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Arte de Eduardo Nasi
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BONECAS NÃO TÊM PELOS PUBIANOS
Saudade de Sônia Braga, de Cláudia Ohana, das divas envaidecidas dos pelos pubianos.
Abrir uma revista Playboy correspondia a sempre se maravilhar com os desenhos abastados no centro das virilhas.
O sexo feminino cobria os lábios, e as deusas criavam um mistério maior na abertura das pernas.
Os ritos mandavam na excitação. Respeitávamos o suspense. Para começar a peça, o teatro dependia primeiro do movimento das cortinas.
Até o cheiro vinha diferente, adocicado, com o suor acumulado das coxas. Não dava para resistir ao apelo.
* * *
Vamos esperar pela punição dos culpados.
Que eles sejam identificados e rigorosamente punidos.
Que erros (ou uma série de) possam ser imediatamente corrigidos.
Que uma tragédia desta magnitude sirva para que mudanças possam ocorrer, no sentido de evitar que catástrofes assim se repitam, seja em uma boate, em um restaurante, um cinema ou em uma loja de departamentos.
Você, leitor, possivelmente frequenta - ou já frequentou - casas noturnas, e sabe, como eu sei, que a generosa maioria não possui saídas de emergência, extintores de incêndio, seguranças preparados, e muito menos profissionais treinados para o caso de acontecer uma merda.
Uma briga, um incêndio, três tiros no teto.
Também você, assim como eu, nunca havia pensado nisso até então.
Por que não devemos (ou não deveríamos) nos preocupar com isso.
Afinal – óbvio! – o dono da boate não irá colocar a vida de seus 500, 1.000, 1.500 clientes em jogo para economizar meia dúzia de pilas, correto?
Não.
E se 235 pessoas tiveram de morrer (até às 00h51min do dia 31/01) para que o óbvio seja, enfim, colocado em prática, então é obrigatório tomarmos providências urgentes, sob pena de repetirmos a mesma desgraça uma outra vez.
Não se coloca 2.000 pessoas em um lugar onde cabem 1.000, e nem 1.000 num lugar onde só cabem 250.
Não se coloca duas vezes mais pessoas que a capacidade do local que as abriga, e onde existe apenas uma porta para entrar e sair e janelas lacradas com madeira.
E, PLIZ!, não se acendem fogos, rojões, sinalizadores e nem qualquer coisa capaz de gerar calor e faísca EM UM AMBIENTE FECHADO COM TETO DE ESPUMA ALTAMENTE INFLAMÁVEL!
Especialmente se este ambiente fechado estiver superlotado.
Não é tão difícil de entender.
É?
A tragédia da boate Kiss foi uma tragédia anunciada – mas anunciada somente para as autoridades, e não para seus frequentadores.
Outras tragédias continuarão a acontecer, até que as pessoas aprendam que focinho de porco não é tomada, e que prevenir sempre é melhor que remediar.
Ok. Esta é a parte prática da questão.
E, neste momento, a parte que a meu ver menos importa.
Não Falta AMOR, Falta AMAR!
Acabo de ler a seguinte frase:
Acabo de ler a seguinte frase:
“Todos a procura do amor ou do significado da palavra, anote a receita é ser vc, viver cada instante, dar valor ao que tem, saber escutar, saber reconhecer e saber conquistar! Companheirismo, Ouvinte e Conquistar! Enfim namorar ou casar é fácil quero ver partilhar”.
Escritor Brasileiro /
Jornalista /
Klester Cavalcanti
Klester Cavalcanti [Jornalista e Escritor Brasileiro]
Klester Cavalcanti-autor de três livros e duas vezes premiado com o Jabuti de Literatura.
Vencedor de vários prêmios jornalísticos no Brasil e no Exterior. Foi correspondente na Amazônia para a revista Veja e é editor-executivo de Isto É Gente online, após ter passado pelas revistas Terra, Viagem e Turismo, VIP, entre outras.
Klester Cavalcanti é nascido em Recife (PE), formado em jornalismo pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap) – Recife/PE
Vencedor de vários prêmios jornalísticos no Brasil e no Exterior. Foi correspondente na Amazônia para a revista Veja e é editor-executivo de Isto É Gente online, após ter passado pelas revistas Terra, Viagem e Turismo, VIP, entre outras.
Klester Cavalcanti é nascido em Recife (PE), formado em jornalismo pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap) – Recife/PE
Caro Rubem Braga,
Escrevo-lhe estas mal traçadas linhas para comemorar seu aniversário de 100 anos. Sei que me condenaria por este começo de artigo, pois você lutava contra os lugares-comuns da imprensa. Uma vez me disse que demitiria qualquer redator que começasse um texto com "Natal, Natal, bimbalham os sinos" ou então "Tirante, é obvio..." ou ainda "O comboio ficou reduzido a um montão de ferros retorcidos". Sei que, odiando lugares-comuns, você estaria rindo das homenagens que lhe prestam - velhinho com 100 anos sendo tratado como um ser especial, logo você que sempre quis ser um homem comum, sem lugar claro na vida. Você não tinha nada de 'especial', nenhum brilho ostensivo; você não falava muito e tinha a melancolia que lhe dava o posto de observação privilegiado para ver a vida correndo à sua volta 'aos borbotões, a vida ávida e passageira' (perdoe-me de novo...)
Poesia em tempo de cólera
Diante do genocídio judaico perpetrado pelo regime nazista em escala industrial, o filósofo marxista T. W. Adorno disse – talvez não exatamente nesses termos – que depois de Auschwitz, seria impossível escrever poesia.
Há, me parece, uma dose de eurocentrismo implicada nesta afirmação. Pois ela reforça uma constatação que se pode fazer a respeito do narcisismo da civilização moderna e tecnológica, a saber, a de que graças aos muitos meios de representação surgidos no século 20 tendemos a superdimensionar todos os eventos ocorridos em seu interior. Eles se tornam como que “mais” reais, ou mais pertinentes para a nossa disposição moderna, porque estão documentados para além da memória verbal escrita. O filme e a fotografia dos acontecimentos têm o incômodo poder de substituí-los. A memória e a recepção tornam-se mais frias e consensuais à medida que a realidade vai sendo capturada de modo peremptório por esses e outros meios. Entretanto, antes de continuar, abro parênteses para dizer que não se trata aqui de negar o acontecimento do crime nazista, isto é, o comprovado genocídio do povo judeu – não obstante o auxílio da eloquência da cinematografia usada para torná-lo torpemente memorável –, pelo contrário, essa tragédia, tal como outras em que populações inteiras desapareceram e ainda desaparecem, não pode passar em branco. Assim, o tema de fundo deste texto que submeto à reflexão do leitor se restringe tão-só a problematizar o que há de espetaculoso ou de efetivamente crítico na sentença adorniana. Fecho parênteses.
Mirando outros eventos do passado – digamos que por um viés politicamente correto, para o desespero de alguns –, poderíamos parafrasear a frase de Adorno na análise, por exemplo, do massacre dos povos indígenas levado a efeito por espanhóis e portugueses na conquista do novo mundo. E a lógica da mesma frase se aplicaria à história da escravidão negra e à devastação étnica e cultural do continente africano – e que persiste até hoje. Como dar crédito à poesia depois da passagem desse verdadeiro “carro da miséria” por sobre tantas vidas? Contudo, todos esses dramas passaram em brancas nuvens, ou foram jogados no fundo do atlântico. A corda rebentara do lado mais fraco. Porque, neste caso, as vítimas eram os “outros”. Os poetas não estavam atentos às impurezas da poesia. Os Lusíadas, de Camões, representam o elogio épico dessas empresas imperiais, cujo processo civilizatório não esconde um apetite sicário.
Lances históricos muito remotos, às vezes falseados, às vezes escassamente documentados, nos são antipáticos, ou seja, temos dificuldade de nos identificar com eles. Por outro lado, o acervo do passado é compilado e organizado de maneira a nos convencer de que é uma “perda de tempo” dispormos da nossa liberdade de dúvida questionando, eventualmente, as versões dos acontecimentos que os compêndios acadêmicos nos oferecem em edições tão ricamente ilustradas.
Muito se discutiu a respeito da afirmação polêmica do filósofo alemão. Aos que nunca foram grandes apreciadores de poesia, a máxima adorniana tem o condão de ser um golpe de misericórdia contra os impotentes poetas, esta espécie em extinção.
Outros se rejubilam de provar o contrário, isto é, que Adorno se precipitou, que foi severo demais com a “mãe” de todas as artes. Eles argumentam que a poesia ainda tem muito a dizer, pois é justamente quando o homem parece ceder ao seu impulso de morte e destruição, retroagindo à condição bárbara, que ela se faz mais necessária: a poesia se eleva como o derradeiro reduto do humano. A “infelicidade” da visão de Adorno não se sustentaria para os que suportam a noção de poesia como lenitivo, como bálsamo divino às aflições da finitude, transcendência através da palavra fundadora do ser.
Mas, para além das mistificações de um lado e de outro, o importante é considerar que talvez T. W. Adorno quisesse dizer que, após aquele marco histórico, a poesia (linguagem que, a partir de sua lógica interna, e como qualquer outra, pretende renomear o mundo) começava a entrar em crise. E a poesia, como discurso metalinguístico, autocrítico, enfim, como linguagem engendrada sobre a consciência de que “palavra e coisa jamais serão a mesma coisa” (SILVESTRIN, 1994, p. 28), não poderia ficar indiferente ao que se passava a seu redor. O tempo exigia outros paradigmas poéticos, e outras filosofias.
O filósofo acertou: uma concepção de poesia – já bastante retardatária poder-se-ia dizer – foi enterrada junto com os mortos de Auschwitz. Hoje, a poesia parece estar mais atenta aos seus limites. E mesmo a sua propalada inutilidade, em contraste com o mundo da mercadoria, pode ser interpretada como um sinal de distinção ou de resistência – ainda que involuntária. Os poetas sabem da dificuldade de representar um mundo cada vez mais cinematográfico e dependente dos media. A subjetividade e a esfera privada se dissolvem frente à obsessão generalizada de expor suas entranhas às luzes do espetáculo público.
Não há mais sentido para a poesia do heroísmo, porque “a febre digital/ das transferências bancárias” (SALVADORI, 2004, p. 15) emasculou o que ainda restava entre nós de um “eco épico”. O mundo moderno e contemporâneo sepultou seus guerreiros e seus celebrantes. Estamos condenados, ao que parece, à idade da impertinência da poesia.
Referências bibliográficas:
– ADORNO, Theodor W. Minima Moralia – reflexões a partir da vida lesada. Rio de Janeiro: Azougue Editorial Ltda., 2008.
– SALVADORI, João Angelo. Teleférico. Porto Alegre: Ame o poema editora, 2004.– SILVESTRIN, Ricardo. Palavra mágica. Porto Alegre: Massao Ohno editor/Instituto Estadual do Livro, 1994.
Cantor /
Compositor Português /
Pedro Machado Abrunhosa
Pedro Machado Abrunhosa [Cantor e Compositor Português]
Pedro Machado Abrunhosa (20 de Dezembro de 1960, Sé, Porto), é um cantor e compositor português.
Inicia cedo os estudos musicais, mais seriamente em 1976. Termina o Curso de Composição do Conservatório de Música do Porto, estuda e trabalha com os professores Álvaro Salazar e Jorge Peixinho. Faz o Curso de Pedagogia Musical com Jos Wuytack. Aos dezasseis anos já dava aulas na Escola de Música do Porto. Pouco depois ensinava também no ensino oficial, na Escola do Hot Clube, em Lisboa, e na Escola de Música Caiús. Desenvolve os estudos de Contrabaixo. Funda a Escola de Jazz do Porto e a Orquestra da mesma, que dirige e para a qual escreve.
Trabalha nesta área por toda a Europa com Joe Hunt, Wallace Rooney, Gerry Nyewood, Steve Brown, Todd Coolman, Billy Hart, Bill Dobbins, Dave Schnitter, Jack Walrath, Boulou Ferré, Elios Ferré, Ramon Cardo, Frankie Rose, Vicent Penasse e Tommy Halferty.
Era uma vez um bando de poetas. Um monte de profetas. Gente fina. Gurizada carioca. Quase todos. Todos mergulhando de cabeça no caminho aberto por Oswald de Andrade, o santo padroeiro daquela temporada. No meio da turba alegre e alcoolizada, "emaconhada" e enamorada, um ou outro riquinho fazendo pose de rebelde. Sabe como é que é, a praia nivela, todo mundo é brother, apesar das visíveis distinções expostas pelo trademark dos calções, bermudas e biquínis que encantam as sombras e as sobras produzidas por aquele abraço do Cristo Redentor, retentor de uma série de questiúnculas e sentimentos.
Relax total entre o sol abrasador e os grãos de areia. Brasil, considerando que não queres mostrar a cara, teu nome é ilusão. De qualquer forma, como essa hora não é hora de papo sério, vamos deixar essa história para outra história. Os jornais e as televisões estão em outra. E, cara, o Rio de Janeiro é uma festa. Solta o som, DJ!
O Bernardo Vilhena tem um poema que fala que a cana tá brava a vida tá dura / Mas um tiro só não dá pra derrubar (Lobão musicou esses versos uma eternidade depois). Pois é, vida bandida essa de quem rabisca palavras versos lágrimas delírios sonhos – e não consegue o básico: publicar. Como é de conhecimento amplo, geral e irrestrito, a poesia não suporta a clausura das gavetas. Assim como todos os seres humanos, a poesia adora a liberdade de ser recitada, lida, manuseada, acariciada, chupada, fudida no meio do parque ou num beco sujo e escuro. A poesia quer ser objeto das taras mais perversas e das loucuras mais escusas. A poesia é sentimento e sabor (suco de fruta exótica, surpresas para o paladar e o cérebro).
A poesia vive a invadir a vida do leitor – apesar de alguns chatos a confundirem com lucro, política e sacanagens (aquelas que não geram gozo, que não permitem prazer).
Como o capitalismo sempre sustentou, poesia não dá camisa para ninguém. Poesia não produz dinheiro. O mercado quer investir em alguns produtos que possibilitem retorno financeiro rápido. Quimera pretender que poesia e comercio sejam aliados. Livros de poesia são inúteis. Não devem ser publicados.
Bela contradição: uns escrevendo, outros recusando publicar. Confusões no meio de campo exigem meio de campo criativo. Doses maciças de criatividade, muita vontade de brincar. É isso daí: brincar. Bola pra frente!
Quem primeiro engravidou da idéia a história não registrou o nome. Faz mal não. Original é quem plagia primeiro, nas sagradas palavras de Miguel Reale. Ou, em versão mais adequada aos fatos, que não seja o medo da loucura que nos obrigue a baixar a bandeira da imaginação (Guilherme Mandaro dixit).
A solução foi simples (como todas as boas idéias). Algumas resmas de papel em branco, várias folhas de papel pardo (ou de uma textura maior), tinta, mimeógrafo (daqueles que existiam, na época, em cada colégio) e um pouquinho de talento e inspiração. Um amigo artista plástico, quando não o próprio autor, desenhava a capa. Depois era só grampear tudo, fazer as aparas, dar um formato, digamos, mais convencional e ir à luta. Ou seja, aceitar (em termos) o pacto econômico e, misturado à missão civilizatória de divulgar a poesia entre os ímpios, promover o escambo sempre necessário à sobrevivência física dessa figura anacrônica, o poeta.
Livros mimeografados: tatuagem poética invadindo o espaço urbano. Bares, ruas, portas de igreja, shows musicais, saraus, vernissages. A invasão foi completa. Nem Átila, o rei dos Hunos, conseguiu fazer tanta bagunça. O velho ritmo desafinar o coro dos contentes, ta sabendo?
Mas, como dizia aquele sábio (às vezes não muito sábio), na prática, a teoria é outra. Os tempos eram bicudos. Pô, anos 70. Puta repressão. Não bastasse o reacionarismo da tradicional família brasileira, ainda tinha os milicos nas ruas. Crises políticas a toda hora, seqüestros de embaixadores, Araguaia, Apiúna, os melhores amigos no exílio ou mortos. Barra pesada, pesadíssima. AI−5, toque de recolher, ufanismo estúpido e analfabeto (Brasil: ame−o ou deixe−o), o tricampeonato mundial de futebol. Pura adrenalina.
Nesse cenário, a poesia era uma viagem, "a" viagem. Drogas pesadas iluminando a noite. E como em qualquer barato, cada usuário sente o efeito de forma diferente. De um lado, o romantismo meio careta de quem estava a fim de extrair sons e perfumes (paz e amor, bicho!). de outro, correntes e algemas. Maior loucura, experiências radicais (na forma, no conteúdo, na linguagem, nas discussões). Teatro de horrores, desmistificação da alienação que acompanhava a geração alucinação total. Por ultimo, efeito típico de um país sem tradições revolucionárias, a turma do deixa−disso. Aquela gente que procura aliar um pouco daqui, um pouco dali. Equilibrados no muro da mediocridade eles querem salvar, sim senhor, salvar a poesia (e a própria pele). Bobagens, é claro. Como diria Nelson Werneck Sodré, o Brasil está cheio de travestis intelectuais: aqueles que adoram estar à esquerda da esquerda para melhor servir a direita.
E assim, entre gregos e goianos, persas e fariseus, a vida cumpriu com o seu inexorável tropeçar. E o nome dos artistas ficou para sempre fixado entre as estrelas. Ou vai dizer que você nunca ouviu falar em Cacaso, Chacal, Charles, Ana Cristina Cesar, João Carlos Pádua, Chico Alvin, Eudoro Augusto, Afonso Henriques Neto, além de outros menos votados? Não acredito. Tá bom, acredito sim, a falta de conhecimento e memória são os nossos maiores patrimônios e as escolas estão superpreocupadas em ensinar macetes mnemônicos para quem quer ascender na escala social, sobra pouco tempo para a diversão.
Outra coisa: a poesia praticada, multiplicada, nos anos 70 recebeu vários apelidos, alguns até interessantes. Os principais são dois: poesia mimeógrafo e poesia marginal (Quampérios, personagem criado por Chacal, discorda enfaticamente dessa última conceituação e dispara: ah... a poesia. A poesia é magistral. Mas marginal pra mim é novidade. Você que e bem informado, me diga: a poesia matou alguém, andou roubando, aplicou algum cheque frio, jogou bomba no Senado?)
Então tá: vamos combinar que esses caras, malucos de carteirinha, escrevendo versos e vendendo os livros nas ruas, modificaram a paisagem. Deram um pouco mais de cor aos anos sombrios da repressão militar. Ou seja, para não dizer que não falei de flores, a poesia dos anos 70, marginal ou não, respirava política o tempo todo – como, aliás, é dever de toda manifestação artística e intelectual.
CINCO POEMAS DOS ANOS 70
(Neysa Campos)
um dia pronto
bato na tua porta
atiro na tua cara
o meu amor
e desço esta ladeira
assoviando
(Cacaso)
e com vocês a modernidade
meu verso é profundamente romântico
choram cavaquinhos luares se derramam e vai
por ai a longa sombra de rumores e ciganos.
ai que saudade que tenho de meus negros verdes
anos!
(Torquato Neto)
Cogito
eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível
eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos segredos dentes
nesta hora
eu sou como eu sou
presente
desaferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
eu sou como eu sou
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim.
(Eduardo Kac)
para curar um amor platônico
só uma trepada homérica
(Luis Olavo Fontes)
Propriedade Privada
não tenho nada comigo
só o medo
e medo não é coisa que se diga.
A herança
Minha avó morreu no último inverno, e com ela a casa intacta com os objetos e lembranças acumulados em quase um século de vida. Um ano antes morrera meu avô, mas tudo permanecera inviolado como devido, pois lá seguia firme (ou quase) minha avó, agora patroa absoluta do lar - ainda que em seus devaneios. E enquanto ela estivesse viva, em nada se tocaria.
Por
fim, era chegada a hora de enfrentar a casa e seus recantos, as portinhas
escondidas e gavetas infindáveis. Os pertences de toda uma vida, aquilo que ano
após ano juntamos, por afeto, capricho ou desleixo, deixando às gerações mais
novas a tarefa inglória de lidar com o volume monstruoso. Em meio a achados
comoventes que embargam a garganta e embaçam a vista (cartas, desenhos, fotos),
outros achados pitorescos que divertem (Era a cara dele guardar uma coisa
dessas!) e exasperam (Todas as edições da revista desde 1980?). E dê-lhe
fitas-cassete de tangos e boleros da vó pululando das gavetas, os esmaltes e
cosméticos vencidos há mais de década, os cadernos de receitas, os baralhos de
carta, os vestidos de crochê das bonecas das netas. No gabinete do vô, a pasta
organizada com os documentos de resgate da história da família, a coleção de
moedas antigas em potes de vidro, as centenas de recortes de notícias variadas,
a bizarra coleção dos mais horríveis poemas já publicados em jornal, com os
quais, sádico, se divertia.
Colunas /
Isabela Lapa /
Kellen Pavão /
Universo dos Leitores
DIAS DE INFERNO NA SÍRIA, DE KLESTER CAVALCANTI
DIAS DE INFERNO NA SÍRIA, DE KLESTER CAVALCANTI
Neste livro, o jornalista e escritor Klester Cavalcanti relata, de forma sensível e humana, toda a dor e todo o sofrimento que passou nos dias em que ficou preso na Síria, durante a guerra civil.
O jornalista saiu do Brasil com visto de imprensa válido, obtido no Consulado da Síria no Brasil, com o objetivo de acompanhar a ação dos grupos do Exército Livre da Síria contra as forças do governo e vivenciar um pouco do cotidiano de uma sociedade em meio ao contexto da guerra.
A intenção de Klester era chegar à cidade de Homs, onde a guerra estava mais intensa. Mesmo sendo avisado inúmeras vezes acerca do risco de ir até o local e dos perigos envolvidos, ele manteve seu propósito e encontrou uma maneira de chegar à tão temida cidade.
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