A coisa revelada
Eu poderia morrer com o que aperta dentro de mim, não
sei descrever com a sutileza dos detalhes que me escapam; sei que existe algo
tumultuado demais e que faz questão de anunciar sua presença, e não estou me
induzindo a pensar que seja algo sobrenatural, apenas acho que é uma parte de
mim que desconheço e levarei um bom tempo para colocar ordem nas suas
inquietações, ou talvez nem chegue esse dia.
Quando não acordo bem, é sinal de que a coisa parece
que está fugindo de mim, mas nem sei o que é, imagino, coloco na minha cabeça
que posso brincar com a realidade, posso enganá-la como numa segunda dimensão,
e nem chego perto desse segundo lugar, gostaria mesmo de saber como é colocar
os pés noutra atmosfera.
Hoje pulei da cama meio assombrada com o que estava
dentro de mim, parecia um recorte do que penso que poderia ser, eu seria um
rosto desfigurado, algo mal pintado na tela, borrado, sem poder enxergar o tom
certo que pularia da paleta. Há algo revirado e dando voltas, fazendo piruetas
inconcebíveis, e que acha que posso melhorar ao final do dia, minhas forças
apostam que não.
Não sei se deveria retirar a tal coisa e jogá-la no
asfalto, ou esperar até que ela se revele, ela no estado da coisa bruta, que
independe de gênero, porque não se conhece, eu não a conheço, e duvido que
alguém possa dar-lhe um nome ou imaginar como são suas partículas, etéreas ou
não, vislumbradas em sua totalidade.
Ela me agride, consigo senti-la ao mínimo movimento do
vento, diz calmamente que estou fadada a não conhecê-la como desejo, pois
talvez ela nem seja tão sobrenatural assim, o que só mostra minha disposição de
se intimidar com a franqueza das sensações interiores - me pergunto, como posso
me acalmar se estou diante de algo que não se revela, que sinto sua existência,
mas meus outros sentidos se não aguçam para eu senti-la mais forte.
Não quero mais saber, não estou pronta para saber; não
desejo mais a revelação, mudei de opinião com minha instabilidade, vou esperar,
aguardar calmamente como quem espera e passa pelas lâminas cortantes do frio
invernal.
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