O menos que um de Alice Ruiz [Denise Freitas]

O menos que um de Alice Ruiz

Dificilmente a obra literária poderia ser vista a partir da leitura estanque do texto. Além das equiparações quase inadvertidas capazes de situar a fruição numa ordem de gosto, relacionando-a a experiências de leituras precedentes, há, ainda, a comparação entre o que se diz ou disse acerca da obra. Os paratextos, “toda a série de mensagens que acompanham e ajudam a explicar determinado texto” [1], são também seus componentes. Mas como comportar-se, o leitor, ao encontrar paratextos absolutamente incompatíveis com a realidade do texto? Que relações acionar e qual o produto de tais relações? Questões para as quais talvez haja um número insuspeito de respostas já que cada leitor empreenderá a sua. Tal variedade não impede, contudo, que sejam feitas algumas observações.

Não fosse tão comum encontrar nas publicações de poesia – assim como nos demais gêneros literários – introduções, apresentações ou comentários completamente desajustados aos poemas ali encontrados, suspeitaríamos de um equívoco qualquer de edição. Porém não se trata de equívoco, os paratextos se encarregam de legitimar, de consagrar autores para o ranking de vendas, o panteão do mercado editorial. Absurdos e desvarios de análise encontrados de parte a parte. Deve mesmo haver duas obras em uma: a que se lê e a outra, aquela magnífica, manifesta somente ao prefaciador.

Nesse sentido, parece pertinente o título escolhido por Alice Ruiz à sua publicação de 2008, Dois em um. Algumas sugestões do especialista, articuladas entre o dito e o não-dito das abas de capa e inspiradas por uma estonteante imaginação tentam forjar para o livro uma condição de indispensabilidade. Mas através de seu formato páreo, ou duplo, Dois em um alcança somente acomodar, sem o menor sinal de engenhosidade, o velho clichê dos antípodas: luz versus escuridão; dia versus noite; tudo versus nada.

hoje
sou uma das coisas
raras do planeta
capaz de dar à vida
tudo que ela tem de luz

flor
que aberta
traria da água escura
o pólen, a fruta

dia
que tiraria
de dentro da noite
o lado oculto da lua

tão rara
e como eu
todas as sementes
que o vento arranca de tudo
e atira no nada. [2]

A receita dos opostos se repete; do corte ao meio, o resto inteiro, o velho e o novo, o não e o sim. Bem que Alice quis, mas um poema – melhor dizendo, um bom poema – não se faz de desejo ou veleidade, tampouco resolverá admitir esse capricho, apenas:

queria tanto
fazer um poema hoje
uma canção que fosse
digna desse dia
com suas cores
brilhos e brisas

queria tanto
que esse poema me quisesse
e me fizesse um mimo
me desfazendo em risos

queria tanto esse dia em versos
meu coração
deste bem diverso
para sempre
conservado
em seu próprio encanto [3]

Embora não estejam completamente emparelhadas a la rime convencional, as reincidências sonoras empregadas implodem qualquer possibilidade de encontro com uma articulação de linguagem merecedora de destaque em razão de suas obviedades, de seu conformismo com a facilidade. Uma exceção pode ser encontrada no tipo de rima (toante) que associa as palavras fosse e cores e mimo e risos, situadas nas duas primeiras partes do texto transcrito acima; entretanto, se nada pode a andorinha solitária – como sugere o adágio – pouquíssimo será feito por essa forma de rima menos imediata. Convém salientar que a feitura do poema não está circunscrita nos domínios da rima ou da métrica, e esses domínios configuram uma parcela dos recursos linguísticos de que se servirá – ou não – o poeta. Conforme Octavio Paz, “um soneto não é um poema, mas uma forma literária, exceto quando esse mecanismo retórico – estrofes, metros e rimas – foi tocado pela poesia” [4]; dito de outro modo, a habilidade em formatar versos não garante a existência da poesia, pois “há máquinas de rimar, mas não de poetizar”. [5]
Dando continuidade à análise dos aspectos da linguagem em Dois em um, encontramos várias sequências descritivas; no livro, a apresentação de fenômenos e objetos compreende as regras sob as quais eles figuram no mundo. Não há surpresa, não há desajuste, mesmo aquilo que pretende o inusitado não ultrapassa os limites do previsível. Observamos exemplos dessa postura de acatamento do real no poema “PROJESOMBRAS” que refere, servindo-se do excesso de declarações, eventuais contornos adquiridos pela matéria na projeção de suas sombras. Escavação alguma é executada em relação aos sentidos e às possibilidades transfiguráveis que a incidência da luz sobre o mundo tende a acarretar; tampouco empréstimo, exploração ou furto a outros condicionantes além dos tradicionalmente associados ao fenômeno, quais sejam, dissimulação, similaridade, arremedo; aos sentidos que as análises corriqueiras intencionam calcificar, forcejo algum foi direcionado. Ainda que a fuga desse tipo de solução tenha sido planejada, seu resultado não fundou qualidades suficientes.

PROJESOMBRAS

no mundo das sombras
os objetos incham
grávidos de outras formas

silhuetas dissimulando similaridades
paródias e paradoxos
linearidades em desalinho
aqui
armas são a alma das louças
ali
projesombras milimetricamente calculadas

inauguram com humor
o outro lado do rigor

o primeiro plano
passa a pano de fundo
o que é o fundo?
o que é a figura?
o que é a coisa?
o que é a sombra?

em toda arte
as coisas sonham sombras [6]

No lugar do sonho das coisas – e de tantas metáforas equivalentes estabelecidas à suposta inanição dos objetos – talvez fosse preferível a escassez e, em favor desta, a captura das formas atravessando, de linguagens, os sentidos numa espécie de apalpadela invasiva ao improviso do mundo. Nem escassez, nem excesso; Alice Ruiz, mesmo utilizando-se do comedido das descrições, limita-se em cobrar tributos ao que haja razoável e tantas vezes já avistado. Aqui vale sublinhar o êxito de Francis Ponge ao recusar composições meramente contemplativas, saturadas de ineficiência; tais composições, no cerco imposto aos objetos, jamais lhes ocupam o terreno e satisfazem-se apenas em vigiar seus caminhos de acesso. Se em seu inventário, Ponge descreve coisas triviais, o faz concomitantemente à exposição dos “mecanismos de linguagem que sustentam as noções que temos desses objetos, de modo que cada texto seu se converte numa fábula anfibológica”. [7] Com isso, não detém seus significados, motivos, pretextos entre as fronteiras justificáveis do sonho, do engano, da semelhança ou da aproximação vaga; para ele, “o mundo não pode exprimir-se, construir-se, a não ser que o homem renuncie a seu orgulho e lhe dê rindo a palavra”.[8]
Em Dois em um não há qualquer vestígio dessas lições, ao contrário, sua linguagem se estabelece no campo desgastado da repetição, acrescentando peso e volume à “grande bobagem universal”. [9] O encontro da sugestão de aspectos inesperados no texto, graças a artifícios como inversões, isolamentos ou alterações de grafismos de uma palavra, não deve ser confundido com o trocadilho, a sacada sem esforço das ideias pré-cozidas contidas em poemas como: “verão / meus olhos veem / não verão”, [10] ou, “apaixonada / apaixotudo / apaixoquase” [11] ou, ainda, “seduzindo / tarduzindo / noites indo”. [12] Soluções caídas à beira do mau gosto.

Se, por um lado, o título da obra sugere multiplicidade, pluralismo, por outro, encerra uniformidade. Alice Ruiz opta pela monotonia singular, não tateia irregularidades, não expande nenhuma conquista levada a efeito pela poesia até as décadas finais do século 20; somente uma leve descontração e o humor fácil se encarregam de ornamentar essa estridente e superpopulosa sala de estar em que se transformou a literatura contemporânea, ambiente no qual todos – se devidamente mantida a elegância com os demais convivas – são bem-vindos e onde a tradição, reduzida à enunciação do nome do poeta da vez, embeleza inúteis cartões de visita alçados a desconcertantes abas de capa.

Tanta alaúza se entrelaça com uma suposta popularidade atribuída à autora – talvez em decorrência de seu trânsito em ambientes da música popular – e que chega mesmo a ser destacada como justificativa à relevância da publicação aqui em apreço. Aparentemente, a soma do público tem bastado para nutrir a satisfação em ver uns zeros incorporados aos índices de leitores-algarismos, não se cuida, no entanto, de verificar se foram amontoados à direita ou à esquerda; um grande público – vá lá, pode ser até que haja –, mas pouquíssima reflexão e quase nenhuma exigência estética.

Sobre o público, convém que se lance também algumas suspeitas. Há uma significativa parcela de leitores levianamente dispostos a, tanto mais negligenciar avaliações qualitativas em relação à obra, quanto maior for sua afinidade e solidariedade à biografia do autor. Há também os que se comovem ao consumo em face de alguma excentricidade do artista posta em evidência. Em ambos os casos percebe-se o esquecimento – ou simulação do esquecimento – da condição de disjunção entre as experiências vivenciadas pelo indivíduo que compõe a obra e o resultado de seu trabalho. Leitores assim, contanto que eles disponham de algumas informações sobre a vida do autor, e isso é bastante comum de ocorrer em se tratando de nomes mais populares, facilmente encobrirão o poema com dados biográficos em passagens como as que seguem:

dando à luz uma estrela da manhã
toda luz da manhã
passou por uma estrela

amamentar a estrela
enquanto a via-láctea
tiver leite [13]

11/7
pressupondo que existe
memória na morte
e dentro dela um calendário
feliz aniversário [14]

11/7
a data de hoje
a data da tua vinda
fosse outro ano
seria vida [15]

A disposição em encontrar, na ficção, os vestígios da realidade – e vai aqui uma opinião desprovida de outros métodos de análise, além da observação mais ou menos atenta – parece ser bastante corriqueira e talvez até tenha suas razões, embora não colabore em nada para a qualidade estética das produções. É importante salientar que a obra de arte não materializa o “efeito de uma causa” [16] e, portanto, não se desvenda na medida em que “as causas, situadas na existência do homem escritor” [17] sejam conhecidas. Afinal, nada mais contrário à inventividade artística do que “transformar em obra os dados originais” [18], ou, satisfazer-se com o encontro desses dados explicitamente enxertados na obra, nas duas situações, negligencia-se a prerrogativa de que a obra de arte inicia exatamente no ponto onde desfigura seu modelo, onde deforma seu lugar de partida.      


[1] ECO, Umberto. Seis passeios pelos bosques da ficção. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. p.: 150
[2] RUIZ S., Alice. Dois em um. São Paulo: Iluminuras, 2008. p.: 31
[3] Id. Ibid. p.: 37
[4] PAZ, Octavio. O arco e a lira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982. p.: 16
[5] Id. Ibid. p.: 16
[6] RUIZ S., Alice. op. cit., p.: 40
[7] MÜLLER, Adalberto. In: PONGE, Francis. Mimosa. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2003. p.: 10
[8] PETERSON, Michel. A manobra do texto. In: PONGE, Francis. A Mesa. São Paulo: Iluminuras, 2002. p.: 17
[9] MOISÉS, Leyla Perrone. Roland Barthes: o saber com sabor. São Paulo: Brasiliense, 1985. p.: 90
[10] RUIZ S., Alice. op. cit., p.: 140
[11]  Id. Ibid. p.: 72
[12] Id. Ibid. p.: 76
[13] Id. Ibid. p.:129
[14] Id. Ibid. p.: 56
[15] Id. Ibid. p.: 71
[16] MOISÉS, Leyla Perrone. A falência da crítica – Um caso limite: Lautréamont. São Paulo: Perspectiva, 1973. p.: 51
[17] Id. Ibid. p.: 51
[18] Id. Ibid. p.: 77

Fonte:


Denise Freitas-Escritora e professora de história; é autora de Misturando Memórias (2007), Mares inversos (2010); está entre os autores que compõem a Antologia poética: Moradas de Orfeu (Letras Contemporâneas, 2011); possui publicações em diversas revistas e sites literários, dentre os quais, Revista Sibila, Germina Literatura, Musa Rara, Artistas Gaúchos, Revista Modo de Usar.

0 comentários: