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Ilustração de Celso Sisto
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Amanhecer-se
Cristais de luz teimam em
atravessar-me.
O dia começa esfiapado. Os
olhos ainda querendo olhar a escuridão e o nada. Aos poucos vou me dando conta
de que preciso juntar as partes para mover-me.
Como num desenho feito a lápis, a mão diminuta vai simplificando tudo, a
mão da criança que fui: cabeça, tronco e
membros em outras proporções. A lição científica reduz a minha individualidade.
Cabeça de vento, tronco do ipê, membro de clã ancestral. Por que não? Ou cabeça
de melão, tronco para escora, membro de
grupo profissional... Ou ainda, cabeça
oca, instrumento de tortura, parte de expressão matemática... Ah, tantos
arranjos e combinações com as palavras que enfim levanto, movido pelo desejo de deixar principiar a arte de
amanhecer.
De súbito me sinto tentado a
contar quantas vezes alvoreci. A conta quilométrica me incita a mudar de rumo.
Quantas vezes levantei pelo lado direito da cama? Quantas pelo lado esquerdo?
Qual pé tocou primeiro o chão? Quantas
vezes me virei durante o sono? Perguntas enfileiradas como um colar de contas
reluzentes. Nada me desafia mais do que a cor! Mas a possível lembrança de um
ronco interrompe o fluxo da brincadeira.
Meus motores em propulsão me
expelem da cama sem que eu tenha tido tempo de dizer "Adeus" ao
dragão azulejado que tinha vindo depositar-me à borda do dia.
Dou de cara com o sol, já
totalmente à vontade, grafitando as paredes do meu quarto. Não posso mais
fingir que o tempo não passou. Digo, por fim palavras escabrosas, como
"esculimatuque"!, "boriclamura"!, "profiluxama"!
É assim o ritual de entrar
pela porta do dia, sem que os ouvidos e os olhos da noite saibam a idade com
que irei reinar hoje. Nem ao menos com que roupa, nem em que língua formularei
os meus gritos. O ato inaugural da aurora requer como amparo, celebração e
paramento apenas uma certa nudez indefensável. Eu obedeço.
Celso Sisto
é escritor, ilustrador, contador de histórias do grupo Morandubetá
(RJ), ator, arte-educador, crítico de literatura infantil e juvenil,
especialista em literatura infantil e juvenil, pela Universidade Federal
do Rio de Janeiro (UFRJ), Mestre em Literatura Brasileira pela
Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Doutor em Teoria da
Literatura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul
(PUC-RS) e responsável pela formação de inúmeros grupos de contadores de
histórias espalhados pelo país.
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