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"Mundo Grande" "Terra Pequena" e Cabeças em confusão [Paulo Sesar Pimentel]

“MUNDO GRANDE”, “TERRA PEQUENA” E CABEÇAS EM CONFUSÃO

Magistralmente, na música “Parabolicamará”, Gilberto Gil resumiu aspectos da nossa era ao dizer: “Antes mundo era pequeno, porque terra era grande... Hoje mundo é muito grande, porque terra é pequena (...)”. O jogo metafórico se explica por ser “mundo” a construção imagética, cultural, a relação entre os seres humanos no planeta, ou “terra”, a parte física, que antes era gigante, mas, que devido à tecnologia e à velocidade de informação, tornou-se pequena, sendo as distâncias percorridas em tempo inimaginável.

Nesse cenário de aparentes mudanças, velocidade e inovação, entretanto, onde está a cabeça dos seres que habitam essa imensidão de culturas e informações? Olhando a realidade que nos rodeia, parece que continua naquela “terra grande”, sem entender a rapidez de tudo, ou ao menos, sem ter sido dotada de condições de lidar com esse “mundo maior ainda”, em franca e vertiginosa expansão. Explico melhor:


Se o presente é a era da informação, a pergunta é: quando foi a era da formação? Se pensarmos que “in” é um prefixo que indica o movimento que vai de fora pra dentro, pensamos que há necessidade de uma base, dentro, para lidar com o que precisa ser interiorizado, o que precisa entrar e alargar os horizontes do mundo individual, que compõe o mundo coletivo e social. Isso não houve. A informação está posta, circula, passeia em ondas de toda a ordem, mas não encontra as bases na cabeça dos indivíduos para se fixar e significar. A solução apresentada para isso é sempre um remendo tecnológico, como se fôssemos computadores obsoletos que precisam de HD’s externos cada vez mais potentes para fazer aquilo que poderíamos fazer, se fôssemos dotados de HD’s internos mais possantes, preparados. Sei que a analogia é simples, joga com palavras, as repete, mas o que é tanta informação que dizem rodar o mundo se não gotas de criação e universos de repetição, ecos que, contrariando as leis da física, tem se propagado no vazio, no vácuo?

E nesse ponto, obviamente, chegamos à educação, formal e informal. Li recentemente alguns comentário de alunos defendendo a privatização das universidades e institutos federais como saída para a crise educacional. Se tivéssemos um oásis de bom funcionamento das instituições de ensino superior particular, eu entenderia a proposição. Mas não é o que há, obviamente, e nem preciso comentar a mediocridade de boa parte das instituições privadas de ensino superior (claro que não todas), que, dentre outras coisas, desconhecem e negam aos alunos a pesquisa e a extensão (às vezes, até mesmo o mais elementar, o ensino). Um indivíduo que vê nessa saída simples (e tentada pelos neoliberais) a resolução para os problemas da educação brasileira está enxergando a esquina, quando deveria estar olhando para os horizontes.

Ao longo do século XX foi dito à população que estar na universidade muda a vida, muda a sociedade. Boa parte das pessoas quer estar nelas e isso é bom. O problema é que foi omitido que estar significa não é passividade, mas atividade. Estar na universidade e mudar a própria vida e, por extensão, o espaço social é agir, atuar, lutar, aprender, transformar e mais uma gama de verbos que sugerem ação, que sugerem participação. O resultado é que faltou formação e a informação se perde, se distorce e faz mais mal que bem. Não, não afirmo que se deva negar informação de jeito nenhum, em nenhuma esfera, mas também não acredito que informação sozinha, como está sendo posta e apregoada, seja o status da conquista do “mundo grande” que queremos e que nos dá autonomia sobre a “terra pequena”, porque essa status é mentira, é falácia.

Indivíduos formados podem ser informados e, então, passar a informar; indivíduos não formados são progressivamente deformados e se perdem nas distâncias hoje incomensuráveis do “mundo grande”. O resultado é que, aquele que deveria ser agente, se transforma em receptor e propagador. Acreditando estar dotado do que precisa, com, por exemplo, uma calculadora na mão, o humano não precisa aprender de cor a tabuada; com o google a frente dos olhos, não tem mais necessidade de livros; abrangendo mais, com o título de eleitor em dia, não tem mais necessidade de participar da sociedade em outras instâncias, como por exemplo, em movimentos sociais.

Se antes, estar em casa era suficiente para conhecer o mundo, não nos enganemos pensando que hoje essa realidade se mantem. A terra pode até ter se tornado pequena, mas ela ainda precisa ser conquistada e isso só se faz com ação, individual e social, com a ampliação do próprio mundo, individual e social. Sem essa vontade e essa atitude, trocamos a “terra grande” pelo “mundo grande” e, como os famosos seis e meia dúzia, nos tornamos só expectadores enquanto a vida acontece. E ela vai acontecer, de um jeito ou de outro. Resta a nós tomar essas rédeas na mão e darmos a direção, ou nos perdermos, pecando por omissão, passividade e apenas aceitação.

Paulo Sesar Pimentel é graduado em Letras (Unemat/ Sinop-MT) e mestre em Estudos de Linguagem (MeEL/UFMT). Publicou as coletâneas de contos Café com Formigas, Ângulo Bi (com outros autores mato-grossenses) e o guia de leitura Dez Modernistas (com Santiago Villela Marques).Atua como professor de literatura no Ensino Médio e Superior em Cuiabá-MT. 


 

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