O SILÊNCIO ESCULPIDO NA POESIA TRANSFRONTEIRIÇA DE ANA ROMANO
O Silêncio Esculpido na Poesia Transfronteiriça de Ana Romano
Conheça o lirismo denso, o silêncio esculpido e a potência universal dos versos da poeta e tradutora argentina.
A produção literária da escritora e tradutora argentina Ana Romano ganha destaque nesta edição, dedicada à difusão da literatura hispano-americana contemporânea. Nascida em Córdoba em 1º de fevereiro de 1944 e radicada em Buenos Aires desde a infância, a autora desenvolve uma obra marcada pela precisão técnica, economia verbal e construção de imagens enigmáticas.
Com uma trajetória profissional fortemente ligada ao diálogo intercultural, Ana Romano é professora de francês e traduziu para esse idioma volumes expressivos da comunidade literária argentina, como a obra Breve anthologie, de Luis Raúl Calvo (Ediciones L’Harmattan, Paris, 2012), o poemário Behering y otros poemas, de Luis Benítez, e textos do livro Tomavistas, de Rolando Revagliatti. Como autora, publicou os livros De los insolentes fantasmas (2010), Expiación del antifaz (2014) e Zumbido de guirnaldas (2016).
A relevância de sua produção poética estende-se ao cenário internacional, com poemas traduzidos para o português, francês, italiano, húngaro e catalão. A seguir, apresenta-se uma seleção de suas obras em espanhol, acompanhada de análises críticas que examinam os aspectos estruturais e temáticos de cada composição.
Audaces
En las esferas
yuxtapuestos hologramas
enmascaran
Los audaces horadan los calderos
y entre los maizales
despunta el hechizo.
Nota Crítica: Este poema trabalha com o contraste entre a modernidade tecnológica e o misticismo arcaico. A transição das imagens — que partem de hologramas e esferas justapostas para elementos rústicos como caldeirões e milharais — evoca uma ruptura. O "feitiço" que surge ao final sugere que a audácia humana consegue encontrar a magia e o oculto mesmo em meio à frieza das ilusões contemporâneas.
C
Indulgentes
conceden
Enguantadas
convalidan
eclipsadas
consagraciones.
Nota Crítica: Uma peça minimalista de grande força visual e rítmica. A estrutura em escada e o uso de aliterações (conceden, convalidan, consagraciones) criam uma cadência quase ritualística. O poema critica ou expõe a hipocrisia das convenções sociais, onde mãos "enluvadas" (enguantadas) validam, com falsa indulgência, glórias e consagrações que já nascem apagadas ou "eclipsadas".
Malena
Desalentado
un cigarrillo
Aisladas en el jardín
las margaritas
Compromete el parpadeo
la confesión
Frases huecas questionan
lo que dura
A hurtadillas Malena
mastica escarabajos.
Nota Crítica: Uma construção melancólica e cinematográfica, fragmentada em imagens cotidianas e solitárias: o cigarro desalentado, as margaritas isoladas e o silêncio que precede uma confissão. O clímax do poema ocorre no forte e inesperado verso final. O ato de Malena "mastigar besouros" (escarabajos) às escondidas rompe a aparente calmaria do jardim, introduzindo uma dose de surrealismo, angústia ou resistência interna contra as "frases ocas".
Sin título
Cincela los espacios
el silencio
Por las rendijas
suplica
en la noche.
Nota Crítica: Um poema curto que investiga a matéria do próprio fazer poético: o silêncio. Em vez de ser ausência, o silêncio aqui ganha corpo e peso, agindo como um sculptor que "cinzela os espaços". A noite funciona como o cenário dessa busca, onde a súplica tenta escapar através das frestas (rendijas), mostrando o isolamento e o desejo humano de comunicação.
Sin título
Desamordaza
e
hilvana luego
vocablos
que
en la intimidad de
los recovecos
templan la oscuridad.
Nota Crítica: Uma belíssima definição do ato de escrever como cura e libertação. O poema utiliza verbos de ação física — desamordaçar e alinhavar (hilvanar) — para descrever como o poeta costura as palavras no papel. Esses vocábulos, escondidos na intimidade dos recessos da mente, ganham o poder de "temperar" (templan), ou seja, suavizar, harmonizar e vencer a escuridão do ser.
Tomás
Festejan
la indiferencia, os olhos
el mecimiento de las campanitas
La noite se ovilla
en los huecos
Tomás
deletrea
ancestrales plegarias.
Nota Crítica: Este poema constrói uma atmosfera mística e terna de vigília. Elementos como o balançar das sinetas e a noite que se enovela (se ovilla) como um animal em busca de abrigo trazem uma sensação de recolhimento. A figura de Tomás, ao soletrar preces ancestrais, conecta o presente poético ao sagrado e à memória do tempo, transformando a aparente indiferença do mundo em um instante de epifania e proteção.
Com uma poética que articula silêncios e precisão vocabular, a obra de Ana Romano reafirma a potência da literatura hispano-americana contemporânea e sua capacidade de transcender fronteiras culturais. Os textos aqui reunidos oferecem uma amostra significativa da sensibilidade e do rigor técnico que consagram a autora no cenário literário internacional.
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Revista Biogafia.
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