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Tatiana Carlotti - [Escritora Brasileira]






Tatiana Carlotti é paulistana, balzaquiana e autora do blog Atalhos Urbanos em que escreve suas crônicas e contos.

Site: SobremargenS

 







 Texto de Tatiana Carlotti


Palavras Gasosas

Palavras quando não ditas esfumaçam. Ficam embaixo da pele, esperando o toque que as liquefaça novamente. Dependendo do tamanho do texto, alcançam os olhos e embaçam a visão. Começam sempre com uma frase que perdeu o time, por medo, susto ou distração.

Palavras gasosas se recolhem no abrigo surrealista das ilusões. Grandes ou pequenas, mas feitas de imagem e cor, são fugazes feito um arco-íris. Jamais gritam. Precisam de um abraço que as aqueça a ponto de quem sabe um dia chover ou se tornarem sólidas.

Enquanto não podem, alimentam-se de garoas alheias. Salivam em outras vozes. Respingam citações. Na verdade, palavras gasosas se distraem com as sensações na superfície da pele. Como um vizinho que ouve a voz de alguém, copo de vidro na parede, à espreita.

Às vezes, reagem. Espirram pontos finais ou jorram reticências. Dependendo da fúria, disparam enlouquecidas no corredor do corpo humano. Um vendaval capaz de comprimir o coração, acelerar a corrente sanguínea, esmagar cada um dos órgãos.

Para contê-las é preciso respirar. Aos poucos elas acalmam com mais ar. Há quem durma para diminuir suas trovoadas. Outros inventam pára-raios, dispersos numa sequência lógica. Esforço quase impossível, afinal, é fato, um raio cai inúmeras vezes no mesmo lugar.

Dizem os especialistas que o melhor caminho é soltá-las. De preferência num tom de voz que seja claro o suficiente. Mas nem sempre é possível. Tal como no filme de Buñuel, elas não conseguem sair da sala de estar sem a lembraça de como foram parar ali.

O problema é que não
são domesticáveis.

Talvez, recuperar o silêncio. Só ele é capaz de dissolvê-las, bem devagarinho, no tempo. Mas palavras gasosas transmutam. Passam do real ao imaginário e do imaginário ao real com tamanha sutileza, capaz de confundir qualquer silêncio.

E enquanto não chovem, dão ouvido às sereias, cantando o dia em que escorrerão pela boca para se materializarem num sólido sorriso.


Tatiana Carlotti
Todos os Direitos Autorais Reservados a Autora

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