Entrevista com o ilustrador André Gorayeb - um beatnik, maldito e marginal entre nós 

A arte de desconstruir Cuiabá com Gorayeb

O ilustrador e músico André Gorayeb é o autor da capa da coletânea de contos e poemas “Beatniks, Malditos e Marginais em Cuiabá: Literatura na ‘Cidade Verde’”.

Quando os organizadores da coletânea, Cinthia Andressa de Lima e Wuldson Marcelo, conversavam sobre qual ilustrador convidar, o nome de André foi o primeiro a surgir, e quando conferiram a sua produção, uma certeza apareceu como absoluta e se desenhou como uma decisão irrevogável: André era o cara certo para o trabalho.
Artistas lamentam decisão da Justiça de suspender editais de incentivo à produção cultural negra

Isabela Vieira
Agência Brasil



Rio de Janeiro- Organizações de produtores negros que promovem atividades artísticas e culturais  questionaram a decisão da Justiça Federal, que suspendeu editais de incentivo à produção cultural negra do Ministério da Cultura. Foram inscritos 2,4 mil projetos de médio e pequeno porte que concorriam a R$ 10 milhões.  Na avaliação das entidades negras, a medida é um retrocesso e compromete  projetos que refletem a diversidade brasileira.
Facebook adotará medidas para reduzir violência contra mulher


O escritório da empresa Facebook, situado na Califórnia, reconheceu nesta terça-feira sua falta de supervisão sobre conteúdos que promovem a violência contra a mulher na rede social e prometeu soluções em resposta a um boicote publicitário promovido por grupos feministas.

Em um texto publicado em sua página Facebook Safety, a companhia admitiu que seus "sistemas para identificar e eliminar mensagens de ódio não funcionaram como deveriam", em particular "no que se refere à violência de gênero".
Literatura e cinema contemporâneos são destaque na programação do Ano de Portugal no Brasil

Paulo Virgilio
Repórter da Agência Brasil

Rio de Janeiro - Como parte da programação do Ano de Portugal no Brasil, o Instituto Moreira Salles (IMS) e a Casa Fernando Pessoa, de Lisboa, promoveu no  sábado (25/05), às 18h, um encontro sobre as tendências e os caminhos da literatura portuguesa contemporânea. Participaram do debate Vozes da Literatura Portuguesa os escritores Gastão Cruz, José Luiz Peixoto, Lidia Jorge, Patricia Reis e Rui Zink, todos com livros publicados no Brasil. A mediação foi de Inês Pedrosa, diretora da Casa Fernando Pessoa.

De acordo com Inês Pedrosa, não foi fácil a seleção de escritores para o debate, que também ocorreu  (21/05), em São Paulo, e na quinta-feira (23/05), em Porto Alegre. “A literatura portuguesa contemporânea mantém a vitalidade que a tornou, desde pelo menos Luís de Camões e Antônio Vieira, uma das literaturas de referência do mundo”, disse a diretora da instituição dedicada à memória e à obra do poeta Fernando Pessoa.
Amores que duram toda a vida

Procuro no fundo da minha alma e não consigo encontrar as respostas necessárias, porque talvez as respostas que procuro, ou que tanto procuramos, estejam dentro de nós mesmos.

Entender a vida é muito difícil! Tentamos a todo custo sermos felizes, procurando no outro a nossa felicidade, deixando as nossas prioridades sempre para depois e vivendo a vida do outro, daquele que dizemos amar. Como o amor sempre é doação, não existe outra maneira de amar a não ser essa. Mas, quando nos colocamos em segundo plano, percebemos que vamos perdendo o valor... Por que o outro sabe que estamos ali, e é muito cômodo. 

Como amar alguém que nos trata como opção?
Dizem que isso é paixão, que nos cega. E existe amor sem paixão?


Chamo de cinco minutos de bobeira, e bummmm, lá estamos nós apaixonados por quem não devia... Sempre procuramos a pessoa errada para amar, já perceberam isso, ou alguém que nunca poderá ser seu.

Desde pequenos nos ensinam, principalmente para as mulheres, que para ser feliz precisamos estar ao lado de alguém ou que um príncipe vem ao nosso encontro montado em um cavalo branco, o príncipe já está ficando velho e o cavalo branco ficou preto. Por isso dizem tanto que príncipes viram sapos, acho que isso tem muito com o não gostar de si mesmo, colocar todas as nossas expectativas na outra pessoa. Nunca podemos deixar isso acontecer, seria anular como pessoa.

Somos seres imperfeitos como defeitos e qualidades e alguns até com defeitos de fábrica.

Outro dia em uma ida ao meu médico, isso acontece a cada dois ou três meses, por causa de uma maldita enxaqueca, bem vi um casal na minha frente, um senhor, acho que estava entrando nos seus 80 anos, e ao seu lado numa cadeira de rodas uma senhora, ao lado deles estava uma mulher jovem e um homem não muito jovem, acho que ambos eram filhos desse casal.

Fiquei horas olhando esse casal, tentando entender o que tinha a mulher, que doença teve... Por mais que tentasse não conseguia desviar o olhar, ele sentado, na sua frente, ela na cadeira de rodas, ele passa mão nos cabelos grisalhos dela, no rosto, segurava sua mão... A mão dele já trêmula, mesmo assim continuava segurando a mão dela e fazendo carinhos. A cada gesto dele, me chamava atenção, eu tentava adivinhar o que estava acontecendo ali.

Ela mantinha a cabeça baixa e ele, sempre muito carinhoso, não parava de alisar suas pernas.

Mudaram de posição, agora estavam do meu lado, eu não desviava o olhar daquela cena, estava hipnotizada.
Tanto carinho, tanta cumplicidade.

Em um dado momento, ele arrumou os cabelos dela, passou à mão no joelho, depois na coxa, ela permanecia quieta até então, foi quando ele deslizou mais um pouco a mão, levou um tapa que estalou.

Não pude deixar de sorrir, mas queria mesmo era dar uma boa gargalhada.
Essa cena mexeu comigo, vi que mesmo com o passar dos anos nada mudou para eles, nem a vontade de um carinho mais apimentado (risos), um amor de verdade, não importa todas as dificuldades que passaram todo o sofrimento, por que nem tudo na vida são flores, souberam manter o respeito e exercitar a paciência e o mais importante souberam cultivar o amor, vi no brilho dos olhos de ambos, a cumplicidade o amor sem limites, amor doação, amor entrega, amor por amar.

Não o amor que nos contam, dos príncipes que viram sapos, não da pessoa errada, pois não existe pessoa errada ou certa, mas sim o amor que não anula o outro, o amor que deseja que o outro cresça ao seu lado, mesmo diante das dificuldades da vida, por que quando envelhecemos, e o que fica é a cumplicidade, as histórias, os momentos que são relembrados.

Então, não procure príncipes nem sapos, não existem pessoas erradas ou certas, o que existe são pessoas reais, o que existe é o compartilhar de uma existência mesmo diante das dificuldades do dia a dia, o amor vai amadurecendo na medida em que a vida nos impõe os desafios.

Isso sim é o amor de verdade, tive a felicidade de presenciar essa cena linda, que leva qualquer um a refletir o que queremos da vida, um amor fantasia ou um amor de verdade.


"AMAR SE APRENDE AMANDO"
 Carlos Drummond de Andrade
Hamilton, o Homem Nu

Hamilton. Pronunciou fortemente seu nome, de forma a encontrar no significado de cada letra a marca do seu destino errante. Pareciam-lhes incrustadas na força dos seus pés e no movimento harmônico de suas mãos. Tinha uma espécie confusa de convicção na liberdade das palavras, assim criara seu mundo e revelara sua história pelos gestos ternos e amistosos.

Contou algo sobre suas viagens por infindáveis lugares do mundo e do seu retorno brusco - o que lhe decepcionara, e ao mesmo tempo lhe sustentava a condição de morador de rua, em seu universo de festins diabólicos e sagrados. Estava cabisbaixo, buscando no íntimo uma voz que se erguia como uma estátua de marfim contra os raios de sol. Para ele, as experiências humanas assemelhavam-se ao orgulho dos césares antigos em suas guerras e conquistas, às suas taças transbordantes de vinho ao cair da noite, ao embelezar do luar que cai diante dos homens; eis tudo o que representava sua vida.  Ele tinha experiências que dariam o romance do século, que se misturavam aos lábios trêmulos e aos olhos brilhantes, como o ébano que se dilui no olhar do homem errante.

A devoção que lhe pertencia era perturbadora, assim como seus olhos redondos, pretos e brilhantes, ao confidenciar que em suas mãos caíra-lhe uma fortuna. As formas traduzem muitas vezes os desejos da alma, pensara ininterruptamente.

Hamilton parecia não se intimidar diante do mundo e das classes sociais mais altas, via-se que comia ou bebia nas mesas mais fartas, diante de cortes bestializadas pelas aparências. Seu conflito social era menor que a agudeza do seu espírito. A situação marginal e clandestina em que vivia era o que lhe transmitia a essência das noites em que perambulava sozinho, absorvido em abstrações que sua alma não atrevia a conter.

Vinha perambulando de forma dramática, fazendo uma dança em que seus membros se retorciam pelo peso de alguns objetos doados ou encontrados nas ruas que trazia pendurados sobre seus ombros já cansados pelas intempéries diárias. Sua idade já lhe mostrava o enrugamento das mãos e do rosto suado. Trazia um semblante cansado e marcas de sujeira incrustadas na pele.

Fez um gesto de reverência por algum dinheiro que lhe fora dado e balbuciou palavras que enobrecem a alma humana, ternas, sutis, pronunciadas com entusiasmo de quem deseja um mundo melhor ou vários mundos para conquistar em suas andanças boêmias.

Sua voz estremecia, era inconfundível para quem o visse ou travasse algum diálogo com aquele ser que se dizia H-A-M-I-L-T-O-N - bem pronunciado, a ponto de suas roupas gastas ganharem um colorido e retirasse do invólucro toda a feiúra que lhe dava formas. Supunha que o conhecimento das ruas compunha sua personalidade de notas harmoniosas, complexas, ambíguas.

Nua. Sua alma expressava a lascívia do Homem Nu. Permanecia como outrora, sem compromissos, apenas povoavam-lhe à mente aspirações que tomavam conta do seu corpo magro e gélido pela brisa noturna que o acompanhava entre tragos e porres pelas esquinas das ruas que não tinham fim.

Mostra Encontros une obras de 49 artistas do Brasil e de Portugal

Fernanda Cruz 
Agência Brasil


São Paulo – Uma exposição com 49 artistas, 22 do Brasil e 27 de Portugal, reúne no Memorial da América Latina, na capital paulista, pinturas, desenhos, gravuras, fotografias e digigrafias que traçam um panorama sobre a arte contemporânea dos dois países.
Maior projeto de circulação musical do país começa em Florianópolis
 
Akemi Nitahara
Agência Brasil



Florianópolis – Com 450 concertos programados em 128 cidades, foi lançada no dia (29/05) a edição 2013/2014 do Projeto Sonora Brasil. 

Um dos objetivos do projeto do Serviço Social do Comércio (Sesc), patrocinador do evento, é a formação de plateia longe dos grandes centros urbanos, possibilitada pelo contado com a diversidade musical brasileira.

Livro apresenta 1.200 casos de camponeses mortos e desaparecidos na ditadura militar

Luciano Nascimento
Agência Brasil

Brasília – Cerca de 90 trabalhadores rurais sem terra acompanharam, no dia (24/05), o  lançamento do livro Camponeses Mortos e Desaparecidos: Excluídos da Justiça de Transição. A obra pretende auxiliar a Comissão Nacional da Verdade (CNV) no reconhecimento oficial de 1.196 casos de camponeses mortos e desaparecidos no campo em função das diversas formas de repressão política e social entre setembro de 1961 e outubro de 1988, período indicado pela Lei 9.140/1995 – a primeira a reconhecer que pessoas foram assassinadas pela ditadura militar (1964-1985).
Alvo do destino

O que seria do destino se não fosse a humanidade, para servir de alvo dos seus movimentos – de suas brincadeiras, tantas vezes trágicas – e, pode-se dizer, para dar sentido à sua existência? Isso passou pela cabeça de Ignácio, ao levantar os olhos do jornal, onde lera sobre o avião que caíra na cabeceira da pista pouco depois de decolar, com a morte de todos os passageiros e tripulantes – com exceção, registrada na mesma página, do publicitário cujo táxi quebrara a caminho do aeroporto e que com isso perdera aquele voo, mas ganhara a vida, sem qualquer exagero na expressão.

Ignácio deu um bom gole no conhaque e repetiu o que pensara, em voz alta e cadenciada. Mas você fala de destino – e destino é praticamente tudo o que há – ou de coincidências e eventos curiosos? rebateu Lídia, com as palavras racionais e lógicas fazendo algum tipo de contraponto aos seus lábios carnudos e aparentemente mais adequados a beijos, sussurros, prazer.

Riu, o homem, enquanto jogava o olhar para os trilhos do velho bonde que, restaurado, amarelo brilhante, circulava de novo pelo centro de Porto Alegre. Seguiu as paralelas de metal, que ofuscavam sob o sol, até a primeira curva da rua. Sorriu para a mulher linda, inegavelmente linda, à sua frente, refletindo que além de linda era inteligente e implacável, e começou a sentir-se excitado. Estendeu a mão e tocou com seus dedos compridos, agora finalmente livres das manchas causadas por tantos anos de cigarro, na mão suave e menor da moça. Ela devolveu-lhe o sorriso e a pressão na mão – mas os olhos continuavam esperando a resposta.

Coincidências e eventos curiosos fazem parte do destino, disse o homem. Quarenta e um anos recém-completados, vítima de um enfarte detectado em tempo e que lhe rendera menos agravos físicos do que a consciência da finitude e da escuridão que podem nos apanhar no auge da vida, da carreira, do sucesso, da arrogância, do desejo. No hospital, recuperando-se do ataque, tivera um bom tempo para pensar, ou melhor dizendo, para entender que assim era – tudo é impermanência (essa a palavra que descobrira num dos muitos livros e revistas que tinham formado pequena torre sobre a poltrona das visitas).

Estaria tornando-se um místico? Deu mais um gole, aquecendo o espírito e corpo. Na praça que via através da janela, acendiam-se as luzes, e com o fim da tarde caíam as primeiras gotas de uma chuva forte.

... estava dizendo ela: Mas temos o livre arbítrio.

É, respondeu ele, como se pergunta fosse resposta. Ela entendeu que era e continuou explicando que podemos tomar conscientemente medidas que evitam a maioria dos perigos – como, por exemplo, não atravessar uma avenida movimentada fora da faixa de segurança, como estatisticamente estava provado que funciona, e também pelo mero bom senso. Tudo bem, concordou ele, que já estava mais a fim de aproveitar a vida que lhe sobrava – mesmo que ainda tivesse mais 35 ou 40 anos de existência pela frente – na cama com Lídia, e beijou seus dedos, porém ela os retirou de modo delicado mas firme, como fazem as mulheres que além de bonitas são inteligentes e ficam em dúvida sobre qual das virtudes devem utilizar preferencialmente nos embates cotidianos para se darem bem na vida, mas detestam ter o raciocínio cortado pelo tesão irracional dos machos dominadores, como sempre acontece na história da humanidade, etc. – ham!

É o destino, nós dois aqui, prosseguia Ignácio, já tentando encaminhar o encontro para algo mais carnal do que propriamente metafísico ou filosófico, embora ele mesmo se pegasse viajando nessa dimensão, com alguma frequência, desde que percebera que por muito pouco não tinha morrido.

Ela passou a mão macia sobre o rosto do homem. Bicou o copo com o licor, de uma tonalidade púrpura, e observou o leve movimento do líquido. Não, tudo bem, mas eu estou falando que nós podemos... – nós podemos é tomar cuidado! – cortou ele, elevando a voz, repentinamente dominado pelo assunto: no máximo adotar uma política sensata de evitar os riscos mais óbvios, digamos que seja uma política de redução de danos... E isso é tudo que podemos fazer!

Os olhos arregalados, Lídia também abriu a boca, espantada com a grosseria de seu comentário, ou melhor, com o fato de ele ter lhe cortado a palavra, atropelando sua fala. Desculpe desculpe, já estava dizendo Ignácio, é que me emocionei com o assunto (e apelou para o episódio do enfarto): estes temas me atingem mais hoje em dia...
Não foi nada, condoeu-se ela, embora não de todo convencida da sinceridade de suas desculpas. Fale, prossiga o que você estava dizendo – era a voz do homem reassumindo o controle, generoso, aberto, de igual para igual.

Pois o que eu estava dizendo, disse Lídia, com um sorrisinho sem mostrar os dentes, é que nós fazemos o nosso destino. Corrigiu-se logo: pelo menos na maior parte das vezes.

E o publicitário que escapou da morte porque o táxi em que estava estragou? – disse Ignácio. Nesse caso, entre centenas de outras pessoas que haviam comprado passagem para aquele avião, só ele foi salvo – pelo destino ou por qualquer outra coisa que, de algum modo misterioso, poupou a sua vida.

Modo misterioso?! – Lídia indignou-se. Misterioso? Foi apenas um fato comum – todos os dias milhares de táxis e outros carros quebram nas ruas, fundem o motor, arrebentam a caixa de câmbio. Foi só o que aconteceu, pelo amor de Deus!

Amor de Deus? Bom, Deus também pode ser somente um outro nome para Destino, Coincidência, Azar, Sorte – disse o homem com fios grisalhos no cabelo aparado, homem ainda bem conservado e que desde o enfarto cuidava a alimentação e fazia regulamente os exercícios recomendados, num conjunto que atraia a atenção das mulheres. Mas homem que, no coração, sabia que por muito pouco algo não se partira definitivamente, e que acreditava agora ser necessário atentar com, vá lá, algum tipo de respeito ao que passara a chamar de seu “fio interior”.

Nossa, como você está religioso – parece minha avó! – provocou a moça, dando um longo trago no licor.

Ignácio olhou o mostrador do relógio e fez sinal ao garçom, mais um conhaque não faria mal. Sorriu para a mulher e avançou sobre a mesa: segurou o rosto de Lídia com a mão direita e beijou-lhe a boca. A mulher fechou os olhos; nas mesas ao lado, os vizinhos abriram um pouco mais os seus e sorriram. Eu e a sua avó temos muito em comum, dizia Ignácio, baixinho, ao ouvido da mulher. Eu também vou te pegar no colo, pra dormir na minha cama...

Ela afastou o rosto, agora levemente rubro: Safado! Bagaceiro! Mas sorriu – este era o Ignácio de que gostava, e não aquele homem meio melancólico dos últimos meses. Independente disso, detestava perder discussão. Não era a toa que, formada há dois anos, já era uma das estrelas no escritório de advocacia, com grandes perspectivas profissionais.

...então, como eu dizia antes de ser interrompida (gostosamente, acrescentou ele), vá lá, gostosamente, mas interrompida. Como eu dizia, o cara ter escapado foi um fato normal. Quer dizer, foi ótimo para ele, é claro, mas não há nada de destino programado nisso, a vida é assim mesma, as coisas vão acontecendo por uma imensidão de fatores que se somam aleatoriamente. Ou você acha que um anjo-da-guarda, talvez a serviço de alguma oficina mecânica, quem sabe?, foi lá e superaqueceu o motor do táxi, fazendo-o parar?

Pôxa – Ignácio olhou-a com admiração verdadeira, mas também não conteve a ironia: eu não sabia que você entendia tanto de mecânica, e de mecânica celeste, ainda por cima...

Não se faça de engraçadinho, disse Lídia, satisfeita com o encaminhamento da conversa.

A chuva cessara e pela janela do café havia um cenário perfeito, as luzes das fachadas comerciais brilhavam com mais vigor sobre os trilhos do bonde, as cores realçadas pela água que tudo lavara.

Sob a mesa, Ignácio sentiu o pé da mulher escalando sua canela. Segurou o pé descalço, e por sua vez foi avançando com sua mão pela perna dela, o joelho perfeito, a maciez de seda da pele, até a coxa poderosa. Os olhos de cada um imantados pelos do parceiro.

Iam embora. O homem pediu a conta e dirigiu-se ao banheiro. A moça sorria, confiante. Virou-se para olhar o amante, o amado, que sumia pela porta decorada com a imagem de uma cartola e uma bengala entrecruzadas, como as tíbias e a caveira das naus piratas, a imagem do morto, pensou de repente, e levantou-se e deu alguns passos para lhe dizer alguma coisa muito importante, com toda a urgência, mesmo que tivesse que invadir o banheiro masculino, enquanto o bonde derrapava no excesso de água, saltava dos trilhos e vinha célere por sobre os paralelepípedos molhados – despedaçando a parede e a janela com cortinas quadriculadas e floreiras, de onde os amantes olhavam a rua até um minuto atrás.