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E POR QUE SIM? [LÊDA SELMA]

E POR QUE SIM?                     
                                  
       
É, mal principia março e, a toda a brida, chega, de batom e esmalte, botox e silicone, o cantado e recantado 8 de março, “Dia da Mulher”, dia de se outorgarem comendas, títulos e mimos àquelas que, desde o finado segundo milênio, caminham decididas, e quase imbatíveis, por trilhas nunca dantes imaginadas, em busca de espaços e conquistas. E, depois da queima dos sutiãs (bem antes do silicone), lembraram-se da lei da gravidade, imposta pelo tempo, e retornaram os indesejados para o guarda-roupa e, em consequência, à disposição dos interessados. Melhor prevenir que os ver despencar.

Um só dia é pouco. Todos. No mínimo, incontáveis. Se for para questionar a função da mulher nas várias vertentes da vida, 365 dias é absurdamente pouco. Nesse caso, melhor inventar um tempo maior. Todavia, se for só para homenageá-la... hum... os 365 já quebram o galho! Nada de dispensá-los.

Sou contra o “Dia da mulher”. Acho-o apenas alegórico, discriminatório e inócuo. Dia de luta? O que se resolve ou se decide nesse dia: a roupa para essa ou aquela solenidade? Com qual sorriso se receberá a flor? Todos os dias são de luta. E os resultados consistentes, reais e significativos vêm daí. Não somos mais minoria, sombras, espectros, marionetes... Não estamos mais “atrás de um grande homem” (e se o tal fosse pequeno, qual seria nossa posição?). Não monopolizamos mais o “trono” de “rainha do lar”, há “rei” também nele. A abolição daquela velha doutrina que relegava a mulher à categoria de “sexo frágil”, outra conquista feminina.

Um dia não nos basta mais. É bom que se lembrem de que o avental cedeu lugar ao terninho; o fogão, à mesa de trabalho; a vassoura, ao teclado (éramos rainhas ou bruxas?!), e estamos por aí, ativas, eficientes, “chefes” de família, comandando, encabeçando listas de concursos, de vestibulares, de frentes de trabalho. Presidentas, ministras já não são novidade (nem no Brasil). Mudamos valores machistas e constitucionais, rompemos as barreiras das profissões “masculinas”, tornamo-nos donas do nosso corpo, do nosso destino, do nosso prazer. Abdicamos da condição de objeto sexual (só se é, hoje, por opção ou por gosto). Conquistamos muito, mas, claro!, não ainda o bastante, bem o sabemos. Apesar disso, não há motivo para que nos discriminem com o “Dia da Mulher”. Existe o “Dia do Homem”? 

No passado, a instituição de um dia, com a chancela de “protesto”, para lembrar e repudiar o massacre contra as mulheres americanas, primeira fresta de acesso feminino à contextura real, foi válida. Mais que isso: um marco que abriu os olhos do mundo para o verdadeiro “padecer no paraíso”, alcunha de ostracismo, de não-direito à genuína cidadania, de confinamento a um mundo do tamanho de uma casa, de uma mulher-mãe (abnegada, despojada, delicada...) e de mulher-esposa (virtuosa, carinhosa, prendada...). Era só o que nos permitiam ser. Abrimos as portas de inimagináveis amanhãs, escancaramos as janelas do futuro, descobrimos a vida e reivindicamos nossos legítimos direitos. No decorrer dos tempos. Não em apenas um dia: simbólico e anual.

Um senhor disse-me: “Vou exigir que a mulher abra a porta do carro e puxe a cadeira para mim. Ah! e depois, pague a conta do restaurante e do motel. Direitos iguais, deveres também”. Aviso a quem interessar possa: não conte comigo nesse item. Cavalheirismo sempre!

Independente do dia 8 de março, minha homenagem às mulheres e, em especial, à minha mãe, de grandezas tantas:


Carrego em mim
tantas marias
e em meu ventre,
sangue, estrelas e fomes.
Se me querem santa,
maçã ou serpente,
se me querem seda,
seios ou lua,
me mostro Maria
de todas as dores,
me torno Maria
de todas as cores,
me faço esfinge,
ou mulher simplesmente. 


Baiana de Urandi e goianiense por adoção, LÊDA SELMA (de Alencar) é graduada em Letras Vernáculas e pós-graduada em Linguística. Poetisa, contista, cronista (escreveu para o Diário da Manhã por 21 anos, aos domingos), integra várias antologias nacionais e internacionais. É verbete em obras como o Dicionário Crítico de Escritoras Brasileiras, de Nelly Novaes Coelho, São Paulo/SP, e Enciclopédia de Literatura Brasileira, Afrânio Coutinho/J. Galante de Sousa, São Paulo/SP. Atual vice-presidente da Academia Goiana de Letras/AGL (ocupa a Cadeira 14), da Associação Nacional de Escritores/ANE, União Brasileira de Compositores/UBC, União Brasileira de Escritores/UBE-GO e Associação Goiana de Imprensa/AGI. Publicou 15 livros (poemas, contos, crônicas). Entre várias premiações, o Troféu Tiokô de poesia, da UBE/GO, Troféu Goyazes Marieta Telles Machado, de crônicas, da Academia Goiana de Letras, e o Mérito Cultural, pelo conjunto da obra, da UBE/RJ. Recebeu os títulos: Cidadã Goianiense e Cidadã Goiana.

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