NICOLAU SAIÃO: BIOGRAFIA, SURREALISMO E QUATRO POEMAS SELECIONADOS

A fotografia do Poeta e Artista Plástico Portugês, Nicolau Saião.
Nicolau Saião (Portugal, 1946) Fotografia de divulgação

Apresentação e seleção de poemas organizada por Floriano Martins: uma imersão na trajetória e nos versos enigmáticos do surrealista português Nicolau Saião.

O português Nicolau Saião (1946) é poeta e artista plástico, com atividades ligadas ao Surrealismo desde o princípio, quando participou de várias mostras internacionais de arte postal. Em 1984, juntamente com "Mário Cesariny (1923-2006)" e "Carlos Martins (1950)", organizou a exposição "O Fantástico e o Maravilhoso". Estudioso e tradutor da obra de "H. P. Lovecraft", em 2002 organizou a primeira edição integral em todo o mundo de "Fungi From Yuggoth (1943)", tendo também a ilustrado.

Quando em 2006 organizei o volume "Olhares perdidos", disse a respeito de seu autor: o olho posto sobre a obra de Nicolau Saião, o convívio com ela, ir tomando seu pulso a cada desdobramento de imagens, sondando como as presenças evocadas saltam do plano poético para a plástica, como ele rabisca imagens que depois transitam com exímia vertigem de um ponto a outro, essa intimidade de figuras que saem e entram a todo instante em salas aparentemente distintas, exuberância serena com que o poeta se mostra e ao mesmo tempo oculta partes de si, dá-nos uma prazerosa sensação de entrar no espelho como se tratasse de um mergulho na memória. Este é o poema central de sua obra: trazer de volta da transfixação da linguagem o que cada um de nós considera único em sua experiência. 

Dentre seus livros: Os objetos inquietantes (1992) e Flauta de Pan (1998). 

Em nossas conversas virtuais, o Surrealismo está sempre na pauta, particularizando ações e realizando algumas boas cumplicidades, incluindo suas valiosas colaborações para a "Agulha Revista de Cultura". Em uma dessas conversas, Nicolau Saião me disse: "No que me diz parte, a viagem pessoal dentro do surrealismo tem sempre sido uma heterodoxa maneira de encarar o mundo e os seus prestígios ou apoquentações dum ponto de vista filho da curiosidade, da indagação visando as possíveis descobertas, da ligação aos segredos da existência a que podemos ter algum acesso se mantivermos a mente aberta e atenta ao que se vai passando e que vem a seguir ao que se passou em anos de que a nossa vida esteve repleta – não só os factos da história social, quotidiana, mas tudo o que se pôde imaginar de fecundo ou mesmo possível: a magia que parte da escrita ou a ela conduz, a pintura e tudo o resto que nestas duas se consubstanciam".



Abaixo, mergulhe no universo lírico de Nicolau Saião através de quatro poemas selecionados que traduzem a força de seu surrealismo heterodoxo. São versos onde o cotidiano, a magia e as coisas inanimadas ganham vida e voz, revelando os segredos e as sutilezas da nossa própria existência.


Quatro Poemas: "AS COISAS", "O PÉ", "GÉNESIS" E "ATÉ AO FIM" 

As Coisas — O poema de abertura reflete sobre como os objetos inanimados possuem sua própria existência e mistério.
AS COISAS
As coisas multiplicam-se muito mais que as pessoas. Só elas possuem o segredo de tranquilamente jazer entre as ervas, as águas, as ruínas ausentes e presentes. A sua pele é mais fina que a casca dos minutos e contudo, sob o lume e o vento sob a terra em que os passos já não soam ou no deserto violento das palavras as coisas repousam ou, subitamente iluminadas gritam e falam-nos com movimentos graves adejando como estranhos pássaros nocturnos ou como trémulos animais interditos. As coisas sofrem elas sofrem como se existissem noutra esfera próxima de nós como uma Lua oculta, como um peixe fantasma como uma flor solitária numa casa abandonada como um gato que no sono se agita pleno de medo As coisas minúsculas, gigantescas, iguaizinhas a nós ensanguentadas pelo nosso terror e a nossa cólera sob as nossas mãos entre os nossos cabelos repousando junto a nós quando dormimos calmas como o ruído dum comboio numa cidade matutina As coisas respirando devagarinho nas nossas memórias andando junto às nossas recordações como se fossem um elefante, um rato, um cão fiel feitas de barro, as coisas de madeira ou de cera, de vidro ou de cimento feitas de cristal e de platina, de celulóide do fresco celofane, de aço e de papel pobres coisas num rés-do-chão amontoadas esquecidas como um trapo manchado livres e belas nosso testamento, papiro para milénios a vir As coisas sempre atentas, sempre dormindo esperando o despertar o silencio luminoso As coisas nossas irmãs de mundo, nossas filhas, nosso sinal perfeito neste universo que é o nosso resumido encontro com a sua eternidade acontecida.

O Pé — Um exercício surrealista que subverte a anatomia e o caminhar em busca de lirismo.
O PÉ
Em todos os lugares, é sempre pé: pé de mundo pé de mando, pé de mar. Sem par é pé de coxo. Pé parado. Morto em pé. Por vezes os pés desaparecem durante anos: esconderam-nos em claustros, chaminés, prisões. O pé no fundo é estranho: de noite parece um ser solar. Um pé sem perna já foi mais frequente do que pensam. Um pé de casa é uma vírgula posta entre o campo e as estrelas. Um pé arabesco é um pé a cavalo. E um pé que se preza ama a liberdade. De contrário é pé chato pé de planeta aziago. Um pé sem suor é pé desafinado. Lagosta, pé carregado O pé costuma ver (o pé tem sorte) o começo da vida, ou o fim do corpo: ir de pés para a frente fazendo finca-pé à própria morte. O pé de flor vive em todo o lado. Planta de pé é um silêncio vegetal. Pé de cabra é bom na magia oculta. O pé de cão tem horror aos polícias. O pé de amor é um bicho esquisito: mede os outros pelo seu tamanho – pé universal Pé ou mão? Doce animal dentro do coração.

Génesis — Uma reflexão sobre a criação poética e a essência da linguagem.
GÉNESIS
Pode fazer-se um poema com restos de poemas e nem sequer só nossos. Basta saber escolher, tal como uma dona de casa catando coisas frugais numa perdida loja de subúrbio. (No entanto o problema é: como conciliar os invisíveis ou visíveis rastos de luz que as palavras fazem rodar entre a noite e a manhã das letras).Ou, melhor ainda entre mil silhuetas de páginas desconhecidas de esquecimentos de risos ou de decisivos desprezos. O como, o talvez, os advérbios de lugar ora dormem ora despertam. Podemos dispô-los como flores silvestres como pedras fibrosas ou tijolos ao longo dum muro de quinta no interior real dum jardim ou como pedras tumulares essenciais e descontínuos. Podemos trocar a memória dum substantivo, de uma mancha de sangue, de uma bastonada na cara ou de um suspiro. Podemos tirar duma frase engolida o duro perfil duma alegria, ou mesmo um verbo definitivo para um contentamento um tempo a morrer estático ou já liberto. Ouçam o canto da noite: nesse silencio, pé ante pé há ruídos e gestos, uma que outra amargura, a matéria sensível que os poemas abandonaram. Ouçam o canto da noite: cidades ao amanhecer, os sons inúmeros, nítidos, a substância de um vulto ao crepúsculo. (A grande chuva, o grande sol que nada mais são que recordações trazidas por alguém numa folha rasgada, num fragmento de minutos). Ouçam o canto da noite e saibam depois esquecer. Todo o livro é um simulacro. Algo que se perdeu. Mas todo o livro existe na sua atmosfera de fechada revelação de velada inexistência de apenas sopro ou vestígio de móvel ou imóvel figura destroçada. Sim, pode fazer-se não um mas muitos poemas sobre o como e o porquê ou sobre o nada que eles, afinal, revelam ou sobre o muito que eles, afinal, são ou sobre o muito e o nada que lhes reside em volta enquanto os anos perdem a nitidez e as fronteiras perdem o sul e o norte a sua altíssima impresença o seu finíssimo vazio a sua transparência abominável e sagrada de desabafo ou sortilégio. Sim, ouçam o canto da noite a tal coisa que engrena e se põe a correr e se põe a parar e cria em volta como que o esvoaçar de um planeta com barulhos, com súbitas cores, com mágoas e magias. Sim, ouçam o canto da noite. Ou até, talvez o começar do dia as palavras uma a uma no seu sereno balbuciar quando as páginas são apenas ardilosas reminiscências num papel amarfanhado e a nossa voz é um reflexo num conjuntivo ou numa vírgula.

Até ao fim — Uma narrativa poética e enigmática sobre encontros cotidianos, memórias familiares e o irresistível fascínio do desconhecido..
ATÉ AO FIM
Quando entrei na sala vi num relance que o meu demónio estava deitado A boca entreaberta, um resto de baba no queixo de quem Dorme justamente como um anjo. A janela pouco cerrada e o sofá chegado à plena luz A manta já antiga azul e amarela roçava o chão como se Tivesse havido por ali discreta borracheira dominical. Congeminei Que ele antes de reentrar vindo do etéreo passara por uma tasca ou que aceitara a oferta toma lá dá cá de um qualquer maltrapilho Cheio àquelas horas entradotas de uma modesta fraternidade bebedora. Olhando bem via-se-lhe contudo no rosto uma vaga felicidade Dizendo melhor uma centelha de contentamento ou alegria, ou assim como que a sensação de quem vira o mundo no seu lugar real Vamos a ver, no fundo a lonjura dominava Como se visse o cavalheiro por uns binóculos ao contrário Cheirava um pouco a flores e vagamente a desodorizante Um livro tombara no chão, ficara à espera aberto anquilosado Quando abri a porta da cozinha vi sobre o fogão um tacho com Uma iguaria qualquer com que se entretivera certamente antes de cair no leito vencido talvez pelas canseiras das últimas horas. Se minha mãe estivesse viva decerto lhe teria aplicado um raspanete Uma expressão em dialecto se calhar um tabefe levezinho. O meu pai Poria na cara aquele sorriso suave dos dias sem idade Lá fora estrepitavam ruídos da cidade barulhenta Contos do dia e da noite, o irresistível fascínio do desconhecido. Sentei-me, a angústia apoderara-se de mim. Uma frase estranha Revirava-se-me na cabeça. Quando olhei pela janela o horizonte pareceu-me uma linha ténue. Mais tarde, pensei, falaríamos a preceito. Ou antes por entre dentes eu diria talvez coisas sobre a grande aurora ou então sobre a memória Sibilina dos sobreviventes imutáveis.

Ao transitar entre objetos, anatomias e memórias familiares, a poesia de Nicolau Saião nos convida a enxergar o extraordinário no comum e a escutar o silêncio da noite com olhos atentos. Mais do que meras palavras, sua escrita é um testemunho visual e espiritual da nossa própria jornada. Deixe nos comentários qual desses poemas mais tocou a sua sensibilidade e compartilhe esta seleção com outros amantes da literatura e do Surrealismo!







REVISTA BIOGRAFIA

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