Uma questão de princípios [Jean Marcel]

Uma questão de princípios

– Bigode... Mais uma cerveja!

– Nossa, Paulão, hoje estás bebendo todas!

– Tô revoltado, cara! Nem te falo... A Marina... – O Paulão não conseguiu terminar a frase, seus olhos se encheram de lágrimas.

– O que ela fez de tão grave?

– Não sei nem se vou ter coragem de contar!

– Sério assim?

– Seriíssimo! – sua voz estava engasgada de emoção.

– Uhm, respira fundo, Paulão. Abre teu coração...

– Tá certo... Imagina... Vejam só vocês... Ah, melhor não contar!

– Agora fala, Paulão... O que tem a Marina? 

O boteco todo fingia não prestar atenção naquela conversa que prometia ser interessante, mas a verdade é que ninguém queria perder a revelação. Até o Tonho, no caixa, abaixou discretamente a música ambiente para ouvir o que parecia ser uma confissão daquelas.

– Ok, ok... Vou contar! A Marina... Pois não é que ela disse que está pensando em colocar... fazer...  uma tatuagem!


– Ãhn? – A surpresa foi geral! Tanto que nem conseguiram disfarçar o susto com a revelação feita. A “Dona” Marina de tattoo? – Tattoo, Paulão? Tem certeza de que foi isso que ela disse?

– Tattoo! – confirmou o Paulão cabisbaixo, visivelmente constrangido diante dos amigos. A sua esposa, a Marina, que lhe contou quando se conheceram que “só não foi freira porque era séria demais pra isso...”, agora, depois de casada, pensando em se tatuar!

– Mas ela disse mesmo que vai fazer?

– Bem, com todas as letras, não! Falou que achava legal... Que tinha vontade... 

– É a mesma coisa! – sentenciou o Tigrão. Fazer ou ter vontade de fazer é a mesma coisa. A diferença é a oportunidade! E depois, em certos assuntos, só a intenção já basta... Consumar é uma questão de tempo!

Estavam mesmo chocados. Todos eles! Como homens de meia idade, tinham em relação às mulheres uma escala de seriedade que, segundo a experiência que afirmavam ter, não falhava nunca. Acreditavam numa espécie de indicador subliminar sinalizando ao mundo as intenções ocultas de qualquer moça que passasse. Bastava saber interpretar os sinais emanados. E eles acreditavam ter decifrado esse código. Muitos brincos numa mesma orelha? Uhm, tá querendo aparecer! Anelzinho de prata no dedo do pé? Pra quê? Sei não, presta atenção, amigo, isso não é coisa de mulher casada! Botou um piercing? É grave! Na língua denota infantilidade. No nariz... Bom, porquice mesmo. Agora, no umbigo... Ah, abre o olho com a tua mulher! Mas para eles, no topo da lista, hors concours, sem concorrente à altura, estava mesmo a tattoo. Acreditavam que a tatuagem no corpo feminino servia de sinalização explícita e inquestionável do grau de safadeza daquela mulher; ou seja, para eles, a tatuagem atingia as mais altas notas no quesito imoralidade! Algo como um aviso ao universo masculino de que ali está uma mulher que se deixa levar pelos seus impulsos mais primitivos. Sim, agia por impulso, pois qualquer mulher séria que parasse para pensar um minuto que fosse, acreditavam, jamais cometeria tal aberração! Para eles, uma tatuagem era sempre uma pequena loucura, uma quase contravenção.

– Poxa, Paulão, que situação! 

– Vai ver será de hena... Daquelas que sai depois – ainda tentou amenizar o Afonso, recebendo como resposta um olhar fulminante acompanhado de um resmungo.

– Faz diferença?

De fato não fazia. Tattoo de hena para eles era como querer ser safada “só” por uns dias...

– Ela vai tatuar algo como o teu nome ou o teu rosto?

A pergunta procedia. Eram muitas as possibilidades: tribais, estrelinhas, frases, beija-flor, lua e estrela,... Mas quem sabe ela optaria por “ele” grafado para sempre no seu corpo. Embora soubessem da maldição de que toda mulher que tatua o nome ou rosto do amado acaba fatalmente se separando e transformando depois a homenagem em outra coisa, como por exemplo um Rottweiler ou um Buda (o que for mais fácil conforme a fisionomia do “ex”), eles também sabiam que as tatuagens tinham muitos significados, e o nome ou rosto do marido caprichosamente tatuado era o maior dos tributos, significando total devoção. A não ser, é claro, que a tatuagem tenha sido feita na língua de um sapo. Aí não, cuidado, é vodu! Mas no corpo da mulher não há dúvida, é um sinal de entrega! 

– Ela disse que pensou num ideograma japonês que significa “paz e harmonia a todos os homens”.

– Olha aí, que lindo! Bonita mensagem... – tentou o Jonja. 

– Poxa, Jonja, a TODOS os homens? A minha mulher... A Marina, querendo dar harmonia pra galera?

– Complicado – concordou o Afonso que não queria estar na pele do amigo.

– E depois, tem o lance do japonês!
– Que japonês?

– A língua... Eu não falo japonês! E se o significado verdadeiro for outro? Algo como “agite antes de usar!” Eu nunca vou saber!

– Uhmmm. É verdade... Já sei! Fácil, mostra pra um japonês de verdade... Ele pode confirmar.

– Ah é? Você está sugerindo que eu devo mostrar a bunda da minha mulher para um japonês?

– Uhm... Então vai ser na bunda?

– Nas ancas, ela disse... Mas é a mesma coisa, ou não? Bunda, ancas, traseiro, nádegas...

– Tecnicamente, não... 

– Era só o que faltava! Não acredito que estamos discutindo o traseiro da minha esposa!

– Mas é com todo respeito! É que o local da tatuagem também diz muita coisa! Ombro, nuca, tornozelo... Por exemplo, a frase “Mais importante que a velocidade é estar seguindo na direção certa!” tatuada no pé serve como uma mensagem a guiar seus passos. É poético! Já se a moça resolve tatuar a mesma frase na virilha, perto da... do... Bom, você sabe onde! Aí já muda todo o sentido!

– Está decidido! – anuncia o Paulão num rompante, dando um soco na mesa para reforçar a mensagem. – A Marina não vai fazer tatuagem coisa nenhuma! Concordo com vocês... Tattoo não tem nada a ver!

Apesar da ira do Paulão e de ser aquele o momento mais importante da conversa, ninguém prestou atenção ao que ele dizia, pois naquele exato instante entrava no boteco uma loira de pele morena, tipo “dois em um”, daquelas que quando chegam fazem a turma cancelar a saideira. E como reza a tradição do boteco... mulher bonita tem prioridade sobre todos os outros assuntos!

– Maravilhosa! Perfeita! Fenomenal! Nota dez e meio! – Pensaram em voz alta. 
– E a barriguinha de fora... Uhmmmmm! Aquele piercing no umbigo... ai, ai!

– Vocês viram? Repararam na orquídea tatuada? Só deu pra ver as pétalas. Daria meu mindinho pra ver o caule!

– Eu a raiz!

– Ops! Como assim? Que papo é esse? – Indignou-se o Paulão – Vocês não disseram que odiavam tatuagem?

– Nós? Odiar? De jeito nenhum! Tatuagem é show! Olha lá... Uhmmm! 

– Aiiiiiiii...

– Ohhhhhhhh...

... Silêncio do Paulão. Só ele não gemeu. Estava processando as informações.

Agora estava decidido! A Marina que sossegasse o facho! Finalmente o Paulão compreendeu a inquestionável lógica dos homens. Tatuagem é bonito sim, mas na mulher dos outros!

Jean Marcel- Escritor, professor universitário, palestrante. É pai de dois adolescentes. Um leitor voraz. Eclético, escreve contos, crônicas, romances e infanto-juvenil. Possui o blog brisaliteraria.com

1 comentários:

Cinthia Kriemler disse...

Rindo muito aqui com seu texto. Bom demais!