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Resenha da nova obra da crítica Regina Dalcastagnè [Rosana Lobo]

Resenha da nova obra da crítica Regina Dalcastagnè

Ensaio aborda os silêncios e as exclusões da literatura brasileira contemporânea



Conceitos como multiplicidade, pluralidade e heterogeneidade são recorrentes em ensaios, antologias e revistas literárias que procuram abordar o tema da literatura brasileira contemporânea. Tais escritos têm também em comum, em geral, o foco na produção literária dos anos 1990 — em alguns casos recuando aos anos 1980 — até os dias atuais, com a chamada Geração 00.

Não é esse, porém, o enfoque dado por Regina Dalcastagnè, professora da Universidade de Brasília (UnB), no ensaio “Literatura brasileira contemporânea: um território contestado”, recém-lançado pela Editora Horizonte. Resultado de 15 anos de pesquisa, o livro não se restringe a criar listas ou pretende abarcar toda a produção atual, mas chama a atenção para o fato de o campo literário brasileiro ainda ser bastante homogêneo, dominado por autores homens, brancos, de classe média, moradores de Rio e São Paulo e cujas profissões são ligadas a espaços já privilegiados de produção de discurso: os meios jornalístico e acadêmico.

Para a pesquisadora, a entrada em cena de autores(as) que destoem desse perfil causa desconforto quase imediato. Embora ela reconheça uma ampliação dos espaços para a literatura produzida por grupos marginalizados, isso não garante que eles tenham a mesma valoração dos historicamente legitimados. Esta literatura não tem a mesma circulação e o mesmo espaço nos jornais, não é aceita pelas universidades da mesma forma e tampouco recebe prêmios literários.

Numa primeira parte do ensaio, a autora retoma um histórico da representação do outro na literatura brasileira traçado por Antonio Candido, no qual o crítico define três categorias “regionalistas”: o regionalismo pitoresco iniciado por José de Alencar; o regionalismo problemático, em que reinaria a denúncia do subdesenvolvimento nacional; e o superregionalismo, quando o refinamento literário e a técnica antinaturalista de um Guimarães Rosa sobressaem.

A partir da década de 1960, essa tradição vai perdendo seu vigor. Num Brasil já majoritariamente urbano, a literatura volta-se para os problemas da cidade, e o outro a ser representado deixa de ser o índio ou o sertanejo e passa a ser o operário, a empregada doméstica, o ladrão, o traficante, a prostituta, o menino de rua. A “literatura contemporânea” sobre a qual Regina Dalcastagnè vai se debruçar começa aí.

Ela, então, divide a tradição de narrar os marginalizados da cidade também em três blocos. O primeiro é o dos autores que abordam o tema com “exotismo”, que divididos entre “cínicos”, na qual estariam Rubem Fonseca e Dalton Trevisan, por construírem sua visão do outro “sob a perspectiva da classe dominante”, sobrevalorizando os estereótipos; e “piegas”, em que estaria João Antônio, autor que, para Regina, representaria o lúmpen sob ótica sentimentalista. O segundo é o bloco dos autores críticos, que levariam para a literatura o desconforto de narrar o universo dos despossuídos, trazendo à tona novos enquadramentos dessas realidades. Neste bloco estariam autores como Osman Lins, Sérgio Sant’Anna e Clarice Lispector. E o terceiro seria o dos autores cuja perspectiva da pobreza é de dentro, hora em que a pesquisadora analisa a obra de autores dissonantes como Carolina Maria de Jesus, Paulo Lins e Ferréz.

Nesta primeira fase do ensaio, a autora mostra fôlego e bagagem literária para analisar dezenas de contos e romances publicados de 1960 para cá e reivindicar não só espaço para a entrada de novas vozes dentro do campo literário — fora dos guetos —, mas também que autores já legitimados façam da literatura um espaço para o exercício da inquietação, que criem discursos desestabilizadores em vez de propagarem clichês.

Tal desconforto, segundo Regina, seria muito bem explorado por Clarice Lispector em “A hora da estrela” (1977), uma profunda reflexão sobre a relação entre o intelectual e a massa. O romance põe em cheque sua própria autoridade para representar o outro. Postura similar teve, aliás, João Moreira Salles no documentário “Santiago” (2007), ao chamar a atenção para sua própria arrogância diante de seu entrevistado. “Eu nunca deixei de ser o filho do dono da casa, e ele nunca deixou de ser o mordomo”, comenta o diretor, constrangido, em narração em off.

Na parte final do ensaio a autora apresenta a pesquisa quantitativa que coordenou na UnB, “Personagens do romance brasileiro contemporâneo”, na qual foram analisados 258 romances brasileiros publicados entre 1990 e 2004, pelas editoras consideradas expressivas no setor: Companhia das Letras, Rocco e Record.

É então que Regina revela em números a perpetuação de lugares comuns ou constata tendências da produção contemporânea: quase três quartos dos romances publicados (72,7%) foram escritos por homens; 93,9% dos autores são brancos; o local da narrativa é mesmo a metrópole em 82,6% dos casos; o contexto de 58,9% dos romances é a redemocratização, seguida da ditadura militar (21,7%). O homem branco é, na maioria das ocorrências, representado como artista ou jornalista, e os negros como bandidos ou contraventores; já as mulheres, como donas de casa ou prostitutas.

“Literatura brasileira contemporânea: um território contestado” dificilmente terá força para sensibilizar editoras interessadas em vender e autores preocupados em manter seus lugares no Olimpo a reverterem este gráfico de ausências e preconceitos. Na condição de crítica e pesquisadora literária, no entanto, a autora, em vez de repetir clichês, faz a sua parte para desestabilizar a suposta harmonia do campo literário. Os números da pesquisa reforçam a ideia de que a literatura não é neutra e tampouco está acima de outros meios de representação como a política, o jornalismo ou a televisão. O campo literário também é excludente, também silencia. Ao contrário de Regina.



Rosana Lobo é doutoranda de Estudos de Literatura, Cultura e Contemporaneidade da PUC-Rio.


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