A "DIREITA" QUE NOS ROUBARAM, POR ALESSANDRA DEL'AGNESE

Foto de capa com Alessandra Almeida Del’Agnese
Alessandra Almeida Del’Agnese Fotografia: Acervo pessoal da autora

Quando a política brasileira virou um jogo de torcidas organizadas, o verdadeiro debate perdeu o rumo. Afinal, uma democracia saudável e forte exige, obrigatoriamente, a convivência e a multiplicidade de visões políticas distintas — desde que todas joguem dentro das quatro linhas do respeito às instituições. É sob essa premissa que Alessandra Del'Agnese nos convida, nesta crônica cortante e necessária, a fazer uma pausa no ruído incessante do debate público. Ao revisitar a Revolução Francesa e os pensadores clássicos, a autora propõe uma reflexão urgente sobre a identidade e a história, provocando o leitor a compreender onde termina o verdadeiro conservadorismo e onde começa o autoritarismo disfarçado de patriotismo



Por Alessandra Del'Agnese

Preciso começar pelo começo, porque o brasileiro tem o hábito de discutir política sem saber de onde ela veio.

Foi em Paris, em 1789. A Assembleia Nacional ia decidir se o rei teria poder de veto, e os deputados se dividiram no salão: à direita do presidente, os que queriam conservar alguma autoridade da Coroa; à esquerda, os que queriam a Revolução inteira. Foi só isso. Dois lados de uma sala, com debate, voto e regimento. Ninguém ali queria fechar a Assembleia. Já nasceu com o vício da civilização: discordar sentado.

Depois veio 1Edmund Burke, o pai intelectual do conservadorismo, escrevendo que "uma sociedade é um pacto entre os mortos, os vivos e os que ainda vão nascer". Desconfiava dos salvadores da pátria e preferia reformar devagar a implodir tudo. Dá para discordar dele, e eu discordo de muita coisa, mas ali havia um pensamento. Ao lado dele vieram os liberais: 2Locke, 3Montesquieu, a separação dos poderes, a ideia de que o governante é empregado do cidadão, e não o contrário. Essa era a direita dos primórdios: instituição, propriedade, tradição, mercado, responsabilidade fiscal, Igreja no seu lugar e Estado no seu. Podia ser dura, podia ser injusta, mas jogava dentro das regras.

E então aparece, no século XX, um intruso. 4Mussolini, em 1922, faz a Marcha sobre Roma, e pouco depois resume o programa numa fórmula: "tudo dentro do Estado, nada fora do Estado, nada contra o Estado". Repare que não é conservadorismo, porque o conservador quer limitar o poder. Não é liberalismo, porque o liberal quer proteger o indivíduo do poder. É outra coisa: o culto do líder, o inimigo interno, a mentira como método, a massa em transe, o rancor transformado em política pública.

E o detalhe mais perverso da história: o fascismo nunca chegou ao poder sozinho. Foi convidado. Na Alemanha de 1933, as elites conservadoras, 5Hindenburg, 6Papen, os homens de terno e boa família, acharam que podiam usar aquele 7"cabo austríaco" como cachorro de guarda. Foi o que se disse nos salões: "ele nos serve, a gente controla". Controlaram, claro. Em poucos meses a direita alemã tinha sido engolida, e quem saiu da sala foi ela.

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O bolsonarismo não é a direita brasileira. É o fascismo de sempre, com camiseta da seleção. E nós, o país inteiro, o colocamos no lugar errado do mapa. A direita deixou, os jornais ajudaram, a esquerda também apontou o dedo para todo mundo no mesmo saco. Resultado: o conservador de bem, o liberal de livro, o empresário que só quer previsibilidade, todos viraram, no imaginário, parte da mesma tropa.

— Alessandra Almeida Del’Agnese

Aqui está a minha tese, e vou dizê-la sem anestesia: "o bolsonarismo não é a direita brasileira. É o fascismo de sempre, com camiseta da seleção. E nós, o país inteiro, o colocamos no lugar errado do mapa. A direita deixou, os jornais ajudaram, a esquerda também apontou o dedo para todo mundo no mesmo saco. Resultado: o conservador de bem, o liberal de livro, o empresário que só quer previsibilidade, todos viraram, no imaginário, parte da mesma tropa".

Olhem para o repertório. O 8Eco, num ensaio famoso de 1995, listou as características do que chamou de fascismo eterno: o culto da tradição, o desprezo pelo pensamento crítico, o medo da diferença, a obsessão por conspiração, o machismo, a ideia de que o povo tem uma única voz e o chefe é seu intérprete. Agora liguem a televisão e confiram a lista. Faltou alguma?

E o lema! "Deus, pátria e família" não nasceu em 2018. Era o slogan do integralismo de 9Plínio Salgado, nos anos 30, com seus camisas-verdes e seu braço erguido, um fascismo tropical, com direito a "anauê". Quase cem anos depois, o mesmo trio de palavras volta ao palanque, como se fosse novidade e como se fosse a direita.

A direita clássica, a de verdade, discutia a lei do trabalho no Congresso, às claras, com voto e com derrota quando perdia. Podia propor reformas duras, mas propunha dentro da Constituição. O que jamais passou pela cabeça dela, pelo menos da que merecia o nome, era pedir o fechamento do Supremo, flertar com o AI-5, desfilar com blindado diante do Congresso ou acampar na porta de quartel esperando um golpe cair do céu. Até 8 de janeiro de 2023, quando a Praça dos Três Poderes foi quebrada por gente que acreditava estar defendendo a pátria.

Geopolítica, então? O fenômeno não é nosso. É de exportação. A mesma receita aparece em Washington, Budapeste, Roma e Brasília: o ressentimento como combustível, a imprensa como inimiga, o juiz como obstáculo, a fronteira como fetiche, a mentira em escala industrial pelas redes. A internet fez com o fascismo o que a imprensa fez com a Reforma: deu-lhe tipografia. Cada brasileiro virou panfletário, cada celular, um comício.

Então fica o convite, e é um convite à direita brasileira, à de gravata, à de missa, à de balanço contábil: peguem de volta o que é de vocês. Reclamem o nome, a história, os livros. Burke não era isso. Montesquieu não era isso. A Alemanha pós-guerra reconstruiu a sua direita, a democracia-cristã de 10Adenauer, sobre a recusa do monstro, um cordão sanitário contra o que a tinha devorado. Fazer isso é o gesto mais conservador que existe: conservar a casa.

Porque quem não separa a direita do fascismo acaba, mais cedo ou mais tarde, sem uma e com o outro.


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1Edmund Burke (1729 – 1797): Escritor, filósofo e político anglo-irlandês amplamente creditado como o fundador da filosofia cultural e política do conservadorismo. Considerado um dos escritores políticos mais influentes do século XVIII.
2John Locke (1632 – 1704): Filósofo e médico inglês, amplamente considerado um dos pensadores mais influentes do Iluminismo e comumente conhecido como o "pai do liberalismo".
3Montesquieu (1689 – 1755): Charles-Louis de Secondat, barão de La Brède e de Montesquieu, conhecido como Montesquieu, foi um político, filósofo e escritor francês. Ficou famoso pela sua teoria da separação dos poderes, atualmente consagrada em muitas das modernas constituições internacionais, inclusive a Constituição Brasileira.
4Benito Amilcare Andrea Mussolini (1883 – 1945): Político italiano que liderou o Partido Nacional Fascista e é creditado como sendo uma das figuras chave na criação do fascismo.
5Paul von Hindenburg (1847–1934): Marechal de campo e presidente da Alemanha (1925–1934); exerceu poder governamental de fato na Primeira Guerra e, em 1933, nomeou Adolf Hitler como chanceler do Reich.
6Franz von Papen (1879–1969): Político, diplomata e nobre prussiano, serviu como chanceler da Alemanha em 1932 e como vice-chanceler de Adolf Hitler (1933–1934); de orientação conservadora e monarquista, sua atuação foi determinante para a ascensão do regime nazista.
7"cabo austríaco": O termo refere-se, historicamente, a Adolf Hitler, ditador da Alemanha Nazista. Embora tenha nascido na Áustria, Hitler alistou-se e serviu no Exército da Baviera (integrante do Exército Alemão) durante a Primeira Guerra Mundial (1914–1918), onde alcançou a patente de "Gefreiter", posto militar equivalente ao de cabo.
8Umberto Eco (1932–2016): Renomado escritor, filósofo, semiólogo e linguista italiano. Distinguiu-se como titular da cadeira de Semiótica e diretor da Escola Superior de Ciências Humanas na Universidade de Bolonha, além de ter lecionado como professor visitante em prestigiadas instituições internacionais.
9Plínio Salgado (1895–1975): Escritor, jornalista e político brasileiro, notório por fundar e liderar a Ação Integralista Brasileira (AIB). Sob o lema "Deus, Pátria e Família", o movimento consistiu em um partido nacionalista católico de extrema-direita inspirado diretamente nos princípios do fascismo italiano.
10Konrad Adenauer (1876–1967): Político democrata-cristão e advogado alemão, notório como um dos principais arquitetos da economia social de mercado. Atuou como prefeito de Colônia, presidente da União Democrata-Cristã (CDU) e foi o primeiro chanceler da República Federal da Alemanha (Alemanha Ocidental), cargo que exerceu entre 1949 e 1963.



Alessandra Almeida Del’Agnese

Alessandra Almeida Del’Agnese

Alessandra Almeida Del’Agnese nasceu no Rio Grande do Sul e se define como uma mulher do mundo. É cronista, poeta e ensaísta. Viveu em Portugal, onde aprofundou sua relação com a literatura lusófona e com a obra de Fernando Pessoa, poeta de sua alma. Sua produção literária reúne crônicas e textos poético-reflexivos, com destaque para projetos como "O mundo visto de dentro", explorando temas como memória, existência e a complexidade da experiência humana.



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