O RESGATE DA OBRA-PRIMA MALDITA: "OS DEMÔNIOS", CLÁSSICO CENSURADO DE KEN RUSSELL CHEGA AO RECIFE.

Os Demônios" (The Devils, 1971), dirigido pelo britânico Ken Russell, ganha uma histórica exibição no Brasil
Os Demônios" (The Devils, 1971), dirigido pelo britânico Ken Russell, ganha uma histórica exibição no Brasil

Considerado uma das produções mais viscerais e controversas da história do cinema, o longa-metragem "Os Demônios" (The Devils, 1971), dirigido pelo britânico Ken Russell, ganha uma histórica exibição no Brasil. O clássico de horror político e religioso será projetado na 17ª edição do Janela Internacional de Cinema do Recife neste sábado (31), no Cinema São Luiz, com introdução do cineasta Kleber Mendonça Filho. A sessão apresenta ao público a aguardada versão restaurada em 4K e sem cortes, encerrando um embargo institucional que mutilou a obra por mais de cinco décadas.

Baseado no livro de não ficção "Os Demônios de Loudun", de "Aldous Huxley", e na peça teatral de John Whiting, o roteiro reconstitui os fatos reais das chamadas "Possessões de Loudun", ocorridas na França em 1632. A trama acompanha o carismático padre Urbain Grandier (Oliver Reed), um homem libertino que defende ferrenhamente a autonomia da cidade de Loudun contra o avanço absolutista do Cardeal Richelieu. A derrocada de Grandier começa quando sua postura atiça a obsessão erótica da madre superiora Jeanne des Anges (Vanessa Redgrave), uma freira atormentada pela repressão sexual. Rejeitada, Jeanne acusa o clérigo de feitiçaria, servindo de estopim para uma farsa política orquestrada pelo Estado, que instrumentaliza o delírio de histeria coletiva e o fanatismo religioso no convento para destruir o líder político local.

A força artística de "Os Demônios" reside em sua vanguarda técnica e estética. A cenografia claustrofóbica e anacrônica do filme, caracterizada por imensos blocos de azulejos brancos, foi desenhada pelo lendário realizador Derek Jarman em início de carreira, que buscou inspiração na distopia expressionista de Metrópolis (1927). Para garantir o realismo cru e desconfortável da época, Ken Russell proibiu a lavagem dos figurinos e a limpeza da lama nos cenários durante as filmagens. A atmosfera de pesadelo é amplificada pela violenta trilha atonal composta por Sir Peter Maxwell Davies.

O apuro técnico, contudo, foi ofuscado por décadas de censura rigorosa. Assustadas com o forte teor anticlerical e a exposição de nudez, a distribuidora Warner Bros. e a comissão de censura britânica (BBFC) retalharam o corte final do diretor antes do lançamento original. Entre os trechos extirpados estava a infame sequência "O Estupro de Cristo" (Rape of Christ), em que freiras em surto profanam uma estátua religiosa.

A cena foi considerada perdida por gerações até ser redescoberta nos arquivos da Warner pelo crítico de cinema Mark Kermode. O resgate e a restauração da versão integral do cineasta contaram com o apoio de nomes de peso de Hollywood, como o diretor Guillermo del Toro, que liderou campanhas públicas para a liberação do corte definitivo. A exibição no Recife, com ingressos a preços populares, representa não apenas um evento cinefílico, mas um marco político contra a censura histórica na arte.


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Nota: Essa publicação foi organizada com auxílio da Inteligência Artificial "Gemini".

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