Reflexões sobre a Flip [Romulo Nétto]

Reflexões sobre a Flip 

Participar de Bienais como a Bienal Internacional de São Paulo, do Rio de Janeiro, da Feira Literária Internacional de Paraty, Passo Fundo e de outros eventos similares é o sonho de todo autor desconhecido. Na maioria das vezes as editoras que publicam novos autores são pequenas e não dispõem de recursos para alugar o espaço nessas feiras de livros, tolhendo assim a possibilidade de dar visibilidade a inúmeros escritores(as).

Faço aqui uma reflexão sobre a FLIP. Começo analisando o número de convidados estrangeiros. Todos pagos, seja com recursos de patrocinadores, seja de outras procedências, inclusive dinheiro público.

Não sou contra nenhuma Feira ou Bienal, pelo contrário acho-as necessárias e re-levantes. Volto à reflexão proposta: a FLIP. É sabido que um evento de tal envergadura leva meses para ser construído, exige a participação de centenas de especialistas e até mesmo de voluntários. Como então receber de braços abertos a falta de sensibilidade dos gestores de uma Feira como a FLIP em, sistematicamente, fazer vistas grossas para os escritores dos estados periféricos. A organização da FLIP tem acesso ao catálogo de todas as editoras do País, então porque não garimpar nessas editoras o que de bom está sendo produzido? Qual o motivo dessa omissão, dessa insensata miopia mental?

Há um descaso proposital para com autores que não estejam vinculados ao eixo cultural Rio-São Paulo, o tão decantado Sul Maravilha. Abram os olhos, deixem a ignorância de lado, consultem os editores de Santa Catarina, do Amapá, de Roraima, do Acre, do Maranhão, de Mato Grosso e dos outros estados, certamente encontrarão literatura de altíssima qualidade. 

A FLIP não pode e nem deve ter dono. Já se tornou uma instituição nacional. Então é chegado o momento de abrir-se e convidar escritores que não são publicados pelas grandes editoras, as quais na verdade impõem seus autores, escravizando uma Feira que tem tudo para crescer ainda mais. 

Não sou contra o convite aos escritores estrangeiros, pelo contrário eles são bem-vindos, afinal a literatura não tem pátria, ela é universal. Porém ficarei imensamente feliz se no amanhã eu me deparar com um autor de Ji-Paraná, de São Luís ou mesmo de Cuiabá, participando de debates, conversando com a criançada, lançando seus livros. Impossível? Sim! É apenas um sonho, pois os donos da Feira jamais permitirão que anônimos escritores tenham seu lugar ao sol. 

Talvez um dia as redes sociais acordem e venham em socorro dos batalhadores da literatura que são prazerosamente desconhecidos pelos editores e gestores das maiores feiras literárias do País. Há de chegar o momento em que nosso grito de alerta será ouvido, contra todo o desprezo e descaso que fazem com nossa produção literária. Vamos dar um basta no maléfico monopólio que o Sul Maravilha nos impõe. 

Não sairemos às ruas, usaremos as redes sociais, replicaremos como nossa a angús-tia de milhares de escritores que se sentem frustrados por não terem a oportunidade do reconhecimento literário.
Sonho que um dia os programas de televisão, os poucos existentes, abrirão suas portas e convidarão autores das mais remotas cidades brasileiras, das mais minúsculas editoras.

Sonho que um dia internautas corajosos desencadearão a revolução que mudará a face literária do Brasil. É preciso coragem para admitir o domínio imposto pelos donos do mercado livreiro, mas também é preciso coragem para não esmorecer e lutar contra o absurdo monopólio que editoras e feiras exercem no mundo da literatura nacional. 

Que a próxima edição da FLIP venha recheada de “caras novas”, dos cafundós dos sertões, do agreste e das florestas. Aqui também se faz boa literatura!

Romulo Nétto, mineiro radicado em Cuiabá há 35 anos. Graduado em Comunicação Social (Jornalismo) pela Universidade de Brasília,  veio para o Estado em 1971 para trabalhar como jornalista na Universidade Federal de Mato Grosso. Desde então nunca mais saiu, só quando se aposentou, aos 47 anos, e passou um período no Nordeste. Escritor, muito mais que jornalista, ele é daqueles sujeitos que não esquecem de onde vieram.http://romulo-netto.blogspot.com

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