SALADA
DE ASSUNTO NA HORA DO ALMOÇO
Filas
enormes, mesas coladinhas, os ouvidos quase que grudados à boca do cliente-vizinho
e sempre o maior "conversê". Um zum-zum-zum danado. Realmente, restaurante
por quilo é prato cheio para cronista.Os assuntos-temas vêm de bandeja.
Ora
porque fulano fica amarrando o tempo à sua incontestável e detestável
indecisão: atrás dele uma centopeia de pernas humanas, na dianteira nada além
das opções de pratos espiados calmamente pelo seu olhar de peixe morto, e o
vento caminhando solto pelo ambiente esfriando a comida.
Ora porque bem na sua vez a "mala"
da moçoila desleixada deixa cair a concha dentro da cumbuca de feijão. Sem
contar o manezão que fura o esquema "fileirístico" e acaba pegando
exatamente o último pastel de queijo que, por você secar tanto, transbordava
água na boca há bons minutos. Àquela altura do campeonato, outra leva dos
apetitosos, talvez só quando estivesse no caixa pagando a conta, já que a
cozinha vivia o seu rotineiro caos. E a fila do churrasco, então! Ali é que o bicho
pega! Não se consegue dar um passo, no máximo mexer de leve um dedinho adiante.
O prato frio só não congelou porque ficou enfiado embaixo do sovaco do cicrano
da frente, graças ao aperto do lugar. Mas sou persistente, vou até o fim ruminando
a minha ira (mesmo porque seria muito feio fazer o que a tal loira de uniforme
azul sempre faz: enquanto espera, em pé, vai petiscando o próprio prato).Mas o
que me deixou perplexo foi o papo atrás de mim. Ela toda felizinha, com o
sorriso metálico à mostra: – Ah, já peguei a minha carteirinha de advogada e
você? Ele, todo agrisalhado e encantado (como se dando em cima dela): – Fazendo
aquela obra! Ela indignada: – Ainda? Ele, sem jeito: – É! Nunca termina. Cada
novo orçamento parece que vai me dar um desarranjo intestinal!
Desarranjado
fiquei eu com aquela conversa perto do bufê de saladas! Ela sorriu para ele, claro,
com uma cara de merda!
29.08.13 - Jornal O Liberal - Americana - SP
Geraldo Trombin,
publicitário, é colunista do blog ContemporArtes e colaborador do
jornal “O Liberal”, de Americana/SP.Lançou em 1981 “Transparecer a
Escuridão”, produção independente de poesias e crônicas, e em 2010 “Só
Concursados - diVersos poemas, crônicas e contos premiados”.
Tem
classificações em inúmeros concursos literários realizados em várias
partes do país e também em Portugal, além de trabalhos publicados em
jornal e diversas antologias.
3 comentários
Este e mais um maravilhoso texto com que nos brinda o talento de Geraldo Trombin: seja em verso, seja em prosa, ele sempre nos cativa. Parabens e abracos do seu irmao no Japao, Gera!
Obrigado, amigão... E vamos seguindo com a literatura, sempre! Abraços do irmão do Brasil!
Texto gostoso esse, arretado, bom demais, amei tá no grau do jeito que eu gosto.Me deu uma vontade danada de fazer um almoço deste jeitinho um jeitinho gostosinho e brasileirinho.
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