Uma escrivaninha, por favor [Carol Bensimon]

Uma escrivaninha, por favor

Artigo publicado no Blog da Companhia

por Carol Bensimon 

Eu nunca tive uma mesa de trabalho.
No meu quarto, eu tinha uma mansão vitoriana do Playmobil durante parte da minha infância, mas não uma escrivaninha. Só um dos bonecos passava por bandido, por causa do cavanhaque ruivo e das roupas espalhafatosas. Só um dos bonecos passava por detetive, por causa do chapéu coco. Só um dos garotos passava por um garoto esperto, embora ele fosse parecido com todas as outras crianças de uma das caixas vitorianas que meus pais tinham me dado (além da casa, era preciso comprar os complementos). E havia esse sujeito que só ficava tocando violão em um banco público. A maior cara de informante. Essas foram as minhas primeiras narrativas.
Estou escrevendo esse texto em uma mesa ordinária para ambientes externos compradas na Leroy Merlin. Minha sacada e minhas plantas são demais, mas ficar aqui me dá dor nas costas. Além do mais, depois de certa hora, o sol torna impossível qualquer atividade. Tenho que me apressar. 

Meu primeiro livro foi escrito parte em uma mesa alta demais, que não era minha, onde minhas pernas não encaixavam direito por uma questão de design. Eu não me lembrava de alguém ter se sentado naquele lugar antes. Parecia o tipo de ambiente que você espia através de um cordão de isolamento aveludado. Alguns vestígios de outra era confirmavam isso: um risque-rabisque, um abridor de cartas em formato de florete, uma caixinha de cartões de visita. Pra completar, não havia portas, de maneira que às vezes eu ouvia conversas, o telefone tocando, o aspirador de pó. Era quando eu decidia descer para a área comum do prédio com o meu chimarrão. Então sentava em uma cadeira da praia à sombra da piscina, em qualquer estação que não fosse o verão. 

Meu segundo livro foi todo escrito nessa lógica nômade que envolvia uma cadeira de praia com quatro níveis de inclinação circulando pelo condomínio. Às vezes era no estacionamento. Eu não me importava com o que deviam pensar de mim. Terminei o livro, me mudei pra Paris, e no apartamento de 22m², comecei a trabalhar numa segunda versão. Tínhamos uma mesa apertadíssima que devia servir como escritório e sala de jantar. Eu não podia ler em voz alta – um hábito quando escrevo – porque não estava sozinha na peça. No fim dos capítulos, eu ia pro banheiro, sentava no chão e repassava todas as páginas em voz alta. 

Então eu sempre ficava com inveja quando apareciam aqueles links maravilhosos de escritores maravilhosos e seus ambientes de trabalho maravilhosos. Que ambiente de trabalho, cara-pálida? Tira esse computador daí, que eu preciso colocar a mesa pro jantar.
Terceiro livro: parte na sacada, parte da área condominial (agora é uma cobertura, dá pra se distrair com o skyline), parte na mesa da sala que é maior do que aquela de Paris, mas que também não é exatamente uma mesa adequada, em uma peça que sem dúvida está longe do sistema-fechado-de- concentração-total com o qual eu fico sonhando às vezes. Imagino um lugar quieto, confortável, e onde eu possa pendurar algum diagrama maluco da narrativa que estou escrevendo. 

E daí que tem esse apartamento incrível num prédio amarelinho de 1949 e adivinhe. E daí que o banco disse que a minha renda de escritora era mais do que suficiente para eu pedir um financiamento. E daí que ele fica numa ruazinha calma de paralelepípedos. Muitas peças, muitas possibilidades para minha primeira escrivaninha, meu primeiro painel maluco e meu silêncio ansioso de sempre. 

* * * * * 

Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008 e, no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Seu novo livro, Todos nós adorávamos caubóis, foi lançado em outubro. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.
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