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CRÔNICAS SINCRÔNICAS - OLHA O PASSARINHO! [Celso Sisto]

CRÔNICAS SINCRÔNICAS - OLHA O PASSARINHO!

Na casa da minha avó era pintado, e se chamava retrato! A moldura escura, torneada, impunha respeito! E lá estava o busto do meu bisavô e o da minha bisavó, com ares sisudos e roupas formais, que mais pareciam de festa. Quando minha avó morreu, o quadro desapareceu. E eu senti uma enorme pontada de tristeza.

Era quase uma bendição cruzar com o retrato: o bisavô e a bisavó erguiam a cabeça lá da escuridão dos tempos e só com a luz do olhar, nos deixavam passar! Por vezes, esquecíamos que o retrato estava ali, abaixávamos a voz, voltávamos e pedíamos licença aos retratados, para passar na frente deles e continuar vivendo nosso tempo de crianças em estado permanente de correria.

É claro que os processos fotográficos já tinham se popularizado. O retrato já era chamado de fotografia, os primeiros profissionais estrangeiros já tinham cruzado o país, documentando famílias inteiras, mediante pagamentos de seus serviços; mas a mágica não era a mesma, bem sabemos!  
 
Depois, com o correr do tempo e como imposição da modernidade galopante, ainda havia uma certa beleza ritual em ir ao estúdio fotográfico, para documentar as datas importantes: fosse o retrato das várias carinhas numa só fotografia, a época das calças curtas ou a pose solene da primeira comunhão, tudo em cenários cuidadosamente artificiais!  E depois, as fotografias coloridas à mão, as coloridas por novos processos e até as polaroidicamente instantâneas!

Foi por medo do que o tempo pudesse fazer com a minha constelação familiar, que sempre sonhei em possuir aquelas fotografias em preto e branco que viviam guardadas numa caixa de madeira, a espera de algum parente antigo, que vinha em visita de dia inteiro, à casa da minha avó!

Era bem assim, as visitas que chegavam cedo em comitiva e só iam embora à noitinha, davam sinais de uma outra época, que nem tão distante assim, ainda me arranca suspiros profundos. Era tão bom! Tão mágico! O tempo parecia correr de outro jeito, as distâncias não eram nem fácil nem rapidamente atingidas e uma visita tinha que ser planejada com antecedência e era feita realmente para promover a troca de informações, a veiculação das notícias, a manifestação do carinho e a renovação dos laços de amizade e parentescos.

Pois quando se reuniam, era também para lembrarem-se de primos e madrinhas, de fulanos e de sicranas, e para recorrer à caixa em que ficavam guardadas as fotografias. Todos queriam um lugar ao redor daquele tesouro. Muitos morriam de rir com as caligrafias ultra desenhadas, em que a afilhada dedicava aquele retrato à madrinha, em sinal de gratidão eterna e etc. Sempre com data. E ainda em algarismos romanos!

Acho que é daí, da necessidade de voltar aos quadros da infância que vem o meu fascínio pelos retratos. Inventar histórias para aquelas pessoas que eu não conhecia, mas que estavam ali, documentadas e eternizadas sempre foi uma brincadeira convidativa.

Gostava mais de ver aquelas fotografias amareladas, que hoje tão poeticamente são chamadas de “fotos em sépia”. Eu ficava mesmo intrigado, examinando a organização das fotografias de família: as cadeiras, onde sentavam os mais velhos, os filhos atrás em pé, as crianças na frente, muitas vezes ordenadas no chão e os pequeninos, ainda bebês, nos colos... Sim, uma arquitetura feita hierarquicamente de andares!  

E na tal rolagem das horas, até as máquinas fotográficas ficaram descartáveis. Substituímos a poesia do preto e branco pelo encurtamento dos mapas, que além de nos levarem à necessidade das detestáveis fotografias 3 x 4 para todo e qualquer documento, ainda faziam-nos sonhar em conhecer o mundo, mesmo que para tirar o passaporte fossem necessárias as também pavorosas fotos 7 x 5.

Que me perdoem os amantes da celeridade e do esquecimento dos tempos passados, mas havia muito mais charme nos rolinhos de filmes, nos fotogramas usados até nos monóculos do que nas fotografias pontilhadas, que viajam de um aparelho para outro em conexões USB!

Querido Roland Barthes, vou ficar sempre devendo a você a leitura da magnífica “Câmara clara”, obra que revela e nomeia de modo fascinante as atrações e mistérios do que um dia se chamou de câmara escura. Jogo e poesia que colocam em permanente relação de arte, fotógrafo e fotografia.

E ainda que o tempo hoje seja o da escravidão tecnológica, nada substitui o invento de Louis-Jacques Mandé Daguerre, que deu origem, para sempre, à mágica e saborosa palavra daguerreótipo! Não era assim que se nomeava uma das primeiras formas de reprodução fotográfica?! Então viva o processo de formação das palavras, que sabiamente nos diz que a fotografia é como desenhar com luz e contraste tudo o que não queremos esquecer. Por isso, podemos ir, numa fração de segundos, do “olha o passarinho” ao “fotografou? não? então dançou!”.

Celso Sisto é escritor, ilustrador, contador de histórias do grupo Morandubetá (RJ), ator, arte-educador, crítico de literatura infantil e juvenil, especialista em literatura infantil e juvenil, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Doutor em Teoria da Literatura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e responsável pela formação de inúmeros grupos de contadores de histórias espalhados pelo país. 

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