UMA AULA DE RESISTÊNCIA (aos meus filhos).POR AQUILES RIQUE REIS
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| Capa Disco ‘Mímica: Música Para Quatro Instrumentos’ • Quarteto Mímica (Stephanie Borgani, Marina Marchi, Lucas Sales e Marlon Cordeiro) • Selo YB Music • 2026 |
Na contramão da mesmice e das fórmulas prontas da indústria cultural, surgem projetos que nos relembram o verdadeiro poder transformador da arte. É o caso de MÍMICA: Música para vozes e instrumentos, o álbum de estreia do Quarteto Mímica, idealizado pela compositora Stephanie Borgani. Unindo saxofones e vozes em uma busca desabrida por novas sonoridades, o grupo se coloca na intersecção entre a música instrumental brasileira, o concerto contemporâneo e a improvisação livre. Mais do que um lançamento fonográfico, o trabalho é um manifesto de resistência e contemporaneidade. A seguir, o cantor e cronista Aquiles Rique Reis, integrante do lendário grupo MPB4, mergulha nas texturas desse álbum e analisa como essa "arte viva e insurgente" se transforma em uma aula prática de liberdade em tempos de barbárie.
Hoje vamos nos espelhar num álbum que traz todo um modo de fazer da vida algo que valha à pena para si e para todas as pessoas que estão ao seu redor. Trata-se de MÍMICA: Música para vozes e instrumentos (selo yb music), primeiro trabalho do Quarteto Mímica, grupo de música popular de câmara, concebido e liderado pela compositora e vocalista paulistana Stephanie Borgani, que reúne um saxofone alto (Lucas Sales), um saxofone tenor (Marlon Cordeiro), e duas vozes populares cantando sem texto: a própria Stephanie Borgani e Marina Marchi.
O que me atraiu, desde que os ouvi pela primeira vez, foi a disposição dos quatro pela busca desabrida de uma sonoridade que eu ainda não havia percebido, ao menos assim, quando levada a cabo com tanto ímpeto. Impressionou-me, também, o que concluí como sendo um movimento insurreto contra a mesmice, indo na direção oposta ao mercado da musica.
Stephanie concebeu o quarteto para dar sentido lato à música que, segundo ela, “desafia rótulos, existindo na intersecção da música instrumental brasileira, da música de concerto contemporânea, e da improvisação livre. Não por acaso, são gêneros que apresentam, por um lado, possibilidades do uso da voz como timbre instrumental – e por outro, tradições de instrumentos de sopros que evocam sons vocais”.
Não reconhecer o aspecto revolucionário da iniciativa do grupo, é ignorar que para conseguir dar novos rumos à existência é preciso ajuntar pessoas de formações diversas em torno de uma ideia. No caso do Quarteto Mímica: ir à luta e materializar um ideal de vida, numa clara ampliação de rumos da nossa cultura musical.
MÍMICA: Música para vozes e instrumentos é uma verdadeira aula pratica de contemporaneidade, fazendo frente à barbárie que é criminosamente convalidada por reacionários mundo afora. O sucesso dessa empreitada está intimamente ligado à união de pessoas que, insatisfeitas com o que estão vivendo, vão à luta para demonstrar cabalmente o seu desagrado, partindo para a conquista libertária do bem estar comum das minorias de todas as etnias.
O álbum tem oito temas que o MÍMICA, na medida em que os apresentam, fazem deles um exemplo de modernidade explícita.
Dois singles foram pré-lançados: “Brincadeira” (peça contrapontística que ilumina a imagem de uma criança girando em um jardim de flores) e “Quieto, Por Favor” (samba em 7/4 que evoca os predecessores musicais de Stephanie, como "Hermeto Pascoal" e "Léa Freire"),
Ora, no mundo em que a desigualdade impera, nada mais exemplar do que vê-los em sua ação musical! Carece que propaguem já a sua arte viva e insurgente.
Ficha técnica: Gravação (Estúdio Arsis SP), mixagem e masterização: Adonias Souza, Jr.; produção: Stephanie Borgani; foto da capa: Stephanie Borgani; produção audiovisual: Vini Junior (OnPlay); todas as composições são de Stephanie Borgani.
Ouça o álbum:
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Aquiles Rique Reis
Nossos protetores nunca desistem de nós.

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