UMA CARTA A “FLORISVALDO MATTOS” SOBRE LIVROS QUE AINDA NÃO LI E UMA BELÉM VISTA POR OLHOS BAIANOS”, POR LEAL KOSTAV

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Florisvaldo Mattos. poeta, jornalista e acadêmico, na sensibilidade do clique de Mauro Coelho. Cenário certeiro, o tradicional Bar e Restaurante do Edinho, reduto de afeto, encontro e conversa que alimenta a alma e a cultura na nossa querida Ceasinha do Rio Vermelho, em Salvador. Um registro que transborda a dignidade e o lirismo de quem fez da palavra sua embarcação eterna e o seu saber secreto.

Carta de um paraense a um poeta baiano. Três livros que ainda não chegaram, uma crônica sobre Belém e a ideia de que poesia e cidade existem para durar.



Meu caro Florisvaldo,

Tua mensagem chegou numa dessas tardes em que o tempo hesita antes de despencar em chuva. Mudou o mapa do meu dia. Tuas palavras trazem o peso bom da história, o sotaque das pedras coloniais de Salvador, a generosidade de um mestre que tem cadeira na Academia de Letras da Bahia e ainda arruma tempo para olhar com carinho este amigo paraense. Os recortes de jornal e as provocações literárias que  me mandas não são recado de internet. São pontes. Cruzam o país e ligam a Baía de Todos-os-Santos às águas grossas do Marajó, que banham a minha ancestralidade.

Queres saber quais livros teus eu tenho na estante. Pergunta com a modéstia de quem põe a grandeza no espírito e não no alarde. Confesso, com um pouco de pesar e uma esperança nova, que nenhum dos três mais recentes mora aqui. Ainda. Saber que a tua lavra não para de dar fruto alegra quem admira a tua escrita. “Catorze janelas abertas, sonetos reunidos entre 1953 e 2023” guarda sete décadas de trabalho minucioso. Penso em ourives. Penso em quem fez da palavra uma profissão de fé. Setenta anos de poesia não são detalhe, Florisvaldo. São uma vida inteira gasta em decifrar o mundo na régua da métrica e na música do verso.

E “Ponteio com tercetos sensoriais”? O título já dedilha. Poesia erótica na tua mão, sei bem, não escorrega para o vulgar. Fica no território do lirismo, onde o desejo faz canto e a carne se muda em metáfora. É herança de grandes líricos, carregada por ti com a naturalidade de quem respira o ar da Bahia. A reedição ampliada de “Mares anoitecidos” chega agora, quando se lembram os quatrocentos anos da expulsão dos holandeses. Mostra o poeta público, herdeiro de "Castro Alves", que canta dores, combates e a formação da nossa gente com fôlego de épica. Tivesse os volumes aqui, leria com o orgulho e o respeito que merece um jornalista e escritor cuja trajetória acompanho com admiração sincera. Saber que existem já me abre o apetite. Saber que nasceram da tua cabeça me dá pressa de sentir o papel e o ritmo dos versos.

Tua generosidade não ficou na obra própria. Veio também uma crônica do teu confrade 1"Paulo Ormindo de Azevedo", publicada na página de Opinião do principal jornal de Salvador, no fim de setembro. Li. Como tu, saí de lá com uma sensação de grandeza cultural. Há textos que nos deixam melhores. Alargam o chão que pisamos. A prosa de Paulo Ormindo faz isso. Urbanista, arquiteto, professor emérito da UFBA, ele olha a cidade sem se prender ao esquadro técnico. Olha como historiador, com alma de humanista.

Belém desenhada por um baiano ilustre mexe com os brios deste cronista. Mexe com o afeto também. Paulo Ormindo voltou à nossa capital trinta anos depois. Não veio como turista de olho distraído, atrás de exotismo. Veio como cientista social e preservador, para debater o futuro da construção luso-brasileira. E que testemunho bonito o dele, sobre a batalha de sessenta e sete anos, uma vida inteira, pela preservação e pelo uso adaptativo do Edifício da Santa Casa de Misericórdia da Bahia. Teimosia santa. É ela que separa o simples construtor do guardião da memória nacional, aquele que salva monumento do esquecimento e da fúria imobiliária.

Mares Anoitecidos no Rio Vermelho “Na adolescência, ave, passei às mãos das incertezas
como a mim permitiam decidi a vida
cantar por não ser nada.
Transitei pelos vales recolhendo
Um pouco de mim mesmo em cada planta...”
— Florisvaldo Mattos
"O olhar que singra o tempo e navega pela memória" — Leal Kostav
Em Belém, no campus da Universidade Federal do Pará, o olhar de Ormindo pegou de primeira a nossa essência. Enxergou com uma lucidez que falta até a filho da terra. Belém guardou uma matriz cultural indígena que o Sudeste e o Nordeste viram sumir sob a violência dos bandeirantes e dos morgados da Casa da Torre. Isso não mora só nos livros de antropologia. Pulsa nas calçadas, nos mercados, nas cozinhas. Está no tucupi que amarela o prato. No tacacá quente que adormece o lábio com o tremor do jambu. No açaí grosso, nosso pão de cada dia, servido em cuia que repete desenhos de casca de árvore e de mito esquecido. O cotidiano ganhou do apagamento.

O cronista baiano acertou em cheio ao ligar essa ancestralidade à nossa outra face, a opulência neoclássica herdada da borracha. A floresta contra o mármore europeu. A cerâmica marajoara contra as fachadas de "Filinto Santoro" e "Gino Coppedè". Daí vem o caráter único de Belém, cidade que é igarapé e avenida ao mesmo tempo. Ele cita o "Teatro da Paz". Cita o "Mercado de Carnes de Francisco Bolonha", com o ferro fundido que lembra renda gótica espetada no calor do Equador. Faz justiça a uma cidade capaz de digerir as influências do mundo sem largar o chão.

O que mais me tocou, porém, foi a leitura que Paulo Ormindo fez da nossa modernidade portuária. Belém soube olhar adiante. Tirou a logística pesada dos contêineres e fez das antigas Docas da Baía de Guajará uma rambla democrática, onde o povo se junta no fim da tarde para ver o sol deitar nas águas, com um sorvete de carimbó da Cairu na mão. Ali mora uma lição de urbanismo que passa por cima da técnica. A cidade desenhada a favor da felicidade. A procissão marítima do "Círio de Nazaré" desfila sob os olhos de gente que reencontrou o seu rio.

O arquiteto fecha a reflexão com uma frase afiada. Salvador tem muito a aprender com Belém. Sinto um orgulho compreensível, claro, e junto vem uma dose de humildade que serve às duas capitais. Bahia e Pará são metrópoles da alma brasileira. Salvador guarda o mistério dos orixás, o dengo do acarajé, o barroco das igrejas douradas. Belém responde com o sincretismo do Círio, o cheiro de patchouli, o neoclássico que não se rende ao tempo. Somos espelhos de um mesmo Brasil fundo, que se recusa a ser pasteurizado pela modernidade cega.

Fico a pensar, Florisvaldo, em como as tuas duas mensagens se amarram. Tua pergunta sobre os livros e o texto de Paulo Ormindo falam, no fundo, da mesma coisa. Permanência. Teus sonetos, guardados em catorze janelas abertas para o tempo, são os casarões bem cuidados da Santa Casa, são os armazéns renovados das Docas. Estruturas feitas para aguentar vento. Abrigam a sensibilidade humana quando o resto desaba ou se faz mercadoria barata. Poesia, arquitetura e crônica são as nossas trincheiras contra o esquecimento.

Obrigado pelo presente duplo. Pela lembrança da tua lavra poética, que espero manusear em breve e ler com a atenção que a tua inteligência pede. E por me fazer ler a Bahia com o Pará na cabeça, pelos olhos de um mestre do espaço urbano. Que estas linhas cheguem aí com o afeto e o respeito com que foram escritas, neste entardecer nortista. Que a tua poesia continue abrindo janelas. Que a luz da Bahia continue a clarear o caminho deste teu eterno leitor e amigo.

Recebe um abraço imenso, caloroso, fraterno de verdade.

Do Leal Kostav 





1Paulo Ormindo David de Azevedo ( Salvador, 14 de março de 1937) é um arquiteto, professor e escritor brasileiro, imortal da Academia de Letras da Bahia, Cadeira 2, doutor em conservação e restauração de bens culturais pela Università degli Studi di Roma, La Sapienza.

Nota do autor: Carta-Crônica. Revisão gramatical e copidescagem básica realizadas com o auxílio do Claude (versão gratuita). Intervenções de inteligência artificial, mesmo que superficiais, costumam gerar falsos positivos (100% IA) em detectores automatizados como o Pangram. Por isso, solicita-se sempre uma leitura e avaliação puramente humana. "O banzeiro da literatura não pode ficar refém de nenhum algoritmo".


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Leal Kostav

Leal Kostav é o pseudônimo literário de Edevaldo Leal, delegado de polícia, poeta, cronista e contista paraense, com relevantes incursões no ensaio. Com uma trajetória de dez anos no jornalismo, descobriu na escrita, ainda na adolescência, há mais de quatro décadas, um meio singular para decifrar as emoções do cotidiano e traduzir a complexidade da experiência humana. Embora não possua obras publicadas em livro nem participações em antologias, dedica-se com rigor e sensibilidade à busca da simplicidade expressiva, que lhe serve de refúgio criativo e instrumento de reflexão. Atualmente, concentra seus esforços na produção de crônicas-ensaios sobre autores literários e no estudo aprofundado da obra-prima Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, cuja publicação completa 70 anos neste ano, rendendo-lhe textos que dialogam com a riqueza e a profundidade do clássico. Reside em Belém, onde sua produção literária é regularmente divulgada em seu perfil no Facebook, conquistando leitores atentos à autenticidade e à profundidade de sua escrita.

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