"O QUARTO OUTUBRO DO MENINO DA CAATINGA", POR LEAL KOSTAV

Fotografia de  Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente do Brasil
Luiz Inácio Lula da Silva, Presidente do Brasil. Fotografia: Mauro Pimentel/AFP

Numa manhã de chuva em Ananindeua, o cronista pensa nos 81 de Lula, no quarto outubro de um menino do agreste, e no povo que segue trabalhando enquanto a história escolhe de novo o mesmo retirante.

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Por: Leal Kostav 

"Uma teimosia de planta contra a ferrugem do tempo."

Manhã fria na Cidade Nova. A chuva de outubro cobra dívida nas telhas de fibrocimento e o café amarga no fundo da xícara. Visto a camisa amarrotada. Olho a rua. Uma moto de entrega de pão passa com o motor engasgado na esquina da Travessa WE 35. Ligo o rádio na cozinha. O noticiário corre e tropeça nos próprios números. Brasília, urnas, uma eleição que ocupou a semana inteira. Os jornais, apressados como sempre, dizem que este quarto outubro põe Lula ao lado de Franklin Roosevelt, o homem que lá no Norte teve de remontar um país do avesso. A conta fecha. A matéria não. Roosevelt governou de frente para as montanhas de Warm Springs. O menino nascido em Garanhuns aprendeu a encarar a pedra. A história de Lula não cabe em decreto. Cabe numa geometria dura, a do agreste, que ergue o osso contra a fome e traça a linha reta do retirante, porque a vida urge e não admite desvio. Um corpo temperado pelo mandacaru, que fura o chão rachado atrás do amanhã, e não pela pompa do palácio. Aos oitenta e um anos, de volta ao país pela quarta vez, Lula não repete a história do mundo. Esculpe no mármore de Brasília a teimosia da caatinga.

Na cabine de votação, o silêncio pesa. Ninguém fala. O ventilador gira com preguiça. A máquina de plástico bege solta um apito seco. Bip. Barulho de nada, e decide o rumo de milhões que pegam o ônibus lotado no terminal de Ananindeua às cinco da manhã. O brasileiro deixa ali o voto como quem devolve um parente teimoso ao banco do motorista. Sem laço de fita vermelha, sem embrulho fino. Um abraço de papel amassado e poeira.

O homem de oitenta e um anos amarra os sapatos de manhã e sente um espanto miúdo, desses que palanque nenhum comporta. O que é governar um país, afinal? Talvez decifrar a fome antiga de si mesmo. Ele olha as pontas dos dedos. Vê a marca do ferro. A faixa presidencial é tecido leve demais para quem já carregou metal nas oficinas do ABC. Há uma solidão vertical em chegar ao quarto outubro. Não pertencer mais a si, servir de espelho onde milhões procuram o próprio pão. Na beira da cama, ele não pensa na engenharia dos ministérios. Pensa no milagre de estar vivo, carne e osso que a história resolveu não deixar morrer. Cadê o minguinho? A falta do pedaço de dedo que a prensa levou em 1964 lembra que a vida não se faz com luva de pelica.

"Oito décadas não cabem em estatísticas. Há homens de biografia talhada em pedra, que a teimosia do outono renova. Aos 81 anos, o menino do agreste ganha do povo o seu quarto outubro, o mais maduro. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do PT."

— Leal Kostav
Um vizinho meu jura que viu a Matinta Pereira assobiar no pé de manga na noite da apuração. Bobagem pura. O bicho que voou era uma coruja gorda atrás de cururu no capim molhado do terreno baldio. A gente inventa feitiço para não encarar o mistério cru das coisas simples. O de um moleque que comia farinha com café preto na caatinga e hoje segura as canetas da república. Não combina. Lula de terno alinhado desencontra da prataria dos banquetes oficiais. Segura o garfo fino como quem segura chave de fenda. Dá aflição ver a etiqueta tentar engolir o calo antigo.

O calendário roeu os dias sem pressa. No espelho, as rugas fundas, a barba que já é chumaço de algodão, a voz rouca que arranha o peito feito motor sem óleo. Ele governa com a fome de 1952 ainda no encalço. Aquela dor na cacunda. Dona Lindu, o bando de menino faminto nas costas, o país inteiro atravessado na boleia de um pau de arara. Quem passa por isso carrega a marca. A pele ganha casca de sertão. Que venha a seca, que venha praga de gafanhoto, que venha juiz de província com vontade de trancar a cela. O vegetal agarra o chão de barro e brota outra vez. Na marra.

Penso nisso enquanto arrumo as pastas na mesa de trabalho. O papel em branco me encara com deboche. Escrever crônica sobre o poder é armadilha miserável. O tom de palanque espreita em cada vírgula. A gente quer a poesia da vida e sai com jeito de artigo de jornal chapa-branca. Esquece o palanque. Olha o homem. Acorda de madrugada, a junta do joelho estala. A velhice dói. Aos oitenta e um, a maioria procura um canto de sombra na varanda para ver as galinhas no terreiro. Este prefere encarar a jiboia do orçamento federal. Teimosia? Desvio da razão? Talvez as duas, coladas.

O dia em Ananindeua segue de terra e sol morno. Um cachorro magro atravessa a rua sem pressa. Uma garça branca, dessas que escapam dos igarapés sujos de Belém, pousa no alto do poste da travessa. Fica ali, parada, estátua de gesso barato sob o mormaço. Ninguém olha. O povo corre para o trabalho na BR-316, marmitex debaixo do braço, a cabeça cheia de conta de luz atrasada e feira quinzenal. O país não para pelo aniversário do presidente. O Brasil acorda cedo, gasta a sola no asfalto e só pede que o pão de amanhã não custe o olho da cara. Essa é a cobrança invisível que sobe no ar quente da tarde.

Nas velas invisíveis deste 27 de outubro, Lula da Silva não encara o passado com melancolia de derrotado. Olha o tempo com o espanto quieto de quem desatou os nós do próprio destino. O maior presente do dia não vem em protocolo diplomático. Vem na forma humilde do voto, esse abraço de papel e silêncio que o povo depositou nas urnas, filho devolvido à própria casa. Há uma solenidade mansa no gesto. Entregar o país pela quarta vez a este velho operário é a maneira que a nação achou de dizer que não esqueceu de onde veio.

O menino de mãos vazias sob o sol de Garanhuns agora colhe o sopro de milhões. Ele sabe. Governar no outono da vida é a mais bonita das teimosias contra o tempo.

Sento na varanda. O tráfego da rodovia ao fundo lembra um mar distante. O quarto outubro chegou. Sem trombeta, sem desfile militar pomposo, só com a lentidão das estações, que dobram a esquina sem pedir licença. A história é uma senhora cega que anda devagar pelas calçadas esburacadas da periferia. Às vezes tropeça na lama, sacode a poeira da saia, olha de lado e escolhe o mesmo velho retirante para carregar a sacola pesada das compras. A gente espia da janela, balança a cabeça, não entende a lógica do mundo. Tomo outro gole de café e escrevo a mão, num bloco de papel. O dia mal começou. A chuva ameaça voltar antes do meio-dia.


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Nota do autor: Crônica. Revisão gramatical e copidescagem básica realizadas com o auxílio do Claude (versão gratuita). Intervenções de inteligência artificial, mesmo que superficiais, costumam gerar falsos positivos (100% IA) em detectores automatizados como o Pangram. Por isso, solicita-se sempre uma leitura e avaliação puramente humana. "O banzeiro da literatura não pode ficar refém de nenhum algoritmo".


Foto de Leal Kostav

Leal Kostav

Leal Kostav é o pseudônimo literário de Edevaldo Leal, delegado de polícia, poeta, cronista e contista paraense, com relevantes incursões no ensaio. Com uma trajetória de dez anos no jornalismo, descobriu na escrita, ainda na adolescência, há mais de quatro décadas, um meio singular para decifrar as emoções do cotidiano e traduzir a complexidade da experiência humana. Embora não possua obras publicadas em livro nem participações em antologias, dedica-se com rigor e sensibilidade à busca da simplicidade expressiva, que lhe serve de refúgio criativo e instrumento de reflexão. Atualmente, concentra seus esforços na produção de crônicas-ensaios sobre autores literários e no estudo aprofundado da obra-prima Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, cuja publicação completa 70 anos neste ano, rendendo-lhe textos que dialogam com a riqueza e a profundidade do clássico. Reside em Belém, onde sua produção literária é regularmente divulgada em seu perfil no Facebook, conquistando leitores atentos à autenticidade e à profundidade de sua escrita.

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