NEM TUDO EU TIRO DE LETRA [Geraldo Trombin]

NEM TUDO EU TIRO DE LETRA

Dizem por aí as boas línguas (à boca pequena) que me dou bem ao preparar as minhas tradicionais sopas de letrinhas.

Seja no fervor de um poema de versos livres ou metrificados ou no ardor de uma prosa em forma de crônica ou conto, falam que tais receitas são sempre vagarosamente degustadas porque vêm com uma bela pitada de "quero mais" e aquele gostinho especial de "vou repetir". Não sei se isso são apenas ingredientes decorativos para agradar ao paladar dos meus olhos ou simplesmente uma média para que eu nunca abandone ou perca o gás diante do fogão incendiário da literatura. Mas, sim, reconheço: certas coisas, por mais que tente e faça novos experimentos, ainda não consigo tirar de letra. Por exemplo: fofocagem na mesa do bar sobre alguém que não está ali para se defender. Amizade antiga desfeita porque um amigo (não tão amigo assim) passou o pé (e a mão também) no outro. Clientes espertinhos com "expertise" em dar tombos e abrir rombos. Gente com horário desregulado (pior que intestino desregulado), que marca e nunca chega na hora combinada (isso quando chega). Aliás, taí outro assunto que não consigo acertar os ponteiros comigo mesmo: a falta de consideração dos desleixados temporais de plantão, que renegam o pontual relógio do respeito por causa do seu jeito descompromissado de ser. E mais: motorista que avança o sinal vermelho quase que atropelando o pedestre na faixa de segurança. O descarado fura-fila, que usa o manjado jeitinho brasileiro para se safar das filas de banco, cinema e restaurante. O desalmado que engana, desrespeita e maltrata o idoso.

Bem, pelo menos o fato de não engolir algumas atitudes, de vez em quando, serve para algo bom, mesmo sendo um desabafo como esse: a minha indignação vira tema para mais uma crônica. Se tiver uma nova e boa ideia para a minha próxima sopa de letrinhas, aceito sugestão! Quem sabe, juntos, conseguimos tirar de letra!

27.07.13 - Jornal O Liberal - Americana - SP



Geraldo Trombin, publicitário, é colunista do blog ContemporArtes e colaborador do jornal “O Liberal”, de Americana/SP.Lançou em 1981 “Transparecer a Escuridão”, produção independente de poesias e crônicas, e em 2010 “Só Concursados - diVersos poemas, crônicas e contos premiados”.
Tem classificações em inúmeros concursos literários realizados em várias partes do país e também em Portugal, além de trabalhos publicados em jornal e diversas antologias.

1 comentários:

edweinels disse...

Grande Gera, sempre um show de criatividade e de grande literatura. :) Abracos do seu amigo, Edweine.