MARIA MADALENA: DA CULPA HISTÓRICA À AFIRMAÇÃO DA MULHER
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| "Luto de Maria Madalena diante do corpo de Cristo" (1867), de Arnold Böcklin, atualmente em exibição no Museu Städel, em Frankfurt - Foto: Staedel Museum |
Maria Madalena: da culpa histórica à afirmação da mulher
A exposição examina as transformações na imagem de Maria Madalena da Idade Média à atualidade, destacando seu papel fundamental na teologia feminista e na arte contemporânea.
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Apóstola, prostituta, penitente e confidente de Jesus. Assim Maria Madalena foi retratada desde os primórdios do cristianismo. Artistas do Renascimento ao Barroco, entre eles Ticiano, El Greco e Georges de La Tour, pintaram-na nos séculos 16 e 17 como uma pecadora arrependida. Rembrandt a retratou como testemunha da ressurreição de Cristo, enquanto Max Beckmann, em 1917, a representou como pecadora dentro da estética da Nova Objetividade. Quase cem anos depois, ela seria encarnada por Lady Gaga em um videoclipe.
"Maria Madalena é provavelmente a figura mais multifacetada e fascinante da Bíblia, além de ser uma das personagens mais marcantes da história cultural europeia", afirma Bastian Eclercy, curador da exposição "Maria Madalena: Sin. Pray. Love.", no Museu Städel, em Frankfurt, na Alemanha. "Ela aparece incontáveis vezes na história da arte."
O que sabemos sobre Maria Madalena?
A Bíblia traz poucas informações sobre Maria Madalena, mas ela desempenha um papel importante no Novo Testamento. Os Evangelhos relatam que Jesus a libertou de sete demônios, que ela o acompanhou e testemunhou sua crucificação e sepultamento. Na manhã de Páscoa, ela teria descoberto o túmulo vazio e se tornado a primeira testemunha da ressurreição. Em seguida, teria sido responsável por levar aos discípulos a notícia de que Cristo havia ressuscitado.
"É nesse contexto que ela passa a ser chamada de apóstola apostolorum, ou seja, Apóstola dos Apóstolos", explica Bastian Eclercy. "Assim, ela assume um papel absolutamente central na história da salvação."
Mas a história não para por aí. Por volta do ano 600 d.C., o papa Gregório Magno comprometeu duramente a imagem de Maria Madalena ao fundi-la com outras duas mulheres mencionadas na Bíblia: a pecadora anônima do Evangelho de Lucas, que lava os pés de Cristo, e Maria de Betânia, que também realiza esse gesto. O papa alegou que os sete demônios dos quais Jesus a libertou representavam os sete pecados capitais. Dessa forma, consolidou-se a imagem de Maria Madalena como uma prostituta arrependida, embora a Bíblia não ofereça qualquer base para essa interpretação.
Restos mortais de Maria Madalena supostamente na França
Durante a Alta Idade Média surgiu ainda a lenda de que Maria Madalena, juntamente com Lázaro e um grupo de outras pessoas, foi abandonada em um barco no Mar Mediterrâneo. Com a ajuda divina, ela teria chegado à costa da Provença, no sul da França, onde primeiro evangelizou a população e depois viveu cerca de 30 anos em uma caverna em penitência.
Até hoje, duas localidades francesas afirmam guardar seus restos mortais: Vézelay, na Borgonha, e Saint-Maximin-la-Sainte-Baume, em Provença.
No século 16, a Reforma e o Humanismo promoveram uma mudança de perspectiva e deram origem a críticas contra a fusão das três mulheres numa única figura. No entanto, somente após o Concílio Vaticano 2 (1962-1965), que implementou profundas reformas na liturgia da Igreja Católica, a identificação de Maria Madalena com a pecadora anônima foi oficialmente revogada.
"Esse amplo conjunto de papéis que lhe foram atribuídos ao longo da história, e que muitas vezes se contrapõem, sempre fascinou e desafiou artistas de diferentes épocas e estilos", afirma Eclercy.
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| El Greco, "Maria Madalena Penitente" (pintada por volta de 1580-1585) - Foto: Worcester Art Museum/Bridgeman Images |
Mudança de imagem por influência do Evangelho de Maria
Com a redescoberta do Evangelho de Maria na era moderna, a imagem de Maria Madalena voltou a mudar. No texto, que não foi incluído no cânone bíblico, ela é apresentada como uma confidente particularmente próxima de Jesus, impulsionando novos debates sobre seu papel.
Hoje ela é considerada uma das mulheres mais influentes do cristianismo primitivo e uma figura-chave da teologia feminista.
"Especialmente nas últimas décadas, ela tornou-se uma figura de identificação para as mulheres, para observadoras do sexo feminino e, sobretudo, para artistas contemporâneas que enxergam nela a imagem de uma mulher autônoma e dona de si", explica Eclercy.
Lady Gaga interpretou Maria Madalena em 2011 no videoclipe da música "Judas", descrevendo a experiência, na época, no Twitter, como "o momento artístico mais emocionante da minha carreira".
A obra mais recente da mostra de Frankfurt, que reúne mais de 100 representações de Maria Madalena, é da artista espanhola Nieves González e foi concluída em 2025. Intitulada "La sfida" ("O Desafio"), ela desconstrói praticamente todos os atributos tradicionais que artistas dos séculos anteriores associaram à personagem.
Onde antes ela aparecia olhando para o céu em atitude de penitência, a pintura a mostra como apóstola, olhando para baixo com confiança, diretamente para o espectador. Onde seus cabelos costumavam aparecer soltos, como referência a um passado pecaminoso, agora eles estão cuidadosamente penteados ao redor do pescoço, como um xale. E onde antes a pele era amplamente exposta, seu corpo agora está envolto por um grosso casaco acolchoado vermelho.
Nas mãos, a discípula segura um crânio igualmente vermelho, cor que remete ao sangue. Durante séculos símbolo da mortalidade humana, ele surge aqui como uma expressão clara de poder.
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| "La sfida" ("O Desafio"), de Nieves González, 2025: Maria Madalena em um casaco acolchoado vermelho - Foto: Nieves González |
Maria Madalena também alcançou oficialmente a igualdade dentro da Igreja Católica. Em 2016, o então papa Francisco concedeu ao seu dia de celebração, em 22 de julho, o status de festa litúrgica.
Provavelmente, este não será o último capítulo de sua notável biografia.
A exposição "Maria Madalena: Sin. Pray. Love." pode ser visitada no Museu Städel, em Frankfurt, até 17 de janeiro de 2027.
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Fonte: DW
Fonte: DW





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