavada, chão a ser varrido, roupa a ser passada), depois é preciso desviar a cabeça por pelo menos alguns minutos para um tema diferente do que se está trabalhando, caso contrário corre-se o perigo de entrar num estado em que nada mais faz sentido. Dando um exemplo bem superficial, imagine-se falando pantufa, pantufa, pantufa, pantufa, pantufa seguidamente. A partir de um determinado ponto, você não sabe mais que palavra é pantufa, que significado tem pantufa, que raio de coisa é essa pantufa e em breve pantufa poderá ser também pantifa ou Xantipa (e que a esposa de Sócrates nos perdoe). Em suma: trabalhar com a mente exige paradas estratégicas.
Assim entrei eu numa pausa do trabalho. Em vez de ligar a TV, sentei na banqueta amarela da sala e olhei para a rua. Era sábado, uma da manhã, os bares e restaurantes começavam a esvaziar. Então algo insólito chamou minha atenção: bem no meio do cruzamento, um caminhão da SABESP tentava consertar um bueiro borbulhante.
Me senti atraída por aquela água que brotava no meio da rua. Apoiei os cotovelos nos joelhos e fixei a atenção nos instrumentos de ferro que escarafunchavam o bueiro. E quanto mais eles escarafunchavam em busca do foco generoso, mais envolvidos pelo líquido ficavam.
A água me hipnotizou com seu fluir à toa, seu fluir inútil, elegante, farto, para ninguém. Passei um longo tempo observando seu movimento ora furioso, ora alegre: um mutante tentando encontrar alguma forma de existir. Havia algo de cálido, de tocante, de feminino naquela água a escorrer sem razão. Por quê?
Porque nós, mulheres, somos como um bueiro rebelde a borbulhar água cristalina vida afora. Porque espargimos água pura, água boa, água própria para lavar os olhos, para matar a sede, para banhar bebês, para refrescar do calor, para brincar com o esguicho no quintal, para regar as plantas, para cuspir para cima, para molhar os cabelos, para escorrer pelo corpo, para tornar o céu furta-cor.
Então, em algum momento, por algum motivo, chega um caminhão da prefeitura com instrumentos de ferro e nos conserta. Não, você não pode verter. Não, não é inteligente se dar como água de rio. Não, não mostre sua pureza, pois alguém pode te canalizar, esconder sua graça, te enfiar num tubo escuro, te meter numa vala, te misturar com a lama. Não borbulhe à toa, caso contrário será devidamente retida por nossos técnicos.
Assustada, essa água pura que vertia sem medo seca. Ou apenas se acumula em silêncio a espera de dias menos rudes. Eles certamente virão.
Trabalhar com a mente requer alguns cuidados: é preciso parar de vez em quando para movimentar o corpo (isso é fácil, afinal, há sempre louça a ser lavada, chão a ser varrido, roupa a ser passada), depois é preciso desviar a cabeça por pelo menos alguns minutos para um tema diferente do que se está trabalhando, caso contrário corre-se o perigo de entrar num estado em que nada mais faz sentido. Dando um exemplo bem superficial, imagine-se falando pantufa, pantufa, pantufa, pantufa, pantufa seguidamente. A partir de um determinado ponto, você não sabe mais que palavra é pantufa, que significado tem pantufa, que raio de coisa é essa pantufa e em breve pantufa poderá ser também pantifa ou Xantipa (e que a esposa de Sócrates nos perdoe). Em suma: trabalhar com a mente exige paradas estratégicas.
Assim entrei eu numa pausa do trabalho. Em vez de ligar a TV, sentei na banqueta amarela da sala e olhei para a rua. Era sábado, uma da manhã, os bares e restaurantes começavam a esvaziar. Então algo insólito chamou minha atenção: bem no meio do cruzamento, um caminhão da SABESP tentava consertar um bueiro borbulhante.
Me senti atraída por aquela água que brotava no meio da rua. Apoiei os cotovelos nos joelhos e fixei a atenção nos instrumentos de ferro que escarafunchavam o bueiro. E quanto mais eles escarafunchavam em busca do foco generoso, mais envolvidos pelo líquido ficavam.
A água me hipnotizou com seu fluir à toa, seu fluir inútil, elegante, farto, para ninguém. Passei um longo tempo observando seu movimento ora furioso, ora alegre: um mutante tentando encontrar alguma forma de existir. Havia algo de cálido, de tocante, de feminino naquela água a escorrer sem razão. Por quê?
Porque nós, mulheres, somos como um bueiro rebelde a borbulhar água cristalina vida afora. Porque espargimos água pura, água boa, água própria para lavar os olhos, para matar a sede, para banhar bebês, para refrescar do calor, para brincar com o esguicho no quintal, para regar as plantas, para cuspir para cima, para molhar os cabelos, para escorrer pelo corpo, para tornar o céu furta-cor.
Então, em algum momento, por algum motivo, chega um caminhão da prefeitura com instrumentos de ferro e nos conserta. Não, você não pode verter. Não, não é inteligente se dar como água de rio. Não, não mostre sua pureza, pois alguém pode te canalizar, esconder sua graça, te enfiar num tubo escuro, te meter numa vala, te misturar com a lama. Não borbulhe à toa, caso contrário será devidamente retida por nossos técnicos.
Assustada, essa água pura que vertia sem medo seca. Ou apenas se acumula em silêncio a espera de dias menos rudes. Eles certamente virão.
por Stella Florence
Um homem comum, quando sai com uma mulher que lhe interessa pouco e ela começa a aborrecê-lo com o transbordar de uma paixão unilateral, esse homem bufa sem cuidado e dá uma desculpa vulgar para toureá-la. Já um gênio da literatura, movido pela mesma cena, escreve: “Se tu me amas, ama-me baixinho. Não o grites de cima dos telhados, deixa em paz os passarinhos, deixa em paz a mim!”. Mario Quintana é um desses gênios e, como muitos outros, vem sendo vítima da internet: incontáveis textos assinados pelo poeta pululam pela rede sem qualquer certificado de autenticidade.
Uma turma de formandos teve o bom gosto de escolher Luis Fernando Veríssimo para patrono, mas a péssima idéia de selar sua admiração imprimindo no catálogo da cerimônia o texto apócrifo “Quase”. A crônica ganhou tal notoriedade que até entrou numa coletânea editada na França, apesar dos sucessivos esclarecimentos de Veríssimo.
Outro gênio cujo nome vive sendo usado em vão na internet é meu escritor predileto: Gabriel García Márquez. Quando se trata de amor e sexo (e morte e poder e dias suarentos e...) ninguém escreve tão bem quanto Gabo. Em nome da boa e justa divulgação, aqui vai um tesouro publicado pela primeira vez em 06/07/1948, no jornal El Universal, na coluna “Punto y aparte” e reproduzida no livro “Textos Caribenhos, Obra jornalística, Volume I, 1948 a 1952”, páginas 99 e 100, Editora Record, 2006. Com a palavra, o mestre GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ:
“E pensar que tudo isto estará alguma vez habitado pela morte. Que esta cálida madureza de sua pele, que sobe por meu tato até o abismo do meu desassossego, deva despedaçar-se um dia sobre o seu próprio silêncio desolado. Que esta ordem de coisas naturais, que fazem de você e de mim e da água e dos pássaros, nítidos volumes para a vindima dos sentidos, estará uma tarde afundada na névoa de distantes regiões. Que essa agitação de vozes interiores que sobe por seu sangue, que se aninha em seu ventre como um filho, quando lhe falo de coisas simples, elementares, como estas coisas formidáveis que estou falando, precise estar um dia transferido a outro corpo, quando os nossos conheçam o peso das pedras, e todavia continue sendo verdade o amor. Que essa dor de estar dentro de você, e distante de minha própria substância, há de encontrar alguma vez seu remédio definitivo.
“Pensar que alguma vez conheceremos os portos do esquecimento, igual a antes, quando ainda não tinham vindo estes corpos a habitar nossa tristeza. Que os homens terão que se surpreender alguma vez de que todos os pássaros emudeçam de repente, sem saber que é você, e que sou eu, que voltamos a nos encontrar mais além de nossos ossos. Que uma tarde retornarão os bois do arado com as lâminas iluminadas por uma amorosa claridade, e todos acreditarão que há estrelas semeadas, sem saber que é você, e que sou eu, que estamos preparando as sementes. Que um domingo como este soarão os sinos com bronze estremecido e as crianças perguntarão espantadas quem morreu no domingo, sem saber que é você, e que sou eu, que ainda continuamos morrendo em todas as perguntas.
“Pensar que alguma vez as árvores perguntarão a suas raízes quando irão passar os vidros dos nossos olhos para que seja mais clara a luz de suas laranjas. Que a água dos rios nos levará , pó por pó, até o júbilo dos que tiveram sede e a mitigarão com o nosso barro. E cada uma das coisas que amamos continuará sendo bela sem necessidade de que nós a amemos.
“E, sobretudo, pensar que este amor nosso tem que morrer, antes que estas coisas passageiras estejam habitadas pela morte.”
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O amor é o lastro
por Stella Florence
Como escritora, tenho de reconhecer a qualidade dos livros psicografados por Chico Xavier: fato.
A psicografia em si nunca foi motivo de espanto para mim, filha e neta de espíritas que sou – espíritas que, no final do século XIX, em Itapeva, trancavam portas e janelas para ler o proibidíssimo “O Livro dos Espíritos”; espíritas cujos parentes, vizinhos e conhecidos atravessavam a rua para não dividirem a calçada com aqueles seres imundos dados a práticas heréticas; espíritas que foram presos (sim, houve um tempo em que ser espírita no Brasil era crime passível de xilindró).
Por falar em atos violentos, descabidos e arbitrários, vale lembrar um dado curioso: a última ação perpetrada pela Inquisição Espanhola, então impossibilitada de queimar seres humanos, foi a queima de 300 livros espíritas (entre eles “O Livro dos Espíritos” e “O Livro dos Médiuns”) em praça pública. O auto de fé de Barcelona foi conduzido pelo Bispo Antonio Palau Y Termes, às dez e meia da manhã do dia 09 de outubro de 1861, sob os gritos populares de “Abaixo a Inquisição!”. Pasme: mesmo as obras tendo sido confiscadas e queimadas, Allan Kardec teve de pagar as taxas alfandegárias correspondentes. Conhecemos bem esses absurdos burocráticos, não é?
Voltando ao assunto, o que mais me intrigava, portanto, não era a existência da psicografia em si, mas por que Chico Xavier (Francisco Cândido Xavier, 02/04/1910 – 30/06/2002) se tornou uma unanimidade que ultrapassa credos e rótulos? Centralizando ainda mais minha questão: como os livros de Chico continuam sendo uma unanimidade nos próprios centros espíritas? É sabido que existem certos médiuns que não são aceitos por certos centros: todos têm suas ressalvas quanto a esse ou aquele médium, essa ou aquela obra (inclusive eu), por que, então, Chico é diferente? Por que sua obra (obra dos espíritos que dele se serviram) é aceita por 100% dos centros espíritas? Seria ela mais bem escrita? Maior? Melhor? Mais substanciosa? Mais variada? Mais rica? Mais fecunda em emoção e conteúdo? Mais abnegada, já que o médium cedeu todos os seus direitos autorais a obras de caridade? Sim, mas nada disso seria suficiente para torná-la aceita por todos.
Passei dias com essa dúvida até que a resposta me foi inspirada. Antes, porém, é preciso contar um fato.
Em certa época, algumas pessoas aconselharam Chico a suspender o atendimento aos que o procuravam, a parar de ir ao encontro dos miseráveis, a interromper a assistência que não raro entrava madrugada adentro para se concentrar apenas na psicografia dos livros. Chico respondeu que se fosse forçado a escolher, ele preferiria ajudar o próximo e abandonar os livros, pois esse foi o exemplo que Jesus Cristo nos deixou. Em “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, cap. VI, item 5, lemos a recomendação: “Amai-vos, eis o primeiro mandamento; instruí-vos, eis o segundo”. Há uma clara ordem aí: amor primeiro, instrução depois. (Se nossas escolas pudessem beber dessa fonte...). Chico era fiel a esse preceito. E foi justamente por causa do seu exemplo de uma vida inteira de doação, de humildade, de abnegação, de desinteresse material, de, numa palavra, amor, que a sua obra se tornou inquestionável.
Portanto não teríamos uma obra intelectual tão grandiosa (mais de 400 livros, cuja qualidade é impressionante) se não houvesse o coração de Chico Xavier a embasá-la. Ela teria se perdido na poeira do tempo ou não seria levada a sério como esses borbotões de livros psicografados que soterram nossas livrarias. Rendo graças à inteligência, mas reconheço que sem amor ela é casca oca destinada à deterioração. No fim das contas, o amor, apenas o amor, é o lastro de tudo.
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| Foto: As mãos de Jô Soares segurando "Os Indecentes" |
por Stella Florence
Não são apenas os políticos e executivos que se digladiam pelo poder mundo afora; há uma espécie de homem, infelizmente muito comum, que açoita as mulheres na intimidade do lar. Eu estou falando dos tiranos domésticos.
A sede de poder do tirano doméstico é imensa e, por não ter como saciar essa sede fora de casa, por lhe faltar comandados, cargos importantes, honrarias, ele centraliza seus desmandos na única pessoa que o acompanha na jornada: sua mulher.
Não são apenas os políticos e executivos que se digladiam pelo poder mundo afora; há uma espécie de homem, infelizmente muito comum, que açoita as mulheres na intimidade do lar. Eu estou falando dos tiranos domésticos.
A sede de poder do tirano doméstico é imensa e, por não ter como saciar essa sede fora de casa, por lhe faltar comandados, cargos importantes, honrarias, ele centraliza seus desmandos na única pessoa que o acompanha na jornada: sua mulher.
Uma mulher que você tem de conhecer: Mukhtar Mai
por Stella Florence - matéria assinada por mim e publicada originalmente na revista Uma - fonte: livro "Desonrada" de Marie-Thérese Cuny.
A paquistanesa Mukhtar Mai se tornou mundialmente conhecida ao viver uma das mais brutais histórias de violência contra a mulher: em junho de 2002, por conta de um crime supostamente cometido por seu irmão, Mukhtar foi condenada a um estupro coletivo. Para horror da mídia internacional e dos órgãos de defesa dos direitos humanos, apenas no ano em que Mukhtar foi violentada, outros 804 estupros coletivos foram registrados no Paquistão. A diferença, dessa vez, foi a vítima ter levantado sua voz em busca de justiça.
Há dois sistemas jurídicos diferentes, e muitas vezes opostos, no Paquistão: o oficial (caro e pouco acessível) e o religioso (islâmico). Para complicar, ainda existe a jirga, sistema tribal de justiça com suas próprias regras, incompatível com a religião e a lei. A maior parte das pessoas acaba recorrendo à jirga, na qual os conflitos mais variados se transformam em questões de honra – e a moeda corrente nessas questões é sempre a mesma: uma mulher. Tudo é permitido aos homens: cortar o nariz da esposa, queimar a irmã com ácido, violar a filha do vizinho, etc.
A tragédia de Mukhtar começou quando seu irmão, na época com 12 anos, foi acusado de falar com uma moça de casta superior. Os homens Mastói (o clã ofendido) seqüestraram, espancaram e sodomizaram o menino repetidas vezes de tal forma que a polícia teve de prendê-lo para o proteger (a prisão se deu por conta de uma acusação de estupro, desmentida mais tarde por exames de DNA). O líder religioso da aldeia tentou uma conciliação, mas foi inútil: a fim de que a honra dos Mastói fosse purificada, uma mulher do clã inferior teria de se apresentar diante do conselho tribal e se submeter à punição decretada. Mukhtar, moça ingênua, analfabeta, que ensinava oralmente o Alcorão às crianças, foi a escolhida.
No dia marcado, diante de 150 homens furiosos, Mukhtar pediu desculpas aos Mastói. O chefe da tribo ignorou seu pedido: “Ela está aí, façam o que quiserem”. A própria Mukhtar descreve o que se passou a partir de então: “Sou arrastada à força como uma cabra que vai ser abatida. Passo da noite externa para uma noite interna, em algum lugar fechado onde só a luz da Lua me permite ver os quatro homens. Nenhuma saída, nenhuma oração possível. Não sei quanto tempo durou essa tortura infame. Para aqueles animais, uma mulher não passa de um objeto de posse, de honra ou vingança. Eles sabem que uma mulher assim humilhada tem como único recurso o suicídio. Nem precisam usar armas. O estupro a mata”.
Após devolverem Mukhtar, expondo-a brutalizada e seminua diante de todo o seu clã, os Mastói retiraram a acusação contra seu irmão. Até aquele momento, nenhum homem havia sido legalmente punido por uma vingança ou crime de honra no Paquistão e, quando a justiça comum dava ganho de causa a uma mulher, não era raro ela ser assassinada. No entanto, apesar das ameaças, apesar das tentativas da polícia em distorcer seu depoimento, apesar da desgastante batalha judicial, Mukhtar conseguiu que seis agressores fossem presos e condenados: quatro pelo estupro e dois por incitação a ele, incluindo o chefe dos Mastói. Os réus apelaram e houve um novo julgamento em que, para indignação geral, todos foram inocentados. Mukhtar não teve dúvida: foi ao gabinete do primeiro-ministro e se recusou a sair de lá enquanto seus agressores não voltassem à prisão. Usando uma brecha na lei, ela ganhou mais uma batalha.
Mas nem tudo é horror na história de Mukhtar: sua tragédia possibilitou a realização de um sonho. Quando o governo lhe ofereceu uma indenização equivalente a US$ 8.500,00, ela reagiu, dizendo: “Não preciso de nenhum cheque, preciso de uma escola! Como as mulheres não estudam, elas são ensinadas a obedecer e a submissão passa de geração em geração. Temos de dar conhecimento às meninas”.
Hoje, a escola de Mukhtar é a única da região e atende 200 meninas e 150 meninos de várias tribos, de castas superiores e inferiores (até os filhos dos Mastói vão à escola regularmente). “Educar meninas é fácil, mas no caso dos meninos que nascem nesse mundo de brutamontes é uma empreitada mais difícil.” No início, Mukhtar precisou bater de porta em porta para convencer os pais a permitirem que as meninas freqüentassem a escola: foi assim que ela passou a ser chamada pelas alunas pequenas de Mukhtar Mai (grande irmã respeitada). “Meus alunos são as sementes de uma geração mais bem-educada, livre e pacífica entre homens e mulheres.” Previdente, ela optou por não depender da ajuda estrangeira ou do governo: construiu um estábulo e comprou cabras para que a escola se auto-sustentasse.
Hoje, Mukhtar usa sua voz para incentivar aquelas que ainda permanecem no silêncio: “Eu tenho uma mensagem para todas as mulheres estupradas ou vítimas de violência. É preciso falar sobre o que houve e lutar por justiça”. Ela resume sua trajetória de mulher tímida e analfabeta a símbolo mundial e diretora da sua própria escola, em apenas uma frase: “Eu aprendi a existir”.
A paquistanesa Mukhtar Mai se tornou mundialmente conhecida ao viver uma das mais brutais histórias de violência contra a mulher: em junho de 2002, por conta de um crime supostamente cometido por seu irmão, Mukhtar foi condenada a um estupro coletivo. Para horror da mídia internacional e dos órgãos de defesa dos direitos humanos, apenas no ano em que Mukhtar foi violentada, outros 804 estupros coletivos foram registrados no Paquistão. A diferença, dessa vez, foi a vítima ter levantado sua voz em busca de justiça.
Há dois sistemas jurídicos diferentes, e muitas vezes opostos, no Paquistão: o oficial (caro e pouco acessível) e o religioso (islâmico). Para complicar, ainda existe a jirga, sistema tribal de justiça com suas próprias regras, incompatível com a religião e a lei. A maior parte das pessoas acaba recorrendo à jirga, na qual os conflitos mais variados se transformam em questões de honra – e a moeda corrente nessas questões é sempre a mesma: uma mulher. Tudo é permitido aos homens: cortar o nariz da esposa, queimar a irmã com ácido, violar a filha do vizinho, etc.
A tragédia de Mukhtar começou quando seu irmão, na época com 12 anos, foi acusado de falar com uma moça de casta superior. Os homens Mastói (o clã ofendido) seqüestraram, espancaram e sodomizaram o menino repetidas vezes de tal forma que a polícia teve de prendê-lo para o proteger (a prisão se deu por conta de uma acusação de estupro, desmentida mais tarde por exames de DNA). O líder religioso da aldeia tentou uma conciliação, mas foi inútil: a fim de que a honra dos Mastói fosse purificada, uma mulher do clã inferior teria de se apresentar diante do conselho tribal e se submeter à punição decretada. Mukhtar, moça ingênua, analfabeta, que ensinava oralmente o Alcorão às crianças, foi a escolhida.
No dia marcado, diante de 150 homens furiosos, Mukhtar pediu desculpas aos Mastói. O chefe da tribo ignorou seu pedido: “Ela está aí, façam o que quiserem”. A própria Mukhtar descreve o que se passou a partir de então: “Sou arrastada à força como uma cabra que vai ser abatida. Passo da noite externa para uma noite interna, em algum lugar fechado onde só a luz da Lua me permite ver os quatro homens. Nenhuma saída, nenhuma oração possível. Não sei quanto tempo durou essa tortura infame. Para aqueles animais, uma mulher não passa de um objeto de posse, de honra ou vingança. Eles sabem que uma mulher assim humilhada tem como único recurso o suicídio. Nem precisam usar armas. O estupro a mata”.
Após devolverem Mukhtar, expondo-a brutalizada e seminua diante de todo o seu clã, os Mastói retiraram a acusação contra seu irmão. Até aquele momento, nenhum homem havia sido legalmente punido por uma vingança ou crime de honra no Paquistão e, quando a justiça comum dava ganho de causa a uma mulher, não era raro ela ser assassinada. No entanto, apesar das ameaças, apesar das tentativas da polícia em distorcer seu depoimento, apesar da desgastante batalha judicial, Mukhtar conseguiu que seis agressores fossem presos e condenados: quatro pelo estupro e dois por incitação a ele, incluindo o chefe dos Mastói. Os réus apelaram e houve um novo julgamento em que, para indignação geral, todos foram inocentados. Mukhtar não teve dúvida: foi ao gabinete do primeiro-ministro e se recusou a sair de lá enquanto seus agressores não voltassem à prisão. Usando uma brecha na lei, ela ganhou mais uma batalha.
Mas nem tudo é horror na história de Mukhtar: sua tragédia possibilitou a realização de um sonho. Quando o governo lhe ofereceu uma indenização equivalente a US$ 8.500,00, ela reagiu, dizendo: “Não preciso de nenhum cheque, preciso de uma escola! Como as mulheres não estudam, elas são ensinadas a obedecer e a submissão passa de geração em geração. Temos de dar conhecimento às meninas”.
Hoje, a escola de Mukhtar é a única da região e atende 200 meninas e 150 meninos de várias tribos, de castas superiores e inferiores (até os filhos dos Mastói vão à escola regularmente). “Educar meninas é fácil, mas no caso dos meninos que nascem nesse mundo de brutamontes é uma empreitada mais difícil.” No início, Mukhtar precisou bater de porta em porta para convencer os pais a permitirem que as meninas freqüentassem a escola: foi assim que ela passou a ser chamada pelas alunas pequenas de Mukhtar Mai (grande irmã respeitada). “Meus alunos são as sementes de uma geração mais bem-educada, livre e pacífica entre homens e mulheres.” Previdente, ela optou por não depender da ajuda estrangeira ou do governo: construiu um estábulo e comprou cabras para que a escola se auto-sustentasse.
Hoje, Mukhtar usa sua voz para incentivar aquelas que ainda permanecem no silêncio: “Eu tenho uma mensagem para todas as mulheres estupradas ou vítimas de violência. É preciso falar sobre o que houve e lutar por justiça”. Ela resume sua trajetória de mulher tímida e analfabeta a símbolo mundial e diretora da sua própria escola, em apenas uma frase: “Eu aprendi a existir”.
Colunas /
Stella Florence
“Dicas para novos escritores” ou “O mundo descarnado dos escritores”[Stella Florence]
“Dicas para novos escritores” ou “O mundo descarnado dos escritores”
por Stella Florence
Durante alguns anos eu guardei mais de vinte cartas de editoras que rejeitaram meu trabalho – o mesmíssimo trabalho que, mais tarde, se tornaria best-seller pela Rocco. A pergunta que importa é: a negativa desses profissionais me abalou? Não. A despeito do resto do mundo, eu continuaria escrevendo. A despeito do resto do mundo, milhares de artistas continuam seus trabalhos anônimos. A opinião alheia (seja de quem for, seja qual for) não causa o menor impacto sobre uma vocação real.
Quem me lê, está acostumado à minha sinceridade – e eu não poderia agir de outra maneira com as dezenas de aspirantes a escritores que me pedem conselhos.
Você quer ser escritor(a)? Ok. Você há de convir, então, que um médico não pode tirar uma vesícula sem saber manusear o bisturi. Um escritor, por sua vez, não pode escrever se não conhecer o elemento fundamental do seu trabalho: no nosso caso, a língua portuguesa.
Uma coisa é escrever de maneira coloquial, simples, direta, do jeito que a gente fala, sem jargões intelectualoides e floreios inúteis. Outra coisa, muito diferente, é escrever errado. A maioria dos e-mails que recebo (70% deles) me entristece. Como alguém pode pedir a opinião de uma escritora sem sequer revisar o próprio e-mail? Este texto que você lê agora, por exemplo, demorou vários dias para ficar pronto. Depois da inspiração, não vem milagre algum: vem muito trabalho. Como ambicionar essa profissão sem possuir o hábito de revisar, editar, cortar, re-escrever? Claro que erros todos nós cometemos: eu estou falando de erros crassos enviados a uma escritora por aspirantes a escritor. Fernando Sabino dizia, irônica e tristemente: “No Brasil há mais escritores do que alfabetizados”. Sou obrigada a concordar com ele.
Preciso de um parágrafo para dizer que um escritor, por mais genial que seja, pode, no máximo, te esclarecer sobre os meandros do mercado editorial (coisa que meus padrinhos literários, Marcos Rey e Mario Prata, fizeram por mim e que estou fazendo por você agora). Não é possível que ele(a) te ensine a escrever, melhore seu texto ou use uma suposta vara de condão para transformar seu trabalho num sucesso: isso será responsabilidade e mérito exclusivamente seus. Se tem uma área em que o tal “quem indica” não funciona, é a literatura brasileira. Basta dizer que as respectivas editoras dos meus padrinhos (Ática e Objetiva) se recusaram a publicar meu livro de estreia, o “Hoje acordei gorda” (com um genial prefácio feito pelo Prata). Já a Rocco, uma grande editora na qual eu não conhecia ninguém, pinçou meus originais enviados pelo correio e assinou comigo dois contratos de uma vez (cada livro possui seu próprio contrato). Em suma: não tem almoço grátis. Isto posto, vamos em frente?
A primeira característica de um futuro escritor (característica que não se pode forçar) é ser um leitor insaciável de tudo que se refira ao nicho em que ele pretende entrar. Não existe bom escritor que não leia muito, que não sinta prazer em ler, que não faça as pálpebras rangerem de secura por tantas páginas lidas sem parada. Quem lê muito e não se rende à tola vaidade, nunca se tornará um escritor medíocre porque, ao perceber a própria mediocridade, será o primeiro interessado em sepultar seu sonho sem substância.
Outro ponto fundamental é ser inteligível. Obscuridade num texto é arma daqueles que só tem de escritores o bafo pretensioso. Claro que há textos mais sofisticados e outros menos, mas eles precisam ser compreensíveis.
E o dinheiro? Revelarei agora a mais crua verdade e o melhor dos conselhos. Ouça: prepare-se para obter seu sustento sem qualquer ajuda da literatura. Eu, que vendo bem (considerando as cifras do mercado brasileiro no qual 10.000 exemplares vendidos qualifica um livro como best-seller), trabalho numa série de atividades correlatas para me sustentar: sou leitora crítica, copidesque, escritora-fantasma, jurada de concursos culturais, jornalista bissexta, palestrante, etc.
Faça as contas: todo escritor ganha 10% sobre o preço de capa de cada livro vendido (pelos formatos bolso e áudio em CD 8%, para áudio download 20% e e-book 25%). “Os Indecentes” custa R$ 28,00. A cada exemplar vendido, eu recebo exatos R$ 2,80. O bolo é divido da seguinte forma: 10% para o autor, 50% para a editora/distribuidora e 40% para a livraria. Mas não é só isso (é menos ainda).
Nós, autores, pagamos à editora os livros que não são vendidos. Suponhamos que um livro tenha uma tiragem de 2.000 exemplares e que, desse montante, 1.000 são vendidos e os outros 1.000, não. Este escritor não receberá nada. Sim, você leu direito: zero, nada. É preciso não apenas vender bem, mas vender toda a edição para ganhar algum dinheiro. E tem mais: as prestações de contas são feitas de seis em seis meses. É isso aí: a gente recebe duas vezes por ano. É pegar ou largar.
Ah, mas tem o glamour, não é? Até tem, mas vamos colocar as expectativas numa proporção real. Um ano na vida de um escritor se divide em 350 dias de trabalho solitário e 15 dias de eventos para divulgar esse mesmo trabalho (palestras, entrevistas, noites de autógrafo). Provavelmente a vida de um condutor de camelos no Saara é mais glamourosa e agitada.
O resumo dessa ópera é só um: o que move os escritores de literatura no Brasil é fundamentalmente a paixão pelo seu ofício.
Se mesmo agora, com mais elementos para se decidir, você ainda deseja ser escritor(a), então eu não duvido: vá em frente. Porque eu estou certa de que a opinião alheia (seja de quem for, seja qual for) não causa o menor impacto sobre uma vocação real.
Durante alguns anos eu guardei mais de vinte cartas de editoras que rejeitaram meu trabalho – o mesmíssimo trabalho que, mais tarde, se tornaria best-seller pela Rocco. A pergunta que importa é: a negativa desses profissionais me abalou? Não. A despeito do resto do mundo, eu continuaria escrevendo. A despeito do resto do mundo, milhares de artistas continuam seus trabalhos anônimos. A opinião alheia (seja de quem for, seja qual for) não causa o menor impacto sobre uma vocação real.
Quem me lê, está acostumado à minha sinceridade – e eu não poderia agir de outra maneira com as dezenas de aspirantes a escritores que me pedem conselhos.
Você quer ser escritor(a)? Ok. Você há de convir, então, que um médico não pode tirar uma vesícula sem saber manusear o bisturi. Um escritor, por sua vez, não pode escrever se não conhecer o elemento fundamental do seu trabalho: no nosso caso, a língua portuguesa.
Uma coisa é escrever de maneira coloquial, simples, direta, do jeito que a gente fala, sem jargões intelectualoides e floreios inúteis. Outra coisa, muito diferente, é escrever errado. A maioria dos e-mails que recebo (70% deles) me entristece. Como alguém pode pedir a opinião de uma escritora sem sequer revisar o próprio e-mail? Este texto que você lê agora, por exemplo, demorou vários dias para ficar pronto. Depois da inspiração, não vem milagre algum: vem muito trabalho. Como ambicionar essa profissão sem possuir o hábito de revisar, editar, cortar, re-escrever? Claro que erros todos nós cometemos: eu estou falando de erros crassos enviados a uma escritora por aspirantes a escritor. Fernando Sabino dizia, irônica e tristemente: “No Brasil há mais escritores do que alfabetizados”. Sou obrigada a concordar com ele.
Preciso de um parágrafo para dizer que um escritor, por mais genial que seja, pode, no máximo, te esclarecer sobre os meandros do mercado editorial (coisa que meus padrinhos literários, Marcos Rey e Mario Prata, fizeram por mim e que estou fazendo por você agora). Não é possível que ele(a) te ensine a escrever, melhore seu texto ou use uma suposta vara de condão para transformar seu trabalho num sucesso: isso será responsabilidade e mérito exclusivamente seus. Se tem uma área em que o tal “quem indica” não funciona, é a literatura brasileira. Basta dizer que as respectivas editoras dos meus padrinhos (Ática e Objetiva) se recusaram a publicar meu livro de estreia, o “Hoje acordei gorda” (com um genial prefácio feito pelo Prata). Já a Rocco, uma grande editora na qual eu não conhecia ninguém, pinçou meus originais enviados pelo correio e assinou comigo dois contratos de uma vez (cada livro possui seu próprio contrato). Em suma: não tem almoço grátis. Isto posto, vamos em frente?
A primeira característica de um futuro escritor (característica que não se pode forçar) é ser um leitor insaciável de tudo que se refira ao nicho em que ele pretende entrar. Não existe bom escritor que não leia muito, que não sinta prazer em ler, que não faça as pálpebras rangerem de secura por tantas páginas lidas sem parada. Quem lê muito e não se rende à tola vaidade, nunca se tornará um escritor medíocre porque, ao perceber a própria mediocridade, será o primeiro interessado em sepultar seu sonho sem substância.
Outro ponto fundamental é ser inteligível. Obscuridade num texto é arma daqueles que só tem de escritores o bafo pretensioso. Claro que há textos mais sofisticados e outros menos, mas eles precisam ser compreensíveis.
E o dinheiro? Revelarei agora a mais crua verdade e o melhor dos conselhos. Ouça: prepare-se para obter seu sustento sem qualquer ajuda da literatura. Eu, que vendo bem (considerando as cifras do mercado brasileiro no qual 10.000 exemplares vendidos qualifica um livro como best-seller), trabalho numa série de atividades correlatas para me sustentar: sou leitora crítica, copidesque, escritora-fantasma, jurada de concursos culturais, jornalista bissexta, palestrante, etc.
Faça as contas: todo escritor ganha 10% sobre o preço de capa de cada livro vendido (pelos formatos bolso e áudio em CD 8%, para áudio download 20% e e-book 25%). “Os Indecentes” custa R$ 28,00. A cada exemplar vendido, eu recebo exatos R$ 2,80. O bolo é divido da seguinte forma: 10% para o autor, 50% para a editora/distribuidora e 40% para a livraria. Mas não é só isso (é menos ainda).
Nós, autores, pagamos à editora os livros que não são vendidos. Suponhamos que um livro tenha uma tiragem de 2.000 exemplares e que, desse montante, 1.000 são vendidos e os outros 1.000, não. Este escritor não receberá nada. Sim, você leu direito: zero, nada. É preciso não apenas vender bem, mas vender toda a edição para ganhar algum dinheiro. E tem mais: as prestações de contas são feitas de seis em seis meses. É isso aí: a gente recebe duas vezes por ano. É pegar ou largar.
Ah, mas tem o glamour, não é? Até tem, mas vamos colocar as expectativas numa proporção real. Um ano na vida de um escritor se divide em 350 dias de trabalho solitário e 15 dias de eventos para divulgar esse mesmo trabalho (palestras, entrevistas, noites de autógrafo). Provavelmente a vida de um condutor de camelos no Saara é mais glamourosa e agitada.
O resumo dessa ópera é só um: o que move os escritores de literatura no Brasil é fundamentalmente a paixão pelo seu ofício.
Se mesmo agora, com mais elementos para se decidir, você ainda deseja ser escritor(a), então eu não duvido: vá em frente. Porque eu estou certa de que a opinião alheia (seja de quem for, seja qual for) não causa o menor impacto sobre uma vocação real.
Esqueleto
criativo
Quantos tombos você já levou na vida? Desde que deu os primeiros passos destemidos e caiu sentada no amortecedor da própria fralda até aquele salto alto que enroscou numa falha do sinteco te transformando numa marionete sem titereiro, desde o primeiro até o mais recente, me diga, quanto tombos foram ao total?
Incontáveis, eu sei. E seu esqueleto, esse amontoado de cacos aparentemente rígidos, a cada tombo, assimilou o estresse e foi se adaptando. Se você fizer os exames certos, verá que seus tombos estão todos aí, gravados no seu corpo como cicatrizes que geraram outras cicatrizes que geraram outras cicatrizes que se tornaram essa dorzinha que você sente no cóccix sempre que lava louça ou nessas câimbras que te atormentam as madrugadas. A dor é um dos símbolos do quão criativo seu esqueleto pode ser na acomodação dos tropeços, pontapés e derrapadas inevitáveis da vida.
Quantos tombos você já levou na vida? Desde que deu os primeiros passos destemidos e caiu sentada no amortecedor da própria fralda até aquele salto alto que enroscou numa falha do sinteco te transformando numa marionete sem titereiro, desde o primeiro até o mais recente, me diga, quanto tombos foram ao total?
Incontáveis, eu sei. E seu esqueleto, esse amontoado de cacos aparentemente rígidos, a cada tombo, assimilou o estresse e foi se adaptando. Se você fizer os exames certos, verá que seus tombos estão todos aí, gravados no seu corpo como cicatrizes que geraram outras cicatrizes que geraram outras cicatrizes que se tornaram essa dorzinha que você sente no cóccix sempre que lava louça ou nessas câimbras que te atormentam as madrugadas. A dor é um dos símbolos do quão criativo seu esqueleto pode ser na acomodação dos tropeços, pontapés e derrapadas inevitáveis da vida.
“Eu não conheço o Miguel Falabella!"
por Stella Florence
Como foi o seu réveillon? Ótimo? Radiante? Perfeito? O meu foi... bem, é melhor eu contar.
31 de dezembro. Eu havia finalizado uma série de livros trabalhosos (eu escrevo livros não só para mim: para os outros também). Depois de enviar o material pronto para as editoras que me contrataram, tudo o que eu queria era tomar um banho, deitar na minha cama, ouvir o CD do filme "O Piano" e só levantar quinze horas depois. Mas, oh, era 31 de dezembro: um dia em que todo mundo tem a obrigação de se divertir!
O meu conceito de diversão é elástico, há muitas coisas que me dão prazer, mas, no ano-novo, só um tipo de diversão vale: o histérico. Ai de quem não gritar, ai de quem não beber, ai de quem não estiver muito, muito feliz!
Consegui chegar até as dez da noite fingindo que não havia uma festa a minha espera, quando então minha prima apareceu em casa: "Você não chegava nunca, eu vim te buscar!". Primo: essa estranha categoria que, por ser da família, não se constrange em te enfiar nas piores roubadas. O.k., pensei, em duas horas estará tudo acabado e eu poderei dormir. Mas não foi isso que aconteceu.
Uma escritora, ainda mais tatuada (mesmo que apenas nas costas, como eu), é um circo completo em qualquer festa. Espera-se que você, criatura exótica, de profissão exótica, entretenha as pessoas. Não, eu não escrevo de lingerie como a Carrie de "Sex and the City". Não, eu não bebo. Não, eu não fumo. Não, eu não cheiro também: incrível, né? Não, eu não conheço o Miguel Falabella. Escrever? Concordo com William Faulkner: escrever é fácil ou impossível. Você é contra tatuagens? O.k. Você acha um absurdo, um mau-gosto: eu entendi. Mas eu as fiz em mim, não em você. Está tudo bem, eu não bebo mesmo. Não, eu não estou seguindo os 12 passos do AA: eu nunca gostei de beber. Sua vida daria um livro? A de todo mundo daria. Não, eu realmente não conheço o Miguel Falabella. Quem se preocupa em ser avaliado não entende porcaria nenhuma de sexo, porque sexo é entrega, não avaliação: é verdade. Mas o que eu tenho a ver com isso? Por Deus, eu não conheço o Miguel Falabella! Ah, eu espero que muita coisa boa aconteça no ano que vem - mas beijar você não é uma delas. Pouco antes da meia-noite eu me escondi num dos banheiros. Me sentei no chão, abaixei a cabeça e comecei a chorar. "Por que esse povo é tão sensível?" ouvi uma menina dizer mais tarde ao notar meu rímel borrado. Porque eu vejo o que está ao meu redor, menina, por isso. Seu namorado passou a noite inteira dando em cima de uma loirinha decotada. Quando ele mexeu no cabelo dela, você deu risada e pegou outra taça de champanhe. Mas seu riso era amargo, débil, puro desamparo.
Como foi o seu réveillon? Ótimo? Radiante? Perfeito? O meu foi... bem, é melhor eu contar.
31 de dezembro. Eu havia finalizado uma série de livros trabalhosos (eu escrevo livros não só para mim: para os outros também). Depois de enviar o material pronto para as editoras que me contrataram, tudo o que eu queria era tomar um banho, deitar na minha cama, ouvir o CD do filme "O Piano" e só levantar quinze horas depois. Mas, oh, era 31 de dezembro: um dia em que todo mundo tem a obrigação de se divertir!
O meu conceito de diversão é elástico, há muitas coisas que me dão prazer, mas, no ano-novo, só um tipo de diversão vale: o histérico. Ai de quem não gritar, ai de quem não beber, ai de quem não estiver muito, muito feliz!
Consegui chegar até as dez da noite fingindo que não havia uma festa a minha espera, quando então minha prima apareceu em casa: "Você não chegava nunca, eu vim te buscar!". Primo: essa estranha categoria que, por ser da família, não se constrange em te enfiar nas piores roubadas. O.k., pensei, em duas horas estará tudo acabado e eu poderei dormir. Mas não foi isso que aconteceu.
Uma escritora, ainda mais tatuada (mesmo que apenas nas costas, como eu), é um circo completo em qualquer festa. Espera-se que você, criatura exótica, de profissão exótica, entretenha as pessoas. Não, eu não escrevo de lingerie como a Carrie de "Sex and the City". Não, eu não bebo. Não, eu não fumo. Não, eu não cheiro também: incrível, né? Não, eu não conheço o Miguel Falabella. Escrever? Concordo com William Faulkner: escrever é fácil ou impossível. Você é contra tatuagens? O.k. Você acha um absurdo, um mau-gosto: eu entendi. Mas eu as fiz em mim, não em você. Está tudo bem, eu não bebo mesmo. Não, eu não estou seguindo os 12 passos do AA: eu nunca gostei de beber. Sua vida daria um livro? A de todo mundo daria. Não, eu realmente não conheço o Miguel Falabella. Quem se preocupa em ser avaliado não entende porcaria nenhuma de sexo, porque sexo é entrega, não avaliação: é verdade. Mas o que eu tenho a ver com isso? Por Deus, eu não conheço o Miguel Falabella! Ah, eu espero que muita coisa boa aconteça no ano que vem - mas beijar você não é uma delas. Pouco antes da meia-noite eu me escondi num dos banheiros. Me sentei no chão, abaixei a cabeça e comecei a chorar. "Por que esse povo é tão sensível?" ouvi uma menina dizer mais tarde ao notar meu rímel borrado. Porque eu vejo o que está ao meu redor, menina, por isso. Seu namorado passou a noite inteira dando em cima de uma loirinha decotada. Quando ele mexeu no cabelo dela, você deu risada e pegou outra taça de champanhe. Mas seu riso era amargo, débil, puro desamparo.
Às vezes eu tenho a impressão de que, se as pessoas parassem um minuto antes da meia-noite, em silêncio, elas também cairiam no choro. Mas essa é apenas uma impressão, afinal, era ano-novo. E todo mundo estava muito, muito feliz.
Salvem os pelos masculinos! (do livro "Os Indecentes" de Stella Florence)
Queridas e queridos, há algo gravíssimo acontecendo bem debaixo dos nossos narizes, há vermes ardilosamente camuflados que tentam – e estão em vias de conseguir – acabar com o que nós (ainda) chamamos de tesão, de desejo físico, de sexo!
Outro dia um jornal na TV apresentou uma matéria sobre as opções de camisetas com gola em V para os homens. Alguns transeuntes experimentaram a “nova” moda que vai desde golas conservadoras até as que se assemelham a decotes femininos. E o que isso me interessa? Nada. Porém, quando eu pretendia lançar a matéria no baú das inutilidades humanas, a consultora de moda advertiu que... pelos escapando por uma gola é gafe, é brega, é feio. Ficou claríssimo: os pelos masculinos estão proibidos!
Claro que eu dei um pulo da cadeira na mesma hora com a caneta em punho: alto lá! Pelos – em homens e mulheres – são fundamentais a um sexo gostoso. Apará-los é uma estratégia interessante (até para evitar aqueles pelos e pentelhos compridos que grudam nas nossas gargantas), mas raspar, depilar, extirpar todo e qualquer pelo é loucura!
O pelo conserva nosso cheiro de macho ou fêmea, o pelo é como uma tora de rolagem que facilita o vai-e-vem do sexo sem que as peles fiquem em carne viva, o pelo é um protetor natural, além de ser (falo por mim) muitíssimo agradável ao toque.
Por que será que a moda tenta sempre limpar nossas mais tesudas características? Pergunte a qualquer homem que ainda não tenha sido abduzido pela ficção científica das novas revistas masculinas o que ele acha de um bumbum molinho. Pergunte a um desses homens o que ele acha de seios que balançam dentro do sutiã, seios que possuem perfil de pera, que descem macios dois centímetros quando o sutiã é retirado. Eles amam! Mas a moda nos traz como modelo a seguir mulheres com peitos duros de maçã e bumbum de pedra. Essa mesma moda agora impõe aos homens a obrigação de se depilar. Para quê? Para que o único tesão do mundo seja o de vestir o que o Big-Brother-Fashion mandar? (Eu me refiro ao “Big Brother” do clássico livro “1984”, de George Orwell).
Um a um, nossos deliciosos atributos físicos vão sendo relegados à esquisitice e os pelos masculinos são apenas mais um símbolo dessa esterilização. Se você quer, como eu, um futuro em que os corpos possam ser orgulhosamente naturais e tesudos, em que haja espaço, em pé de igualdade, para o pelado e o peludo, para a macérrima e a gordinha, não aceite essa estética perversa e antinatural que tentam nos entubar goela abaixo. Por uma vida com muito mais tesão e muito menos neurose, junte-se a mim: salvemos os pelos masculinos!
Queridas e queridos, há algo gravíssimo acontecendo bem debaixo dos nossos narizes, há vermes ardilosamente camuflados que tentam – e estão em vias de conseguir – acabar com o que nós (ainda) chamamos de tesão, de desejo físico, de sexo!
Outro dia um jornal na TV apresentou uma matéria sobre as opções de camisetas com gola em V para os homens. Alguns transeuntes experimentaram a “nova” moda que vai desde golas conservadoras até as que se assemelham a decotes femininos. E o que isso me interessa? Nada. Porém, quando eu pretendia lançar a matéria no baú das inutilidades humanas, a consultora de moda advertiu que... pelos escapando por uma gola é gafe, é brega, é feio. Ficou claríssimo: os pelos masculinos estão proibidos!
Claro que eu dei um pulo da cadeira na mesma hora com a caneta em punho: alto lá! Pelos – em homens e mulheres – são fundamentais a um sexo gostoso. Apará-los é uma estratégia interessante (até para evitar aqueles pelos e pentelhos compridos que grudam nas nossas gargantas), mas raspar, depilar, extirpar todo e qualquer pelo é loucura!
O pelo conserva nosso cheiro de macho ou fêmea, o pelo é como uma tora de rolagem que facilita o vai-e-vem do sexo sem que as peles fiquem em carne viva, o pelo é um protetor natural, além de ser (falo por mim) muitíssimo agradável ao toque.
Por que será que a moda tenta sempre limpar nossas mais tesudas características? Pergunte a qualquer homem que ainda não tenha sido abduzido pela ficção científica das novas revistas masculinas o que ele acha de um bumbum molinho. Pergunte a um desses homens o que ele acha de seios que balançam dentro do sutiã, seios que possuem perfil de pera, que descem macios dois centímetros quando o sutiã é retirado. Eles amam! Mas a moda nos traz como modelo a seguir mulheres com peitos duros de maçã e bumbum de pedra. Essa mesma moda agora impõe aos homens a obrigação de se depilar. Para quê? Para que o único tesão do mundo seja o de vestir o que o Big-Brother-Fashion mandar? (Eu me refiro ao “Big Brother” do clássico livro “1984”, de George Orwell).
Um a um, nossos deliciosos atributos físicos vão sendo relegados à esquisitice e os pelos masculinos são apenas mais um símbolo dessa esterilização. Se você quer, como eu, um futuro em que os corpos possam ser orgulhosamente naturais e tesudos, em que haja espaço, em pé de igualdade, para o pelado e o peludo, para a macérrima e a gordinha, não aceite essa estética perversa e antinatural que tentam nos entubar goela abaixo. Por uma vida com muito mais tesão e muito menos neurose, junte-se a mim: salvemos os pelos masculinos!
Stella Florence
nasceu em 1967, é escritora formada em Letras e vive em São Paulo. Tem
uma filha, 30 tatuagens e oito livros. É exatamente desse modo, objetivo
e charmoso, que a autora de "Hoje Acordei Gorda" e "Ser Menina é Tudo
de Bom", entre outros títulos, costuma se apresentar.
Ninguém vai te salvar
Como se os músculos que sustentam meu rosto tivessem se rompido e só a pele segurasse minha cara frouxa, era assim que eu me sentia. Essa sensação poderia ser confundida com o resultado de uma profunda meditação relaxante, mas era só desencanto mesmo. Pela centésima vez aquela noite, constatei que a caixa de mensagens do gmail continuava vazia de qualquer esperança. Deitei de lado no sofá, tão mole quanto minha cara sem músculos e liguei a TV no “Celebrity Rehab”. Não por acaso: eu costumo assistir ao doutor Drew ajudando celebridades questionáveis a se desintoxicar de todo tipo de tranqueira. No episódio daquela noite, alguns participantes da temporada anterior voltaram à clínica para conversar com os internos atuais no esquema se-eu-estou-conseguindo-me-manter-limpo-você-também-consegue. E foi aí, nessa hora besta de veias rotas e fossas nasais destruídas, que, por fim, assimilei o fato: ninguém vai me salvar.
NA CAMA E FORA DELA TAMBÉM
O que um homem faz na cama com você, ele fará fora dela também.
Se ele insiste em pedir a você uma segunda mulher na cama, ele já tem
(ou em breve terá) uma segunda mulher fora dela.
Se ele não deixa você mudar de posição quando você quer gozar, ele cortará suas possibilidades de gozo na vida.
Se ele reage mal quando você o acorda de madrugada para transar, ele reagirá mal quando você o acordar de madrugada frágil por conta de um pesadelo (e, embora nada impedisse que depois de um consolo viesse outro e tudo se misturasse novamente, como deve ser, isso não acontecerá com esse tipo de homem).
Se ele reage mal quando você o acorda de madrugada para transar, ele reagirá mal quando você o acordar de madrugada frágil por conta de um pesadelo (e, embora nada impedisse que depois de um consolo viesse outro e tudo se misturasse novamente, como deve ser, isso não acontecerá com esse tipo de homem).
Nós, que não somos como as outras – capítulo 37 do livro “O diabo que te carregue!” de Stella Florence.
Você vai ao supermercado, elas estão lá. Vai ao cabeleireiro, elas estão lá. Você sai à noite, elas estão lá. Cacarejando. Eu me refiro às mulherzinhas.
Você já topou com uma, aposto. Uma, não, várias, pois essas criaturas andam em bandos, na maioria das vezes em duplas. Quer ver?
Estamos numa casa noturna qualquer, tanto faz, já que mesmo nos ambientes mais gostosos as mulherzinhas se infiltram sem pudor. Ali está uma delas. Ela empina o bumbum, ajusta o decote, joga a cabeleira, se acha a última Coca-Cola no deserto.
Um daqueles caras, com copinho na mão e olhar ansioso para catar alguém, se aproxima dela, fala alguma gracinha ao pé do seu ouvido, ela ri e cochicha com a amiga. Ele diz outra coisa, ela dá de ombros, faz cara de quem comeu e não gostou, levanta o queixo e pega uma bebida.
Você vai ao supermercado, elas estão lá. Vai ao cabeleireiro, elas estão lá. Você sai à noite, elas estão lá. Cacarejando. Eu me refiro às mulherzinhas.
Você já topou com uma, aposto. Uma, não, várias, pois essas criaturas andam em bandos, na maioria das vezes em duplas. Quer ver?
Estamos numa casa noturna qualquer, tanto faz, já que mesmo nos ambientes mais gostosos as mulherzinhas se infiltram sem pudor. Ali está uma delas. Ela empina o bumbum, ajusta o decote, joga a cabeleira, se acha a última Coca-Cola no deserto.
Um daqueles caras, com copinho na mão e olhar ansioso para catar alguém, se aproxima dela, fala alguma gracinha ao pé do seu ouvido, ela ri e cochicha com a amiga. Ele diz outra coisa, ela dá de ombros, faz cara de quem comeu e não gostou, levanta o queixo e pega uma bebida.
Quando alguém realmente especial chega
Ah, os apelos... Os apelos de amor rasgados! Há algo mais inútil?
Quando alguém realmente especial chega, você não precisa pedir para que ele te dê uma chance: ele dá.
Você não precisa pedir para que ele entre na sua vida: ele entra.
Você não precisa inventar peripécias para que ele te convide para sair: ele convida.
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