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A Moça do Sobradinho [Luciene Freitas]

A Moça do Sobradinho

O amor é o sangue do sol dentro do sol.
A inocência repetida mil vezes
na vontade sincera de desejar que o céu compreenda.

José Luís Peixoto
(Uma Casa na Escuridão).

Chovia torrencialmente naquela noite em que me abriguei na marquise do sobradinho. O cadenciado soar dos pingos nas telhas de barro era pra mim uma melodia desconcertante. Enquanto tilintavam e desciam em lágrimas grossas ao chão, me desdobrei em pensamentos.
Sem disposição de caminhar para casa, abracei-me para aliviar o frio que sentia. Encolhido em pensamentos senti uma louca vontade de conhecer os cômodos que abrigaram o imperador, a imperatriz, nobres de sua comitiva, além de tantos moradores que ali confiaram, às paredes, os seus segredos. Forcei, com as costas, a velha porta e ela entreabriu sem resistência uma fresta. Convidava-me a entrar.
Nunca havia prestado a atenção naquele casebre de taipa, diferente das casas que o cercavam, mesmo morando na cidade há tanto tempo. Naquela noite um desejo irressistível, de entrar, me dominou.
De dentro saía um cheiro de mofo coerente aos ambientes isolados das correntes de ar e do sol. Mesmo assim caminhei na penumbra como que empurrado por uma força estranha. A falta de luz dificultava-me os detalhes, mas o negro da escuridão trazia-me figuras claras, observava com meticulosidade cada recanto.
Olhos de raios X me permitiam enxergar acontecimentos inexistentes no momento, mas que tinham sido reais ou imaginados em um outro tempo. Nova dimensão me colocava numa realidade paralela.
O som de uma melodia arrastada me chegava aos ouvidos, vinha do interior da casa. Folhas de canela, espalhadas pelo chão, deixavam o recinto com aroma agradável. Pressenti sinais de festa.
Na sala, repleta, um poeta recitou versos, homenageando a noiva. O Sr. Félix Cavalcanti, vindo do Recife, na condição de convidado falou sério para o poeta, esse seu poema de ineditismo não tem nada e de imediato o recitou. Concluiu, conheço muito bem os seus poemas.
O poeta, espantado, nada diz, enquanto os presentes o olham, sem entender. Logo o brincalhão, rindo, comentou é que as coisas boas se assimilam com rapidez. Decorei o poema agora mesmo. Todos riram da brincadeira.
Chovia fino naquela parte do delírio, guardas chuvas molhados aguardavam os seus donos na saída da casa.
Uma moça esguia, de traços finos, descia as escadas de madeira chamando a atenção dos presentes com seu vestido de noiva. Caminha na minha direção e me diz, sussurrando.       
- Não te intimides, estou aqui há tanto tempo na espera desse encontro. No balcão estive como sentinela. O meu olhar, no além, via bem mais do que se poderia ver. Minhas lágrimas desgastaram os tijolos, o meu lamento varou o espaço. Trinta mil vezes subi os degraus que levam ao primeiro andar. Apressados os meus passos ressoaram no assoalho, de madeira, tal batuques de tambores feiticeiros enviando mensagens. Estás aqui!
Desde que chegara com a família, Joaquina chorara, nas suas noites de insonia, as agruras de um amor. Haviam-se consagrado através dos tempos. Uma alma enamorada corria aos ventos à espera do encontro. A moça do sobradinho esperara, durante o tempo em que ali viveu e continuou a esperar, escondida no balcão muxarabi, de onde via tudo do lado de fora, sem ser vista pelos transeuntes.
Viera com a comitiva de D. Diogo de Braga para fixar moradia às margens do Rio Tapacurá. Deixavam a Ilha de Santo Antão, em Cabo Verde. Na bagagem de D. Diogo uma imagem, em terracota, do santo padroeiro da ilha. Seria, também, o padroeiro do Povoado de Santo Antão da Mata.
Após as chuvas, os passantes perceberam a porta do sobradinho entreaberta. Alarmou-se o acontecido, o corpo de um jovem morto ao lado de restos mortais, antigos, de uma mulher, espalhados pela sala. Recobertos de folhas de canela.

Luciene Freitas
Vitória de Santo Antão, 05-06-2006.

*Nota – O sobradinho de arquitetura Moura fica em Vitória de Santo Antão – PE.  É feito de taipa, data dos primeiros tempos do povoado de Santo Antão da Mata. Possui um balcão, do tipo muxarabi, de onde quem está dentro vê o que se passa lá fora sem ser visto.

Luciene Freitas - Prêmio Vânia Souto Carvalho de Ficção, pela Academia Pernambucana de Letras, em 2009. É pernambucana e tem publicados os seguintes livros: Explosão (poesias); A Dança da Vida (parábolas e contos); Mil Flores (poesias). Encenado no Teatro do SESC em 2004; O Sorriso e o Olhar (parábolas, contos e crônicas); Meu Caminho, textos para reflexão; Uma Guerreira no Tempo, (pesquisa). O resgate de uma época – 1903-1950; a vida e a obra da escritora Martha de Hollanda, primeira eleitora pernambucana. Premiado pela Academia Pernambucana de Letras, em janeiro de 2005; Viagem dos Saltimbancos Escritores pelos Recantos do Nordeste, (cordel); Mergulho Profundo, 264 pensamentos filosóficos; Brincando Só e Brincando de Faz de Conta, Vol. I e II da série No Ritmo da Rima; O Espelho do Tempo, romance de pura emoção; Sob a Ótica das Meninas, 42 contos de um tempo determinado.
Tem trabalhos publicados em jornais e revistas do Brasil, Portugal e Argentina. Participações em várias antologias. Conta com alguns prêmios literários. Pertence ao quadro de sócios da União Brasileira de Escritores (UBE– PE); União Brasileira de Trovadores (UBT– PE); Instituto Histórico e Geográfico da Vitória, Vitória – PE; Academia de Letras e Artes do Nordeste (ALANE); Academia Vitoriense de Letras, Artes e Ciências da Vitória de Santo Antão; Grupo Literário Celina de Holanda. Membro correspondente da Academia Irajaense de Letras e Artes (AILA) Irajá / RJ e Academia de Letras de Itapoá / SC.

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