Para tramar a saudade
Nunca tenho medo de sentir saudade! Conheço algumas
pessoas que evitam lembranças, recordações, memórias, porque cismam que isso é
alimentar tristezas. É um uso muito reduzido para uma palavra tão bonita, não
acham?
Saudade não é necessariamente o salto psicológico para
um tempo em que éramos mais felizes. Não é a aparição autorizada de lembranças
doloridas. Não é necessariamente a necessidade de viver tudo de novo.
Ainda que a palavra seja originária da palavra solitatis
em latim, a minha saudade não cumpre esse desejo de solidão. Pelo contrário:
minha saudade corre sempre para momentos, lugares, situações povoados de
pessoas. São elas que participam como artífices na composição desse tecido que
dá significado à vida de cada um. São elas que dinamizam essa grandeza vetorial
chamada saudade.
Saudade tem muito mais a ver com um movimento de
retornar. De ver. De sentir de um outro jeito o que foi vivido lá atrás.
Qualquer repetição nos atira no terreno da impossibilidade. Na saudade nada se
perde. Nada se repete. Tudo se reconfigura! Tenho todos os elementos na mão,
mas com a distância e o tempo, posso brincar com eles do jeito que eu quiser!
Prefiro pensar que a saudade tem muito mais a ver com
buracos e vazios. Tem muito mais a ver com a sensação de algo especial. Mas a
saudade deve ser suave, ainda que pese! Dá pra entender? Tudo o que tem valor e
existência, tem peso. O peso é a intensidade. E isso não é ruim! Coloco nos
ombros da saudade o peso que eu posso (ou quero) carregar!
Tenho saudade do aquário de jardim, na casa da minha
infância. Tenho saudade dos bailes infantis de carnaval, com as fantasias
feitas pela minha avó. Tenho saudade do Kharmann Ghia azul do meu pai, do
Gordini tão compacto como carro de brinquedo, da Vemaguet que nos levava para
mil aventuras. Tenho saudade dos verões em Araruama; do leite com Ovomaltine,
preparado pela minha mãe; da prancha de isopor que esfolava a nossa barriga no
Arpoador; da enorme bola pula pula em que íamos para a Lua; dos abraços
recebidos pelo dia das crianças...
Não quero sufocar as minhas saudades! Não quero deixar
de senti-las. Não quero extirpá-las do meu corpo, como se fossem algo alheio a
mim ou uma erva ruim!
Melancolia também não cabe na minha saudade. Falo de
uma saudade alegre, cheia de cores e sabores, como se eu estivesse provando
tudo de novo, mas agora conhecedor dos aromas. Não importa a exatidão, a
fidelidade ao que passou, a ordem em que as coisas aconteceram, o tempo de
duração, nada disso. Com o tempero da saudade, parece que tudo é mais
significativo, curtido, lento, sentido, aproveitado.
Pratico a saudade como uma visita necessária ao Paraíso
da Memória. Assim aprendi a treinar os sentimentos. Assim construí, desde a
infância, esse acervo enorme, que flutua em algum lugar, entre mim e a palavra,
para que eu possa entrar quando quiser, nesse território antevisto, como se
fosse a plataforma 9 3/4 do Harry Potter!
Se o menino vai a Hogwarts para aprender a ser bruxo e
encontrar seus pares, eu vou, impulsionado pela mobilidade que a saudade me
provoca, aonde eu quero ir: ao País das Maravilhas, à floresta de Sherwood, à
casa de Gepeto, à fantástica Oz, à Tatipirun, à Terra do Nunca, mesmo que o
léxico saudade me obrigue ao território exclusivo das línguas portuguesa e
galega!
E não é um dia, no calendário de janeiro, que vai me
dizer qual é a hora de cumprimentar meu pai, Lúcia Jurema, Bartô, Paulo
Nigrinha, seu Atílio, Dona Adelaide, Tia Ofélia... Há uma saudade
personificadora, que na linha do arremate, faz saltar pessoas até pelos meus
olhos, até nas minhas palavras.
(by Celso Sisto – 02/02/2014)
Ilustração de The Virginian-Pilot
Celso Sisto
é escritor, ilustrador, contador de histórias do grupo Morandubetá
(RJ), ator, arte-educador, crítico de literatura infantil e juvenil,
especialista em literatura infantil e juvenil, pela Universidade Federal
do Rio de Janeiro (UFRJ), Mestre em Literatura Brasileira pela
Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Doutor em Teoria da
Literatura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul
(PUC-RS) e responsável pela formação de inúmeros grupos de contadores de
histórias espalhados pelo país.
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