Paulo Sesar Pimentel [Professor e Escritor Brasileiro]
Paulo Sesar Pimentel - nasceu
em 31 de maio de 1981em Coronel Sapucaia–MS, mas mora em Mato Grosso há mais de 20 anos.
É graduado em Letras (Unemat/ Sinop-MT) e mestre em Estudos de Linguagem (MeEL/UFMT).
Publicou as coletâneas de contos Café com Formigas, Ângulo Bi (com outros autores mato-grossenses) e o guia de leitura Dez Modernistas (com Santiago Villela Marques).
Atua como professor de literatura no Ensino Médio e Superior em Cuiabá-MT.
Atua como professor de literatura no Ensino Médio e Superior em Cuiabá-MT.
Paulo Sesar Pimentel, autor do livro (Diário de uma quase) publicado pela Carlini& Caniato Editorial, recebeu neste ano o prêmio de menção honrosa no prestigiado 12º Concurso Nacional de Contos Josué Guimarães, em Passo Fundo – RS, pelos contos inscritos: “De corpo e alma”,“A verdadeira dor” e “O cão sem plumas”.
12º Concurso Nacional de Contos Josué Guimarães
Anúncio foi feito após a solenidade de abertura da 14ª
Jornada Nacional de Literatura Josué Guimarães, que empresta seu nome ao
Concurso de Contos realizado pelas Jornadas Literárias há 12 edições,
completaria 90 anos em 2011.
A atriz, poetisa e cantora Elisa Lucinda prestou sua
homenagem, em nome de todos os participantes desta 14ª Jornada, por meio de
poesia e música. Na sequência, o diretor do Instituto Estadual do Livro Ricardo
Silvestrin anunciou os vencedores do 12º Concurso de Contos Josué Guimarães:
João Goulart de Souza Gomes foi o grande vencedor. O escritor baiano foi
premiado com R$ 5 mil e uma viagem de dez dias a Santiago de Compostela, na
Espanha, onde poderá estudar durante este período na Universidade de Compostela.
Gilmar Penteado, que conquistou o segundo lugar, recebeu R$ 3 mil como premiação. Receberam menção honrosa Paulo Cesar Pimentel e Guilherme Gigliane. Os filhos de Josué Guimarães, Rodrigo e Adriana Machado Guimarães, entregaram os prêmios aos vencedores.
Gilmar Penteado, que conquistou o segundo lugar, recebeu R$ 3 mil como premiação. Receberam menção honrosa Paulo Cesar Pimentel e Guilherme Gigliane. Os filhos de Josué Guimarães, Rodrigo e Adriana Machado Guimarães, entregaram os prêmios aos vencedores.
A VERDADEIRA DOR
(Menção Honrosa no 12º Concurso Nacional de Contos Josué Guimarães)
(Menção Honrosa no 12º Concurso Nacional de Contos
Já fazia alguns dias que fora sequestrado. Não havia como
precisar quantos. Estava fraco. Uma ração daquelas, por dia, quem se
mantem em pé?
Mesmo água, regrada. Fome de tudo. A liberdade é cara, mas
tanta coisa boa que vem junto. Será cara a liberdade ou os seus acessórios? No final, pensando, aúnica coisa a se fazer no claustro, chegou à conclusão de que não sabia definir liberdade. Saberia definir algo? Por mais que seu cérebro se esforçasse, algo escapava, talvez fosse a fome, a sede, o medo, a dor. Talvez apenas o contato cara a cara consigo mesmo, sem ninguém ver quase o dia todo. Sabia mesmo que queria cama, comida, água correndo pelos poros, água mineral descendo pela garganta, gelada,tomada em um copo de cristal, pois o ritual às vezes é mais importante que a necessidade. Pensava nos seios de Mocinha, tão em flor, a moça, tão em flor seu sexo, aberto ao mundo, escancarado às vontades babentas de um velho sátiro. A esposa em casa, gorda e vestida, ornamentada de joias, rica,por ele, há tantos anos, com a alma do primeiro milhão no dia anterior.
Ao menos ele podia escolher. O pé, sapato cobre, o pé, sapato esconde. Ele tinha uma coleção de sapatos argentinos e italianos, caros, suficientes para aplacar ador, que começa com os olhos. Na mão, mínimos e anulares não fazem tanta falta.
Ao menos o anular não carrega mais o compromisso e talvez à merda a patroa
gorda, emperiquitada, enfeitada às turras pra esconder sua frustração. Quem sabe Mocinha, do subúrbio pra sociedade, do desconhecimento para as revistas da moda, tão linda, tão em flor, brilhando nas revistas e despertando o desejo dos machos no cio da cidade. Dele. Minha. De mais ninguém. Só sair dali. As faltas se compensam com dinheiro. Defeito tem mesmo é pobre. Ele teria necessidades especiais. Isto o tornava até mais charmoso. Olha, aquele não é o empresário que foi sequestrado, torturado, passou dias no cativeiro, mas saiu de lá, ergueu-se das cinzas, tornou-se mais titã? Sim, é ele, e está charmoso, velho e charmoso,melhor, experiente e charmoso. Aqueles cabelos grisalhos cada vez mais brancos dão a ele, junto com a cintura, um ar de prosperidade e sabedoria que só quem viu a morte de cara tem. Quem viu a morte e ganhou dinheiro. Nessa hora, ele sorria, mesmo sentindo as hemorragias nas extremidades, mesmo sentindo a dificuldade em mover os músculos da face, inchados de tanta precaução dos bandidos. Mas vivo, prestes a viver com Mocinha, em flor, prestes a mandar uma esposa, árvore de natal o ano todo, sem presentes, ao inferno. Podia sentir a pele fresca, tão fresca, sorri pensando em uma peça rodrigueana, pensando que todas as mulheres deveriam estacionar nos quinze anos, na pele macia, pós-espinhas,pré-rugas, recém menstruadas, ainda com o doce da pureza a escorrer nas coxas brancas, nada de marcas de sol, nada de marcas de pecado ou desejo, corpos na areia, numa espécie de grande mercado de carnes, nada de marcas na alma,homens suados exercendo sua animalidade na flor. Uma moça, ainda com pudores, quanto mais, melhor. Com dedos rápidos, a afastar dedos rápidos, que se esgueiram por suas fendas, dedos ágeis que arrancam o prazer da moça,mesmo quando a boca grita não e a raça, o instinto, insiste no sim. Dor mesmo é perder isso. Dignidade é algo que se constrói quando os ventos são favoráveis.
Não tocar Mocinha, seus quinze anos em flor, é matar a alma, é morrer em guerra, é sofrer o céu abandonado por Deus. Ah, ele perdera dedos, perdera algo,
Deus fora generoso com os homens, dera a eles pingentes e apêndices que, a
frente do corpo, avançando a frente do corpo, ofereciam o
mundo como conquista. Agora, na palavra dos seqüestradores, ele tinha
que escolher o que
perder, como se seu corpo fosse a grande loteria da carne, e
ele a enfeitada mulher que gira o globo e retira as bolas, numeradas, dando
a felicidade a algum desgraçado, a loteria da carne. Não, as bolas não, metáfora cruel para alguém naquela situação. Ele podia dizer que parte seria cortada e enviada à esposa, na tentativa de convencer a megera de que era séria a ameaça. Esgueirando-se em sua mente, de repente, começou a surgir uma certeza, um medo, uma consciência. E se? Tremia e, sentindo o corpo chacoalhar, sabia que mais sangue seu vermelhava aquele chão imundo. Ele, um prócer daquela cidade, daquele estado, tão respeitado, tão admirado, tão amado. Ao menos por Mocinha, em flor,que lhe pagava os confortos físicos com braços quentes e envolventes, dóceis e ágeis, como a língua dele, como a língua dela. Ah, perder o paraíso. Perder a árvore do bem e do mal que a menina de quinze anos traz ainda entre as pernas.
Caso passem os quinze anos, a fruta apodrece, se ela for colhida aos quinze, desgraçados os que tentarem naquela árvore saciar a fome. Um sátiro. Um safado. Com tanto medo. Os libidinosos, os viciados, os dependentes, toda corja
Eles entraram falando entre si. O homem se encolheu. Nova parte, novas perdas. A mulher, matrona safada e enfeitada, sentada no sofá de couro tratado,
Agora sabia, mas talvez não resolvesse esse problema. A mulher, talvez,
não pagaria.
“Então, o que você escolhe perder agora?”
Já não podia assumir um casamento, agora não poderia assumir
um noivado. Com uma dor lancinante, a faca devia estar cega, ou
havia prazer na coleta da prova, ele sorriu. Agora, as instituições eram
impossíveis, fisicamente impossíveis, meu amor, pensou em dizer à Mocinha, levantando uma taça,alisando a toalha de linho da mesa. Pra mim, alianças só na palavra. Sorriu,abertamente, e parecia o riso um esgar. Tão distante Mocinha, em flor, tão distante a mesa cara, elegante, tão distante seus dedos restantes no meio das pernas da moça, Mocinha, em flor. Levou um tapa na cara, dedos espalmados do bandido, os cinco no rosto,apenas três em cada mão,os próprios. Não teve tempo de explicar que o riso vinha da ironia.
Talvez também houvesse a necessidade de explicar o que é ironia. Caído no chão, dormiu, desmaiou, apagou,que diferença faz?
Escuro no claustro. Deve ser noite. Sombras opacas ainda
permitem alguma visão. O toco de hoje ainda sangra, dói. Não há
humilhação. Não há sonhos com Mocinha, não há flores. Fecha os olhos e vê a
patroa. Roncando alto, afogando em banhas uma respiração difícil, dispneia e baba, lençóis egípcios,oitocentos fios de linho puro, alvo, branco, claro, nevoento. O famoso sono dos justos. A leitoa que carrega no anular seu nome, carrega na bolsa sua conta,carrega na cabeça suas senhas, carrega no pescoço seus ouros, carrega nas costas sua vida, mais magra, muito magra agora, tantos dedos, quatorze, perdidos.
Ela não pagará. Nada, nem um centavo para esses marginais, uma hora dessas, meu marido já deve estar morto, consciência em paz, não há nada a fazer, ninguém sobrevive a tantos dedos na vida. No tempo presente, ela dorme na paz do impossível, na paz da impossibilidade, na paz do outro. Ele agoniza, marido cativo, e pensa no que sobra pra cortar, pensa no que sobra pra perder, pensa no que pode ganhar e a balança pende contrária à lógica. Ele chora e nas lágrimas ainda abundantes, descobre o que é dor, dor mesmo, e percebe que elas são tantas que nem tem dedos, mais, pra contar.
Livros de Paulo Sesar Pimentel
Seu primeiro livro Café com Formigas
Autor: Paulo Sesar Pimentel
Reunião de contos matogrossenses
Autor: Paulo Sesar
Pimentel
Edição: 1ª
Ano de publicação: 2010
ISBN: 978-85-8009-013-0
Tamanho: 13,8 x 20,8 cm
Número de páginas: 104
Gênero: Literatura -
Contos
Editora: Carlini &
Caniato
Preço de capa: R$20,00
Diário de uma quase é o
segundo livro de contos de Paulo Sesar. Os contos descrevem personagens
contemporâneos com sensações incômodas e, talvez, deslocadas de uma galeria de
almas tristes diante das (in)capacidades das relações com as formas
estabelecidas de mundo. No entanto, no ponto onde as possíveis experiências
ruins e traumáticas ultrapassam o, imaginado, individual e tornam-se coletivas
e, de algum modo, belas.
A
sinagoga
(Publicado no livro Diário de Uma Quase/ 2010)
Tínhamos
fome e instintos de viver. Uma vontade tão grande de viver que a fome se
tornara um combustível, gasolina incandescente movendo, corroendo,a circular
por todos os lados e não chegar a lugar algum. Éramos amebas protozoários
aves répteis, qualquer forma de vida, deslizante, querendo só
a continuidade, o caminhar contínuo pela terra, como existência, como
forma de se separar do caos e continuar in-diví-duo. O vazio em nós era
gigante, devorador.
Havia uma
dor física, desesperada. Não sei há quantos dias não comíamos. Só cachaça.
Havia tonéis. Fabricávamos muita. Ninguém mais comprava. Não existia dinheiro,
nem comida. Então bebíamos e aplacávamos a realidade com um sonho etílico
possível. Não era possível. O vácuo em nosso estômago apenas crescia,como uma
quimera que se alimenta de miséria. Enlouquecíamos bêbados de cachaça e
fome.
Éramos
uns treze. Miseráveis, esfarrapados. Nossa choça pairava suja no meio da
caatinga esturricada. Impossível pra quem olhava acreditar que
aquilo parava em pé. Suja e estropiada, esfomeada de qualquer
cor, como nós, de qualquer carne. Na boca ou na barriga. Já não falávamos.
Apenas olhos perdidos,medindo os membros dos outros e imaginando se daria,
limpo os grandes ossos secos, qualquer fiapo de carne magra, músculo rijo
pra uma sopa humana.
Faltava
coragem. Para lutar e para realmente agir.
Eu já
tivera tudo. Vivi, estudei, amei e até cri e hoje não há mendigo que eu
não inveje por não ser eu. Fiz de mim o que não pude e o que podia fazer de
mim não o fiz. O dominó que vesti era errado. Quando quis tirar a máscara,
estava pregada à cara, quando a tirei e me vi no espelho, já tinha
envelhecido. Conto minha história, pra se ver como se é ser
triste. Somente olhos e vontades. Comfome, preenchendo a barriga com palavras.
Com fome e contando uma história.
Foi
quando olhei o céu. O sol parecia um enorme ovo frito no azul sem nuvens no
céu, ninguém pensava em mais nada. Eu olhava o céu. E vi.
Grandes carcarás, como estandartes da morte a medir, como eu fazia, nossas
carnes humanas e esperar a hora da seara.
Seus voos
rasantes eram cada vez mais baixos, cada vez mais agourentos. Grandes asas
cobriam o sol, refrescavam o calor, mas anunciavam um fim. Quase sem
forças estirei no chão. Os outros doze me olhavam, sem forças, ou vontade
(de), pra me proteger. Círculos cada vez mais concêntricos foram se desenhando
acima de mim. Uma tontura seca, como sempre imaginei ser a da morte. Com ela,
desceu um,pernas secas, asas grandes, corpo magro e esfarrapado, Caronte, como
deve ser o fim. Quieto, esperei a hora. Ele veio, corajosamente, pegar a
parte que lhe cabia em meu latifúndio. Seus bicos, suas garras eram
velozes, ágeis, calculados. Maseu fui mais rápido. Ao alcance da mão,
grudei-lhe o pescoço e apertei. Havia um cheiro podre que não sei se
emanava de mim ou da criatura. Só apertei. Senti raiva, senti medo, senti
prazer. Agonizante, sua cabeça deitou em meus pulsos.Em semanas, primeira vez
sorri.
Doze
cabeças estavam voltadas pra mim. Outros sorrisos despontavam.
Naquela
sinagoga de fome, despontou o riso, espectral, demoníaco, estridente,dado em
plena luz, sem pudores. Um Deus adormecido não nos espreitava e,provável, com
nossa miséria não se divertia. Por isso, nessa hora, não tínhamos vergonha
alguma. Dançamos ao som do desespero enquanto depenávamos acaça.
Ave
limpa, afoitos, despejamos o pouco da água na panela e acendemos o fogo. Quatro
horas de gestação invertida, esperando aquele feto negro e de músculos duros
que iria preencher nossos vazios. Quatro horas de agonia. Ao abrir a panela, o
cheiro adocicado de coisa podre misturou-se ao outros cheiros inomináveis
daquele mundo. Mas a carne ainda era dura, mesmo com a fome tanta não
havia mais dentes pra tanta resistência. Treze cabeças
desoladas despejavam novamente a ave na panela. Dois litros da cachaça
inútil e abundante. Mais cinco horas de aflição. Ainda duro, mas sem
paciência, rasgamos músculos e carnes, com mãos, com facas cegas, com
unhas e, disputando a caça parca do dia, banqueteamos nossa porção de
morte, vida e miséria.
Bicho papão
(Publicado no livro
Diário de Uma Quase/ 2010)
O monstro vinha quase toda noite. Era só a mãe apagar a luz que ele deslizava leve, sutil, fluido e esfumaçado. A
princípio, ele só olhava. Ela nem sequer abria os olhos, mas
percebia as brasas queimando no escuro, esperando,aguardando, com
um cheiro nauseabundo a inundar as narinas, suadas e dilatadas, da
menininha assustada. No princípio era isso, olhava. Depois ia embora, mas
deixava a presença na memória, assustada demais, que não pegava no sono, o
que talvez explique as olheiras que começaram a deslizar por sua face.
Monstros
deveriam ser impedidos de agredir, de atacar, mas eles sempre encontram
o atalho mais curto até o susto das criancinhas.
Ninguém notava
absolutamente nada. As olheiras, sozinhas, em pouco tempo se
somaram a um cansaço que a deixava lânguida em toda a pequenez desajeitada
de pré-adolescente. Letargia. Mas ainda era pouco. O monstro já
se revelava e nem que as noites insones deformassem completamente a
impúbere criaturinha, a vontade de ferir, machucar, tomar pra si se
revelaria em sua forma quase que abstrata. Por toda a vida, as marcas do
medo ficariam. O medo é o pior ferro em brasa, queima profundo e deixa
sequelas, queima mais e deixa mais sequelas, queima as sequelas formando
outras, maiores, mais fundas, mais eternas e invisíveis. O que
verdadeiramente dói é invisível aos olhos, dos outros.
A litania do
monstro formava já uma ladainha de gemidos ocos, sentidos, dor ou prazer,
qualquer limiar, impossível de traçar. Existia ele e ela sabia. Estava instaurado
o medo. Estava instaurado um certo caos. Era crescente. Um buraco negro
incontrolável. Não queria mais a menina dormir, descansar
era-lhe impossível... Era-lhe impossível qualquer sonho. Maturidade
sofrida em corpo infantil. As carnes parcas da criaturinha sobre a cama
nem sequer reclamar podiam. A mãe ocupada demais. Os irmãos crescidos e já
indiferentes a medos.Ou causadores dele num mundo que não é feito para meninas.
Mas ela sabia que ele existia. Mais cedo ou tarde, suas mãos grandes,
ásperas e peludas passeariam pelo corpo impúbere. Cedo ou quem sabe cedo
demais não haveria escapatória.
Seu corpinho
seria destroçado por toda a brutalidade que vinha dessa luz efêmera, desse bafo
forte, desses brilhos maldosos atrás da porta, espiantes, curiosos
de suas formas humanas.
Que se faz?
Sozinha no mundo, esquecida no escuro, com a vida na mão e nenhuma
experiência de como se defender? Que se faz com tanta tristeza
ainda misturada ao gosto do leite materno? Ah, a indiferença, por fim. Que
se faz com ela? Se por um lado a corja humana não a notava, por outro
lado, devido ao monstro, ela sabia que estava perdida. O Caminho é longo,
a volta é impossível.
Consciência
demais faz mal. Mais ainda na infância. Conhecimentos em excesso destorcem
a vista, os miolos. Tudo se desmancha quando se sabe. E ela já sabia.
O monstro já existia. Não havia retorno. Quem sabe, nem mesmo, só por um
ínfimo instante, não havia final feliz?
Foi quando uma
noite. Só isso, uma noite. Começada como tantas outras.
Com medos, com
inquietações, com a dor da espera. Mais uma noite. Mais alguns pesadelos.
Uma respiração suada em todos os poros, pela extensão de pele macia de
menina em
transformação. Foi nessa noite que ele chegou e entrou.
Chegara
a hora. Sem chances de fuga qualquer. Pra qualquer um chega o dia e nada
há de especial nisso. Ele chegou. Ela, a pequena e triste e comum menina,
não esboçou reação. Sussurrou apenas, palavras inaudíveis e sempre
inúteis, clamando alguma humanidade:
— Papai...
Compra, venda
e negócios sentimentais
(Publicado no livro Diário de Uma Quase/ 2010)
Eu estava no
banho. Ao sair, corpo pingando, costas muito molhadas, ela me diz:
— Acabou de dar
no jornal. Aquele diretor, daquele filme, está vendendo a mulher. São apenas 2
milhões.
— Dólares ou
reais?
— Libras.
— Uau, isso
equivale a muito dinheiro. Paga-se a quem?
— Como assim, a
ele, é claro.
Devo dizer que o
“é claro” dela, dito de canto de boca, me excitava. Corpo molhado, toalha
caindo, outras partes subindo...
—
Excentricidades. No mundo deles é permitido, eu acho.
Acredito que meu
“eu acho!” sempre a irrita.
— No nosso
também é.
Agora, o dito no
canto da boca era uma ironia. Isso também me irritava.
As coisas
começaram a fazer movimento inverso. Umas a subir, outras a cair.
— Não acho que
valha a pena, falei sutil.
— Peraí, não
valho a pena?
— Eu disse que
não vale a pena. Mas, tem sempre um doido disposto a comprar tudo, sempre tem.
— Quando eu me
refiro a mim, não sou algo que um doido compra.
— Mas eu não me
referi a você, em momento algum.
— O assunto era
eu.
— Não, disse
assustado, o assunto era a mulher dele, à venda.
— Você sempre se
desvia quando se sente acuado, é digno de gente frouxa.
Definitivamente,
agora não havia mais riso. Nem conversa. Revidar?
— Meu amor, eu
não te venderia. Desfrutar seu corpo é um prazer reservado a um único homem,
por sorte, loteria divina, ou o que quer que seja, esse homem sou eu.
— Bom, das duas
uma, ou o meu corpo não vale um mísero centavo no ebay, ou você está com medo
de que eu ache alguém disposto a pagar mais que isso pra ter não apenas meu
corpo. E desfrutar mais do que você consegue. Essa, assim como outras, doeu.
Ego ferido é o
pior machucado depois de qualquer fratura exposta.
— Eu desfruto mais
do que seu corpo. Desfruto sua companhia, isto é, quando não sou obrigado a
ouvir futilidades, se é que você entende.
— Isso é
patético.
— Eu também
acho. Afinal, você é minha mulher, não está à venda.
— Não. O
patético nunca foi vender ou não vender, lei do mercado, se é que você entende. O patético
é a fuga que você acha que achou. Esquece. Vou assistir TV.
Primeiro: eu não sei de onde surgiu essa conversa. Ou pra onde ele foi
e irá. Segundo: elas, as conversas, estavam se tornando cada vez mais
estranhas, quem sabe bizarras, e isso é um indício. Melhor dizendo, indício é a
pista deixada por um serial killer no locus do crime; indício é um cabelo louro
encontrado no seu pescoço por uma namorada morena, ou mulata; indicio são
restos de fogueira esquecidos pelos bandidos no começo de filmes de faroeste.
Essa conversa
e todo o pacote de outras era um indicador. A) ela estava
louca. B) tudo indicava o fim.
Três dias depois
nós terminamos. Três dias depois, o diretor vendeu a mulher. As duas cenas
foram patéticas. Ela, com cara de lágrimas já secas, pra mim falsas, juntando
calcinhas penduradas pela casa, resultado de sexo ardente ou da lavagem
compulsiva. O diretor, na frente de inúmeras e alcoviteiras
câmeras
entregando a mulher, ou amante, ou posse, com direito à coleira no pescoço,
cravejada de pedras, e discurso inflamado. Quarto dia, a boa e velha solidão em
casa. Pernas cansadas pra cima. O bom e velho sofá sustentando minha bunda e
meu saco coçado. Eu em frente à TV.
No dia seguinte,
happy hour com amigos. A vida de solteiro tem seus melindres, tem seus códigos
mutantes. Você sai, desaprende e, quando volta,
percebe que tudo
mudou. Inclusive o afeto que toda mulher tem por homens de aliança. Talvez
porque eu já não usasse aliança. Aí vem a encruzilhada: não sei o que dói mais.
O pé na bunda, a falta do compromisso no dedo, alimentando o desejo das feras
insaciáveis por homens comprometidos, ou ela, ex-noiva, entrando no bar, com um
moço bonitão, usando um espetacular colar com três voltas de pérolas. E um
sorriso de cadela no rosto.
Paulo Sesar
Pimentel
Todos os
direitos reservados ao autor.






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