A poetografia de Manoel de Barros [Luis Turiba]

A poetografia de Manoel de Barros

Por Luis Turiba 

Bamburramos! Foi uma breve carta do então acadêmico e ex-ministro da Cultura, Antônio Houaiss, que nos mostrou a riqueza crítica e histórica da entrevista que executamos com o poeta pantaneiro Manoel de Barros - na época, quase um desconhecido - para a revista de poesia experimental "Bric-a-Brac", editada em Brasília.

Era fevereiro de 1989 e a carta veio em papel timbrado da Academia Brasileira de Letras. Dizia: “Tive a oportunidade de ler, dentre os que a tiveram em primeira mão, a entrevista que você teve a ventura de entreter com Manoel de Barros. Devo confessar que você me parece triplicemente galardoado: primeiro, porque o fez falar por dentro dos horizontes da sua própria poesia dele, o que me parece algo inaugural, pois se trata, como é público e notório, dos mais casmurros encaramujados poetas do nosso grande poetar.”

O autor de “O português do Brasil” nos abriu a porteira do tesouro que acompanhava aquelas longas cartas que Manoel enviava à equipe de "Bric-a-Brac" – Lúcia Leão, João Borges, Luis Eduardo Resende, o Resa; e eu. Todas escritas com sua letrinha carranchoada de poesia e significâncias. Foram cerca de 20, hoje guardadas em uma velha caixa de papel fotográfico Kodak. São cartas de uma intimidade assombrosa, onde o poeta transcreve em detalhes o seu projeto de linguagem. E foi esse mergulho no seu próprio pantanal poético – uma Poetografia dos Ínfimos – que fez Houaiss apontar a segunda razão pela qual a entrevista entraria para a história: “Manoel de Barros usa de uma franqueza e desassombro de quem decidiu, no instante, cortar as amarras com a discrição e fazer brotar de dentro todas as suas intuições e convicções dos seus muitos anos, muitas décadas de poeta sem-par no cenário poético nosso e diria mesmo universal, graças a um humildismo pungente, que recoloca no centro de nosso universo emocional o homem com todas as suas criaturas parelhas – um muro, um bêbado, uma flor, um verme, o nojo, a visão, a esperança, a palavra, a palavra, a palavra.”

Não foi fácil. Para realizá-la, firmamos com o poeta o princípio do jogo do bicho: só valeria o que estivesse escrito pelo próprio punho dele. Demorou mais de seis meses para ficar pronta. Fomos duas vezes a Campo Grande, onde passamos dias maravilhosos de conversas e belas farras – Manoel demonstrou ser um excelente bebedor de uísque. Ele nos apresentou o famoso caldo de piranha, suculenta iguaria pantaneira de efeito afrodisíaco.

Fazer uma entrevista requer uma estratégia para arrancar o que está submerso. O teste da pergunta é a resposta que ela pode provocar. Há de ser navegar com cuidado, pois são grandes os riscos de ficar com as mãos vazias no final do percurso. MB era, na época (1988), um misterioso poeta, conhecido apenas em círculos restritos, mas já com uma vasta obra publicada, e um traço estilístico fortíssimo de tonalidade muito pessoal – e radical –, dentro da liberdade linguística aberta no modernismo por Oswald de Andrade. Em alguns momentos, sua linguagem elaborada e refinada se avizinha da prosa poética de Guimarães Rosa, com quem conviveu. Em outros, o poema curto, o mínimo de palavras com o máximo de densidade. A concisão de um hai-kai.

Nessas visitas ao poeta, nada de gravador nem anotações. Finalmente, Manoel aceitou experimentar a ideia de uma entrevista via cartas, sem pressa, com ampla liberdade de rever os originais. E assim fizemos novas visitas. Embora tímido, no contato pessoal o poeta foi capaz de descontrair-se e até inventar incríveis histórias – “só uma parte do que falo é mentira, o resto é invenção” -, como a que já havia bebido uns tragos com Noel Rosa na velha Lapa. Seu humor é refinado, cheio de causos. Um exímio construtor de frases. Assim, a histórica entrevista foi construída por mais de 20 cartas que se transformaram em 10 perguntas de um conteúdo poético que hoje faz parte de suas obras completas.

Numa das cartas, MB disse: “Nos poetas há uma fonte que se alimenta de escuros. Coisas se movendo ainda em larvas, antes de ser ideia ou pensamento. É nessa área do instinto que o poeta está. (...) Aquilo que mestre Aristóteles falou: “Todo conhecimento passa antes pelos sentidos”. O poeta é o primeiro a tocar nos ínfimos. Nas pré-coisas. Aí quando peguei o Oswald de Andrade para ler foi uma delicia. Porque ele praticava aquelas rebeldias que eu sonhava praticar. Seria o que procurava.”

Todas as respostas são (também) poesia no mais alto grau. Mas há uma, a mais longa, onde MB conta do seu encontro com Guimarães Rosa e do passeio que ambos fizeram pelo Pantanal. Cito: “Eu tinha informações de seu gosto por línguas, idiomas. Traçava até línguas arrevezadas: checo, grego, aramaico, sei lá. Queria saber guarani. Foi no caderno, virou, virou, me perguntou: 'Manoel, que quer dizer: não tem nhamonguetá nem bugerê.' Tentei traduzir: quer dizer 'não conversa nem vira de lado. Isso é guaranês; falei de orelhada.' Mas Rosa quer saber a origem, quer saber a explicação."

A conversa entre eles seguiu quilométrica e cheia de desafios. E, ao se despedir de Guimarães Rosa, MB lhe disse: “Precisamos de um escritor como você, Rosa, para frear com a sua estética, com a sua linguagem calibrada, os excessos de natural. Temos que enlouquecer o nosso verbo, adoecê-lo de nós, a ponto de que esse verbo possa transfigurar a natureza. Humanizá-la.”

Mas voltemos a esclarecedora carta que recebemos de Houaiss: “Nunca se juntou, num único diálogo, tanta informação e tanta emoção sobre o poeta – o que faz da entrevista, do texto da entrevista, algo de agora em diante indispensável para quem queira situar-se na poesia e no universo barresco. Creio, por todos esses motivos e muitos mais que omito, que você conseguiu um feito que todos devemos agradecer-lhe, tamanha a importância da poesia de Manoel de Barros.”





Luis Turiba é autor do livro "QTAIS" (7Letras) e foi fundador e editor da revista de poesia experimental Bric-a-Brac, editada em Brasília de 1986 a 1992 

Fonte:

0 comentários: