Palavras desnecessárias [Stella Florence]

Palavras desnecessárias
 
por Stella Florence

Uma dessas apresentadoras imbecis que abundam na TV pergunta a uma criança: “De quem você gosta mais: do papai ou da mamãe?”. A criança na TV revira os olhinhos constrangida e não responde. Subitamente iluminada por uma centelha de bom senso, a apresentadora emenda: “Ah, você gosta dos dois, não é?”. Naquela hora, minha filha, então com sete anos, sentada ao meu lado, roubou a cena:

- Eu gosto mais do papai. Se pudesse moraria com o papai.

Respiro fundo. Claro que Olívia prefere o pai (meu querido colega Eduardo Haak): sou eu quem impõe limites, que a ensina arrumar o quarto, que supervisiona as lições de casa, que a obriga a tomar banho, que não deixa que ela almoce pipoca e chocolate. Me lembro de quando minha filha contou que ficou brincando de vampiro numa igreja com o pai. Por dentro, eu ri. Por fora, eu fui mãe: “A igreja é uma casa de oração que precisa ser respeitada como qualquer outra. E não é respeitoso brincar de vampiro lá dentro”. Naquele caso, mais uma vez, por dentro eu compreendi a preferência de Olívia. Por fora, eu fui mãe:

– Querida, há certas coisas que nós não devemos dizer: são desnecessárias e só machucam os outros. Se eu tivesse duas filhas e dissesse que gosto mais da sua irmã do que de você, você gostaria?

– Não – ela respondeu, subitamente séria.

– Então, é a mesma coisa. Tudo bem você sentir mais amor pelo papai, mas não é legal você me dizer isso. A gente só deve dizer algo desagradável, duro, difícil, quando é necessário. Se não for necessário, pra que dizer?

Missão materna cumprida, fiquei pensando em quantas coisas absolutamente desagradáveis e desnecessárias eu já escutei na vida. Eu, você e a torcida do Corinthians. Uma tia, séria como uma ginecologista, me repreendendo, “Há sexo demais nos seus textos: por que você não fala só de amor?” (como se eu não falasse, o tempo todo, só de amor – ou da falta dele). Um ex-namorado me dizendo: “Sabe, você ficaria mais bonita se fosse mais magra” (detalhe: ele era gordo). Um editor decretando, “Não vamos publicar seu livro. Ele não vai vender nada, ninguém quer ouvir falar sobre essa bobagem” (ele se referia ao “Hoje acordei gorda”, meu livro que mais vendeu até hoje, publicado pela sábia Rocco). Um homem amado chorando por outra no meu colo: “Eu nunca amei nenhuma mulher como amei a Fernanda!”. Palavras desnecessárias, descartáveis, inúteis, ofensivas, deselegantes.

Há palavras duras que precisamos ouvir, a cuja existência não é possível nem desejável escapar, o que me intriga é outra questão. Por que as pessoas insistem em dizer coisas desagradáveis mesmo sabendo que o outro não quer ouvir aquilo? Mesmo sabendo que aquilo irá magoar? Mesmo sabendo que aquilo é de uma inutilidade atroz? Só uma resposta me assalta agora: egoísmo. Egoísmo faz com que não se enxergue a existência do outro, não se perceba suas necessidades, desejos, fragilidades. Um vomita, o outro se cobre: e assim caminha a humanidade. Ah, se a gente amasse todo mundo como ama um filho seria fácil, muito fácil perdoar - e viver.



Stella Florence nasceu em 1967, é escritora formada em Letras e vive em São Paulo. Tem uma filha, 30 tatuagens e oito livros. É exatamente desse modo, objetivo e charmoso, que a autora de "Hoje Acordei Gorda" e "Ser Menina é Tudo de Bom", entre outros títulos, costuma se apresentar.

4 comentários:

Edson Bueno de Camargo disse...

Gostei da reflexão, principalmente que me incluo nas pessoas que ás vezes é extremamente duro com as pessoas,

muitas vezes magoamos quem amamos, e somos respectivamente magoados,

medito nas palavras da Monja Coen, dizer o não é necessário, mas não precisa ser feito com raiva,

geraldo trombin disse...

Belíssimo texto e reflexão... fiquei até com inveja (boa), pois queria tê-lo escrito... Vou compartilhar...

Tem um ditado (acho que chinês) que diz mais ou menos isso: Antes de falar qualquer coisa, certifique-se de que o que vai dizer seja realmente mais importante que o silêncio...

Cinthia Kriemler disse...

Que texto! Queria que tanta gente lesse, além de mim. E passasse pela mesma revisão que estou fazendo agora, de avaliar quantas vezes cometi essa franqueza não pedida contra pessoas. Ah, a palavra errada depois de expelida! Nada a recolhe! Adorei!

Tamiris Gabriela disse...

Só uma resposta me assalta agora: egoísmo. Egoísmo faz com que não se enxergue a existência do outro, não se perceba suas necessidades, desejos, fragilidades. Um vomita, o outro se cobre: e assim caminha a humanidade.

Esse trecho reflete como um espelho da alma o que muitas vezes sentimos.
Perfeita colocação "um vomita e o outro se cobre" ou seja,alguém sempre atira as palavras enquanto o outro apenas se defende com a dor demostrada no silêncio que o nó na garganta cria.
Ass: Tamiris Gabriela da Silva