"A MÁSCARA DA MORTE RUBRA": UM CONTO DE TERROR E MISTÉRIO DO ESCRITOR, POETA, EDITOR E CRÍTICO NORTE-AMERICANO, EDGAR ALLAN POE
![]() |
| Ilustração de Harry Clarke para “A Máscara da Morte Vermelha”. Ilustração da foto por Slate. Ilustração de GG Harrap & Co./British Library/Wikipedia. |
"A Máscara da Morte Rubra", um conto de Edgard Allan Poe.
Tradução e prólogo de Ana Karina Borges Braun.
Revisão de Patrícia Chittoni Ramos Reuillard e Juann Acosta.
O escritor, poeta, editor e crítico norte-americano Edgar Allan Poe nasceu em Boston em janeiro de 1809 e faleceu em Baltimore em 7 de outubro de 1849. Popularmente conhecido como o mestre dos contos de terror e precursor dos contos de detetive, também publicou ensaios e resenhas críticas. Em1839 ganhou notoriedade com a publicação de seu livro "Contos do grotesco e do arabesco (Tales of the Grotesque and Arabesque)" pela editora Lea and Blanchardt. Em 1842 publicou o conto cuja tradução apresentaremos a seguir: "The Masque of the Red Death (A Máscara da Morte Rubra)". Denise Bottmann, (2012) contabiliza dezoito traduções brasileiras desse conto feitas ao longo dos séculos XX e XXI. Dentre elas, estão A máscara da morte interrompida (DUARTE, 1922), A máscara da morte rubra (MENDES E AMADO, 1944), A máscara da peste vermelha (LOBO, 1970), A máscara da morte escarlate (RUBENS SIQUEIRA, 1993), O baile da morte vermelha (BRAGA, 2008) e A camuflagem da morte escarlate (ANÔNIMO, 2008). O conto se apresenta como uma alegoria da inevitabilidade da morte. O Príncipe Próspero, em uma tentativa de sobreviver à morte rubra, terrível doença que assolava seu país, se recolhe com um grupo de cortesãos em uma de suas propriedades - uma abadia acastelada - e promove um baile de máscaras. O clímax do conto ocorre durante o baile, quando o príncipe e seus convidados confrontam a morte.
________________________
"A Máscara da Morte Rubra"
(O texto fonte para esta tradução foi "The Masque ofthe Read Death (1850)" disponível em: PoeStories.com)
A "Morte Rubra" dizimara o país há muito tempo. Nenhuma peste havia sido tão fatal ou tão terrível. O sangue representava sua imagem e sua marca - o rubor e a aversão ao sangue. Os sintomas se caracterizavam por dores agudas, tonturas súbitas e abundante sangramento pelos poros, seguido de deterioração. As manchas escarlates no corpo, especialmente aquelas no rosto da vítima, representavam a exclusão que a privava da assistência e da compaixão de seus semelhantes. E sua manifestação, desenvolvimento e término se dava em um período de trinta minutos.
Apesar disso, o príncipe Próspero se sentia feliz, intrépido e sagaz. Quando a população de seus domínios havia se reduzido à metade, ele reuniu mil amigos saudáveis e festivos, dentre cavalheiros e damas de sua corte, e com eles se recolheu em uma de suas abadias acasteladas. Era uma estrutura extensa e grandiosa, construção resultante do gosto excêntrico e augusto do próprio Príncipe, cercada por uma forte e imponente muralha. Os 15 Cadernos de Tradução, Porto Alegre, n.42, jan/jun. 2018. portões eram feitos de aço. Após terem entrado, os cortesãos trouxeram fornos e pesados martelos para soldar os ferrolhos. Decidiram impedir tanto a entrada como a saída de qualquer um que se rendesse a impulsos súbitos de desespero ou qualquer loucura do lado de dentro. A abadia tinha provisões em abundância. Com tais precauções, os cortesãos poderiam desafiar o contágio. O mundo exterior tomaria conta de si mesmo. Nesse meio tempo, lamentar-se, ou mesmo pensar, seria uma estupidez. O príncipe havia proporcionado todos os meios de distração. Havia bufões, artistas improvisadores, bailarinos, músicos, Beleza, vinho. Além disso, havia a segurança de estarem, lá dentro, protegidos da "Morte Rubra".
Após cinco ou seis meses de reclusão, enquanto a peste atacava suas vítimas com furor fora da abadia, o Príncipe Próspero decidiu entreter seus mil amigos com um baile de máscaras de uma grandiosidade nunca antes vista.
Era uma cena voluptuosa, aquela do baile de máscaras. Mas antes gostaria de falar sobre os salões onde aconteceu o baile. Eram sete - representavam uma suíte imperial. Em muitos palácios, no entanto, a disposição de tais salões forma uma perspectiva longa em linha reta, enquanto as portas dobráveis que se abrem para ambos os lados permitem que toda a extensão fique visível. Aqui o caso era muito diferente, como se poderia esperar da adoração do príncipe1 pelo bizarro. Os salões eram dispostos de forma tão irregular que a visão abrangia pouco mais do que um de cada vez. Havia uma curva aguda a cada 20 ou 30 metros e a cada curva um novo efeito. Tanto à direita como à esquerda e no meio de cada parede havia uma estreita janela em estilo gótico de frente para um corredor fechado que acompanhava as voltas da suíte. Essas janelas tinham vitrais de cores variadas que combinavam com o tom predominante da decoração de cada salão para o qual se abriam.
Assim, na extremidade leste, estava, por exemplo, o vitral azul- e de um azul muito intenso eram as janelas. O segundo salão era púrpura assim como seus ornamentos, tapeçarias e vidraças. O terceiro era todo verde, incluindo as esquadrias das janelas. O quarto salão era iluminado por uma mobília alaranjada, o quinto, todo branco, e o sexto, violeta. O sétimo salão era todo decorado com tapeçarias de veludo negro que cobriam o teto e as paredes e encontravam um tapete do mesmo material e tom. Mas, nesse salão, apenas a cor das janelas não correspondia à cor da decoração. As vidraças eram escarlates- de um intenso vermelho sangue. Não havia, no entanto, em nenhum dos sete salões, lamparina alguma ou candelabro, dentre a profusão de ornamentos dourados lá distribuídos, ou pendentes do forro. Nenhuma luz emanava de lamparina ou vela no conjunto de salas. Entretanto, nos corredores que circundavam a suíte, se encontrava, no lado oposto a cada janela, um pesado trípode, sustentando um braseiro que projetava suas chamas através do vitral colorido e iluminava o salão de forma reluzente. E, assim, reproduzia uma exuberância de chamativas e fantásticas aparições. Contudo, a oeste, no salão negro, o efeito da luz do fogo, que fluía sobre as cortinas através dos vitrais tingidos do vermelho sangue, era extremamente sinistro e produzia um olhar tão selvagem no semblante daqueles que ali entravam que pouquíssimos eram corajosos o suficiente para cruzar tal fronteira.
Também nesse salão, posicionado contra a parede oeste, havia um enorme relógio de ébano. Seu pêndulo se movimentava de um lado para o outro produzindo um som monótono e pesado e, quando o ponteiro dos minutos completava uma volta dando a hora, provinha, dos pulmões de aço do relógio, um som claro, alto, profundo e excepcionalmente musical, mas de uma nota tão peculiar e com tal ênfase que, a cada intervalo de hora, os músicos da orquestra eram impelidos a fazer uma pausa momentânea em sua performance para ouvir o som. Então os dançarinos cessavam a evolução de suas valsas; havia um breve desconcerto de toda a alegre companhia e, enquanto os carrilhões do relógio ainda soavam, observava-se que os mais alegres ficavam pálidos e que os mais velhos e serenos passavam suas mãos na fronte como se estivessem em um estado confuso de devaneio ou meditação. Mas, quando os ecos cessavam por completo, um leve riso invadia a reunião; os músicos se olhavam e sorriam de seu próprio nervosismo e desvario e diziam, aos cochichos, que a próxima badalada do relógio não deveria produzir neles a mesma emoção. E, então, após o lapso de sessenta minutos (que abrange três mil e seiscentos segundos do Tempo que voa), soava outra badalada do relógio que produzia o mesmo desconcerto, tremor e meditação anteriores.
Apesar de tudo isso, era uma reunião alegre e magnífica. Os gostos do Príncipe eram peculiares. Tinha um olhar aguçado para as cores e seus efeitos. Desconsiderava a mera decoração da moda. Seus planos eram ousados e ardentes, e suas concepções eram de um brilho atroz. Alguns o viam como um louco, mas seus seguidores não compartilhavam dessa opinião. Era necessário ouvi-lo, vê-lo e tocá-lo para ter certeza de que ele não o era.
Ele havia supervisionado quase toda a escolha dos objetos de decoração dos sete salões por ocasião dessa grande festa; e, guiado por seu próprio gosto, inspirado as fantasias dos foliões mascarados. Certamente eram grotescas. Havia muito brilho, malícia e fantasia muito do que se vê no "Hernani. Havia figuras arabescas com membros e adornos desproporcionais. Eram fantasias delirantes como as de um louco. E também muito de belo, de bruto, de bizarro, algo de terrível e não pouco daquilo que teria provocado aversão. De um lado a outro nos sete salões, uma profusão de sonhos era perseguida. E esses - os sonhos giravam, assumindo o tom de cada aposento e fazendo com que a música intensa da orquestra parecesse ecoar seus passos. Em seguida, soava o relógio de ébano que se encontrava no corredor de veludo. E, então, por um momento, tudo fica quieto e silencioso com exceção da voz do relógio. Os sonhos são congelados. Mas os ecos das batidas se extinguem - não duram mais do que um instante - e um riso leve, moderado paira sobre eles assim que se sucumbem. E agora novamente a música aumenta e os sonhos vivem e giram com mais entusiasmo do que nunca, tingindo-se dos vitrais coloridos através dos quais se filtram os raios das trípodes. Mas, dentre os sete salões, nenhum folião se aventura a ir àquele que fica mais a oeste, pois a noite está acabando e de lá flui uma luz mais rubra através dos vitrais cor de sangue; a escuridão da tapeçaria de zibelina aterroriza; e aquele que pisa o tapete de zibelina pode ouvir o rumor abafado do relógio de ébano de forma muita mais enfática do que qualquer outro que se entregue às gargalhadas remotas dos outros salões.
No entanto, os outros aposentos estavam cheios e neles batia febril o coração da vida. A reunião seguiu agitada até que se começou a ouvir, exaustivamente, o som do relógio que indicava a meia-noite. E então a música cessou, como eu havia dito, e as evoluções dos dançarinos de valsa foram silenciadas, bem como tudo o mais fora silenciado de forma incômoda. Mas, agora, o pêndulo do relógio soaria doze batidas; e, assim, pensamentos mais demorados tomariam conta das meditações dos mais reflexivos no grupo que se divertia. E, assim, também aconteceu, talvez antes que os últimos ecos do último alarme tivessem silenciado totalmente, que o grupo de foliões notou a presença de uma figura mascarada que até então havia passado completamente despercebida. E o rumor dessa nova presença, espalhado através de sussurros, fez surgir um burburinho ou um murmúrio intenso em todo o grupo, expressão de desaprovação e surpresa- e então, finalmente, de terror, de pânico e de náusea.
Supõe-se que, em uma reunião de fantasmas tal como a que descrevi, uma aparição comum não poderia ter causado tal sensação. Na verdade, a liberdade dada aos mascarados da noite era quase ilimitada; mas a figura em questão tinha ultrapassado o próprio Herodes\ tinha ido além dos limites do decoro indefinido do príncipe. Há cordas no coração dos mais imprudentes que não podem ser tocadas sem emoção. Mesmo entre os mais desorientados, para os quais tanto a vida como a morte são objeto de zombaria, há certos temas com as quais não se pode brincar. De fato, todo o grupo parecia agora sentir, de forma intensa, na fantasia e na face do estranho, uma ausência de perspicácia ou propriedade. A figura era alta e esquelética e estava coberta da cabeça aos pés com uma vestimenta mortuária. A máscara que ocultava seu rosto se assemelhava tanto ao semblante de um cadáver enrijecido que mesmo um exame mais minucioso permitiria ao observador concebê-la como real; no entanto, tudo isso poderia ter sido suportado, se não aprovado, pelos loucos foliões, se o mascarado não tivesse ido tão longe a ponto de encarnar a Morte Rubra. Sua veste estava manchada de sangue -e sua larga fronte, assim como todo o restante da face, estava recoberta do horror escarlate.
Quando o Príncipe Próspero pôs os olhos sobre essa imagem espectral (que, com um movimento lento e solene, como se [esse] sustentasse seu papel de forma mais completa, seguia os dançarinos) sua convulsão era visível, no primeiro momento com um forte estremecimento de terror e repúdio, mas, no momento seguinte, com uma raiva estampada no rosto.
"Quem se atreve" - questionou roucamente os cortesãos próximos a ele - "quem se atreve a nos insultar com esse escárnio blasfemo? Detenham-no e retirem-lhe a máscara assim saberemos quem deveremos enforcar, ao nascer do sol, nas ameias!"
O Príncipe Próspero estava no salão leste ou azul quando proferiu essas palavras. Essas ecoaram nos sete salões de forma alta e clara, pois o príncipe era um homem destemido e robusto e a música fora silenciada ao sinal de sua mão.
Isso correu no salão azul onde estava o príncipe, acompanhado por um grupo de pálidos cortesãos. Primeiramente, enquanto falava, houve um apressado movimento do grupo em direção ao intruso que, naquele momento, estava ao seu alcance e, agora, com um passo deliberado e imponente, se aproximara do príncipe. Entretanto, um certo temor inominável, que a insana presunção do mascarado havia inspirado em todos os presentes, impediu que alguém tomasse a iniciativa de detê-lo. Dessa forma, desimpedido, aproximou-se do príncipe a pouco menos de um metro. E, enquanto o vasto grupo, em um impulso, se aglutinou simultaneamente em um canto do salão, continuou a se aproximar agora com o mesmo passo solene e mensurado que o distinguira do passo anterior, do salão azul em direção ao púrpura- do púrpura em direção ao verde- do verde em direção ao laranja, deste em direção ao branco - e mesmo dali em direção ao violeta, antes que alguém pudesse detê-lo com um movimento decisivo. Foi então, contudo, que o Príncipe Próspero, enlouquecido pela fúria e vergonha causadas por sua covardia momentânea, correu com voracidade pelos seis salões, sem que ninguém o seguisse devido ao terror mortal que havia tomado conta de todos. Ergueu um punhal e se aproximou, de forma rápida e impetuosa, cerca de um metro da figura em retirada; esta, após ter atingido a extremidade do aposento de veludo, se virou subitamente e confrontou seu perseguidor. Ouviu-se um grito agudo- e o punhal caiu cintilante sobre o tapete de zibelina e sobre ele também caiu, em seguida, ferido de morte, o Príncipe Próspero. Então, buscando a coragem turbulenta do desespero, uma massa de foliões se dirigiu ao salão negro e, enquanto perseguia o mascarado, cuja figura esguia mantinha-se ereta e imóvel sob a sombra do relógio de ébano, ofegou em um horror indescritível ao descobrir que, sob a mortalha e a máscara cadavérica, manuseadas de forma violenta e bruta, inexistia qualquer forma corpórea.
Agora a presença da Morte Rubra era reconhecida. Havia chegado como um ladrão à noite. Derrubou os foliões um a um nos salões banhados em sangue, que morriam na mesma posição de desespero em que haviam tombado. E se extinguiu, também, juntamente com a vida dos últimos foliões, a vida do relógio de ébano; e as chamas dos tripés. E a escuridão, a decadência e a Morte Rubra reinaram com total domínio.
_____________
Revista Biografia

Nenhum comentário
Postar um comentário