“XALA NI NZAMBI” (FIQUE COM NZAMBI), POR AQUILES RIQUE REIS


capa do album kizomba de Ricardo Valverde
Capa do Álbum Kizomba de Ricardo Valverde

“Xala ni Nzambi” (Fique com Nzambi)

O cantor e escritor Aquiles Rique Reis, integrante do quarteto MPB-4 desde que a banda surgiu em 1964, em sua coluna semanal fala do lançamento do álbum independente, Kizomba, do vibrafonista, compositor e arranjador Ricardo Valverde, no qual mescla suas raízes ancestrais no candomblé Angola com o vibrafone e sonoridades afro-brasileiras. O trabalho conta com doze faixas em kimbundu e a participação de músicos ligados a comunidades de terreiro, fundindo ritmos tradicionais da Nação Angola à música instrumental brasileira.

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Foi com essa despedida (“Xala ni Nzambi”) no idioma kimbundu que Ricardo Valverde finalizou a mensagem que, a meu pedido, contextualizava seu novo trabalho. Sem isso, me dificultaria entendê-lo tão profundamente.

Iniciado no candomblé Angola, Valverde recebeu de Pai Kylonderu a digina (nome de santo) de Ymberekwe. Sua Casa é a Kyloatala e ele é Kambando (como chamam ogã em Angola), e lá em sua comunidade, no Cipó Guacú, as pessoas o chamam de Tata Ymberekwe.

Assim, hoje vamos com o álbum Kizomba (independente), do vibrafonista, compositor e arranjador Ricardo Valverde, no qual o músico mescla suas raízes ancestrais com o vibrafone e as múltiplas sonoridades afro-brasileiras. Em Kizomba, quase todas as doze músicas estão em kimbundu.

Além de instrumentistas laicos, Valverde convocou músicos ligados a comunidades de terreiro, que dominam a linguagem que têm nas mãos: o baixista Marcos Paiva e os percussionistas Samba Ossale, Mukambila e Leandro Perez.

Debruçado sobre ritmos e claves do candomblé de Nação Angola, com composições inspiradas nos nkises, Valverde nos revela desde arrebates, kongos de ouro, sambas kabila e barraventos, até ijexás e quebrados, agregando-os aos ritmos da música brasileira com os timbres do seu vibrafone, como cordões de amarração.

Algumas faixas:

“Arrebate” (Ricardo Valverde): no ritmo que dá título à música, comumente usado na entrada dos mona nkises (filhos de santo) no barracão, no começo da kizomba (festa), o acordeom vem com o vibrafone que lhe abre portas e caminhos para onde o som os leva. Ritmado pelos atabaques, o tema soa iluminado pelo vibrafone que improvisa, enquanto ouve-se toques delicados da flauta. “Vunge” (Ricardo Valverde): o clarone resenha num duo com o vibrafone. O resultado é de arrepiar. Os atabaques intercedem para amalgamar a massa sonora, de onde as notas do vibrafone vêm balançar no ar, bem onde está o sax soprano que lampeja. Já os atabaques seguram a onda do improviso do baixo. “Kaya” (Ricardo Valverde), um “quebrado” que o vibrafone traz à cena, é o tema que fecha a tampa do jovem álbum de Ricardo Valverde: a guitarra e o baixo vêm com o vibrafone que, “modestamente”, se coloca a serviço da beleza que flui e reflui ao sabor do ofício de instrumentistas que são puro ouro em pó.

Kizomba é o momento genial de um instrumentista que tem de figurar na prateleira de mestres da música instrumental do Brasil. Xala ni Nzambi!


Ouça o álbum: Kizomba

Ficha técnica: Ricardo Valverde: composições, vibrafone e arranjos; Marcos Paiva: contrabaixo elétrico; Samba Ossale, Mukambila e Leandro Perez: atabaques. Participações especiais: Pablo Moura (acordeom), Vini Sampaio (guitarras), Sérgio Coelho (trombone) e Phellyppe Sabo (sax soprano, flauta e clarone); Bruno Reis: mixagem, masterização e produção artística; Guilherme Valverde: arte visual e capa.



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Aquiles Rique Reis
Nossos protetores nunca desistem de nós.



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