Outro dia de folia, Eduardo Lacerda [Aparecida Sepulveda]
Outro
dia de folia, Eduardo Lacerda
Querido Manoel de Barros
Saudades de nossa troca de
cartas interrompida pela sua doença. Me sinto órfã, não posso mais pedir sua
opinião sobre livros que leio, principalmente, neste momento em que retomo a
escrita de resenhas.
Sei que você não aprovaria
minha atitude, diria que meu papel é outro – o de ser poeta. Mas, sou teimosa e
gosto de meter o bedelho na escrita alheia, imaginando que posso colaborar com
leitores em suas escolhas. Afinal, a oferta é imensa e os leitores, poucos, e o
tempo de ler, valioso.
Hoje, eu o presentearia
com o Outro dia de folia, de Eduardo Lacerda, livro de poemas, composição rara.
Me lembro de uma vez que, conversando por telefone, você me contou de um poeta
que tanto cortou um poema que escrevia que lhe sobrou apenas uma palavra-poema.
Nós apreciamos e buscamos
a “substantivação da linguagem, a linguagem afinada, afinadíssima – pura
estética. Porque a estética nos dá o êxtase! Pois bem, lamento não podermos
compartilhar esta obra poética de excelente qualidade.
Imagino você, depois de
ter lido este livro, me perguntar: Quem é o moço? Gostei, ele é bom. Por que
imagino sua fala? Porque ao ler os poemas de Outro dia de folia eu me encanto
com a linguagem trabalhada à exaustão. São poemas leves e cortantes. Tão leves
que voam. Seus cortes não machucam, ao contrário, refinam nossa
sensibilidade.
A leveza se constrói com a
economia de palavras e as combinações entre elas. As combinações são
estruturadas a partir de dois pontos fundamentais: a reflexão sobre o comum e o
cotidiano, e a estetização dos mesmos.
A ideia de combinação
entre reflexão e estética, me lembra o filósofo Roberto Romano em seu artigo
que trata da unidade entre Filosofia e Poesia: O sol negro da noite, Uma
análise filosófica de Cânticos dos cânticos*, ou seja, da essencialidade de
ambas para a criação.
A meu ver, um poeta
verdadeiro não dispensa a natureza do seu ofício: filosofia e poesia. Por isso, Eduardo Lacerda é poeta, porque une
pensamento e sensibilidade, em poemas que nos seduzem com uma delicadeza misteriosa
e dorida.
http://www.cadernoderesenhas.com

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