AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA (18) [Rubens Jardim]
AS MULHERES POETAS NA
LITERATURA BRASILEIRA (18)
ELIZABETH LORENZOTTI, poeta paulistana, jornalista, escritora, fez
mestrado em comunicação (USP) e é doutoranda em literatura brasileira. Passou a
infância em Poços de Caldas(MG) e voltou pra lá no ano passado. Está iniciando carreira acadêmica. Publicou
Suplemento Literário-Que falta Ele Faz!, Tinhorão, o Legendário e o livro de
poemas As Dez Mil Coisas(2011).
Visita
No estranho caminho de Santiago
os magos perdem as botas
e as mulheres ganham
sandálias de saltos altos
Nas veredas
Saltitam
Gaviões e passarinhos
O rosário de jade sobre a Teogonia
O livro de Leonardo
Meu caderno de sonhos
Cristais de gengibre
A caixinha de Alhambra
A pedra cor-de-rosa
O hexágono da China
Potinhos de pedra-sabão de
Minas
A obra em negro
Os escritos de Blake:
Tudo existe porque tem um nome
Declaração
Abúlica, nevrálgica, efêmera
Helênica, epidérmica,
esdrúxula
itálica, inédita, neófita
ínclito, másculo, cáustico
seráfico, trópico, feérico
Amor às proparoxítonas
Visita
Fincado nos píncaros
majestoso enigma
espreita, de perfil
Memórias de cordilheiras
em meio à neurose
Incorruptível
no secular vício da carniça
observa o ciclo da caça
Ruídos esganiçados não te assustam
Parabólicas captam todas
as aparências
Excluído do olhar humano
Impassível urubu urbano
RITA MOREIRA (1944) poeta
paulistana, autodidata, estreou muito jovem, com o livro Maria Morta em
Mim(1962). Seguiram-se A Hora do Maior Amor (1965) e Perscrutando o Papaia
(1999). Recebeu elogios de Menotti del Picchia e Paulo Bonfim. Durante vários
anos foi redatora da Abril, morou em Nova Iorque e tornou-se
vídeo-documentarista de sucesso..Muito jovem foi letrista parceira de Paulinho
Nogueira (Moça da Chuva e Historinha, entre outras).
IPSIS
IPSIS
A palavra é ainda
a mais sublime invenção.
Mas tem tanta coisa linda
que escapa à nomeação!
HIMALAIAS
Mulheres fortes, centradas,
essas mulheres maduras
eternamente animadas
dum fogo que rodopia
pra além dos filhos criados,
dos romances resolvidos,
peagadês concluidos,
himalaias escalados...
E esse olhar sem pensamentos,
o caminho aberto em frente,
com tanta promessa linda
de mais himalaia ainda.
Energia tão valente
que nem sabe o quanto é.
Essas mulheres fortes
que sabem cair de pé,
que sabem fazer os cortes
nos momentos mais precisos
de repente tão suaves
desmanchando-se em sorrisos...
Mulheres firmes, inteiras,
que se preocupam com o mundo,
bem além dos próprios netos.
Que sabem da dor das aves
cobertas de óleo nas praias.
Da mudança necessária
nos hábitos de consumo.
Da importância nenhuma
dos elogios ou vaias.
Da tragédia dos sem-teto,
dos problemas de afeto
das irmãs e irmãos mais frágeis.
Essas mulheres tão ágeis,
tão presentes, tão futuras,
não se perdem em procuras
nem tem temores noturnos.
Não tomam Prozac, calmante,
não vão no que as mídias ditam.
Desprezam intoxicantes –
religiosas, meditam.
-- As almas dessas mulheres
tão retas e iluminadas,
por mãos de que outras mulheres
terão sido torneadas?
Sherazade
Proibida no edifício
a cachorra da velhinha
na verdade não existe.
Mas em noites mais escuras
a senhora, muito triste,
fecha os olhinhos cansados
e não reza ave-marias
como fazem as vizinhas
com quem tem pouca amizade.
Chama o nome que inventou
-- Sherazade, Sherazade! --
e sente nas mãos manchadas
amorosas lambidinhas.
MÃE MODERNA
Mesmo longe, a viajar,
sempre comigo.
Pendurados no celular,
neo-umbigo.
MÁRCIA MARANHÃO DE CONTI
(1957) poeta maranhense, passou um período da infância em Goiânia, residiu em
São Paulo e atualmente vive em Goiânia. Estudou piano, é formada em nutrição e
em direito. Já participou de antologias e concursos, sendo várias vezes premiada,
inclusive no 5° Prêmio Nacional de Poesia - Cidade Ipatinga com o 2° lugar
(2007). Teve três poemas selecionados no concurso Poemas no Ônibus e no Trem,
promovido pela prefeitura de Porto Alegre. Publicou o livro de poemas Luar nos
Porões (piano mudo), em 2011.
Enfrentamento
Enfrentamento
Abro a frase devagar
Como se abrisse um lenço
Que guardasse um segredo mofado.
Leio afastando cada sílaba,
Na tentativa inútil
De romper todo o sentido.
Depois de ler essa verdade
Que tentou se inscrever
Num insight de coragem
Acovardo-me.
Fecho o lenço...
E enxugo meus olhos.
Um poema no ônibus
Parece que a cidade passeia,
E o pensamento espia a palavra.
Há um poema que vagueia,
Versos virando paisagem.
Parece que a janela me leva,
E o poema levanta os olhos.
Não sei se fico ou viajo.
Vou nas palavras e volto.
Parece que tudo é passagem.
O poema beija meus olhos.
A ninhada
A ninhada de palavras
Não me deixa dormir.
Ser poeta é suportar os peitos
Inflamados
E deixar a linguagem sugar
Até sangrarem os bicos.
Vestígios
Meus acasos não povoam
Páginas de dicionários.
São trilhas que transcendem
A leveza dos passeios.
As palavras são rastros
Deixados no cimento fresco.
Nem que eu falseie os passos,
Minto comigo, nos versos.
As palavras são pérolas
De um colar que nunca tiro,
Criadas nas conchas antigas
Dos mares que habitam em mim.
Águas sem caminho
I
Ao atracar no meu porto,
Não me reconheço,
E a cidade não existe.
Não há quem me busque
Ou me convide.
E o tempo de espera,
Esse não finda.
Olho infinitamente pro mar,
Que me atrai, mas não me conduz.
Não há caminho nas águas.
E na verdade não há navio.
II
À beira do meu mar,
Espero o teu navio.
Move-se o horizonte
No manto das ondas, espumas.
No movimento do medo,
Deixo um chorinho
Tocar os meus olhos.
Vultos e velas, barcos distantes.
O pensamento suplica o agora.
Desisto da longa espera
E olho ao redor:
Meu continente é de águas,
Se o teu navio não volta,
Me afogarei, pois não nado.
III
Eu me afogo em meu próprio oceano.
E me encharco deste sal que é meu.
A água que eu engulo é que me mata,
Levando a lucidez que me perdeu.
IV
É que a palavra não pode abarcar
A extensão deste mar que
me invade.
Não avisto terra em confins nenhum.
Não avisto terra em confins nenhum.
Já não me sobra espaço em mim mesma.
Quero arranhar o céu para ver se enxergo
Luz que me leve à orla da vida.
Estou s
u
b
m
e
r
s
a
Imóvel e patética.
Imóvel e patética.
Gritar não consigo,
Não sei o que grito.
E a fala me foge
No momento exato.
Não há fôlego, vencida no mar.
É luta vã salvar
O corpo do verso.
CARMEN SILVIA
PRESOTTO(1957) poeta de Po rto Alegre, escritora, psicanalista, professora de
língua portuguesa e literatura clássica, agitadora cultural e editora.
Publicou, dentre outros, Dobras do Tempo (2001) e Encaixes (2006), Postigos
(2010) e um grande número de crônicas, photoPoemas, photoCrônicas em espaço que
mantém na internet: Vidráguas. É aí que ela divulga outros autores, livros e
principalmente poemas. Com um empenho e uma dedicação inquestionáveis.
Holografias
Holografias
Velhos fantasmas
transmutam olhos em
caleidoscópios.
Fantasiosa
adorno-me das criaturas.
Saudosa
bordo-me de alguns
retalhos.
Numa ilusão de ser
reflito figuras no céu.
Cúmplice pisco à Lua
pela colcha de retalhos
que me devolve.
Névoas
Cinzas
passado
Suor
e lágrimas
Nada é domável
durmo em sonhos não
vividos
Esqueci meus luares imaginários
O último trem levou o lenço
e ainda aceno pelo teu
beijo.
Pisares
Existe um sono a que chamo silêncio
Velho mapa
de onde voam meus pés
vento
em que me espelho momentos
existe um tempo em que desperto memórias
terras
em que calço meus rastros
fendas
onde soluço meus ossos.
O Amor...
O amor é este letreiro
em que todos os dias
reVerdeces olhares
de mim em ti…
O amor é este tabuleiro
em que todos dizeres
te acompanham no dito
e para que não sejamos contradito…
Psiu!
:
pisco e digo
te amo
O amor é poesia
este tempo no espaço
tempAço
onde me dizes
não ser…
Rubens Jardim,
67 anos, jornalista e poeta. Foi redator chefe Gazeta da Lapa e
trabalhou no Diário Popular, Editora Abril e Gazeta Mercantil.
Participou de várias antologias e é autor de três livros de poemas:
ULTIMATUM (1966), ESPELHO RISCADO (1978)e CANTARES DA PAIXÃO (2008).
Promoveu e organizou o ANO JORGE DE LIMA em 1973, em comemoração aos 80
anos do nascimento do poeta, evento que contou com o apoio de Carlos
Drummond de Andrade, Menotti del Picchia, Cassiano Ricardo, Raduan
Nassar e outras figuras importantes da literatura do Brasil. Organizou e
publicou JORGE, 8O ANOS - uma espécie de iniciação à parte menos
conhecida e divulgada da obra do poeta alagoano. Integrou o movimento
CATEQUESE POÉTICA, iniciado por Lindolf Bell em 1964, cujo lema era: o
lugar do poeta é onde possa inquietar. O lugar do poema são todos os
lugares... Participou da I Bienal Internacional de Poesia de Brasília
(2008) com poemas visuais no Museu Nacional e na Biblioteca Nacional.
Fez também leituras no café Balaio, Rayuela Bistrô e Barca Brasília. E
participou da Mini Feira do Livro, com o lançamento de Carta ao Homem do
Sertão, livro-homenagem ao centenário de Guimarães Rosa. Teve poemas
publicados na plaquete Fora da Estante, (2012), coleção Poesia Viva, do
Centro Cultural São Paulo. Páginas na Internet: Site: Rubens Jardim e Facebook: Rubens Jardim


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