Uma vida em dois breves atos [Patrícia Dantas]
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Todas as manhãs, quando o dia avança com sua força declarada ou o vislumbre da posteridade, ela ainda pensa que será por um longo tempo, como nas histórias de ficção, presa por um mecanismo que dá o poder da existência em várias dimensões, a um só tempo. Não é a vida que retorna, mas que permanece nos sentidos e se torna algo contável, desfilando na história com suas próprias palavras, ou pelo olhar aguçado de um curioso em desvendar a trilha secreta de uma mulher em meio à multidão.
Se ela deseja dar uma entrevista sobre o que acabara de contar à sombra de sua mais declarada coragem? Acredito que não. Sua coragem é mais que sua arma, é a forma de se reconhecer com seu rosto marcante e sua boca carregada de sutilezas tolas. É como se vê em todos os seus atos, até nos inventados: quando cria paisagens ausentes de cores, o que frequentemente se sobressai em situações adversas – a avassaladora ausência das cores e de si, o corpo de formas e sem tons. Ou o rosado claro, nude, sedoso, quase um incolor indefinido, não seria seu tom mais verdadeiro?
A aventura maior será o retorno: a si ou ao que imagina ser ou ter formado diante do que chama de eu. Todas as coisas que lhe falam através das janelas que continuam abertas, esperando a cortina clara da manhã seguinte, são segredos ainda inconfessáveis, pelo menos não serão revelados até que os conheça além do mundo que aparentam ter saído.
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* Imagem: Gustav Klimt, Sea Serpents
Patrícia
Dantas - Amante da arte de escrever e descobrir nas histórias a construção das
palavras.Possuo, desde 2010, uma página atualizada no Recanto das Letras:http://www.recantodasletras.com.br/autor.php?id=68582
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