Crônica do amor que começa [Xico Sá]
Artigo publicado na Folha de S.Paulo
Esta semana não tem jeito, esta semana é de conversa com Paulo Mendes Campos. Reler o homem dá nisso.
José Carlos Oliveira, mais um gênio da Cachoeiro de Roberto, Rubem Braga, Sérgio Sampaio etc, respondeu a PMC quando este escreveu, em 1964, “O Amor acaba”, um dos mais populares textos da literatura brasileira.
Ao reler a resposta, cocei os dedos para rabiscar também a minha versãozinha vagaba. Ei-la:
E quando começa o amor, Paulo? E quando começa o amor, Carlinhos Oliveira?
O amor começa, vos digo, em uma noite de sexta, a noite do pecado por excelência, o amor de uma comerciária que saiu de casa de vermelho, calcinha no capricho, crente que o amor principiaria, ela leu no horóscopo, Sagitário seu signo, o amor principiaria, qual o Gênesis, calcinha no esmero, o fiat lux, antes do último ônibus, no barzinho, na vida simples da música ao vivo, lua cheia, papel crepon, batata frita, o beijo-ou-não-beijo, será que ele presta?
Em Arcoverde, no sertão de Pernambuco, ao encontrar uma morena de Garanhuns, terra de 17 tons de morenidade, o amor começa. Era uma morena caldo-de-feijão-vermelho, melanciosa boca, buceta de manga rosa, batismo cítrico, diocesano, vida macuca.
O amor começa em qualquer geografia, LSD ou GPS. Na colina silenciosa do Pacaembu, SP, revendo um filme de Cassavetes, com as coisas dos anos 70 o amor rebobina e reverbera como o replay de ácido que teima a não sair do juízo, eternas ondas.
O amor começa, principalmente na rua da Aurora, Recife, na luz do fim de tarde, não peça que eu explique, são os mistérios do Planeta.
E quando você menos espera, o amor começa, sabe onde?, no joelho de Camila Pitanga. Um amigo meu, muito tempo atrás, viu que a nega sentia dores no joelho, talvez de um mau jeito na pista de dança. Pegou o gelo do uísque e botou nas dobradiças da deusa. Reacendeu os olhos da marlinda. Se aquele amor não deu certo, problema do amor mesmo, mas que algo começou naquele instante, ah santa fagulha!
O amor começa “ah lá em casa”.
Pobre de quem acha que o amor precisa que a fila ande. O amor é mais ligeiro, rápido, o amor é tão avançado, o amor é centroavante em impedimento.
Amor não carece de tira-teima.
Amor é impedimento. Como quem ama homem ou mulher casada, por exemplo. Isso não significa que o amor não tenha começado, mesmo de forma proibida, o amor não pede licença, o amor detesta o cartório, o amor cara-de-pau simplesmente começa.
O amor é tão lindo que às vezes já começa subindo os créditos do filme, uma transa e the end. Vai duvidar que era amor o que deveras sente até hoje!
O amor começa num lual. Costuma ser o amor “cuidado frágil”. Nunca confie num amor que começa com todo aquele cenário perfeito, maré cheia, música hippie, lua idem, tudo no clichê da lindeza.
José Carlos Oliveira, mais um gênio da Cachoeiro de Roberto, Rubem Braga, Sérgio Sampaio etc, respondeu a PMC quando este escreveu, em 1964, “O Amor acaba”, um dos mais populares textos da literatura brasileira.
Ao reler a resposta, cocei os dedos para rabiscar também a minha versãozinha vagaba. Ei-la:
E quando começa o amor, Paulo? E quando começa o amor, Carlinhos Oliveira?
O amor começa, vos digo, em uma noite de sexta, a noite do pecado por excelência, o amor de uma comerciária que saiu de casa de vermelho, calcinha no capricho, crente que o amor principiaria, ela leu no horóscopo, Sagitário seu signo, o amor principiaria, qual o Gênesis, calcinha no esmero, o fiat lux, antes do último ônibus, no barzinho, na vida simples da música ao vivo, lua cheia, papel crepon, batata frita, o beijo-ou-não-beijo, será que ele presta?
Em Arcoverde, no sertão de Pernambuco, ao encontrar uma morena de Garanhuns, terra de 17 tons de morenidade, o amor começa. Era uma morena caldo-de-feijão-vermelho, melanciosa boca, buceta de manga rosa, batismo cítrico, diocesano, vida macuca.
O amor começa em qualquer geografia, LSD ou GPS. Na colina silenciosa do Pacaembu, SP, revendo um filme de Cassavetes, com as coisas dos anos 70 o amor rebobina e reverbera como o replay de ácido que teima a não sair do juízo, eternas ondas.
O amor começa, principalmente na rua da Aurora, Recife, na luz do fim de tarde, não peça que eu explique, são os mistérios do Planeta.
E quando você menos espera, o amor começa, sabe onde?, no joelho de Camila Pitanga. Um amigo meu, muito tempo atrás, viu que a nega sentia dores no joelho, talvez de um mau jeito na pista de dança. Pegou o gelo do uísque e botou nas dobradiças da deusa. Reacendeu os olhos da marlinda. Se aquele amor não deu certo, problema do amor mesmo, mas que algo começou naquele instante, ah santa fagulha!
O amor começa “ah lá em casa”.
Pobre de quem acha que o amor precisa que a fila ande. O amor é mais ligeiro, rápido, o amor é tão avançado, o amor é centroavante em impedimento.
Amor não carece de tira-teima.
Amor é impedimento. Como quem ama homem ou mulher casada, por exemplo. Isso não significa que o amor não tenha começado, mesmo de forma proibida, o amor não pede licença, o amor detesta o cartório, o amor cara-de-pau simplesmente começa.
O amor é tão lindo que às vezes já começa subindo os créditos do filme, uma transa e the end. Vai duvidar que era amor o que deveras sente até hoje!
O amor começa num lual. Costuma ser o amor “cuidado frágil”. Nunca confie num amor que começa com todo aquele cenário perfeito, maré cheia, música hippie, lua idem, tudo no clichê da lindeza.
O amor tem que começar, por exemplo, na contramão, o amor tem que começar em São Paulo, para depois evoluir até a beira da praia, uma pousada, o sal marinho que salva os velhos safados, uma metida em pé romantiquinha antes do jantar e da larica, a fome de viver, a perna bamba diante do garçom que pensa “já fui bom nisso”.
O amor começa quando o cafa cita na mesa “o amor acaba”.
O amor acaba quando o cafa é tombado e recomeça tudo de novo.
Por essas e por outras é que fico aqui bem paradinho, coladinho, porque se o amor se mexe muito, o amor já era, amar é coisa de superbonder, amor é stop, amor é…, parou, amor é estátua e um gato brincando por cima.
Quem nasceu primeiro: o amor acaba ou o amor começa?
O amor começa quando o cafa cita na mesa “o amor acaba”.
O amor acaba quando o cafa é tombado e recomeça tudo de novo.
Por essas e por outras é que fico aqui bem paradinho, coladinho, porque se o amor se mexe muito, o amor já era, amar é coisa de superbonder, amor é stop, amor é…, parou, amor é estátua e um gato brincando por cima.
Quem nasceu primeiro: o amor acaba ou o amor começa?


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